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| Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais |
Uma das principais
dificuldades do escritor principiante é exatamente escrever.
Não, isto não é
uma piada. Eu não estou brincando.
Você quer escrever, mas não consegue. Deseja sinceramente ser escritor, mas encontra barreiras, obstáculos que parecem intransponíveis.
Do que converso
com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:
a)
você não consegue escolher uma das
várias histórias que gostaria de contar;
b)
quase sempre, você não tem um
interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar
com você sobre diferentes questões;
c) os escritores que
você admira dançam na sua mente num festim
macabro, tentando se impor como modelos;
d) as dúvidas em
relação ao uso correto da língua travam
sua espontaneidade;
e) você escreve
para ninguém.
Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:
1.
Antes de tudo, é preciso imaginar um
leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso
— mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.
Você sabe, no
fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E
talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar
a resolver um problema, pessoal ou não.
Perceba que não se trata de escrever para agradar
esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a
história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor
imaginário.
2.
Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o
tema se apresente de imediato. Na verdade, tema
e leitor estão intimamente ligados.
Mas se várias
histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.
3.
Determine seu período de trabalho — ou o número de palavras que você vai
produzir diariamente.
Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil
palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.
Estabelecida a
produção diária, sente e escreva. Apenas
escreva.
Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.
Não se preocupe se
o maldito Word vai sublinhando as
palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se
“exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.
Não se preocupe se
as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita,
irretocável.
Apenas escreva. Esta é a primeira etapa do processo. Só a
primeira etapa.
4.
Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.
A originalidade,
da forma como é pensada hoje, não passa
de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou
alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.
Livre-se do peso da originalidade.
Lembre-se do que
André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é
preciso dizer de novo”.
Texto a texto,
leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”,
seu próprio estilo.
5.
Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.
Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo
escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes
das suas.
Escolha uma pessoa
que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que
mereça sua confiança.
Nesta primeira etapa do trabalho, o que você mais precisa são leitores comuns.
— Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.


