agosto 31, 2007

Passagem


Encontro meu filho no colégio. Há várias filas de alunos no amplo salão, e estou sentado, junto com outros pais, num local onde ele não pode me ver. De longe, percebo o quanto cresceu – está quase um adulto. Dá evidentes sinais de desconforto, contudo, olhando para os lados, o que interpreto como um pedido de ajuda. Ao mesmo tempo, os alto-falantes liberam uma estranha música, angustiante, pois sua letra se refere a alunos que serão expulsos da escola. Alguns deles, perfilados, passam a receber uma camiseta verde. Devem vesti-la sobre o uniforme e dirigirem-se a uma parte fechada do salão. À medida que presencio tudo, uma certeza cresce em mim: meu filho será expulso da escola – e assistirei a um vergonhoso auto-de-fé, cujo objetivo é humilhar os punidos. Desesperado, sem saber a quem recorrer, levanto e sigo para as filas, enquanto os alto-falantes silenciam e os jovens debandam. Meu filho vem na minha direção, acenando com a camiseta, que é apenas parte do uniforme do time de futebol, para o qual ele foi convocado. Abraço-o, conto-lhe minha confusão e ele ri. Sinto um profundo alívio. Mas no instante seguinte, dois mulatos se aproximam, tratando-o com estranha intimidade e usando o jargão que, imagino, é comum a certas igrejas evangélicas. Pergunto seus nomes. Eles mal se apresentam, embaralham uma desculpa e, nitidamente, inventam o nome do Seminário onde afirmam estudar. Observo, nos olhos injetados, a hipocrisia e a mentira que nadam com todo o vigor. Logo depois se despedem, mas tenho certeza de que já catequizaram meu filho. Quero alertá-lo sobre o comportamento dos dois, mas não há tempo: ele troca de roupa ali mesmo, pois o jogo vai começar. Olho para o seu corpo nu e me surpreendo. Havia me esquecido de que ele crescera, e esperava encontrar um pênis infantil. Mas vejo o membro adulto e fico alegremente surpreso, pois essa visão me dá a certeza de que ele pensa por si mesmo e não será influenciado pelos falsos catequistas. Ele parte, então, feliz, unindo-se aos amigos.

4 comentários:

compulsão diária disse...

Rodrigo,
cadê você??
bacione

Rodrigo Gurgel disse...

Vou te telefonar, Bea. Vamos marcar um café e um longo papo, minha querida. Um beijo!

compulsão diária disse...

liga, liga!!!!Antes que eu morra!

Rodrigo Gurgel disse...

Calma, calma... Vai dar tudo certo, Bea...