Mostrando postagens com marcador Bento XVI. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bento XVI. Mostrar todas as postagens

maio 29, 2012

Immaculata ex maculatis



“Um teólogo como Bento XVI é totalmente consciente de que a Igreja foi, é e será sempre, como diziam os Padres, ‘immaculata ex maculatis’: sem mancha em seu Mistério, que é o próprio Cristo, e, com frequência, demasiado suja em seu envoltório institucional, composta por homens a quem os sacramentos não transformaram em santos. O Papa sabe bem que a Pessoa da Igreja não deve ser confundida com seu pessoal.”

maio 22, 2012

Ecclesia militans


Hoje, muitos acreditam que a verdade não pode ser simples, objetiva, clara. O relativismo transformou a realidade num cenário nebuloso, opaco, no qual todos têm razão. Ou seja, onde ninguém está certo.

Em meio a estes dias turvos, quando grande parte dos intelectuais e da mídia nos dizem que bem e mal são indistinguíveis, o mal se traveste de humildade – e a mentira de inteligência. Palavras que, num primeiro momento, impressionam agradavelmente, refletem, depois de breve análise, o seu caráter contraditório e, muitas vezes, nocivo.

Numa realidade assim, o discurso de Bento XVI, proferido ontem, num encontro informal com os cardeais, ganha relevância surpreendente: “Hoje, a expressão ecclesia militans está um pouco fora de moda, mas, na realidade, podemos sempre compreender melhor que ela é verdadeira, carrega em si a verdade. Vemos que o mal está dominando o mundo e que é necessário entrar em luta contra o mal. Vemos como ele o faz de tantas maneiras, cruéis, com as diversas formas de violência, mas também mascarado como bem e destruindo, dessa forma, os fundamentos morais da sociedade”.

Na verdade, vivemos uma guerra permanente contra o mal, contra as falácias da herança iluminista e marxista – e, portanto, contra a mixórdia de niilismo e desconstrucionismo que assola o pensamento. Vivemos uma guerra cultural – e tenhamos certeza: somos convocados a participar dessa luta.

maio 01, 2012

O segredo do Papa Ratzinger


“À fé nula ou escassa de tantos homens de hoje, nas missas banalmente reduzidas a abraços da paz e assembleias solidárias, o papa Bento XVI oferece a fé substancial em um Deus que se faz realmente próximo, que se deixa tocar e comer.”

(Para aqueles que desejarem, em espanhol, a íntegra do artigo de Sandro Magister.)

abril 19, 2012

Quando o sal ganha verdadeiro sabor – 7 anos de pontificado


Para comemorar o 7º ano do pontificado de Bento XVI, publico, a seguir, um trecho de sua homilia na Praça Terreiro do Paço de Lisboa, no dia 11 de maio de 2010:

Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?

Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.

abril 16, 2012

A reconquista da alegria


Pensamentos de Bento XVI extraídos do excelente artigo de Andrea Monda, “Un Papa raro: con ‘sentido del humor’”:

“Toda a minha vida está atravessada sempre por um fio condutor que é o seguinte: o cristianismo da alegria alarga os horizontes.”

“Se hoje a humildade foi desacreditada como virtude, não será de todo supérfluo observar que esse descrédito coincide com a grande regressão da alegria na literatura e na filosofia contemporâneas.”

“O elemento constitutivo do cristianismo é a alegria. Alegria não no sentido de uma diversão superficial, cujo fundo pode ser também a desesperação.”

“A alegria é o signo da graça. Quem está profundamente sereno, quem sofreu sem por isso perder a alegria, esse não está longe do Deus do Evangelho, do Espírito de Deus, que é o Espírito da alegria eterna.”

abril 05, 2012

A homilia que será lembrada para sempre


Na história da Igreja Católica, poucas vezes um papa investiu, em suas homilias, contra um problema específico – e de forma clara, objetiva, sem usar recursos metafóricos. O Beato João Paulo II inaugurou, no século XX, o uso desse discurso direto, chegando a, em algumas oportunidades, admoestar publicamente os que se encontravam no caminho do erro.

Hoje, durante a Santa Missa Crismal, Bento XVI, movido pelo Espírito Santo, pleno de lucidez teológica e amor paternal, respondeu não só ao “Chamado à desobediência” dos padres austríacos, mas também àqueles que, pertencentes à Igreja Universal, semeiam a cizânia, a confusão entre os fieis, difundindo uma teologia “mais voluntariosa que iluminada, inteiramente dedicada à árdua e improvável tarefa de salvar, através de suas próprias categorias, a Jesus Cristo e Sua Palavra”, como bem afirmou, com evidente ironia, Dom Francesco Moraglia, o novo Patriarca de Veneza.

Chamando o clero à obediência, ao abandono do secularismo e do comportamento laxista – aliás, tão comum entre padres e bispos brasileiros –, Bento XVI foi claro: “[...] A configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. [...] Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda”. De fato, como dizia o Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.

Mais que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente contra a Santa Tradição e o Magistério, as palavras de Bento XVI são um apelo a que toda a hierarquia eclesial retome o “zelo das almas”: “Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada”.

Abaixo, segue o texto integral da homilia:

Amados irmãos e irmãs!

Nesta Santa Missa, o nosso pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos «consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na sua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade da nossa vida? Somos homens que atuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele. «Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à tão falada autorrealização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?

Mas o problema não é assim tão simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos interpelar por mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo, São Paulo resolutamente diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas. Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney, até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.

Queridos amigos, queria ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas sacerdotais, que deveriam induzir-nos a refletir nesta hora da Igreja e da nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o (munus docendi), que constitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio desta nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado toda e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir corretamente, devemos saber aquilo que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que não leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal auxílio todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe de ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E no entanto que há de menos meu do que o sou eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e é através da superação de mim próprio que consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades físicas: com os famintos, os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas também com as necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor desfeito; com as pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amém.

setembro 30, 2011

O “nós” que não faz de nós mesmos o critério absoluto

Uma coisa é estar pessoalmente com Cristo, com o Deus vivo; a outra é que temos possibilidade de acreditar sempre e só no “nós”. Às vezes, digo que São Paulo escreveu: “A fé vem da escuta”, não da leitura. Há necessidade também de ler, mas a fé vem da escuta, isto é, da palavra viva, das palavras que os outros me dirigem a mim e que posso ouvir; das palavras da Igreja através de todos os tempos, da palavra que atualmente me dirige por meio dos sacerdotes, dos bispos e dos irmãos e das irmãs. Faz parte da fé o “tu” do próximo, e faz parte da fé o “nós”. E precisamente a exercitação no suportar-se mutuamente é muito importante; aprender a acolher o outro enquanto tal na sua diferença, e aprender que ele também deve suportar-me a mim na minha diferença, para nos tornarmos um “nós”, a fim de podermos um dia também na paróquia formar uma comunidade, chamar as pessoas para entrarem na comunhão da Palavra e caminharem juntas para o Deus vivo. Faz parte disto o “nós” muito concreto que é o Seminário, como o será a paróquia, mas sempre também o olhar para mais além do “nós” concreto e limitado, ou seja, para o grande “nós” da Igreja de todo o lugar e de todo o tempo, a fim de não fazermos de nós mesmos o critério absoluto. Quando dizemos “nós somos Igreja”, dizemos certamente a verdade: somos nós, não uma pessoa qualquer. Mas o “nós” é mais amplo do que o grupo que o está dizendo. O “nós” é a comunidade inteira dos fiéis: os de hoje e os de todos os lugares e de todos os tempos. E não me canso de repetir ainda: é verdade que, na comunidade dos fiéis, existe por assim dizer o juízo da maioria efetiva, mas não pode jamais haver uma maioria contra os Apóstolos e contra os Santos: isso seria uma maioria falsa. Nós somos Igreja. Pois bem, sejamo-lo! Sejamo-lo precisamente no abrirmo-nos ultrapassando-nos a nós mesmos e no estarmos juntos com os outros.

Bento XVI, em sua recente viagem à Alemanha.

agosto 10, 2011

Reflexões sobre o católico escritor

No ensaio que escreveu sobre François Mauriac – “Mauriac?” –, Otto Maria Carpeaux, com sua característica consistência, cria não só um roteiro seguro para se conhecer as bases do pensamento desse romancista francês, mas, sopesando aspectos positivos e negativos, estabelece, de maneira indireta, as linhas mestras da ficção e do ensaísmo católicos.

De antemão afirmo que não se trata, neste texto, de colocar o problema da possibilidade de uma ficção católica brasileira contemporânea. E por um simples motivo: o tema não me preocupa, pois, sob o ponto de vista teológico, o qual não desprezo nem um pouco, “o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus” (1Co 2,10). Ou seja, apesar do ateísmo, do materialismo e de todos os demais “ismos” que proliferam hoje, a oportunidade de uma literatura que se pretenda católica está presente, ainda que desprezada por certa intelligentsia cínica – e fadada a cumprir, sem qualquer demérito, o papel de sal e fermento: desaparecer, mas para dar sabor e volume; para ocupar, no substrato da cultura, um papel talvez despercebido, mas jamais secundário.

As perguntas que me coloco são outras: de que trata uma literatura católica? Ou um ensaísmo católico? O que significa ser católico e também escritor?

Seguindo o raciocínio de Carpeaux, há um tema básico: o pecado. Por sua própria natureza, o homem vive em oposição à vontade de Deus; sua inclinação para o bem está debilitada. O senso comum, se deseja compreender esta questão, precisa abandonar a ideia de pecado enquanto mera desobediência a preceitos religiosos. Para a teologia católica, o pecado é uma tendência natural, um “hábito inato”. Por razões sobre as quais não tratarei aqui, o homem tende ao mal. Assim, se o pecado é, como diz Carpeaux, “o caminho da morte e da vida”, será inevitável ao escritor católico se defrontar com esse tema.

Mas como fazê-lo? Segundo Carpeaux, com a “inquietação” de Mauriac. Mas não só. Usando de finíssima ironia, o ensaísta nos aponta o caminho: abandonar os moralismos. Ele nos dá um exemplo curioso, próprio do que ocorria quando escreveu seu texto, ao criticar aqueles que, “em meio ao incêndio da civilização cristã e à difamação do nome cristão por povos cristãos, se ocupam dos maillots na praia”. Mas também nós corremos esse perigo, apesar de não estarmos vivendo as consequências da Segunda Guerra Mundial e os maiôs já não serem novidade, visto que há sempre o risco de colocarmos “a ética antes do ser”, como afirma Bento XVI, lembrando que “o cristianismo não é um moralismo”, pois “não somos nós que temos de realizar aquilo que Deus espera do mundo, mas em primeiro lugar temos de entrar” no que o Papa chama de “mistério ontológico: Deus entrega-se a si mesmo. O seu ser, o seu amar precede o nosso agir [...]”.

Um católico, incluindo aqueles que são escritores, deve compreender que, apesar da indiscutível realidade do pecado, Deus deseja conceder ao homem um novo ser. “Esta é a grande dádiva”, diz Bento XVI, “o ser precede o agir e a partir dele segue-se, depois, o agir, como uma realidade orgânica, porque o que somos, podemos sê-lo também na nossa atividade”. É assim que Deus nos aparta do moralismo, pois ser cristão não significa apenas “obedecer a uma lei que está diante de nós, mas simplesmente [...] agir em conformidade com a nossa nova identidade”. Não se trata, portanto, de “uma obediência, algo exterior, mas sim uma realização do dom do novo ser”.

Voltando a Carpeaux, trata-se, portanto, para o ficcionista, de “resolver o problema do pecado e da graça (literariamente, não teologicamente)”, de “não desfigurar o seu cristianismo em moralismo”. Graça – ou seja, doação, pois Deus “se nos doou antecipadamente a si mesmo, entregando-nos o seu amor”, lembra o Papa.

Outro risco é “petrificar-se” no pietismo, o que Carpeaux chama de “catolicismo de fórmulas vazias”. Ele não se refere apenas à tese da superioridade da fé sobre a razão, mas àquela tendência de responder ao pecado não por meio de uma vida autenticamente evangélica, mas de uma religiosidade superficial, apegada a manifestações sentimentais.

Carpeaux também defende o abandono de quaisquer mediações: o artista deve enfrentar os problemas do seu tempo, sob pena de, recusando-se a fazê-lo, condenar-se ao laxismo (afirmação, aliás, extremamente contemporânea). Assim, nosso crítico repudia o intelectual apenas “bem-pensante”, que privilegia seu comodismo e prefere fazer concessões a se defrontar com temas espinhosos. Carpeaux, com razão, qualifica esse tipo de católico como “um abastardamento” do escritor.

Amor criativo

Em busca de escritores que sejam mais do que “filhos dos seus confessores”, Otto Maria Carpeaux demonstra ter um objetivo claro: “A própria vida, assunto do romance, é o caminho da santidade”.

Um novo elemento se adiciona, dessa forma, ao nosso raciocínio: a que se refere o crítico quando diz “santidade”? O santo é aquele que, tendo compreendido as realidades do pecado e da graça, cinge-se àquele “mistério ontológico” sobre o qual falamos acima e descobre a verdadeira alegria, que não é apenas laetitia, mas gaudium, júbilo, regozijo. “Quem se deixou sensibilizar por este mistério, que Deus se revelou, rasgou o véu do templo e mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente”, diz Bento XVI.

Vejo, a partir deste ponto, uma estrada com duas vias: numa, encontro o escritor que compreende o mistério, ou que ao menos deseja desvendá-lo, e por esse motivo busca, em sua vida pessoal, a santidade – e na outra descubro o mesmo escritor, traduzindo, por meio da escrita, as quedas e recaídas do homem que, dividido entre o pecado e a graça, anseia experimentar, concretamente, a verdadeira alegria. Ocorre que este escritor é indissociável do primeiro: ele sabe, portanto, que viver na graça “é amor, amor criativo, que encontra sozinho a riqueza, a abundância do bem”, segundo o que nos ensina Bento XVI – e também por esse motivo escreve.

Mas, atenção: quando Bento XVI diz que “quanto mais repletos estivermos desta alegria de ter descoberto o rosto de Deus, tanto mais o entusiasmo do amor será autêntico em nós e produzirá fruto”, ele não se refere a uma vida desgarrada da realidade, na qual só há espaço para o arroubo místico, mas a experiências concretas – tão palpáveis quanto o ato de escrever um livro. Carpeaux tem consciência disso; e por esse motivo pode dizer, graças não só à erudição, mas principalmente movido por sua fé, que “um romance católico que pretende ignorar o pecado, é mentira” – e “um romance católico que inclui e supera o pecado, tem valor de teodiceia”, ou seja, pode defender e justificar a crença em Deus.

Humanismo cristão

Retomando a questão da santidade, o católico que é escritor deve saber – exatamente como Santa Teresa de Jesus – que “a morte dá à história a sua verdadeira medida”. É o que lemos no ensaio de Carpeaux (“A lição de uma santa”) sobre essa religiosa carmelita canonizada em 1622, a quem Paulo VI concederia, em 1970, o título de Doutora da Igreja. Teresa, ela própria sublime escritora, serve como modelo aos intelectuais católicos contemporâneos, ficcionistas ou não. Seus escritos e sua vida confirmam a abundância gratuita que nasce do “amor criativo”, seiva que o escritor, ramo da videira, sorve e distribui, repleto de alegria por ter descoberto o rosto de Deus. Não é à toa que Teresa exclama, em meio aos seus textos, “Oxalá pudesse eu escrever com muitas mãos!”.

Só intelectuais dessa estirpe podem deixar uma obra capaz de confrontar, ao longo dos séculos, heresias, modismos, miragens fabricadas pela estultícia humana. E Teresa alcançou esse objetivo exatamente por não almejar tal glória. Como acertadamente afirma Juan Marichal (La voluntad de estilo – teoría e historia del ensayismo hispánico), “em Santa Teresa opera sobretudo um princípio espiritual oposto ao de todo criador artístico: porque ela desejava testemunhar, com seus escritos, mais sua condição de criatura [grifo do autor] do que seu poder de criadora”.

“Não se dá esse rei senão a quem se entrega de todo”, dizia Santa Teresa – e foi o seu fervor que a transformou num dos melhores símbolos do que Carpeaux chama de “notável e estranha oposição do humanismo cristão”. Oposição à qual os católicos são constantemente chamados, hoje e sempre. Quando prepondera a autossuficiência humana – nada mais que um neopelagianismo –, o católico que escreve alerta para os limites do homem e sua dependência em relação a Deus. Quando a ciência pretende se tornar um novo baal, o católico que escreve recorda os milhares de crimes perpetrados em nome da razão. Quando se propagandeia o espírito revolucionário, o católico que escreve relembra os totalitarismos e se recusa a fazer da história uma tábula rasa. Quando o humanismo ateu deseja se impor, o católico que escreve clama contra a falsa ética dessa deformação do pensamento, sempre pronta a instituir o hedonismo e a egolatria como leis gerais.      

Charles Moeller, na introdução ao volume IV do seu Literatura do século XX e Cristianismo, afirma que “a escravidão da percepção literária consiste em se aproximar por baixo, partindo do sofrimento dos homens e de sua nostalgia da felicidade, para alcançar o mundo da Revelação, que está acima”. E ele próprio conclui: “Mas ‘Deus nos busca antes que nós o busquemos’. Vem a nós até onde estamos. O povo de Israel sabia algo disto. Este povo é também a Igreja. E cada um de nós”. Carpeaux, ao falar sobre Mauriac em sua História da Literatura Ocidental, dirá que “a representação completa do pecado justifica o trabalho do romancista: o desfecho literariamente satisfatório vale como reconhecimento da Justiça e da Graça de Deus”. Esses dois pensamentos formam, com certeza, a síntese do trabalho a que se propõe o escritor católico: partir do que pode chegar a ser inumano para mostrar a transcendência escondida no homem; descrever o nível de degradação que a sociedade pode atingir para fazer sobressair a irrupção da graça divina. Há nele paixão e lógica, mística e zelo – o zelo de Teresa de Jesus; ou o de Elias, no Horeb, que exclama duas vezes, a última com o rosto coberto pelo manto: “Eu me consumo de ardente zelo por Iahweh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada” (1Rs 20,10.14).

julho 30, 2011

Pablo Blanco Sarto e o pensamento de Bento XVI

Num país como o nosso, no qual a intelligentsia está, em sua quase absoluta maioria, apartada de qualquer preocupação metafísica, mas se tornou devota das suas próprias religiões marxistas ou niilistas, do relativismo e da crença, tão estreita quanto refutável, de que exclusivamente a ciência pode apresentar respostas aos anseios humanos; neste país, no qual grande parte da produção teológica católica se dedica a meras invencionices sociológicas e se deixa corromper por um secularismo nefasto, diluindo suas reflexões em nome do populismo, da subserviência a políticas de esquerda ou, pior, do desejo consciente de corromper os ensinamentos da Tradição e do Magistério; neste país, em que até mesmo o fato de alguém se autodefinir como católico tornou-se, nos supostos meios intelectuais, motivo de surpresa, mofa ou indignação; num país com tais características, a oportunidade de passar quatro noites estudando a vida e a obra do teólogo Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, surge – perdoem-me o chavão – como um oásis. E foi exatamente desse oásis que pude desfrutar, esta semana, graças à iniciativa do Instituto Internacional de Ciências Sociais, que trouxe ao Brasil o filólogo, teólogo e filósofo padre Pablo Blanco Sarto, professor adjunto do Departamento de Teologia Sistemática da Universidade de Navarra, criador do Foro de Estudos Joseph Ratzinger e autor de vários livros sobre Bento XVI, entre eles, os dois mais recentes: Benedicto XVI – el Papa alemán e La teologia de Joseph Ratzinger: una introducción.

É impossível descrever, sinto muito, as quatro noites de curso, o que demandaria recuperar minhas anotações, mas deixo, a seguir, longa entrevista, em duas partes, com o ilustre professor – pitada do que foi esse período durante o qual nos dedicamos a conhecer melhor o pensamento de um teólogo preparado, durante toda a vida, para oferecer respostas à perplexidade do mundo que, esvaziado de ética e transcendência, precisa voltar a reconhecer Cristo não como uma divindade entre tantas outras ou um profeta assassinado pelo imperialismo romano, mas como centro da história, verdadeiro e único Logos, ao qual devemos corresponder não só com nossa fé, mas com nosso próprio logos, com nossa razão. Como afirma Pablo Blanco Sarto, analisando o pensamento de Bento XVI, “trata-se de fazer alcançar uma nova síntese da modernidade com as melhores contribuições do cristianismo; uma nova síntese entre fé e razão que dê lugar a um Iluminismo pós-moderno”, pois “só a verdade nos torna livres, e só com a razão pode-se alcançar a paz e o respeito à natureza e à dignidade da pessoa”.


junho 26, 2011

Sine Dominico non possumus

“Em uma cultura cada vez mais individualista, como é aquela na qual estamos imersos na sociedade ocidental, e que tende a se difundir por todo o mundo, a Eucaristia constitui uma espécie de ‘antídoto’ que opera nas mentes e nos corações dos que creem, e continuamente semeia neles a lógica da comunhão, do serviço, da partilha, em suma, a lógica do Evangelho. Os primeiros cristãos, em Jerusalém, foram um sinal claro desse novo estilo de vida, pois viviam em fraternidade e colocavam seus bens em comum, a fim de que ninguém vivesse na indigência (cf. At 2, 42-47). De onde derivava tudo isso? Da Eucaristia, isto é, de Cristo ressuscitado, realmente presente em meio aos seus discípulos e operante com a força do Espírito Santo. E também nas gerações seguintes, através dos séculos, a Igreja, apesar dos limites e dos erros humanos, continuou sendo no mundo uma força de comunhão. Pensemos especialmente nos períodos mais difíceis, de provação: o que significou, por exemplo, para os países subjugados por regimes totalitários, a possibilidade de se reencontrar na missa dominical! Como diziam os antigos mártires de Abitene, Sine Dominico non possumus – sem o Dominicum, isto é, sem a Eucaristia dominical, não podemos viver. Mas o vazio produzido pela falsa liberdade pode ser do mesmo modo perigoso; e nesse caso, a comunhão com o Corpo de Cristo é o medicamento da inteligência e da vontade, para reencontrar o gosto pela verdade e pelo bem comum.”

– Estas foram as palavras de Bento XVI no Angelus deste domingo. Precisamos cada dia mais desse fármaco, capaz de, em meio ao crescente relativismo, nos inspirar e nos conduzir à Verdade.

junho 03, 2011

Como se rebelar contra a tirania de Eros?

Não é nenhuma novidade que Eros foi erguido à condição de grande deus do Ocidente. Mas é inacreditável como a maioria das pessoas – conduzida por uma moral acomodatícia e pelo relativismo cego – aceita esse fato demonstrando passividade diante do mal.

A proposta de uma Lei da Homofobia, o famigerado PLC 122 – na verdade, um projeto de institucionalização da ideologia do homossexualismo –, a informação de que o kit anti-homofobia, produzido pelo Ministério da Educação, seria distribuído a crianças de 11 anos – e não a jovens do Ensino Médio – e a notícia de que o polêmico sutiã com enchimento, criado pela Abercrombie & Fitch’s para aumentar os seios das meninas a partir de 8 anos, já estaria à venda no Brasil são alguns dos elementos – apenas os mais recentes – que deveriam nos alertar para um quadro preocupante: o processo de sexualização da sociedade, em vigor na maior parte do Hemisfério Norte, já se encontra instalado no Brasil, inclusive na sua forma mais diabólica: a da sexualização da infância.

O cinismo dos defensores dessas inovações – usemos, aqui, um eufemismo – parece triunfar em toda a mídia. Qualquer voz dissonante é enfrentada com discursos negacionistas, nos quais a ponderação inexiste, mostrando que há algo de perverso nessa conjuração tácita entre Estado, mídia, mercado e ideólogos de esquerda.

De fato, a esquerda, falida em suas propostas de revolução econômica e política, refugiou-se nas utopias do pansexualismo e do ecologismo. Agora aliada ao mercado, ela abandonou os ideais da planificação econômica e da igualdade social, preferindo usufruir, em petit comité, das benesses do capitalismo – seus líderes, no Brasil e no mundo, enriquecem com rapidez estonteante –, e elegeu a desordem moral como o meio que lhe permitirá controlar as consciências. Incapaz de vencer a sede de lucro pessoal e corporativo, a esquerda almeja aniquilar os valores cristãos – projeto, convenhamos, não de todo desagradável a um mercado destituído de ética e sedento de consumidores.

A nova idolatria

Quem assistiu aos vídeos que compõem o kit anti-homofobia do Ministério da Educação sabe do que falo: não há ali principalmente a lição do amor ao próximo, da aceitação do semelhante – sem que isso signifique a aprovação de suas opções morais –, mas, sim, o enaltecimento do “eu” e a exaltação da sexualidade. A mensagem sub-reptícia dos vídeos é a do “eu triunfante”, da construção de um falso heroísmo e de falsas virtudes, nascidos exclusivamente da opção sexual. Esse é o horizonte oferecido pelo Ministério da Educação às crianças e aos adolescentes: entreguem-se aos seus instintos, façam apenas o que vocês têm vontade – e isso os transformará em seres felizes e realizados. O homem, para nossos educadores de esquerda, é definido e identificado apenas por sua sexualidade; e quanto mais plena a satisfação sexual, maior será o seu valor, diante de si mesmo e dos outros.

A tirania de Eros não tem limites – e seu objetivo é o defendido por nossos educadores pós-modernos: o ser humano se resume ao baixo-ventre.

Além da ideologia do homossexualismo, os vídeos instituem uma escola da permissividade. Eles restringem a experiência do viver ao sensualismo vulgar e confinam a longa e trabalhosa conquista da maturidade – período fundamental do desenvolvimento humano – ao imediatismo hedonista.

Ora, quantas vezes o mundo pagou alto preço por seguir ideologias salvadoras? Já o fez em nome do pão e da terra para todos. Já o fez pela quimera da igualdade social absoluta. Já o fez em nome da purificação da raça e da construção do super-homem. E agora repetimos o mesmo erro, desta vez para agradar Eros, que submete o homem não só ao eterno chacoalhar do próprio ventre, mas também ao estupor fabricado pela indústria do entretenimento e à subserviência a padrões morais que não são escolhidos livre e conscientemente.

É a institucionalização do que Jean Guiton chamou de “corveia de prazer”. Sim, há muito a felicidade por meio da chamada “realização sexual” transformou-se num imperativo, numa ordem – ou melhor, numa forma de escravidão. E agora, no Brasil, a esquerda deseja, se aprovado o PLC 122, que toda a sociedade se submeta a um novo dogmatismo, uma ideologia tribalista tão furiosa, se contrariada, quanto os sodomitas que cercaram a casa de Ló (Gênesis 19).  

Se essa é a nova idolatria a que deveremos nos submeter e se a sexualização da sociedade é um processo irrefreável, pergunto-me quando construiremos o novo Muro de Berlim, para separar os felizes hedonistas da parcela necessariamente triste e frustrada da humanidade... Quando começarão a erguer os muros do primeiro gueto para encarcerar os discordantes? Na qualidade de católico, viverei nele com orgulho.

Os limites do abismo

Esclareçamos, contudo, que não se trata, aqui, de assumir o papel do moralizador que denuncia pecados e se escandaliza com a decadência dos costumes. Não se trata de estabelecer uma disputa entre permissivos e repressores morais. Antes, trata-se de afirmar que o homem está muito acima do que os nossos ideólogos e educadores de esquerda defendem.

A cada cena dos filmes produzidos para o kit anti-homofobia eu me recordava das palavras da última conferência do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, pronunciada, em 18 de maio de 2005, no Mosteiro de Santa Escolástica, em Subiaco: “[...] Já não brilha sobre o homem o esplendor de ser a imagem de Deus, que é o que lhe confere sua dignidade e inviolabilidade, mas somente o poder das capacidades humanas”. E o que resta a esse homem, cuja “força moral não cresceu com o desenvolvimento da ciência”, mas na verdade “diminuiu, porque a mentalidade técnica” pretende encarcerar “a moral no âmbito subjetivo”? Essa racionalidade que excluiu “Deus da consciência pública”, tornando-o objeto da mera subjetividade, só pode construir a “desordem da consciência moral” – o mundo no qual “nada é bom ou mau em si”.

Consentir com tal processo de secularização significa transformar nosso melhor tesouro, os valores da cristandade, base da sociedade ocidental, numa subcultura condenada ao silêncio sempre que os supostos iluministas modernos assim desejarem. Numa terrível contradição, essa “confusa ideologia da liberdade conduz a um dogmatismo que se está revelando cada vez mais hostil para a liberdade”, dizia Ratzinger – e profetizava: “O conceito de discriminação se amplia cada vez mais, de maneira que a proibição de discriminação pode se transformar, progressivamente, em uma limitação da liberdade de opinião e da liberdade religiosa. Em breve, não se poderá afirmar que a homossexualidade, como ensina a Igreja Católica, constitui uma desordem objetiva na estruturação da existência humana”.

A ideia de que cada nova elucubração do homem representa um conhecimento definitivo e inquestionável – ou seja, de que tudo é relativo – pode, inclusive, nos conduzir à definitiva sexualização da vida social e ao desaparecimento da dignidade humana. Já transformamos a busca da virtude num exercício acadêmico, num saber desligado da vida; e diminuímos a verdade até transformá-la num axioma que muda conforme a direção dos ventos, o humor dos demagogos ou a sandice do intelectual escolhido pela mídia. Quanto mais afundaremos em nossa egolatria? Em Subiaco, Ratzinger afirmava: “A tentativa, levada até o extremo, de plasmar as coisas humanas menosprezando Deus completamente nos leva cada vez mais aos limites do abismo, ao encerramento total do homem”.

Uma nova corporalidade

Trata-se, então, de dar as costas à sexualidade e encarar o homem como um ser angelical, incorpóreo? Absolutamente não. Para nós, católicos, como lembrou Bento XVI em recente discurso, “longe de se opor ao espírito, o corpo é o lugar onde o espírito pode habitar” – e “nossos corpos não são matéria inerte e pesada mas, se soubermos ouvir, falam a linguagem do amor verdadeiro”. Nos corpos de Adão e Eva, “antes da Queda, [...] existe uma linguagem que não criaram, um eros radicado na sua natureza, que os convida a receberem-se mutuamente do Criador, para assim se poderem oferecer”. E o papa conclui: “[...] No amor, o homem é ‘recriado’, Incipit vita nova  [Começa uma nova vida], dizia Dante (Vita Nuova I, 1), a vida da nova unidade dos dois numa só carne. A verdadeira fascinação da sexualidade nasce da grandeza deste horizonte que se abre: a beleza integral, o universo da outra pessoa e do ‘nós’ que nasce na união, a promessa de comunhão que nela se oculta, a nova fecundidade, o caminho que o amor abre a Deus, fonte do amor”.

Alertando para uma sexualidade “que hoje permanece encerrada no círculo restrito do próprio corpo e na emotividade”, o papa salienta que “a força do pecado não consegue cancelar a linguagem originária do corpo, a bênção de vida que Deus continua a oferecer quando o homem e a mulher se unem numa única carne”.

Ou seja, a sinalização é clara: o núcleo de resistência à barbárie da sexualização da sociedade encontra-se na família, “o lugar”, diz Bento XVI, “onde a teologia do corpo e a teologia do amor se entrelaçam. É aqui que se aprende a bondade do corpo, o seu testemunho de uma origem boa, na experiência de amor que recebemos dos pais. É aqui que se vive o dom pessoal numa só carne, na caridade conjugal que une os esposos. É aqui que se experimenta a fecundidade do amor, e que a vida se entrelaça com a de outras gerações”.

Há, portanto, uma sexualidade sã e santa. “Uma santidade”, lembra Xavier Léon-Dufour, “que transforma a corporalidade do homem e a torna continuamente presente a um mundo divino que a cerca de todos os lados”.

Contrapor-se ao que as escolas ensinam

Mas somos chamados também a nos apartar da luxúria; e as práticas homossexuais – digam o que disserem os católicos que, a seu bel-prazer, decidiram discordar do Magistério da Igreja – estão aí incluídas. O grito dos dissidentes e dos hereges ou o desolador silêncio dos tíbios não modificam o ensinamento da Santa Igreja: “Optar por uma atividade sexual com uma pessoa do mesmo sexo equivale a anular o rico simbolismo e o significado, para não falar dos fins, do desígnio do Criador a respeito da realidade sexual. A atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida e, portanto, contradiz a vocação a uma existência vivida naquela forma de autodoação que, segundo o Evangelho, é a essência mesma da vida cristã”.

Devemos considerar, portanto, no mínimo insultuoso o Estado que, afastando-se de suas funções, decide ensinar moral a crianças e jovens – e o faz da pior maneira, doutrinando-os com visões distorcidas da sexualidade, levando-os a acreditar que a autocomplacência e a idealização da própria sensualidade são os únicos e os melhores caminhos para o seu desenvolvimento.

Para a sociedade na qual o culto ao sexo exige de seus prosélitos que anunciem aos quatro ventos suas preferências sexuais – evidenciando uma inesgotável necessidade de autoafirmação –, reduz a felicidade e a realização humanas à escolha por esta ou aquela opção sexual, enaltece o sexo enquanto jogo promíscuo, torna a concupiscência sua regra de ouro e, apesar de todos esses esforços insanos, só consegue renovar as frustrações e as formas de carência afetiva, Bento XVI recorda que, quando a sexualidade destrói “sua conexão com o Criador, o corpo revolta-se contra o homem, perde a sua capacidade de fazer transparecer a comunhão e torna-se terreno de apropriação do outro”.

As famílias têm, assim, um árduo, difícil e honroso trabalho: contrapor-se ao que as escolas transmitem. E não só. É necessário renovar o sentido da sexualidade à luz dos ensinamentos cristãos: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?” (1 Co 6, 19). Para nós, a comunhão com o outro não está necessariamente presa à relação sexual, mas a supera; e pode independer dela. Não somos escravos da nossa libido ou das nossas pulsões.