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maio 06, 2014

Reminiscências do mundo dos sonhos

Para onde nos levam os sonhos? Ao caminharmos, indefesos, nessas trilhas de símbolos, seguimos para que estranho, desconhecido país?

O mundo onírico é mais do que a tela na qual se projetam desejos que anseiam por se realizar. Cada sonho guarda um convite ao autoconhecimento; cada viagem empreendida ao subterrâneo da mente esconde um sinal que, às vezes repetitivo, insiste no sentido de desvendarmos nosso eu.

Assim, quando acordo e percebo que a memória preserva o itinerário da viagem noturna, acalento essas lembranças – talvez fragmentadas – como se formassem o mapa de uma aventura que clama por ser reconstituída; tarefa que, realizada pela mente em vigília, pode oferecer o tesouro – quem sabe inominável segredo – escondido em algum ponto de chegada. Procuro, então, revisitar, durante o dia – e, muitas vezes, esforçando-me por continuar a fazê-lo nos dias seguintes, quando pressinto que a lembrança do sonho já se esvai –, as mesmas etapas noturnas, como o menino que, encontrando no caminho à sua frente as pegadas de um adulto, tentasse colocar seus pés, passo a passo, nas marcas deixadas na terra, que ele só consegue alcançar com grande esforço.

Há algumas noites, depois de longa conversa com minha mulher sobre o processo de criação de alguns textos, enveredei mais uma vez, durante o sono, para o meu labirinto pessoal. Deparei-me comigo, ainda criança: um menino de nove ou dez anos. Freqüentava uma escola dirigida por religiosas e, naquela manhã, chegando com outras crianças para a aula, percebi que o centro da escada de metal, por onde subíamos para entrar nas classes, fora retirado. Alcançando determinado degrau, eu tentava pular o vão que me levaria à parte superior da escada, mas meus esforços eram inúteis. Desci, então, resolvido a buscar um atalho, pois a aula começaria em poucos minutos. Nesse momento, uma freira se aproximou de mim e, demonstrando conhecer minha dificuldade, instruiu-me sobre o caminho alternativo. Mais trabalhoso, disse-me ela, com o sorriso que revelava a promessa de uma opção agradável, prazerosa. Eu deveria sair do prédio, orientou-me a irmã, circundá-lo, encontrar a fonte existente em algum ponto do terreno, mergulhar nela, atravessar a nado um trecho submerso e voltar à tona mais à frente, quando encontraria a entrada para a classe. Aceitei as orientações e, mesmo notando a existência de outra escada, esta semelhante à do sobrado em que passei minha infância, decidi seguir em frente. Cruzo o longo gramado que ladeia o prédio e encontro-me diante de uma fonte circular, na qual mergulho sem hesitação. Lá, sob a água cristalina e iluminada, em um espaço surpreendentemente amplo, deparei-me com o cenário deslumbrante: no centro havia uma coluna formada por outra qualidade de água, ainda mais transparente e mais luminosa do que aquela onde me encontrava; e por essa coluna subiam, rumo à superfície, exemplares – animados e inanimados – de tudo o que compõe a realidade. Esse conjunto imensurável vinha de uma região subterrânea, e cada exemplar demorava-se alguns segundos à minha frente, para depois continuar em sua rota ascendente. Alegremente atônito, deixei-me ficar ali, esquecido das aulas, maravilhado com o espetáculo. E foi com inigualável sentimento de completude que acordei.

Ainda sentado na cama, meus pensamentos dividiam-se entre buscar uma explicação para o sonho e, ao mesmo tempo, rememorá-lo sem perder os detalhes. Finalmente, poucos minutos depois, antes de iniciar os afazeres do dia, enquanto ainda concatenava minhas idéias, não sei quais associações fizeram-me lembrar do poema de Eugenio Montale:

Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:
o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, como um terror de bêbedo.


Depois como numa tela, acamparão de um jato

árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde já; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.


Com o livro de Montale aberto, meu primeiro pensamento dava-me a certeza de que a verdade não estava nas aulas que assistiria, se tivesse conseguido saltar de um trecho a outro da escada. A verdade jamais esteve no ambiente repressivo da classe de aula, com suas filas de carteiras paralelas e professores, a maioria deles, incapazes de me mostrar o que subsistia para além da lição diária. A quase alegria com que percebi a ausência dos degraus e o sentimento de inevitável necessidade de buscar outro caminho deflagraram a certeza de que eu não voltaria ali, de que uma experiência singular me aguardava. É certo: a verdade, sempre encontrei-a em outro lugar, oposto àquele apontado pela escola.


Foi fácil, portanto, recusar inclusive a segunda escada. Sua semelhança com a que existira na casa onde passei minha infância deixou-me desconfiado. E a repentina solução para um problema que, há poucos segundos, apresentava-se insuperável, contribuiu para que eu me afastasse dali, desprezando o atalho, movido pelo desejo de conhecer o ignorado.


Certamente não era à toa que as vestes da religiosa – notei bem enquanto ela me falava – refulgiam em um branco tão ofuscante quanto o que encontrei difuso na atmosfera do pátio gramado; e que, depois, se repetiria sob a água. Como se eu vivesse a manhã envolta no “ar de vidro” de Montale, empenhei-me naquela jornada, sob uma luz insólita e, em breve, com um novo olhar.


A intensa claridade abarca, de fato, esse sonho, tornando-o um rito de passagem no qual o cenário se impregna do branco como nos rituais de batismo. Todas as cores estão reunidas sob a alvura, a tonalidade que marca o amanhecer, quando a aurora reveste os seres, a vida, dessa coloração que nos prepara a um novo começo, desperta-nos da letargia noturna e nos estimula ao enfrentamento da existência. O branco está associado ao reinício, ao recomeço, ao renascimento que se segue à noite, à morte. Eu abandonava a penumbra fria do prédio escolar para ser impregnado pela luz, envolvido por uma claridade que chegava a ofuscar minha vista; mergulhava na fonte, onde a luz fundia-se à água, esta também um símbolo de regeneração. E o fazia não em qualquer lugar, não em um lago estagnado ou num mar tormentoso, mas sob as águas de uma imponente fonte circular; ela também, recordo-me, toda branca, agitando a água de forma inesgotável.


Ali, de volta ao começo, de volta ao elemento no qual tudo teve origem, vislumbrei o centro por onde passam as coisas e de onde elas convergem à vida. No centro do líquido translúcido conheci os elementos da realidade em sua forma original, primeva, quando ainda não estão nomeados, quando ainda não foram classificados e diminuídos pelo homem.


Mas, imerso na transparência, equilibrando-me sob a pressão da água, não apenas os elementos da vida mostravam-se novos. Eu também havia retornado à infância, quando tudo está por ser descoberto. E sentia-me – espectador e personagem do meu sonho – como se pudesse, a partir daquele momento, reiniciar minha trajetória e buscar o que, por acaso, houvesse perdido.


Meu sonho foi, logo, diferente do vivenciado por Montale, pois se o poeta vislumbrou o terror que se esconderia sob o que parece ser o real – para ele, o vazio, o nada –, eu me aproximei do reinício de tudo e percebi o oposto: a urgência de captar a verdadeira face da realidade.


Terminado o sonho, pressenti também ser tarde para retornar à mesmice da carteira escolar e das receitas oferecidas pelos homens que jamais “se voltam”. Talvez exatamente por essa razão tenha relembrado, ao acordar, o poema de Montale: porque, assim como ele, a partir daquele sonho – e em todas as manhãs, esforçando-me para repetir o ritual onírico de maneira consciente – eu devesse calar-me “entre os homens que não se voltam”, entre os homens que não sabem olhar, e carregar comigo “o meu segredo”...


A mensagem, certamente há muito dentro de mim, mas galvanizada pelo sonho, repete-me a necessidade de transpassar o real banalizado, esforçando-me por redescobrir a verdade das coisas. O sonho me diz que meu olhar deve despir a realidade da camada de fantasia que lhe pespegamos diariamente; que devo reiniciar meu exercício de observação a cada momento, a fim de redescobrir, sob a mesmice do cotidiano, o caráter inusitado do real.


Esta é a revelação do mundo onírico: devo obrigar-me a enxergar a realidade a partir do seu centro, de onde ela desborda para o que é habitual – resgatar a verdade preservada em cada elemento, seja ela trágica ou pueril, inocente ou terrível.


De todos os enigmas que a noite e o sono semeiam, de todos os sonhos que carrego comigo – um patrimônio que cabe à lucidez decifrar –, dessas imagens noturnas que sobrevivem durante a vigília, esta que acabo de descrever insufla em minha consciência também uma pergunta: o que será daquela criança, embevecida frente à coluna de luz e água por onde passa o universo? Ela não deveria retornar ao pátio gramado, ao convívio dos homens, e ali, dona agora dessa nova forma de olhar, dessa visão que lhe parece inaudita, transmitir os frutos da sua descoberta? Ou, como Montale, resta-lhe apenas viver solitária entre os homens, carregando o seu segredo?


Tal possibilidade, contudo, assemelha-se à segunda escada que surge em meu sonho, pois oferece uma facilidade ilusória. Se a conclusão de Montale à sua angústia é o poema – e não o silêncio –, então ele desejou oferecer aos homens uma tocha capaz de iluminar o desconhecido e diminuir a incerteza que, a cada esquina, nos aguarda.


Da mesma forma, estas linhas são uma pergunta e, também, sua própria resposta. Por meio delas retorno ao pátio ensolarado e busco meus semelhantes, disposto não a lhes denunciar, com pessimismo, a “ilusão costumeira” de Montale, mas pronto a redescobrir o real. E, principalmente, esforçar-me por revelá-lo com o vigor esquecido pela maioria.

fevereiro 03, 2010

Tardança

O caminhante noturno segue sua jornada descontínua e sem rumo. Ele volta, numa de suas viagens recorrentes, à casa da avó paterna. O velho sobrado está às escuras – e, passo a passo, enquanto se acostuma às sombras, ele descobre mudanças na arquitetura. A escada que leva ao sótão alargou-se, está mais firme. Apoiado ao corrimão, ele sobe, mas desta vez, à sua esquerda, onde no passado havia apenas a parede, agora se abre um vão gigantesco, profundo, no qual ele vê, lá embaixo, a sacristia de uma das igrejas que frequentou na juventude. Certo homem carrega os paramentos engomados, dos quais sobressai uma estola verde, e sorri, satisfeito por alguma razão, sem perceber o observador que, acima dele, acompanha cada um dos seus gestos. A luz que brota do vão ilumina os degraus; o viajante observa, sob seus pés, o detalhe das madeiras novas, infelizmente não envernizadas, e continua a subir. Fora do sonho, seguindo o viajante através do descampado de sua mente, o homem que sonha se pergunta sobre o sentido de o personagem se deparar, naquele trecho da escada, com a sacristia; mas, impedido de agir, de se manifestar, ele pode apenas inquietar-se, tamanha a sua fragilidade. Voltando a subir a escada, o viajante chega à parte do casarão que deveria estar exatamente abaixo de onde ele se encontra, mas isso não o incomoda. A esposa e a mãe estão ali, arrumando os armários, desfazendo malas e caixas, mas ele – e também o homem que sonha – é dominado por um único pensamento: quando sua avó chegará? E o que ela pensará de tudo aquilo? De todas aquelas mudanças? Aprovará que ele volte a morar ali? Com tais pensamentos, ele senta à beirada da cama de casal e, lentamente, vai sendo tomado pela angústia, como se previsse a chegada iminente da avó, que – e é isso o que realmente o incomoda – sabe impossível, ainda que desejável, pois ela está morta. Então, deita-se na cama e dorme, entristecido. O homem que sonha olha uma última vez as mulheres atarefadas e desperta. Cabe a ele toda angústia, agora.

junho 05, 2009

Os melhores dias

As manhãs frias lembram-me a infância. São recordações intensas, vívidas. Assim que desperto e começo a me levantar, vejo-me criança, colocando o uniforme no quarto ainda escuro e sentindo o impacto dos tecidos gelados contra a pele. Esse desconforto, no entanto, dura pouco. Eu me lavava com prazer na água que parecia quebrar entre os dedos, e a cada golpe do líquido no rosto, uma sensação de revigoramento me invadia, como se o choque de temperaturas expulsasse para sempre a morbidez noturna. Minha mãe esperava-me na cozinha, o café sobre a mesa. E enquanto ela tremia, eu já me tornara elétrico, alerta, falante. Poucos minutos depois, caminhava na 11 de Junho, observando as calçadas cobertas de orvalho, o verde das árvores impregnado de um brilho mais puro, e percebendo, a cada passo, a suave cumplicidade do sol. O verão desaparecera. Toda a natureza refreara seus ímpetos e eu não tinha de vencer o mormaço que embotava meu cérebro. Era uma alegria cruzar o jardim público vendo a massa encapotada de crianças e jovens, aquele mar azul-marinho de cabeças inclinadas sob o frio, enquanto eu me sentia renascer, pronto a qualquer aventura. Tudo se revestia de uma beleza nova, incluindo as meninas, obrigadas a usar a saia do uniforme, trêmulas e adoravelmente frágeis apesar das meias de lã e dos capotes. Olho pela janela as pessoas lá embaixo, centenas de agasalhos multicoloridos movendo-se na direção do metrô, e meu impulso é estar entre elas, deixando que o frio afague meu rosto, seguindo, alegre, movido pela urgência da fuga, rumo aos melhores dias da infância.

setembro 21, 2007


A descoberta


O céu da manhã está encoberto. A primeira percepção é de que não há sol. Vejo-me, ainda criança, no quintal da casa de minha bisavó, à procura de algo. Ela, no seu imutável vestido negro, altiva, orgulhosa, pronta a educar-me nas mínimas oportunidades, me observa, de pé no alto da escada que leva à cozinha. A cena tem tantos detalhes – o tanque em desuso à direita; o canteiro circular no centro, com as roseiras; o corredor lateral que leva à entrada –, tantas recordações miúdas, observadas enquanto vejo a criança brincar, que imediatamente penso se não seria esse o melhor início para um livro de memórias. Há um único gesto surpreendente, no final: arranco, de sob a soleira da porta do porão, um ramo seco, semelhante a uma forquilha. Experimento um júbilo incontrolável, pois se trata de um tesouro, sem dúvida, cujos poderes não posso conceber. Ergo os galhos retos, compridos, pálidos e pontiagudos, balanço a descoberta no ar, pleno de satisfação – e minha bisavó sorri, não de qualquer jeito, mas tenho certeza que ela pensa: "Finalmente, ele encontrou. Agora tudo está bem". De sonhos assim, nos quais me sinto recompensado pelas matriarcas que me educaram, eu jamais deveria acordar.

agosto 31, 2007

Passagem


Encontro meu filho no colégio. Há várias filas de alunos no amplo salão, e estou sentado, junto com outros pais, num local onde ele não pode me ver. De longe, percebo o quanto cresceu – está quase um adulto. Dá evidentes sinais de desconforto, contudo, olhando para os lados, o que interpreto como um pedido de ajuda. Ao mesmo tempo, os alto-falantes liberam uma estranha música, angustiante, pois sua letra se refere a alunos que serão expulsos da escola. Alguns deles, perfilados, passam a receber uma camiseta verde. Devem vesti-la sobre o uniforme e dirigirem-se a uma parte fechada do salão. À medida que presencio tudo, uma certeza cresce em mim: meu filho será expulso da escola – e assistirei a um vergonhoso auto-de-fé, cujo objetivo é humilhar os punidos. Desesperado, sem saber a quem recorrer, levanto e sigo para as filas, enquanto os alto-falantes silenciam e os jovens debandam. Meu filho vem na minha direção, acenando com a camiseta, que é apenas parte do uniforme do time de futebol, para o qual ele foi convocado. Abraço-o, conto-lhe minha confusão e ele ri. Sinto um profundo alívio. Mas no instante seguinte, dois mulatos se aproximam, tratando-o com estranha intimidade e usando o jargão que, imagino, é comum a certas igrejas evangélicas. Pergunto seus nomes. Eles mal se apresentam, embaralham uma desculpa e, nitidamente, inventam o nome do Seminário onde afirmam estudar. Observo, nos olhos injetados, a hipocrisia e a mentira que nadam com todo o vigor. Logo depois se despedem, mas tenho certeza de que já catequizaram meu filho. Quero alertá-lo sobre o comportamento dos dois, mas não há tempo: ele troca de roupa ali mesmo, pois o jogo vai começar. Olho para o seu corpo nu e me surpreendo. Havia me esquecido de que ele crescera, e esperava encontrar um pênis infantil. Mas vejo o membro adulto e fico alegremente surpreso, pois essa visão me dá a certeza de que ele pensa por si mesmo e não será influenciado pelos falsos catequistas. Ele parte, então, feliz, unindo-se aos amigos.

agosto 24, 2007

Quando não há retorno


Um homem caminha perdido entre as ruelas de uma cidade do Bahrein. Foi o ponto máximo ao qual ele conseguiu chegar em termos de estranheza. Ele veste uma longa túnica branca e caminha impassível entre a multidão que vocifera. Mais alto que a maioria das pessoas, ele vê as cabecinhas agitando-se por milhares de coisas banais. Não está somente acima delas, mas além: os passos lentos, o olhar que cruza o oceano de inútil azáfama, os braços e seus movimentos quase imperceptíveis. Então se lembra de Kit, a heroína de O céu que nos protege, que há muitos anos ensinou-lhe a terrível lição: "De um certo ponto em diante não há retorno; este é o ponto a ser alcançado". Em sua irremediável solidão, sabe que lhe restaram os livros e sua consciência, sua lucidez, e recorda-se do dedo de seu pai, o indicador, com o qual ele batia contra a própria testa, repetindo: – O que você tem aqui dentro, ninguém pode arrancar. E essa imagem o faz lembrar da citação tantas vezes relida, que resume a verdade capaz de lhe conceder equilíbrio: "Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre". O homem segue seu caminho. Não está mais no Bahrein. Pode estar em qualquer ponto da Terra. Está vivo – ainda caminha acima e além da maioria. E sabe que precisa escrever.

agosto 20, 2007

Corporações de ofício


A praia, na forma de uma enseada, cheia de pessoas. Elas parecem caminhar a esmo, cabisbaixas. Parecem estar perdidas. Não se interessam pelo mar, sequer experimentam a temperatura da água. As ondas seguem seu ritmo e as pessoas vão e voltam, desorientadas. É o fim da tarde, prestes a anoitecer. Algo me diz que há um movimento grevista sendo preparado. Logo a seguir, em outro ambiente, talvez minha casa, talvez não, um homem – e sua indefectível mecha grisalha no cabelo – anuncia na tevê que "o governo decidiu extinguir as corporações de ofício". O programa jornalístico prossegue e agora tenho certeza: estou na sala do sobrado em que passei a infância, com os mesmos móveis, a mesma televisão, a cortina atrás da qual nos escondíamos. Mas experimento uma funda estranheza, pois a expressão "corporações de ofício" parece-me completamente fora de lugar. Surge diante de mim a imagem impossível de um Marco Polo grevista, de um Lorenzo de Médici presidente da Fiesp e os pensamentos se embaralham. Súbito, percebo que tudo está errado – a praia, a notícia e o fato de eu estar ali –, tudo está fora de lugar. O estranhamento se torna pungente – e acordo.

agosto 15, 2007

Esquecimento


Não recordar-se dos próprios sonhos é errar o caminho que nos traz do mundo onírico à vigília. Ao caminhante noturno foi recomendado que não parasse em lugar algum, não obedecesse a qualquer dos seus sentidos, muito menos a sua curiosidade, mas ele falhou, certamente. Não se trata apenas de ter perdido a informação que, refazendo-se o percurso, poderá ser reencontrada, mas de experimentar a perda sem solução, pois nenhum guia noturno o levará a repisar suas próprias pegadas, de maneira a experimentar novamente o que viveu e sentiu ao passar por aquele trecho. Não lembrar de seus sonhos – tendo certeza que sonhou – talvez seja uma espécie de autocensura, talvez uma recriminação inconsciente, e por isso mesmo inaceitável. O coma, ou melhor, o tempo vivido em uma UTI, durante o qual vagamos entre o longínquo barulho dos aparelhos e a visão entrecortada daquele mundo sem dias ou noites, assemelha-se ao esquecimento do sonhado. Ainda levará uma hora para amanhecer. Como o herói que detém apenas um quarto do mapa do tesouro, que ele estuda repetidas vezes, sem conseguir identificar o Norte ou o Leste, assim inicio o dia, certo de ter perdido o essencial, esvaziado do patrimônio que jamais recuperarei.

agosto 06, 2007


O irremediável


A criança azul está diante de mim, vestida como todos os bebês que estão prontos a deixar a maternidade. Seu rosto azul se contorce, ela resmunga, agitando o corpinho em movimentos desconexos. Olho-a demoradamente, estendida sobre um balcão de metal. Analiso o porquê do azul, se a criança respira e apresenta todos os reflexos. Ao mesmo tempo, por trás desses raciocínios técnicos, um pensamento me incomoda: a persistente comparação que faço, lembrando-me do Menino com cachimbo, de Picasso. Serei um médico? Algum tipo de enfermeiro? Ou mero curioso? Talvez, um intrometido. Os pais, de pé, aguardam do outro lado do balcão. Mas não esperam que eu libere a criança. Querem, antes, um diagnóstico. Argumento com eles, tento explicar as possíveis causas – das quais não me recordo agora –, e a cada justificativa, como se fossem médicos, eles rebatem minhas alegações. O que seria, aparentemente, uma consulta final, rotineira, torna-se uma discussão. O bebê chora, esperneia. No rosto azul, irrompe a boca aberta, vermelha, a lingüinha brilhante agitando-se como um peixe que acaba de saltar para fora do aquário. Não escuto os pais. Olho a criança e me preenche o sentimento do irremediável: terá de ser azul por toda a vida. Não há o que fazer. Sofro pelo bebê. E sinto-me derrotado. Então, acordo.

julho 25, 2007


Encontros no limbo


'[...] Da iungere dextram,
da, genitor, teque amplexu ne subtrahe nostro.'
Sic memorans, largo fletu simul ora rigabat.
Ter conatus ibi collo dare brachia circum,
ter frustra comprensa manus effugit imago,
[par levibus ventis volucrique simillima somno.]

'[...] Permite, ó pai, permite que eu aperte tua mão direita,
E não te esquives do meu abraço.'
Enquanto assim falava, regava o rosto com copiosas lágrimas.
Três vezes tentou ali cingir o pescoço (do pai) com os braços,
três vezes a imagem em vão agarrada fugiu-lhe das mãos,
[igual aos leves ventos e mui semelhante ao sono volúvel.]

Eneida, Livro VI – Virgílio (tradução de Herbert Caro)


Há mais de vinte anos, quando meu pai, depois de prolongada doença e várias cirurgias, preparava-se para uma nova operação, comecei a ter sonhos nos quais ele era a figura central.

O primeiro deles, ocorrido horas antes daquela que seria sua última intervenção cirúrgica, nasceu impregnado por pressentimentos. Encontrei meu pai em um lugar indefinido e, logo de início, me surpreendi com sua nudez. – O que o senhor está fazendo? – perguntei. E ele me respondeu, usando seu meio sorriso, que lhe retorcia delicadamente o canto direito da boca, concedendo-lhe às vezes um ar infantil, às vezes irônico: – Eu? Estou indo embora – e simplesmente me deu as costas, caminhando em direção ao nada. Permaneci atônito durante alguns segundos, mas consegui exclamar: – Mas e eu?! – Ao que ele respondeu, apenas virando um pouco o rosto: – Você? Depois a gente se encontra... – e logo a seguir acordei.

A operação estava marcada para aquela manhã e ele permanecia internado em São Paulo. Eu ainda morava em Jundiaí, com minha avó paterna, e, assim que acordei, fiz um telefonema para o hospital, sendo informado de que tudo corria bem. Horas depois, contudo, terminada a cirurgia, ele sofreu uma parada cardíaca e entrou em coma.

Seguiram-se quinze dias de visitas à UTI, com todo o desgaste emocional a que essas situações nos submetem. Quinze dias de inútil sofrimento para a família, enganada pelas falsas esperanças dos médicos, pois semanas mais tarde, um cirurgião nosso amigo, ao saber das reações mínimas que meu pai apresentava durante o coma, explicou-me claramente as diferenças entre os tipos de reflexos, mostrando-me que o quadro era, desde o primeiro momento, irreversível.

Uma semana após o enterro, quando, pouco a pouco, minha família e eu começávamos a superar a dor não só da morte, mas dos longos meses acompanhando a derrocada daquele obstinado hedonista, voltei a sonhar com ele. E agora os sonhos apresentavam estranhas características.

Não eram, digamos, sonhos clássicos, mas visitas, encontros quase palpáveis. Tenho a impressão de que ele chegava nas primeiras horas da manhã, mas não podia vê-lo. Sabia que estava lá, oculto numa espécie de limbo, separado de mim por uma zona escura, pois era possível ouvir as aspirações e expirações curtas, rápidas, ofegantes. E o mais terrível: seu cheiro – o mesmo odor azedo que, tarde após tarde, sentira ao me debruçar sobre sua cama, na UTI – recendia de maneira tão penetrante que eu começava a chorar, perdido entre o sonho e a vigília, entre a presença onírica e o contato de meu corpo com os lençóis ou o travesseiro. Ouvindo meus próprios soluços, lutando para acordar, eu me libertava por fim, mas subjugado pela angústia.

Sete dias seguidos acordei desse modo, com aquele cheiro tão presente que parecia ser possível estender a mão, transpor a sombra e tocar meu pai. Uma semana inteira ouvindo-o agonizar.

Foi no oitavo dia que tudo se resolveu, mas de uma forma ainda mais perturbadora. Preso àqueles momentos imprecisos, entre o sono e o despertar, senti que ele se aproximava novamente, pois o odor ganhava força a cada segundo. E quando previa a audição dos estertores, ouvi sua voz, límpida, apesar de cansada. Daquele espaço imaterial, ele disse pausadamente, semelhando uma antiga gravação: – Avise a todos que agora estou bem. Agora pude descansar – e o sonho nunca mais se repetiu.

Já escutei várias explicações para esses encontros – dos psicanalistas freudianos aos espiritualistas de diferentes facções –, mas nenhuma delas me importa. Eles representam minha cota da herança paterna, completada por alguns livros e certas lições de ética. Nossa separação não poderia ser diferente, precisava estar marcada por esse rito de passagem, sucessivas revivescências daquele fim sempre inaceitável, até que descansássemos: ele, tornando-se uma lembrança; eu, lentamente aprendendo a viver sem suas certezas.

Um ou dois meses mais tarde, voltei a sonhar com meu pai. Em algum ponto no teto de um túnel revestido por azulejos brancos, na posição de um observador privilegiado, eu o vi passar lá embaixo, caminhando solitário, ereto, nu, vagarosamente, mas sorrindo.

(Agradeço ao Marco Polli, que, numa conversa informal, via e-mail, me fez recordar desses sonhos.)

julho 18, 2007


A busca


Dentre os sonhos recorrentes que tenho, principalmente um me coloca em estado de perplexidade logo no primeiro momento da vigília, quando retorno ao inevitável cotidiano, onde nenhuma das possibilidades do mundo onírico se realiza.

Nesse sonho, estou na entrada do porão da casa de minha bisavó paterna. A cena começa exatamente ali, repetindo os gestos que cansei de fazer durante a infância: retiro a chave dependurada no batente, coloco-a na fechadura e, com um único giro, a porta se abre. Imediatamente, sinto o cheiro adocicado de BHC, um odor úmido, e o ar levemente pegajoso que vem do ambiente escuro.

O segundo movimento é localizar, na parede à esquerda, entre a estante e o batente, o interruptor de luz. E a seguir, entrar. A lâmpada, fraca, mal ilumina as porcelanas e os vidros nas prateleiras, além dos caixotes empilhados e recobertos de pó. No entanto, o que procuro não está ali, mas no cômodo ao lado, que ainda permanece escuro.

Não sinto calor ou frio, apenas uma expectativa controlável, pois estou certo de que ele se esconde no quarto vizinho, sob a escuridão. Então penetro naquele lugar ainda mais úmido, e é difícil descobrir o interruptor, que não passa de uma delicada corrente presa à lâmpada, no centro do cômodo. A mão cega apalpa a escuridão. Por um segundo, a ansiedade transforma-se numa espécie de medo, talvez o receio de que minha busca – e o encontro certo – não se concretizem, somente pelo fato de eu não conseguir acender a luz. Mas encontro a correntinha e puxo-a – e imediatamente vejo os caixotes de livros no chão.

Sei exatamente o que venho buscar: o livro acima de todos os livros: um manual completo sobre a existência e, ao mesmo tempo, um guia para a difícil, emaranhada tarefa de viver. Tenho certeza de que está ali, aguardando-me. Não uma obra mágica, mas apenas um conjunto de páginas recoberto por duas capas envelhecidas, no qual se esconde a síntese da experiência humana.

Vasculho os caixotes lentamente, retirando os livros, um a um. Não sei o título da obra e, muito menos, seu autor. Estou certo, apenas, de que está ali. O tempo da busca dura a eternidade do sonho. Não há pressa. Sinto-me seguro naquele porão, repetindo os gestos que fiz centenas de vezes. Sei que os adultos estão na parte de cima da casa, principalmente minha bisavó, vestida no seu luto perpétuo, desde a morte prematura de meu tio-avô, mas sem nunca se abandonar à tristeza, com seu porte altivo, a redinha prendendo os cabelos, os olhinhos atentos a tudo e a língua ferina, quando se trata de falar dos políticos. Assim, trata-se apenas de não desistir. Encontrarei o livro-chave, o livro-totalidade, graças a essa busca estranha, durante a qual experimento, antecipadamente, o prazer de encontrar o que procuro, tamanha é a minha certeza.

E então, do fundo de um caixote de madeira, sob a pilha de livros inúteis, retiro aquele que me revelará o segredo de viver. Nem pesado nem leve, segurá-lo guarda o mesmo prazer que sinto ao encontrar, em um sebo, a obra há vários anos desejada. O papel marmorizado da capa é repleto de círculos pequenos cor de vinho, dispostos aleatoriamente sobre um fundo amarronzado. O cheiro de BHC torna-se ainda mais intenso quando aproximo o volume dos olhos, estou pronto a abri-lo, toco a ponta da capa com os dedos e começo o gesto de erguê-la – mas acordo.

Despertar, ver-me em meu quarto, ser arrojado para fora do sonho, sem dúvida é frustrante. Mas não há qualquer angústia. Naquele primeiro momento da vigília – ainda atônito por ter percorrido novamente as etapas conhecidas do sonho e, mais uma vez, acordado antes de abrir o volume –, tenho certeza de que outra oportunidade surgirá, de que, de alguma maneira, aquele menino permanece preso à sua vida onírica, pronto a repetir os mesmos gestos e encontrar outra vez o livro. E, quem sabe, algum dia permitir que eu leia ao menos o título, talvez a primeira linha.