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janeiro 23, 2015

Exercícios contra o despotismo da originalidade

Não procure ser original. Procure ser apenas você mesmo.
Hoje você terá um pouco de paciência comigo.

Quando comecei a escrever este texto, meu objetivo era falar sobre um tipo de exercício útil para novos escritores — e também para os velhos, desde que ainda não estejam enclausurados em seu próprio pedantismo.

Contudo, quando comecei a escrever, minha memória recuperou um pouco do meu tempo de faculdade, principalmente as aulas de Semiótica e algumas palestras que tive a oportunidade de assistir durante o curso de Letras — que, aliás, não terminei por absoluta falta de paciência.

Você verá, se tiver a paciência que não tive, como as lições da faculdade estão intimamente ligadas ao exercício de criatividade que vou propor.

Lembrar de minhas aulas — e do que a maior parte de meus professores falava sobre “ser original” — significa começar a entender a crise em que a chamada modernidade aprisionou as diferentes formas de arte.

E aprisionou por um motivo simples: por tratar a originalidade como um valor absoluto — um valor soberano, que não permite contestação ou contradição.

Hoje, o artista vive pisoteado pela angústia da originalidade. Ou, como dizia minha bisavó, ele está num mato sem cachorro.

A maioria dos escritores, por exemplo, acredita que, para se impor como artista, precisa agradar, não necessariamente nessa ordem, os membros de sua panelinha, a crítica acadêmica e a mídia. E ele não demorará a descobrir que o preço a ser pago para alcançar seu objetivo — sem tratar aqui de algumas questões perniciosas — tem apenas um nome: transformar a si mesmo num espetáculo.

Não basta escrever. É preciso escrever como os outros gostam. E não basta escrever como os outros gostam. É preciso pintar o cabelo de azul, usar um cavanhaque no estilo século 19, vestir roupas amassadas, transpirar certo descuido na forma de se comportar, como se o mundo fosse um pouco desprezível — sem jamais deixar de ser politicamente correto, claro — e afetar relativa pobreza (ainda que papai e mamãe sejam professores universitários ou fazendeiros).

A receita parece fácil. Mas não é.

Escrever como os outros gostam significa ser “dadá”, isto é, irracional e absolutamente espontâneo. Ou, como dizia Tristan Tzara, compreeender que “o pensamento se faz na boca”. (Sempre que lembro de meu professor repetindo isso com seriedade não consigo parar de rir.)

Ou seja, escrever como os outros gostam significa não ser escritor — mas, sim, um artista performático.

Essa angústia que obriga o artista a recriar um vanguardismo a cada dia contaminou toda a cultura. Leia o artigo do restaurateur Rogerio Fasano e você entenderá o que estou dizendo: hoje não basta cozinhar — é preciso ser uma espécie de abominável Dr. Phibes e recriar as dez pragas do Egito.

A angústia, o desespero da originalidade está na cama imunda da artista plástica Tracey Emin, no crucifixo imerso em urina de Andrés Serrano, na orelha implantada no braço de Stelios Arcadiou. Ou na irônica proposta de Bernardo Atxaga, de escrever um conto em 5 minutos.

Esse desespero pós-moderno pressupõe que arte é qualquer coisa colhida no ar e transportada a determinado suporte. E, não importando o resultado desse exercício, basta, ao final, seu marchand, seu editor, ou seu padrinho professor da USP anunciar: isto é arte.


Se você não acredita que, escolhendo a esmo duas palavras num dicionário e circundando-as com alguns verbos, substantivos e preposições, sejam eles quais forem, você tem um conto, então vale a pena continuar a ler este texto.

Minha proposta é que você não se preocupe em ser original — mas esteja disposto a exercitar sua criatividade.

Sempre digo que o escritor precisa escrever constantemente.

Claro, há períodos de necessária inatividade, principalmente depois de meses vivendo sob tensão diária para escrever um romance. Mas é preciso manter os motores aquecidos, ainda que em ponto morto.

Para aqueles que desejam adquirir habilidade ou se sentem vazios de idéias, costumo sugerir o exercício de dialogar com outras formas de arte.

Sem se preocupar em escrever obedecendo a determinado gênero literário, você pode produzir a partir da observação de uma pintura, de uma gravura, ou até mesmo de uma série de gravuras.

As 80 gravuras que compõem a série Los caprichos, de Francisco de Goya, oferecem múltiplas situações satíricas, a partir das quais você pode se propor a escrever, por exemplo, textos de 50 linhas.

Não se trata de descrever a gravura, mas, a partir da imagem e do que ela evoca, expressar suas próprias idéias — contrapondo-se ou não à mensagem do artista. É possível que a gravura seja o estopim para uma pequena história ou para fábulas em que você tentará construir cenas semelhantes.

O importante é não fazer crítica de arte — mas usar a gravura como um trampolim.

E criar as regras para o seu exercício: 1) escolher as gravuras; 2) estabelecer o tamanho do texto; 3) determinar em quanto tempo você alcançará o número de palavras; 4) começar; 5) cumprir as regras que você mesmo criou, de preferência sempre no mesmo horário.

Se os temas de Goya lhe parecem desprezíveis, recorra, por exemplo, às gravuras de Utagawa Hiroshige, um pintor japonês do século 19. Ele deixou uma série de 119 gravuras sobre paisagens e lugares emblemáticos da antiga Edo (hoje Tóquio).

Você pode transplantar as cenas que Hiroshige desenhou para o seu próprio cotidiano — ou tentar penetrar nas paisagens, como Akira Kurosawa fez, no filme Sonhos, com um dos quadros de Van Gogh.

Se trabalhar com imagens não lhe parece agradável, use textos.

Já que estamos falando do Japão, as narrativas de Yasunari Kawabata reunidas em Contos da palma da mão podem servir como estopim para novos textos, para novos contos. Com o agradável acréscimo de se referirem a outra cultura — e, portanto, a um imaginário em grande parte diferente do ocidental.

Você pode fazer o mesmo exercício com aforismos. Partir de uma sentença breve, de um pensamento conciso, e escrever uma pequena história.

Georg Christoph Lichtenberg é um aforista genial, pouco conhecido no Brasil, cujas frases às vezes estão muito próximas do nonsense. Uma de suas anotações diz assim: “Ele apreciava a pimenta e as linhas em zigue-zague”. Não temos aqui um personagem interessante?

Ou, se você preferir algo mais lógico, Lichtenberg também é perfeito: “Na verdade, há muitos homens que lêem apenas para não pensar”. As possibilidades de desdobrar esta afirmação num conto são infinitas.

O importante, em todos esses exercícios, é a disciplina. Você precisa estabelecer sua meta e cumpri-la. Com dedicação, com empenho, com vigor.

E não procure ser original. Procure apenas ser você mesmo.

dezembro 18, 2014

Scrivener: a ferramenta essencial para o escritor

Scrivener é, como dizem seus criadores, a libertação do caos
Se você está acorrentado à lógica do Word, certamente não entenderá os benefícios que Scrivener tem a oferecer.

No começo, eu mesmo não entendi. Mas depois de uma semana lendo artigos na Web e trabalhando com esse incrível processador de textos, acredite, o Word tornou-se uma pintura na Gruta de Lascaux: ainda tem alguma importância, mas muito limitada.

O programa Word nos acostumou a ver nossos textos como produções isoladas — e não como eles realmente são: criações interdependentes.

Imagine que você está escrevendo um livro dividido em vários capítulos. Que opções de organização o Word lhe oferece? Você pode abrir uma pasta com o nome do seu livro — e incluir nela os capítulos numerados. Ou pode abrir um único arquivo: e escrever seu livro numa longa seqüência.

Pense nessas duas opções.

Imagine você trabalhando num livro — ficção ou não ficção — com 20 capítulos, cada capítulo com 15 ou 30 páginas.

Muito bem. Agora responda:

— Onde estão as anotações que você usa para cada capítulo?

— O que você tem de fazer quando está no Capítulo 19, quer comparar um trecho com o Capítulo 3 e também verificar se a mesma informação não foi repetida no Capítulo 8?

— Quantos arquivos do mesmo capítulo você precisa fazer se quiser escrever versões diferentes do seu trabalho e, depois, compará-las?

— Como você consegue ter uma visão completa do conjunto de sua produção, incluindo a seqüência dos capítulos, o tamanho de cada um, os temas enfocados, as diferentes versões de cada capítulo e, principalmente, os metadados?

Sim, os metadados! Ou seja, todos os trechos em que a personagem C aparece; ou todos os trechos em que a personagem D interage com a personagem A. Ou, se você está escrevendo um ensaio, ter à mão a recorrência de certas idéias — e também a relação delas com outras informações.

As perguntas parecem complicadas apenas por um motivo: você está preso à lógica do Word. Uma lógica linear, que só permite que você pense e escreva como se desenrolasse um imenso rolo, no qual as folhas de papiro ou pergaminho estão emendadas.

A lógica de Scrivener não é linear. E por um simples motivo: ele foi pensado para escritores, para profissionais da escrita — e não apenas para quem precisa produzir um ou mais textos.

Para Scrivener, não existem apenas “textos” ou apenas “arquivos” — mas, sim, projetos.

Quando você abre seu projeto em Scrivener encontra três campos: o “Fichário” (à esquerda), o “Editor” (no centro) e o “Inspetor” (à direita):


No fichário você organiza os capítulos ou os diferentes textos do seu projeto, dividindo-os da forma que considerar melhor. Por exemplo: tenho todos os posts do meu blog num único projeto, seguindo uma primeira grande divisão, por anos — e depois subdivisões por meses.

Na parte inferior do Fichário você encontra a pasta “Pesquisa”, que aceita arquivos de imagem, PDFs e outros textos que possam ajudá-lo de alguma maneira.

No Editor, o lugar em que você escreve, Scrivener oferece três formas de visualização do seu trabalho:

— Um único arquivo:


— Um quadro de cortiça:


— Um esboçador em que você visualiza todos os capítulos numa ordem contínua:


No “Inspetor” você tem todas as notas do capítulo (ou, se preferir, as notas mais gerais do projeto), as referências bibliográficas, as palavras-chave, os metadados (que você pode personalizar como quiser), as imagens de todas as versões de um mesmo capítulo (para que você possa compará-las), além das notas de rodapé e dos comentários que você produz por diferentes motivos.

Há muito, muito mais.

Quando você coloca o ponto final no seu livro, pode exportá-lo com todos os capítulos reunidos na ordem que você desejar (incluindo notas, cabeçalhos, folha de rosto, etc.) E pode exportá-lo como Word, PDF ou um e-book pronto para ser publicado no formato Kindle (além de outras opções).

E se você gosta de escrever sem distrações visuais, pode optar pela “tela cheia”:


Você pode baixar uma versão completa de Scrivener e experimentar o programa durante 30 dias (ele vem com dois tutoriais, um deles autoexplicativo — ambos em inglês, mas numa linguagem clara e direta, que, se você precisar, o tradutor do Google não complicará).

Scrivener, como dizem seus criadores, é a libertação do caos.

dezembro 17, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Freedom e Anti-Social


A tecnologia pode ajudar o escritor a ter disciplina
No mundo conectado, em que a Web e as redes sociais consomem nossa atenção, como o escritor pode manter sua disciplina de trabalho, isolar-se e, inclusive, ampliar sua produtividade?

Se, como afirmei ontem, Evernote é essencial para reunir um grande e variado volume de informações, o escritor também precisa de recursos que o ajudem a manter o foco em seu trabalho e nas metas que ele se autoimpõe.

Há dois softwares que uso sempre. Eles fazem com que eu me concentre no que realmente importa: escrever. Contribuem para minha autodisciplina.

O mais radical é Freedom. Trata-se de um software que bloqueia todas as distrações da Internet: você estabelece o tempo que deseja ficar desconectado e ele interrompe de forma drástica a sua conexão — e você só poderá se reconectar caso reinicie o computador.

Vários escritores contemporâneos lutam contra as distrações oferecidas pela Web. A própria romancista Zadie Smith, por exemplo, já se pronunciou publicamente sobre o tema.

Quando sento para produzir minha cota diária de textos, meu primeiro gesto é ligar Freedom — o segundo é desligar o celular. São horas sagradas em que me obrigo, alegremente, a escrever de verdade.

Mas o inventor de Freedom, Fred Stutzman, também criou o programa Anti-Social, uma versão menos radical de Freedom.

Anti-Social mantém sua conexão — para que você possa, por exemplo, pesquisar na Web —, mas o impede de entrar nas redes sociais ou em qualquer site que desvie sua atenção.

Sem autodomínio e disciplina nenhum escritor se torna produtivo.

A tecnologia nos oferece ferramentas que destroem nossas desculpas esfarrapadas — e nos obrigam a escrever com produtividade e concentração crescentes.

Como dizia Hemingway, “disciplina se conquista”.

dezembro 16, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Evernote

Tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo
Estou cada vez mais distante da caneta, do lápis e do papel, ainda que mantenha um Moleskine sempre à mão.

Não sou saudosista, não me prendo a velhos hábitos — e acho curioso quem critica ou até mesmo recusa os benefícios que a tecnologia pode incorporar à vida do escritor.

Outro dia, sorri ao ler que o uso da caneta e do papel cria “um tipo especial de aproximação com o texto”, pois “desenhar as letras desperta a criatividade do escritor”.

Talvez exista algum fundamento científico em tais teorias, mas minha experiência diz o contrário: tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo, aumenta nossa produtividade.

Foi, aliás, o que senti há muitos anos, quando vi o cursor do Word pulsando na tela em branco e descobri que a máquina de escrever, com fitas imundas e corretores ineficazes, estava morta.

Como é possível viver hoje, por exemplo, sem Evernote?

O resultado de minhas pesquisas, idéias gerais, artigos que encontro na Web, insights que ocorrem no meio da rua, fotos curiosas ou inspiradoras, bibliografias às quais não paro de acrescentar novas descobertas, imagens ou textos para compartilhar nas redes sociais, PDFs que não tenho tempo de ler agora ou, com certeza, utilizarei no futuro, comentários escritos em meu Kindle… tudo, tudo está organizado em notas e cadernos no Evernote.

Neste último sábado, recomendei Evernote a meus alunos da Oficina de Escrita Criativa. Recomendo inclusive a escritores peripatéticos: enquanto você caminha de um lado a outro da biblioteca ou do escritório, pode ditar seu livro ou artigo, pois Evernote faz gravações de áudio perfeitas.

Concentrar esse volume de informações num programa auto-explicativo, de interface agradável — para PC e Mac — e que funciona de forma sincrônica no desktop, no browser e no celular é o paraíso de quem trabalha com textos.

O velho bloco de anotações continua sobre a escrivaninha. Mas, acreditem, está meio empoeirado.

dezembro 15, 2014

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida

Cada página escrita é um "não" firme às desculpas que usamos para não escrever
Cada página que você escreve não é apenas mais um capítulo ou mais algumas linhas na direção da obra que você deseja completar.

Não.

Cada linha escrita é uma vitória sobre as características e as limitações da sua personalidade, dos seus hábitos.

Cada nova página produzida é a resposta que você dá às investidas da preguiça.

Cada página escrita é o seu “não” firme a todas as desculpas que inventamos para não escrever, para não sermos o que desejamos ser.

Cada hora debruçado sobre um texto é a sua resposta contra os limites físicos, contra as pressões familiares, os fracassos do passado, o medo do futuro, a falta de recursos, as insuficiências do seu meio, do seu país, da sua cultura.

Não esqueça o que W. H. Auden escreveu: “Aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos próprios olhos, ele é poeta apenas no momento em que faz a última revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial; no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez para sempre”.

Um escritor só é escritor se consegue permanecer vigilante, com sua atenção voltada a tudo que pode ajudá-lo a escrever.

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida.

dezembro 04, 2014

5 soluções para 5 problemas do escritor principiante

Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais
Uma das principais dificuldades do escritor principiante é exatamente escrever.

Não, isto não é uma piada. Eu não estou brincando.

Você quer escrever, mas não consegue. Deseja sinceramente ser escritor, mas encontra barreiras, obstáculos que parecem intransponíveis.

Do que converso com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:

a) você não consegue escolher uma das várias histórias que gostaria de contar;

b) quase sempre, você não tem um interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar com você sobre diferentes questões;

c) os escritores que você admira dançam na sua mente num festim macabro, tentando se impor como modelos;

d) as dúvidas em relação ao uso correto da língua travam sua espontaneidade;

e) você escreve para ninguém.

Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:

1. Antes de tudo, é preciso imaginar um leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso — mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.

Você sabe, no fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar a resolver um problema, pessoal ou não.

Perceba que não se trata de escrever para agradar esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor imaginário.

2. Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o tema se apresente de imediato. Na verdade, tema e leitor estão intimamente ligados.

Mas se várias histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.

3. Determine seu período de trabalho — ou o número de palavras que você vai produzir diariamente.

Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.

Estabelecida a produção diária, sente e escreva. Apenas escreva.

Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.

Não se preocupe se o maldito Word vai sublinhando as palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se “exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.

Não se preocupe se as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita, irretocável.

Apenas escreva. Esta é a primeira etapa do processo. Só a primeira etapa.

4. Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.

A originalidade, da forma como é pensada hoje, não passa de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.

Livre-se do peso da originalidade.

Lembre-se do que André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo”.

Texto a texto, leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”, seu próprio estilo.

5. Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.

Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes das suas.

Escolha uma pessoa que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que mereça sua confiança.

Nesta primeira etapa do trabalho, o que você mais precisa são leitores comuns.

 Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.

novembro 30, 2014

O escritor e seus princípios

"Permanecer numa cega, prazerosa e absurda fé na arte" - Juan Carlos Onetti 
Cada escritor estabelece, ao longo da carreira, seu conjunto de princípios. Nem todos o verbalizam ou escrevem. Juan Carlos Onetti, o uruguaio criador da mítica cidade de Santa María (no romance “A Vida Breve”), deixou gravado o seu credo na Revista Marcha, em 28 de julho de 1939:

“Permanecer frente a um tema, ao fragmento de vida que escolhemos como matéria do nosso trabalho, até extrair, dele ou de nós, a essência única e exata. Permanecer frente à vida, sustentando um estado de espírito que nada tenha a ver com o vão e inútil, o fácil, as panelinhas literárias, os elogios mútuos, as bobagens de mesa de café. Permanecer numa cega, prazerosa e absurda fé na arte, como numa tarefa sem sentido explicável, mas que deve ser aceita virilmente, porque sim, como se aceita o destino. Todo o resto é duração física, um pouco fatigante, virtude comum às tartarugas, aos carvalhos e aos erros.”

novembro 29, 2014

Como nasce a inspiração?

Borges: "No caso de um conto, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta"
Como surge a idéia de um conto, de um romance, de um poema?

Cada escritor tem sua história, sua forma de inspiração.

Vejam o que Jorge Luis Borges fala:

“Começa por uma espécie de revelação. Mas eu uso essa palavra de uma maneira modesta, não ambiciosa. Ou seja, de repente eu sei que algo vai acontecer e que isso que vai acontecer pode ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma idéia mais geral, e às vezes tem sido a primeira linha. Ou seja, algo me é dado, e depois intervenho, talvez estrague tudo (ri). No caso de um conto, por exemplo, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas depois tenho que descobrir, através dos meus muito limitados meios, o que acontece entre o começo e o final”.

O que Borges conta é apenas o nascimento, a primeira fulguração do texto.

Todo o complexo e estimulante jogo de construir a narrativa vem depois.

novembro 26, 2014

O mistério do escritor

Ao mesmo tempo frágil e confiante, o escritor avança e repete seu "sim" ao ato de criar
Como surge um escritor?

O escritor nasce da dialética entre vocação — o conjunto de influências, em grande parte indetermináveis, que direciona sua forma de perceber a vida e de refletir sobre ela — e circunstância.

Mas tal reflexão, que devo a Ortega y Gasset, não explica tudo. No máximo, demarca a estrada por onde segue o escritor.

Permanece obscuro, portanto, como, em meio a fragilidades e incertezas, obrigado a decidir sozinho os rumos da sua obra, sentindo-se inseguro ou, raras vezes, confiante, o escritor sempre repete seu “sim” irrepreensível ao ato de criar.

É um mistério. Mas é o mistério que ele deseja.

novembro 25, 2014

O desejo do escritor é desvendar a existência

Como o fotógrafo, o escritor deseja fazer sua própria interpretação da vida
O fotógrafo Henri Cartier-Bresson dizia que, na verdade, não era a foto em si que o interessava. O que ele queria era “capturar uma fração de segundo do real”.

O desejo do escritor é semelhante. Ele não está — ou não deveria estar — preocupado com o livro em si, com a obra exposta numa reluzente livraria. O que o escritor almeja é desvendar um ou mais aspectos da existência, fazer sua própria interpretação da vida.

Aliás, o trabalho do escritor é semelhante ao do fotógrafo: o diafragma da câmera não escolhe sozinho a cena a ser capturada — e, para cada imagem escolhida, dezenas são desprezadas.

Se fosse de outra maneira, se nos bastasse o mero retrato da realidade, não precisaríamos da literatura e de outras formas de arte. Bastaria colocar câmeras em cada esquina, em cada casa, e permitir que qualquer um assistisse o que quisesse, quando quisesse.

A inutilidade de algo assim é tão evidente, que até mesmo um programa vulgar como Big Brother Brasil está sujeito a uma série de manipulações e provas, e supostos interrogatórios, traições e acordos — enfim, um complexo sistema ficcional, ainda que ordinário e grosseiro — para se tornar atraente.

Voltando à ficção literária, se quiséssemos listar os diferentes aspectos da vida humana, bastaria reler as principais narrativas. Um conto breve como “O colar”, de Maupassant, fala mais sobre fuga da realidade, orgulho e amor do que dezenas de tratados de psicologia.

Não foi a obra enquanto produto final que despertou o interesse de Maupassant, mas a possibilidade de capturar um sentimento, um comportamento, determinada situação, de uma forma que, ele intuía, só Maupassant poderia apreender.

novembro 24, 2014

O salto da imaginação à escrita

Os campanários de Martinville formam o momento libertador em que a imaginação se torna palavra escrita
Como o desejo de escrever se transforma em ato concreto?

No primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o narrador conta sua experiência: ele recorda sua infância, quando escrever era um anseio atormentador.

Cada detalhe inspira o garoto. No entanto, há um abismo entre o pensamento e o gesto de empunhar o lápis. Sua angústia o persegue — e ser incapaz de concretizar o desejo de escrever muitas vezes o aniquila:

“Parecia-me então que eu existia da mesma forma que os outros homens, envelheceria e morreria como eles e que, no meio deles, apenas pertencia ao número dos que não têm pendor para escrever. E assim, desanimado, renunciava para sempre à literatura […]”.

A aflição cresce. A realidade está sempre a chamá-lo.

Como todo candidato a escritor que aguarda a inspiração genial ou o tema perfeito, ele se confunde. Os elementos, entretanto, acumulam-se — até que, num transbordamento, tudo se precipita quando, certo dia, vê as torres da igreja de Martinville.

Os campanários de Martinville formam esse momento libertador, em que, finalmente, imagens, sons, odores e sentimentos se transformam em palavras escritas.

O trecho interessará a quem deseja escrever e está acostumado à ansiedade de não conseguir saltar do sentimento ao texto. Pode ser lido neste link.

novembro 22, 2014

O bom escritor sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro

O que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível
Em Os Testamentos Traídos, Milan Kundera conta a história do seu professor de música, um judeu perseguido pelos nazistas que, antes de partir para o Campo de Concentração de Terezin, é obrigado a mudar de uma residência a outra, sempre levando consigo seu pequeno piano.

Esse professor, certo dia, no final da aula, diz ao menino: “Há muitos trechos surpreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem o qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer”.

Ora, não é assim com as obras literárias? Não é assim com o conjunto da obra de um escritor?

Quando alguém começa a escrever, sonha em criar obras indispensáveis, perfeitas e inovadoras em seus mínimos detalhes — mas essa preocupação muitas vezes inibe sua criatividade e estraga o que poderia ser espontâneo.

O bom escritor, ao contrário, sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro. Sabe também que a chamada originalidade é uma quimera.

Aliás, o que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível. Assim ele planta seu campo, de forma espontânea — e ali podem surgir algumas árvores raras.

novembro 21, 2014

2 pecados que o escritor não pode cometer

São apenas 2.

O escritor — se deseja ser realmente um profissional — precisa evitar a impaciência e a indolência.

Ele não pode ter pressa se quiser atingir seus objetivos. Sofreguidão e escrita não combinam.

E não pode ser preguiçoso: precisa estar todos os dias, no mesmo horário, diante do papel em branco ou da tela do computador.

Kafka estava certo: “Existem dois pecados capitais, dos quais todos os outros derivam: impaciência e indolência. Por causa da impaciência os homens foram expulsos do paraíso, por causa da indolência eles não voltam”.

novembro 18, 2014

11 dicas para novos escritores

Não seja passivo(a) em relação à escrita. Não espere a fada-madrinha dos escritores entrar pela janela
Você quer ser escritor — mas não sabe como começar.

Sentado na frente da folha em branco ou da tela do computador, as idéias não chegam.

Fiz esta lista de 11 dicas pensando em você — numa forma de diminuir sua angústia e mostrar que você pode, sim, se tornar um escritor.

Leia com atenção cada item.

Depois, coragem: comece a escrever!

1. Acredite no poder das sinapses. Os neurônios conversam entre si, criam conexões inusitadas a cada milésimo de segundo. Mas precisam ser estimulados. 

Não, você não precisa se submeter a um tratamento de eletrochoques, mas deve estar aberto à realidade. 

Certa música, certa obra de arte, uma situação, uma frase solta que você escuta no ônibus ou no balcão da padaria: tudo pode desencadear a imaginação. Todos nós temos gatilhos emocionais que liberam ondas de fantasia. Não despreze nenhum deles — inclusive os que parecem infantis ou óbvios. 

Lembre-se do exemplo sináptico de Victor Hugo, que já se tornou clássico: no prefácio de O Corcunda de Notre-Dame, o escritor conta que o livro nasceu quando ele encontrou, ao explorar a Catedral de Notre-Dame de Paris, a palavra “fatalidade” gravada à mão numa parede. A forte impressão causada por essa descoberta fez com que começasse a imaginar a história.

2. Todo escritor é, antes de tudo, bom observador. Mas não se trata apenas de espreitar. É preciso dialogar, em silêncio, com os fatos, com as pessoas. 

Coloque-se na pele delas e tente compreender suas reações. Depois, imagine como você reagiria. E imagine como um escritor descreveria você. Esse exercício constante — analisar o real e você mesmo — aperfeiçoará seu poder de observação.

3. Abandone a idéia de que a vida é simples e de que tudo é evidente. Nada é simples. Por trás de cada gesto feito de maneira impensada há centenas de influências, escolhas, certezas, temores, dúvidas, interesses, desejos.

4. Anote tudo. Sempre. Não se preocupe se, no fim do dia, as anotações parecem incoerentes, sem nexo. Guarde-as em algum lugar. No final de trinta, quarenta dias, coloque-as sobre a escrivaninha: você descobrirá semelhanças — ou uma tendência. Por que não segui-la?

5. Leia. Leia muito. E não tenha receio, inclusive, de se inspirar no que lê. Eu disse “inspirar”, não “copiar”.

6. Não tenha medo de contar histórias. Não tenha medo, inclusive, do que pensarão sobre suas histórias. Comece com tramas simples e poucos personagens. Pode ser um único personagem. Mas evite cair na tentação do discurso em primeira pessoa, pois ele tem uma aparência de facilidade completamente enganosa.

7. Repito: apenas conte uma história. Deixe as invencionices vanguardistas e os malabarismos lingüísticos para mais tarde, quando estiver seguro(a) do que é capaz. Lembre-se: Ulysses não foi o primeiro livro de James Joyce.

8. Tenha um plano, ele ajudará você. Mas sinta-se livre para mudá-lo. Nenhum escritor sabe, com todos os detalhes, o começo, o meio e o fim da sua história. 

O som e a fúria, de William Faulkner, começou, segundo o próprio escritor, “com uma simples imagem mental: os fundilhos enlameados da calcinha de uma menina pequena trepada numa pereira, de onde podia ver, por uma janela, o local onde se realizava o funeral de sua avó e descrever o que estava acontecendo aos seus irmãos, no chão, embaixo”. Depois, Faulkner tentou contar a história que nasceu dessa imagem utilizando quatro narradores diferentes — e, ainda insatisfeito, adicionou um apêndice 15 anos depois de o livro ter sido publicado.

9. Ao escrever, não se preocupe em seguir a ordem lógica — ou cronológica — do seu enredo. Você tem poder absoluto sobre sua criação: pode matá-la e, sete meses depois, contar seu nascimento.

10. Não seja passivo(a) em relação à escrita — não espere a fada-madrinha dos escritores entrar pela janela. Escolha um local, crie seu ambiente. (Minha vizinha, quando eu era menino, estudava com o rádio ligado e tirava ótimas notas. Eu, ao contrário, sempre precisei de silêncio.) Depois, estabeleça um horário e cumpra-o. Não importa se você apenas ficar olhando para o papel em branco.

11. Voltando ao primeiro ponto, não despreze a realidade.

Mas lembre-se do que Henry James escreveu: “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade, uma espécie de vasta teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto de nossa consciência, apanhando qualquer partícula do ar no seu tecido. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa — muito mais quando acontece de ela ser a mente de um gênio — ela leva para si mesma os mais tênues vestígios de vida, ela converte as próprias pulsações do ar em revelações”.

Este é o começo. Confie em você e vá em frente. Há milhares de leitores esperando por um bom escritor — alguém disposto a contar boas histórias.