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novembro 15, 2014

Literatura não é geração espontânea

Ler bons escritores e aprender com eles não significa copiá-los a vida inteira
Entre 2011 e 2012, um jovem amigo me procurou para falar sobre o curso que havia feito: um workshop de criação literária, cujo professor era — ainda é — um escritor de fama razoável. Notei, ao telefone, que havia certa urgência na voz dele; e marcamos um café para o dia seguinte.

Meu amigo estava angustiado. Como todo o jovem que escreve e deseja se aperfeiçoar, ele queria mais do que um curso: queria um norte, alguém experiente que lhe dissesse “siga por aqui”. Mas o workshop, que havia durado 4 horas, fora decepcionante.

Logo que sentamos à mesa, ele disse: “Sabe como o curso começou? Sabe qual foi a primeira coisa que ele falou?”. Eu respondi: “O quê?”. Meu amigo, com os olhos saltando e a boca cheia de indignação: “Ele foi para o meio da classe, ergueu os braços e falou como se fosse Moisés no alto do Monte Sinai: — Esqueçam tudo que vocês leram até hoje! Esqueçam todos os escritores que existiram antes de vocês! Vocês são os primeiros escritores na face da Terra! E hoje vão aprender que não existe, nunca existiu e jamais existirá um escritor melhor do que vocês!”. Eu já estava rindo, mas respondi: “Não acredito...”.

Os detalhes do cursinho, alguns insanos, não cabem aqui. Mas depois do café, no metrô de volta para casa, comecei a pensar em tudo. Não era possível que um escritor se dispusesse a começar seu workshop enganando os alunos. Aquela proclamação inicial não havia sido um conjunto de frases de efeito — ele realmente insistiu que os jovens deveriam parar de ler, pois “não podiam seguir modelos”.

Quando desci na estação perto de casa, já havia planejado o meu próprio workshop. Foi assim que nasceu o curso Bases da Criação Literária e todos os outros: com o objetivo de ir na contramão do que se ensina atualmente; mostrar aos alunos que não é possível começar do nada; que literatura não é geração espontânea; que ler os bons escritores e aprender com eles não significa copiá-los a vida inteira. E, principalmente, que existem forças, elementos que estão sempre presentes quando escrevemos — e ter consciência deles amplia o poder do escritor sobre o seu próprio processo criativo.

março 10, 2014

Cursos on-line: a literatura como forma de realização pessoal

A internet permite hoje uma comunicação direta, clara – e com abrangência crescente. Quem imaginaria, há vinte anos, que um curso ministrado de algum ponto perdido no planeta poderia ser visto, ao vivo, por milhares de alunos de todos os continentes?

Nos últimos semestres, tenho realizado uma experiência frutuosa com meus cursos on-line. Semelhante ao que faço na crítica literária, busco romper com os lugares-comuns que hoje são disseminados em cursos e workshops. É um trabalho no qual abandono os modismos e procuro ensinar literatura sem jargões acadêmicos, sem discursos herméticos, mas tratando a literatura como “uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um” – idéia de Tzvetan Todorov que endosso plenamente.

Estes são os cursos disponíveis até o momento:

1. Bases da Criação Literária: estudamos, em 4 aulas, os elementos que compõem a criação literária, antecedendo-a ou fazendo parte intrínseca dela: qual a relação do escritor com a realidade? A inspiração é um mito? Qual a importância da ética e da tradição? Como a privação ou a derrota influenciam a criatividade?

2. Prática de Leitura e Formação do Estilo: em 12 aulas, mostro que precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo em relação à linguagem. E, o principal: quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, entendida como ferramenta indispensável para a) descobrir as possibilidades expressivas da linguagem e b) absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

3. A Descoberta do Ensaio: analiso diferentes tipos de ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho. Por meio da leitura crítica de 13 ensaístas, os alunos conhecem procedimentos estilísticos diversos e reúnem elementos que contribuam à formação do próprio estilo.

4. Joseph Conrad: em 4 aulas, desenvolvo a leitura crítica de algumas das narrativas fundamentais do escritor Joseph Conrad. O que ele tem a dizer para o homem contemporâneo? E para os escritores de hoje? São as duas perguntas que norteiam as leituras dos contos Mocidade e O Parceiro Secreto, da novela O Coração da Treva e do romance O Agente Secreto.

5. História da Literatura Ocidental — o magnum opus de Otto Maria Carpeaux: o curso, num total de 14 aulas, começa nesta próxima quarta-feira, dia 12 de março. Iniciaremos pela biografia de Carpeaux, até hoje nebulosa, a fim de, inclusive, contextualizar seu trabalho no panorama literário nacional. A seguir, examinaremos suas influências – de Johann Gottfried von Herder a Benedetto Croce e Ángel Valbuena Prat – e a idéia de história da literatura que ele planejou escrever. Depois, estudaremos as 10 partes que compõem a História da Literatura Ocidental, analisando o método e o estilo de Carpeaux.

Outro aspecto positivo da Internet é que meus alunos não são obrigados a assistir às aulas ao vivo, pois vídeos e material didático permanecem gravados no site – e os cursos podem ser feitos a qualquer momento.

Observação: – Para esclarecer dúvidas e analisar a ementa de cada curso, basta seguir os links presentes na minha página no Cedet On-line.

fevereiro 24, 2014

Por que estudar a “História da Literatura Ocidental” de Otto Maria Carpeaux?

Carpeaux recusava a história literária que fosse um “mausoléu de falsas celebridades” e pretendia recriar a proposta dos grandes pensadores românticos, como Friedrich Schlegel, partindo do princípio de que “nada do que o tempo criou jamais perde o valor; continua a agir em nós, de modo que o fio cronológico dos fatos é, ao mesmo tempo, a árvore genealógica das obras do Espírito”.

Contra o “mausoléu”, contra uma história literária que fosse apenas recuperação dos acontecimentos literários segundo um fio cronológico e biobibliográfico, Carpeaux propôs um trabalho de síntese que estudasse “a literatura como expressão estilística do Espírito objetivo, autônomo, e ao mesmo tempo como reflexo das situações sociais”. Ele desejava manter a ordem cronológica, mas “só de maneira muito geral”, e apresentar a literatura “conforme os grandes movimentos estilísticos e ideológicos da história espiritual européia”.

Ao seguir esse método, Carpeaux criou a obra paradigmática que analisarei, a partir do próximo dia 12 de março, em meu novo curso: História da Literatura Ocidental — o magnum opus de Otto Maria Carpeaux”. As inscrições estão abertas e todas as informações estão neste link ou diretamente com o Cedet On-line (neste e-mail: livros@cedet.com.br ou neste telefone: 19-3249-0580).

janeiro 08, 2014

“Nada pode destruir o bom escritor” — William Faulkner

Trechos antológicos da entrevista que Faulkner concedeu a Jean Stein Vanden Heuvel, da Paris Review, em 1956:

Como se tornar um bom romancista

Noventa e nove por cento de talento... noventa e nove por cento de disciplina... noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo.

A experiência do fracasso

Todos nós fracassamos em realizar nosso sonho de perfeição. De modo que estimo a nós todos com base no nosso esplêndido fracasso em realizar o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda a minha obra de novo, tenho certeza de que faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele continua trabalhando, tentando, tentando de novo; ele acredita que dessa vez irá conseguir, irá realizar o que quer. É claro que não conseguirá, é por isso que essa condição é saudável.

Sucesso, adversidade e pobreza

O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. [...] As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro.

janeiro 07, 2014

“Em tudo o que é linguagem humana sorri a morte” — Hermann Broch

“A metáfora ainda não é o conhecimento, não, segue ao conhecimento, porém às vezes o precede, como um pressentimento ilícito, imperfeito, que somente é utilizado pelas palavras, e então, ao invés de adentrar-se no conhecimento, se plantará à frente dele, encobrindo-o, qual biombo escuro.

[...]

Somente por metáforas pode-se captar a vida, só por metáforas se pode expressar a metáfora; a cadeia das metáforas não tem fim, e unicamente a morte carece delas, a morte rumo à qual se estende essa cadeia, como ao seu último elo, que, no entanto, já se achasse fora dela,... como se todas aquelas metáforas estivessem formadas exclusivamente em prol da morte, a fim de apanharem, apesar de tudo, a sua ausência de metáforas, sim, como se só por meio dela a língua pudesse reobter sua simplicidade original, como se a morte fosse o lugar de nascimento da linguagem terrenamente singela, do símbolo mais terreno  e todavia mais divino: em tudo o que é linguagem humana sorri a morte.”

— Hermann Broch em A Morte de Virgílio, obra que estudamos na 8ª aula do curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”.

novembro 18, 2013

Para iniciar o projeto Relendo os Clássicos, um curso sobre Joseph Conrad

Como anunciei aqui em agosto, já está no ar o primeiro curso da série “Relendo os Clássicos” – e começamos com Joseph Conrad. São 4 aulas, em que falo sobre o romance O Agente Secreto, a novela O Coração da Treva e os contos Mocidade e O Parceiro Secreto. As inscrições podem ser feitas na página do Cedet On-line, na qual se encontram informações detalhadas.

outubro 22, 2013

Literatura, crítica literária e muito mais

Nos últimos vinte dias, concedi três entrevistas, nas quais falo sobre crítica literária, meus cursos on-line, ensino de literatura nas escolas e nas faculdades, e-books, poesia, escrita criativa e muito mais. Para os que desejarem conhecer um pouco de minhas idéias, estes são os links:

outubro 07, 2013

Como pensa um esquerdista?

Você deseja entender como pensa um esquerdista? Quer compreender a mentalidade revolucionária? Então, leia O Agente Secreto, de Joseph Conrad, publicado em 1907. Baseado em fatos reais – um atentado anarquista ocorrido em Londres, no ano de 1894, e que provocou a morte de seu autor, o francês Marcial Bourdin –, trata-se de um dos grandes romances políticos da literatura ocidental, comparável a O vermelho e o negro, de Stendhal, Os demônios, de Dostoiévski, Princesa Casamassima, de Henry James, ou O Zero e o Infinito, de Artur Koestler. Conrad faz uma análise implacável da “sangrenta futilidade” e da “irracionalidade malévola” dos movimentos revolucionários – e nos mostra como “o caminho da revolução, mesmo a mais justificável, é preparado por impulsos pessoais disfarçados em credos”. 

Esse e outros textos de Conrad serão analisados por mim no projeto “Relendo os clássicos”, sobre o qual já falei neste blog e que logo estará disponível no Cedet On-line.

agosto 21, 2013

Cursos on-line de literatura – rompendo com o lugar-comum

Meu projeto no Cedet On-line tem, desde o início, a mesma estratégia: romper com os lugares-comuns que hoje são disseminados em cursos e workshops.

É um trabalho à contracorrente, no qual abandono as receitas em voga, ensino literatura sem jargões acadêmicos, sem discursos herméticos, repetindo o que faço na crítica literária: tratar a literatura como “uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um”, para usar o lúcido pensamento de Tzvetan Todorov.

A parceria já rendeu os cursos “Bases da Criação Literária”, “Prática de Leitura e Formação do Estilo” e “A Descoberta do Ensaio”, que começamos na semana passada. Os alunos não são obrigados a assistir às aulas ao vivo, pois a Internet apresenta, dentre outros, um aspecto extremamente positivo: aulas e material didático ficam gravados no site – e os cursos podem ser feitos a qualquer momento.

Novos cursos virão, para escritores e leitores, para quem deseja aperfeiçoar a técnica de escrita, conhecer literatura ou apenas ler com maior profundidade. E sem jamais tratar a obra literária como insignificante exemplo de visões formalistas, niilistas ou solipsistas – mas inserindo-a sempre na totalidade da experiência humana.

agosto 13, 2013

“O escritor é uma espécie de jejuador perpétuo”


Poucos, na literatura brasileira, compreenderam os sábios conselhos de Augusto Meyer em sua Epístola a Porfírio:
 
“[...] Aprender a escrever é aprender a escolher, cheirar, pesar, medir, sacudir antes de usar, apalpar, comparar e afinal rejeitar muito mais que adotar linguarudas famílias de palavras, que atravancam a memória e impedem que a gente se ouça um pouco, nos raros momentos de diálogo e murmúrio subjetivo. Para mim, o escritor é uma espécie de jejuador perpétuo: condenado a transformar toda a exuberância da vida em dois ou três compassos da sua música interior, inatingível na essência mais profunda, jejua à mesa posta dos seus desejos, castigando com cilício as luxúrias do verbo. [...]”.

junho 25, 2013

Novo curso: A Descoberta do Ensaio

Neste novo curso, que começa em agosto, estudaremos o ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho.

Nosso método de estudo consistirá na leitura crítica de 13 ensaístas, com o objetivo de conhecer procedimentos estilísticos diversos e reunir elementos que contribuam à formação do estilo pessoal de cada aluno. Serão, ao todo, 14 aulas.

Ao final do curso, proporei um exercício de redação – e comentarei, por escrito, os trabalhos apresentados. O Cedet fornecerá um certificado de participação para quem cumprir essa atividade.

As inscrições estão abertas – e podem ser feitas por telefone (19-3249-80) ou por e-mail: livros@cedet.com.br.

Vejam a ementa:

1ª aula: O ensaio, forma que se recusa a ser exaustiva.
2ª aula: Nascimento do ensaio moderno – Michel de Montaigne.
3ª aula: A busca da totalidade – Santa Teresa D’Ávila.
4ª aula: Temas ou pretextos para um ensaio – Charles Lamb.
5ª aula: Reflexões sobre a formação do próprio “eu” – Edmund Wilson.
6ª aula: A crítica literária muito além da obra analisada – Erich Auerbach.
7ª aula: Reflexões sobre a própria obra – Henry James.
8ª aula: Quando a oratória não é apenas retórica – Jorge Luis Borges.
9ª aula: Crítica social: desnudando as circunstâncias – Olavo de Carvalho.
10ª aula: O impacto do encontro – Isaiah Berlin.
11ª aula: Ensaio e jornalismo – Joseph Roth.
12ª aula: A prosa poética como locus amoenus – Claudio Magris.
13ª aula: A recusa da irreflexão: desconfiar das ideologias – Russell Kirk.
14ª aula: Reler os clássicos – T. S. Eliot.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet, na qual se encontram também informações sobre preço, formas de pagamento e inscrições.
 
Os cursos anteriores – “Bases da Criação Literária” e “Prática de Leitura e Formação do Estilo” – ainda podem ser feitos por quem se interessar, pois as aulas foram gravadas.

maio 15, 2013

Contradições e a arte de escrever em Theodor Adorno


Em alguns dos fragmentos que compõem Minima Moralia, Theodor Adorno fala sobre a escrita. No seu estilo muitas vezes seco, sempre a um passo de se tornar hermético, ele parece acreditar no que expõe: “Faz parte da técnica de escrever ser capaz de renunciar até mesmo a pensamentos fecundos, se a construção o exigir. Sua plenitude e sua força beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos. Como à mesa, não se deve comer até os últimos bocados, nem beber até o fim. Do contrário, nós nos tornamos suspeitos de pobreza”.

É o Adorno burguês quem fala nesse trecho do fragmento 51 – burguês no sentido flaubertiano do termo, aquele que realmente acredita ter abertura de espírito, mas só consegue destilar preconceito. Na verdade, exagera apenas para justificar seu próprio estilo, como, aliás, já fizera pouco antes, quando argumenta que o escritor deve “verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez”.

Ora, angústias desse tipo servem à criação de textos fracionários. Há uma divagação – ou, melhor, uma circum-navegação – que não é de todo ruim: recorrer, por exemplo, a outras referências, que aparentemente se distanciam do tema central, apenas para iluminá-lo melhor.

Todo texto exige, em alguma medida, certa retórica. O próprio Adorno não pôde evitá-la. Nesse mesmo fragmento, gasta cinco linhas para compor uma bela metáfora, cuja função é, inclusive, demonstrar que ele sabe escrever direito: “Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas. Os materiais afluem facilmente para eles”.

As duas frases finais não seriam desnecessárias? Elas repetem, com outras palavras, o que está sintetizado nas duas iniciais – mas Adorno não teme usá-las; e, vaidoso, “come até o último bocado, bebe até o fim”. Mas isso é Adorno. Como todo marxista, contraditório.

Na verdade, não se deve “renunciar aos pensamentos fecundos”. Se eles podem, de fato, conectar-se ao tema central, por que não readequar o todo, por que não reescrever e reescrever até atingir o que efetivamente pretendemos?

Mas, sejamos justos, Adorno também acerta. “Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em cem alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível de texto” – conselho corretíssimo. Da mesma forma que é acertada sua observação sobre os lugares-comuns, muitas vezes “associações de palavras” nas quais “murmura o fluxo indolente de uma linguagem insípida”.

Entretanto, é pena que – ele chega a citar Karl Kraus – sua análise do clichê seja superficial. Mas não poderia ser de outro modo. Adorno não tem como evitar a vagueza, não pode retomar as críticas severas que Kraus fazia à linguagem submetida à ideologia, pois isso significaria ter de atacá-las, a fim de defender o marxismo...

Aliás, é o militante esquerdista quem afirma, no mesmo fragmento: “O sonho de uma existência sem ignomínia, ao qual a paixão pela linguagem se apega quando já não se pode mais representá-lo enquanto conteúdo, deve ser estrangulado com pérfida alegria”. Aí está o pensamento revolucionário, em permanente luta com a realidade, sempre pronto a substituí-la por seus próprios sonhos. O marxista precisa acreditar que a existência só é possível com ignomínia – e deve recusar a linguagem que pretenda reafirmar a dignidade e a glória da vida. Se não o fizer, como justificará a absoluta necessidade da utopia? Se não o fizer, não poderá justificar o que mais defende: que todos os meios são aceitáveis para construir o Paraíso aqui e agora.

Para Adorno, “o escritor não pode aceitar a distinção entre a expressão bela e a expressão adequada ao assunto. [...] Se consegue dizer inteiramente o que pretende dizer, então é belo o que diz”. Mas, logo depois, o militante tenta derrotar o esteticista: “Quem todavia, sob o pretexto de servir com abnegação a uma causa, negligencia a pureza de expressão, está por isso mesmo traindo a própria causa”. O contraditório marxista não sabe o que fazer: primeiro, a beleza é uma categoria que só pode ser medida pela vontade do próprio escritor; depois, há uma “pureza de expressão”, mas que não é definida.

Podemos aproveitar, contudo, os trechos felizes, como este: “O envolvimento afetivo com o texto e a vaidade tendem a diminuir a escrupulosidade. O que se deixa passar apenas como uma dúvida insignificante pode tornar manifesta a falta de valor objetivo do todo”. Quase sempre esquecidas, as duas frases deveriam permanecer à vista de todos os que são ou almejam ser escritores: render-se à vaidade é perder o rigor.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

abril 16, 2013

Muito mais que linguagem

Um curso sobre prática de leitura e formação do estilo pode ter inúmeras utilidades. É o que experimentamos, meus alunos e eu, nas últimas semanas, dialogando com Homero, W. B. Yeats, Italo Calvino, Paul Valéry e tantos outros autores. Contudo, a lição que mais nos estimula é perceber, a cada aula, como Roland Barthes estava errado: numa narração não há apenas “a aventura da linguagem”, ainda que a retórica barthesiana, sempre pronta a querer nos iludir, insista, subindo o tom: “a incessante celebração do advento da linguagem”. Belas palavras, mas, como em todo exercício de retórica, no fundo não refletem a realidade, são apenas um adereço que busca seduzir, convencer sem provar.
 
Na verdade, a cada aula redescobrimos que a literatura é “o dispositivo mais importante da civilização para aprender o que deve ser afirmado e o que deve ser negado”, como disse John Gardner, pois não há literatura desvinculada do real, apartada do contexto das nossas escolhas pessoais, da nossa vida. Ou, nas claríssimas palavras de Matthew Arnold: “A vida diária de um homem, em sua solidez e valor, depende de se ele lê nesse dia; e ainda muito mais do que ele lê durante esse dia”.

março 25, 2013

Prática de Leitura e Formação do Estilo – 3ª aula

Hoje, às 20h30, teremos a terceira aula do curso Prática de Leitura e Formação do Estilo. Todos os que se inscreveram durante esta semana ou ainda desejam se inscrever, não se preocupem, pois as duas aulas anteriores estão gravadas, disponíveis no site do Cedet para os novos alunos. Aliás, todo o curso está sendo gravado. Maiores informações, no próprio Cedet (liguem para 19-3249-80 ou enviem e-mail para livros@cedet.com.br).

março 11, 2013

Hoje, a primeira aula do Curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”

Às 20h30, no site do Cedet, darei início ao curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”. Para quem não puder acompanhar ao vivo, as aulas ficarão gravadas, disponíveis a todos que se inscreverem. Quem tiver dúvidas ou desejar mais informações, basta escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar, no horário comercial, para 19-3249-80. Até lá!

março 05, 2013

Novo curso: Prática de Leitura e Formação do Estilo

Planejei este curso pensando que, antes de tudo, precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo que a chamada “modernidade” alimenta em relação à linguagem. Ao mesmo tempo, quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, ferramenta indispensável para:

1. Descobrir as possibilidades expressivas da linguagem; e
2. Absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

O curso, que começa no próximo dia 11 de março, via Internet, foi elaborado de maneira que esses dois exercícios sejam feitos de forma concomitante, por meio da leitura e da análise de autores paradigmáticos, não só de ficção.

Ao final do curso, será proposto um exercício de redação – e comentarei, um a um, por escrito, todos os trabalhos.

A seguir, um resumo do que será tratado nas 12 aulas:

Aula 1 – Apresentação do curso. A linguagem, instrumento de comunicação, conhecimento e criação literária. Libertar a linguagem da ideologia.
Aula 2 – Por que ler? Há uma forma correta de ler? Exercício de leitura.
Aula 3 – Leitura como “absorção ativa”. Trata-se apenas de imitar? Ler, aprender e transformar.
Aula 4 – O texto homérico. Sobriedade e síntese. As coisas como elas são, mas transformadas.
Aula 5 – O relato bíblico. A estrutura da vida humana. Psicologia e camadas de sentido.
Aula 6 – Plínio, o jovem: o inusitado descrito sem retórica. Desprezo pela amplificação.
Aula 7 – Tolstói e o detalhe iluminador. Pensamentos e gestos criam uma personalidade.
Aula 8 – A descrição da realidade com delírio e assombro: Hermann Broch.
Aula 9 – A antítese como hábito da inteligência: as cartas paulinas.
Aula 10 – Alegoria, lógica e analogias: a argumentação nos sermões do Padre Antônio Vieira.
Aula 11 – Montaigne: argumentação sem convencimento – o ato de pensar com o “encanto da conversa entre amigos”.
Aula 12 – Paradoxo e ironia: o riso da argumentação em Chesterton. No final da aula, proposta de exercício de redação.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet Online.

– Valores, dúvidas e inscrições, basta visitar a página do curso, escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar para 19-3249-80 (horário comercial).