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janeiro 14, 2015

Alegria, ansiedade e planejamento caminham juntos na escrita

Cada autor cria um método particular de vencer obstáculos
Sempre que falo sobre a disciplina que o escritor precisa ter, lembro-me de outras questões importantes.

Todos os dias, no mesmo horário, cumprindo seu ritual, o escritor impõe a si mesmo a tarefa de arrancar da imaginação certo número de páginas.

Ele não segue um padrão, a não ser as variações do seu próprio estilo. Qualquer outro padrão significaria tornar-se repetitivo, enfadonho, como certos escritores que, de livro a livro, confundem ter estilo com repetir os mesmos cacoetes linguísticos.

O estilo é a marca do escritor. Mas isso não significa que ele segue, a cada livro, a mesma fórmula — ou que utiliza manuais com modelos de cartas de amor, redações para vestibular ou petições forenses, a fim de simplesmente adaptá-los à sua necessidade.

Seu estilo é sua personalidade, que se expressa por meio do tom de narrar, da forma de construir as frases, das escolhas vocabulares e de tantos outros elementos que compõem um texto. E, como toda personalidade, é cambiante, apresenta variações.

Caso tenha planejado seu livro, o escritor tem um norte, sabe para onde deseja levar sua história, seus personagens — mas ainda precisa obrigar as palavras a dizerem exatamente o que ele quer.

Nessa luta para não ser controlado pela língua, para trabalhar a linguagem não como um limite, mas como meio maleável de expressão, várias forças se debatem: o que existe em potência na mente do autor; as emoções que despertam à medida que ele escreve; seu conhecimento dos recursos da língua; o ambiente em que ele se encontra — com todas as solicitações que podem desorientá-lo; seu estado físico e mental; os escritores que o marcaram.

Karl Kraus, infelizmente pouco traduzido no Brasil, expressa bem essa relação conflituosa com a língua: “Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada de meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu a obedeço à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos me obriga a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trêmulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas lhe fecha o útero”.

Tratando a língua como senhora ou escrava, a ansiedade é consequência natural desse embate, desse enfrentamento que o escritor repete a cada dia.

Dominar essa tensão exige autocontrole e descobrir, passo a passo, formas de obedecer ou ludibriar sua oponente.

comentei aqui sobre a receita encontrada por Hemingway. Interromper o trabalho no momento em que, “ainda não tendo perdido o gás”, ele poderia “antecipar o que vem em seguida” permite superar uma forma de ansiedade. Mas dá vida a outra, como o próprio Hemingway confirma: “A interrupção dá uma sensação de vazio, como quando se faz amor com quem se gosta. E ao mesmo tempo não é um vazio, mas um transbordamento. Não há nada que o atinja, nada acontece, nada tem sentido até o dia seguinte, quando você faz tudo de novo. Difícil é viver a espera até o dia seguinte”.

Cada autor cria um método particular de vencer obstáculos, mas ainda considero o planejamento a melhor ferramenta para o escritor principiante.

Um planejamento minucioso contribui, inclusive, para eliminar a dependência da inspiração, ainda que ela seja útil e se faça presente.

Um planejamento detalhado, que não descarte possíveis mudanças de rumo, que esteja aberto à reelaboração, pois nem sempre é possível seguir a bússola — o navio, às vezes, precisa fazer uma ampla curva para contornar certa dificuldade e, só então, chegar ao destino.

Trata-se também de não enxergar a escrita como uma carga, mas como um ofício. Um ofício que o escritor impõe a si mesmo e realiza, apesar dos obstáculos, com arrojo e alegria. O mesmo Kraus que afirma ser escravo da língua exclama em outro aforismo: “Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento”.

Escrever é esse ofício que se reconstrói, que se redescobre a cada dia — um “caminho que se faz ao caminhar”, como afirma o sábio poema de Antonio Machado.

novembro 12, 2014

Escritores e disciplina

No último final de semana, lembrei-me, por várias razões, de Ernest Hemingway. Muitos não sabem que ele escrevia de pé, apoiado a uma espécie de atril ou qualquer outro suporte em que, primeiro, pudesse usar lápis e papel — e depois, quando o texto começasse a fluir com arrebatamento, passar à máquina de escrever. Começava no nascer do sol e prosseguia, sem parar, até algum horário em torno do meio-dia: “Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida”. Anotava o número diário de palavras, fazia hora extra quando, por algum motivo, não poderia escrever no dia seguinte — e, manhã após manhã, ao reiniciar o trabalho, reescrevia o que produzira no dia anterior. Questionado sobre seu método, ele não deixa dúvidas: “Disciplina se conquista”.

Esse comportamento enérgico revela muito da personalidade de Hemingway — e também serve como estímulo aos escritores que estão sempre inventando uma desculpa para a própria indolência. A eles, Hemingway dedicou sua ironia: “O fracasso e a covardia bem disfarçada são mais humanos e mais amados”.

maio 29, 2013

Malditos bons livros

Na primavera de 1934, em plena Grande Depressão, Arnold Samuelson, um jovem que sonhava se tornar escritor, viajou mais de três mil quilômetros para pedir conselhos a Ernest Hemingway. Depois dos primeiros minutos de conversa, Hemingway lhe perguntou de que autores gostava. Samuelson citou Robert Louis Stevenson e Henry David Thoreau. Ao que o escritor respondeu: “Você nunca leu Guerra e Paz?”. Diante da negativa do jovem, Hemingway completou: “É um maldito bom livro. Você deveria ler. Vamos até o meu escritório e vou fazer uma lista do que você deve ler”. O gesto de generosidade de Hemingway foi preservado: