dezembro 04, 2014

5 soluções para 5 problemas do escritor principiante

Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais
Uma das principais dificuldades do escritor principiante é exatamente escrever.

Não, isto não é uma piada. Eu não estou brincando.

Você quer escrever, mas não consegue. Deseja sinceramente ser escritor, mas encontra barreiras, obstáculos que parecem intransponíveis.

Do que converso com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:

a) você não consegue escolher uma das várias histórias que gostaria de contar;

b) quase sempre, você não tem um interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar com você sobre diferentes questões;

c) os escritores que você admira dançam na sua mente num festim macabro, tentando se impor como modelos;

d) as dúvidas em relação ao uso correto da língua travam sua espontaneidade;

e) você escreve para ninguém.

Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:

1. Antes de tudo, é preciso imaginar um leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso — mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.

Você sabe, no fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar a resolver um problema, pessoal ou não.

Perceba que não se trata de escrever para agradar esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor imaginário.

2. Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o tema se apresente de imediato. Na verdade, tema e leitor estão intimamente ligados.

Mas se várias histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.

3. Determine seu período de trabalho — ou o número de palavras que você vai produzir diariamente.

Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.

Estabelecida a produção diária, sente e escreva. Apenas escreva.

Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.

Não se preocupe se o maldito Word vai sublinhando as palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se “exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.

Não se preocupe se as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita, irretocável.

Apenas escreva. Esta é a primeira etapa do processo. Só a primeira etapa.

4. Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.

A originalidade, da forma como é pensada hoje, não passa de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.

Livre-se do peso da originalidade.

Lembre-se do que André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo”.

Texto a texto, leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”, seu próprio estilo.

5. Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.

Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes das suas.

Escolha uma pessoa que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que mereça sua confiança.

Nesta primeira etapa do trabalho, o que você mais precisa são leitores comuns.

 Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.

18 comentários:

Emily Charn disse...

Boa tarde, Gurgel!

Você acha que qualquer pessoa com vontade de escrever pode se aventurar a fazê-lo ou algumas pessoas, mesmo com vontade, são e sempre serão apenas observadores?

Rodrigo Gurgel disse...

Acho que todos podem e devem se aventurar. Por que não escrever?

Depois de algumas tentativas, se tudo resultar frustrante, então, quem sabe, seja o caso de ser apenas um bom leitor.

Mas é preciso se aventurar. Sempre.

Olavo Camilo Fávaro disse...

eu não entendi sobre o "não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a."

Escrever não é o eterno trabalho de Sísifo? A Pedra sempre se desgastando, como a frase à medida que eu descubro que ela pode ser modificada e melhorada, para assim o texto também sê-lo!?

Rodrigo Gurgel disse...

O escritor novato precisa seguir etapas, Olavo: primeiro, deixar o texto fluir; depois, com calma, reescrever. Mais tarde, com a experiência, poderá escrever e, a cada frase, reescrever. Se for esse o seu método, claro.

Mayara Paes disse...

Essas dicas veio num momento muito oportuno... Desde criança amo escrever e sempre tive cravado no coração que, independente do que fizesse para ganhar dinheiro, iria escrever. Mas, nos últimos meses, tenho me sentindo insegura quanto a minha maior paixão: escrever. Você me definiu nesses problemas, só agora percebi que, realmente, eles têm me assombrado nos últimos tempos!!
Obrigada. De coração.

Rodrigo Gurgel disse...

Fico feliz que o texto tenha ajudado, Mayara. Volte a escrever!

ZehRique disse...

Ótimas dicas, professor.
Irei utiliza-las num projetinho. ;)
Abraço!

Rodrigo Gurgel disse...

Ótimo, ZehRique!

Amanda Almeida disse...

Boa noite Gurgel, tudo bem?
Seu texto me ajudou muito. Tenho uma história que há 3 anos tento colocar no papel, e os obstáculos citados vem me atrapalhando neste último anos. Acredito que colocando suas observações em prática esse projeto vai sair da minha cabeça, e enfim se tornar algo concreto.
Abraços,
Amanda Almeida

Rodrigo Gurgel disse...

Fico muito feliz com isso, Amanda. Vá em frente!

Anônimo disse...

Ás vezes o que nos falta é confiança em nosso próprio texto, por isso mostramos para alguém mais experiente. Esse é realmente o melhor caminho, ou devemos acreditar no que escrevemos?

Rodrigo Gurgel disse...

Anônimo: num primeiro momento, não mostre a outro escritor ou a um crítico literário. Depois de trabalhar com seriedade sobre o texto, quando ele estiver realmente pronto, se as dúvidas prevalecerem, mostre a um escritor ou a um crítico cujo trabalho você admira. Mas não faça isso em busca de aprovação. Faça em busca de diálogo, em busca de uma opinião que ajude você a ver melhor a sua obra.

Bertoni Vasconcelos Diogo Diogo disse...

Ótimas dicas ! essencial para um iniciante como eu. Rodrigo Gurgel estou procurando livros, leituras que me auxiliem no mundo das palavras. Qualquer dica, este é meu E-mail: bertoni.77@hotmail.com

Anônimo disse...

Para ser um um bom escritor é preciso possuir o título de Doutor em Teoria Literária pela USP?

Rodrigo Gurgel disse...

Bertoni: Leia "Para ler como um escritor", da Francine Prose. Mas não siga as listas de livros do volume (a apresentada pela autora e a da edição brasileira); são, no mínimo, incompletas).

Anônimo: Claro! Machado de Assis tinha o título de doutor da USP! (risos)

Henrique Albuquerque disse...

Muito bom. Seu blog está, para mim, cada vez mais inspirador. Pretendo, no futuro, tornar-me seu aluno. Saudações!

Rodrigo Gurgel disse...

O objetivo é esse, Henrique: ajudar. Será um prazer tê-lo como aluno. Um abraço!

Juarez Bastos disse...

Professor, por que o Senhor não elabora um curso para desenvolver a escrita? Assim ensinaria seus alunos as técnicas necessárias e corrigiria os trabalhos produzidos. Poderia ser um curso contínuo parecido com o do Olavo. Acho que seria de grande utilidade para todos! O que acha?