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janeiro 30, 2015

Problemas da literatura atual

A perplexidade do homem da maioria em relação ao homem criador está perdida
Penso em muitas coisas quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.


Uma angústia artificial perpassa as histórias.

No fundo, todos reclamam que não são felizes, como se a felicidade fosse o estado natural do ser humano, do qual eles, pobres coitados, estão excluídos por algum erro do Universo.

Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero, sofrimento. Não sabem e não imaginam.

Ou, pior, acham que desespero é ter de decidir entre o jogo de futebol na tevê, uma transa por obrigação e andar de bicicleta nas ciclovias do Haddad.

Tem-se a impressão de que eles decoraram Sartre. Ou Clarice Lispector — mas a voz que narra é a de uma Clarice diluída, desfibrada. Talvez seja o perispírito da Clarice.

Há outras opções de estilo: pode ser um Guimarães Rosa canhestro — ou a corruptela de alguma tradução do Ulysses.

As frases raramente ultrapassam 18 palavras. E são truncadas, como se o escritor sofresse de algum problema respiratório.

A superficialidade desses livrinhos faz-me lembrar do que Thomas Mann falava sobre o “tempo do homem criativo”.

Mann dizia que esse tempo “é de uma estrutura, de uma densidade e de uma produtividade diferentes daquelas frouxamente tecidas e passageiras da maioria”. E que o “homem da maioria”, admirado da “extensão de realizações que se podem acomodar neste espaço de tempo”, pergunta ao homem criativo: “Quando vais fazer tudo isso?”.

Essa perplexidade do homem comum em relação ao homem criador está perdida. Hoje, tudo é frouxo e passageiro. Hoje, o homem da maioria olha o “romance” de 15 páginas e pensa: “Isto até eu faço!”.

E ele tem razão. 

novembro 20, 2014

O pessimismo, remédio ideal para o populismo

O ensaio de Paulo Prado é, como dizia Ortega y Gasset, "uma pupila vigilante aberta sobre a vida"
No Jornal Rascunho deste mês, escrevo sobre Retrato do Brasil — ensaio sobre a tristeza brasileira, de Paulo Prado, livro que pertence à tradição montaigniana, isto é, anseia examinar as questões da realidade filtrando-as numa visão pessoal, repleta de associações inesperadas e problematizadoras.

Como afirmo em meu texto, não se deve esperar, portanto, desse trabalho, interpretações que se pretendam definitivas — mas, sim, intuições capazes de produzir no leitor o mesmo desejo que motivou o ensaísta: não aceitar passivamente sua realidade; ou, como dizia Ortega y Gasset ao comentar as características do ensaio, ser “uma pupila vigilante aberta sobre a vida”.

O pessimismo de Paulo Prado, é verdade, vibra em todo o livro. Mas, hoje, passadas quase duas décadas de governos populistas prontos a comemorar a ignorância e tratar vícios como virtudes heróicas, uma boa dose de visão pessimista poderia garantir um mínimo de realismo ao Brasil.

julho 07, 2014

A celebração do telegrama — Plínio Salgado e “O Estrangeiro”

No Rascunho deste mês, escrevo sobre o primeiro romance de Plínio Salgado, O Estrangeiro, resposta direta à Semana de Arte Moderna, livro repleto de lugares-comuns, escrita telegráfica, bobagens linguísticas, filosofia confusa, nacionalismo exacerbado e horrores retóricos. Verdadeira tralha linguística.

dezembro 30, 2013

O prazer do fim esconde a alegria do reinício

Acabo de colocar o ponto final no livro que será publicado nos próximos meses, continuação de Muita Retórica – Pouca Literatura (de Alencar a Graça Aranha).

Constam, do novo volume, livros das duas décadas iniciais do século XX, período que nossos estudiosos se acostumaram a tratar como Pré-Modernismo, conceito impregnado de confusão, que se liquefaz quanto mais estudamos os escritores ali enfiados.

De Júlia Lopes de Almeida a Jackson de Figueiredo, passando por Euclides da Cunha, Coelho Neto, Simões Lopes Neto, Olavo Bilac, Lima Barreto e Monteiro Lobato, escrevo sobre autores injustamente esquecidos ou, pior, superestimados.

A tarefa, na sua totalidade, está longe de ser cumprida, pois o projeto de reler a prosa brasileira se estende até a década de 1970. Ou seja, dizer “ponto final” revela o prazer de uma parcela de trabalho concluída e a alegria do reinício. Para comemorar, abrirei uma lata de Irish Flake, guardada há meses para esta data, e encherei o fornilho do meu Savinelli Roma.

Feliz 2014, caros leitores!

dezembro 05, 2013

Equívocos e retórica – Jackson de Figueiredo e “Literatura reacionária”

No Rascunho deste mês, analiso a coletânea de artigos publicada por Jackson de Figueiredo (acima, na ilustração de Leandro Valentim) em 1924: Literatura reacionária. Descontados os equívocos estéticos e políticos, além do texto muitas vezes enfadonho, é possível encontrar, com uma pinça, trechos atuais e instigantes. Para quem se interessar, meu ensaio está aqui. A análise sobre Jackson de Figueiredo encerra a segunda parte da minha revisão dos prosadores brasileiros, iniciada com a esquecida romancista Júlia Lopes de Almeida. A primeira já está publicada, no livro Muita retórica - Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha).

novembro 02, 2013

Alcides Maia – o filho tardio de Alencar

No Rascunho deste mês, analiso Alma bárbara, coletânea de contos do gaúcho Alcides Maia, publicada em 1922. A seguir, um trecho do ensaio:

“Água parada”, que abre o volume, já anuncia o saudosismo do autor e seu apego aos adjetivos. A narrativa idílica, que não chega a criar um conto, fixa-se no tema bucólico e aí permanece, definindo certa idealizada lagoa como “profunda, singular, diferente de todas”, com águas também “profundas”, novamente “diferentes” e, por fim, “atraentes”. Vencidos poucos parágrafos, a água torna-se “calada, solitária, arrastadora”, mais uma vez “atraente” e, a seguir, “indiferente”. Sob o domínio de tal adjetivação, o discurso pernóstico, de nítida influência alencariana, é conseqüência inevitável: “Lá embaixo, bem no fundo, estremeceria ainda, na algidez dos seus desejos torpentes, alguma iara sonolenta, das que outrora seduziam os guerreiros com seus olhos cerúleos e as suas verdes madeixas?”, pergunta-se o narrador. Não faltam — elementos indispensáveis nesse tipo de texto — os lugares-comuns, na forma de “beijos de brisas perfumadas pelas flores da encosta”.

outubro 22, 2013

Literatura, crítica literária e muito mais

Nos últimos vinte dias, concedi três entrevistas, nas quais falo sobre crítica literária, meus cursos on-line, ensino de literatura nas escolas e nas faculdades, e-books, poesia, escrita criativa e muito mais. Para os que desejarem conhecer um pouco de minhas idéias, estes são os links:

outubro 20, 2013

Ana Maria Machado engana-se mais uma vez

Na entrevista concedida ao jornal Valor Econômico (18/10/2013), a escritora Ana Maria Machado comete novo deslize (vejam meu post de 29/08/2013) ao afirmar, referindo-se a seu romance Infâmia: “Não apareceu um único crítico, num único jornal, que fizesse uma resenha ou um comentário mostrando que tinha lido o livro”.

De fato, a presidente da Academia Brasileira de Letras parece desconhecer o que se passa a seu redor: se fosse minimamente informada, teria lido meu texto na Folha de S. Paulo (29/11/2012), no qual explico a nota zero que dei a seu romance e saliento a) as cansativas referências literárias, históricas e bíblicas que ela utiliza para referendar as teses que se espraiam pelo romance, b) o enredo esquemático, em que as personagens só conseguem emitir julgamentos repetitivos e politicamente corretos, c) o didatismo escancarado, d) os estereótipos e as cenas inverossímeis.

Em meio às respostas recheadas de lugares-comuns, o entrevistador sai em defesa da escritora e considera “um disparate” a nota zero que lhe dei. Ora, no Brasil em que a crítica literária, com honrosas exceções, especializou-se em elaborar discursos anódinos ou açucarados, acariciar cocurutos de escritores e se esconder sob a sintaxe intrincada e  o vocabulário muitas vezes hermético, é perfeitamente compreensível que pretendam transformar o ato de julgar num disparate. “O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”, caros leitores.

outubro 15, 2013

Sobriedade e sutileza – Amadeu Amaral e “A pulseira de ferro”

Amadeu Amaral por Fábio Abreu
No jornal Rascunho deste mês, minha análise do principal trabalho de ficção escrito pelo paulista Amadeu Amaral. Esta é a abertura do ensaio:

Amadeu Amaral permanece indispensável à cultura brasileira graças a O dialeto caipira — estudo pioneiro sobre as características da linguagem no interior do Estado de São Paulo —, à permanente campanha em defesa do folclore, cujas pesquisas nos permitiriam alcançar o que ele chamava de “conhecimento exato da nossa gente”, e aos insights das análises literárias reunidas em O elogio da mediocridade, incluindo o ensaio que dá título ao livro, deliciosa peça de ironia sobre o papel do crítico e dos escritores. Poeta menor, deixou uma novela exemplar, A pulseira de ferro, presente no volume “Novela e conto” de suas Obras completas — publicadas por causa do empenho de Paulo Duarte, intelectual paulista injustamente esquecido.

setembro 25, 2013

Antes do silêncio – Carmen Laforet e “Nada”

Carmen Laforet pertence àquele grupo de escritores notabilizados por uma única obra, que alcançou sucesso graças à confluência de vários fatores, incluindo o literário. No caso específico dessa catalã, é curioso que, depois do seu primeiro e famoso romance, Nada, a crítica tenha deixado de se empolgar com os poucos trabalhos que ela publicou – e há certa estranheza na maneira como Laforet acaba enveredando por uma senda de progressivo isolamento. Nem mesmo seu terceiro livro, La mujer nueva, narrativa de sua angustiada reconversão ao catolicismo – que lhe valeu o Prêmio Menorca, o Prêmio Nacional de Literatura e alguns problemas com a censura eclesiástica que vigorava na Espanha franquista –, demonstrou ter força suficiente para não apenas impor-se no quadro da literatura espanhola, mas, principalmente, convencer a escritora do seu próprio valor. Em 1963 surgiria um novo romance, La insolación, mas a partir desse ponto a voz de Laforet murcha até alcançar completo silêncio, sem cumprir o plano da trilogia intitulada Tres pasos fuera del tiempo, da qual La insolación seria o primeiro volume. O segundo, Al volver la esquina, surgirá postumamente, em 2004.

Assim, chega a ser desolador que o furacão provocado por Nada não tenha se repetido. Depois de vencer a primeira edição do Prêmio Nadal, o romance, publicado em 1945, ganhou reimpressões quase que imediatas. Mais tarde, em 1948, a Real Academia Espanhola distingue Laforet com o Prêmio Fastenrath, o que assegura ao livro um êxito que repercutiria nas décadas de 1950 e 1960, conquistando, até hoje, leitores e o respeito da crítica.

Sem diminuir o valor da obra, essa reação, quando analisada passado mais de meio século, pode ser facilmente compreendida: na Espanha em que o ódio entre franquistas e republicanos permanecia latente, com algumas das melhores vozes literárias exiladas, mortas ou silenciadas pela censura, parece natural que a jovem Carmen Laforet e sua personagem/narradora Andrea – ingênua, tímida e frágil, tentando se libertar de uma família moralmente devastada, e ao mesmo tempo ansiando por amizade, amor e segurança – arrebatassem o país. Elas se tornaram, sem dúvida, a metáfora de uma Espanha que, apesar da destruição e dos miasmas da guerra que também devastara a Europa, buscava renascer.

Pássaros escuros

O primeiro capítulo de Nada já mostra a desenvoltura de Laforet. Em meio à chegada solitária na Barcelona noturna, carregando a mala repleta de livros, Andrea registra as primeiras impressões da cidade – intensas, marcadas por um poder de síntese que recupera odores, luzes, sons – e o clima de crescente expectativa, rompido abruptamente, logo no primeiro contato com os familiares, “figuras alongadas, quietas e tristes, como luzes de um velório de interior”. A partir daí, a ansiedade da jovem se transmuta em pesadelo. O apartamento da rua Aribau fede, o banheiro parece povoado de figuras fantasmagóricas e a cama, preparada às pressas, coberta pela manta preta, assemelha-se a um ataúde. As ilusões se desfazem.

A família neurótica que a acolhe vive impulsionada por crises e escândalos. A violência entre irmãos impera. E o drama será levado ao extremo pela crescente pobreza, pela fome. Relacionando-se com desrespeito e cinismo, os parentes se apegam a seus mundinhos particulares, a certezas mesquinhas, afundando cada dia mais. Naquele apartamento se concentram os vícios humanos – e a narradora compara os moradores, acertadamente, aos personagens dos Caprichos de Goya. O texto de Laforet não tem a corrosão, a sátira ou o grotesco das gravuras do pintor, mas é igualmente implacável. Angustias, a tia hipócrita e autoritária, é “uma daquelas últimas folhas de outono, mortas na árvore antes de serem arrancadas pelo vento”. Em certo trecho, a narradora lembra: “Vejo que eram como pássaros envelhecidos e escuros, com os peitos arfantes por terem voado muito num pedaço de céu muito pequeno”. A única que guarda alguma dignidade é a avó, crédula, protegida em seu casulo quase arteriosclerótico, movendo-se pelo apartamento às escuras com “distinção espectral”.

Orfandade

A esses exemplares de uma classe média fracassada, Laforet contrapõe o mundo da universidade, com os amigos igualmente burgueses, mas abastados. Pouco saberemos dos estudos, das leituras de Andrea, mas acompanhamos a vergonha que sente por causa dos sapatos envelhecidos, o sentimento de inferioridade provocado pela pobreza e a renitente mania de presentear a amiga Ena e sua mãe, mesmo que isso signifique não ter dinheiro para comer. É a forma de Andrea mendigar atenção, amor.

A jornada da protagonista oscila entre preservar sua individualidade e construir relações que possam libertá-la da família – e também de seus medos, da insegurança, de suas carências. Sem amor-próprio, porém, ela se torna uma presa fácil das armadilhas que se escondem na vida social. Mesmo a amizade com um grupo de jovens boêmios ricos, supostos artistas, não se concretiza – ao contrário, todos os relacionamentos são pouco profundos, contaminados por um persistente sentimento de inadequação. Os dias mais felizes serão passados ao lado de Ena e seu namorado, Jaime. Andrea se alegra sinceramente pelos dois, mas sente-se deslocada; e, terminados os passeios, ela voltará a experimentar a solidão.

Há uma orfandade que supera o fato de ela ter perdido os pais. Seu desamparo é mais vasto, mais denso. E para amadurecer, Andrea pagará alto preço, nada aviltante, é verdade, mas constituído por uma série de descobertas dolorosas. E ela só consegue vencer algumas de suas inseguranças e abandonar a família depois de agir exatamente como não desejava: unindo seus dois mundos, ainda que durante brevíssimo tempo.

A solução para parcela dos problemas de Andrea virá na forma de um convite inesperado, o que interrompe a narrativa abruptamente. Fica-se, portanto, com a impressão de que o processo de amadurecimento não se completou. Ela se despede de nós – e jamais saberemos quais dos seus sonhos se concretizaram. Assim, diferente do que alguns dizem, Nada não é um clássico bildungsroman, pois enfoca tão-somente uma fase crítica da existência, passageira, aquela que ultrapassamos para garantir o direito de entrar na vida adulta.

Nômade

Fernando Valls, professor de literatura espanhola contemporânea da Universidade Autônoma de Barcelona, em artigo publicado no El País, em 23 de março de 2004, questiona-se sobre o misterioso silêncio de Carmen Laforet, do qual falávamos no início desta resenha. Na opinião de Valls, “tem-se a sensação de que, uma vez realizadas as obras que tinham como fundo as vicissitudes de sua própria biografia, ela não foi capaz de obter os mesmos sucessos com a invenção de outras vidas”. Mas o crítico também aponta, com absoluta razão, o caráter ético dessa escritora, salientando a “sensatez” e a “exigência incomuns que ela demonstrou ao reconhecer sua incapacidade para alcançar de novo essa arte sincera, humilde e verdadeira à qual aspirava com tamanho afã”.

Faltam-me elementos para avançar nessas reflexões. Mas tenho a viva impressão de que Laforet passou sua vida em permanente crise, sem jamais encontrar a resposta que pudesse satisfazê-la plenamente. Em 1956, cinco anos depois de reabraçar a fé, ela renunciaria ao catolicismo. E à medida que abandona a escrita, parece navegar sem rumo, nômade em busca de certezas, como se a descoberta de Andrea repercutisse em seu íntimo: “Eu então percebia, pela primeira vez, que tudo segue, desbota, estraga enquanto a vida continua. Que não existe final na nossa história até que chega a morte e o corpo se desfaz...”. Não por outro motivo seu principal romance chama-se Nada. Mas é terrível imaginar que a melancolia ou a sensação de vazio tenham dominado sua existência. Viver imersa em uma atmosfera soturna teria sido um peso excessivo, injusto, para essa mulher cuja voz renovadora conseguiu iluminar a Espanha submersa na cisão e no ódio.

agosto 31, 2013

Machado de Assis: sob a forma livre, amargo e perverso

Chega a ser desolador como as teorias lingüísticas, de braços dados com o marxismo, desvincularam a literatura da realidade. Quem, hoje, escreveria páginas semelhantes a essas, que coloco abaixo, de José-Maria Belo, sobre Machado de Assis? Quem teria coragem de dizer que, à parte o estilo límpido, à parte a linguagem que corresponde perfeitamente à trama, o Bruxo do Cosme Velho, como dizia Manuel Bandeira, tem “o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio. E a psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra”?

Nos trechos a seguir, retirados do livro Inteligência do Brasil, ressurge o Machado de Assis esquecido, o Machado que estruturalistas & Cia. querem que nós esqueçamos: “Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. [...] Um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, que nunca haveria de fazer mal a ninguém, mas não obstante um monstro”, como dizia Manuel Bandeira, sem medo de contrariar nossos críticos e acadêmicos niilistas.



agosto 01, 2013

Monteiro Lobato: sempre contemporâneo


No Rascunho deste mês, escrevo sobre Negrinha, de Monteiro Lobato, salientando as qualidades dos melhores contos presentes no livro: “Os negros”, “A facada imortal”, “Dona Expedita” e o genial “O colocador de pronomes”. Para ler o ensaio na íntegra, basta clicar aqui. A ilustração é de Ramon Muniz.

julho 22, 2013

“Surda ao implacável relógio da atualidade” – a crítica literária segundo Milan Kundera

“Nunca falarei mal da crítica literária. Pois nada é pior para um escritor do que se defrontar com sua ausência. Refiro-me à crítica literária em seu aspecto de meditação, de análise; da crítica literária que sabe ler várias vezes o livro do qual quer falar (como uma grande música que podemos reescutar infinitamente, também os grandes romances são feitos para leituras repetidas); da crítica literária que, surda ao implacável relógio da atualidade, está pronta a discutir as obras nascidas há um ano, trinta anos, trezentos anos; da crítica literária que tenta captar a novidade de uma obra para deste modo inscrevê-la na memória histórica. Se uma tal meditação não acompanhasse a história do romance, hoje nada saberíamos sobre Dostoiévski, sobre Joyce ou sobre Proust. Sem ela, toda a obra está entregue aos julgamentos arbitrários e ao esquecimento rápido. [...] A crítica literária, imperceptivelmente, inocentemente, pela força das coisas, pela evolução da sociedade, da imprensa, transformou-se em uma simples (muitas vezes inteligente, sempre apressada) informação sobre a literatura da atualidade.” (Milan Kundera, em Os testamentos traídos.)

julho 03, 2013

Ideologia e azedume em Lima Barreto


No Rascunho deste mês, analiso Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto. Leiam um trecho:

O que ressalta é o abismo a separar a vontade da ação, o projeto de “literatura militante” das obras em que amor, compreensão entre os homens e felicidade nunca se concretizam. O que sobressai é o iniludível vitimismo, no qual as personagens às vezes até conseguem captar a medida de responsabilidade que tiveram em seus destinos, mas sem jamais lograr verdadeiras mudanças.
 
Para os que desejarem, a íntegra do texto está aqui. A ilustração é de Carolina Vigna-Marú.

junho 11, 2013

Injustamente esquecido

Este mês, na edição do Rascunho, escrevo sobre Os caboclos, primeiro livro do paulista Valdomiro Silveira. O volume reúne vinte narrativas — produção inicial de um contista que se aperfeiçoaria nas décadas seguintes, com Nas serras e nas furnas (1931), Mixuangos (1937) e Leréias (1945, póstumo). Como afirmo em meu ensaio, Valdomiro Silveira foi abandonado por parte da crítica literária num limbo nada honroso, mas merece leitura atenta — inclusive para lembrarmos que a literatura não deve espelhar apenas derrotismo, misantropia e tédio.

maio 31, 2013

Antonio Di Benedetto e o silêncio impossível

O processo impregnado de complexidade, ao qual se sobrepõem idéias de avanço ou expansão intensamente ideologizadas, e que convencionamos chamar pelo nome de progresso, tem, dentre outros, um atributo característico: tornar a organização da vida cada vez mais tortuosa, ao invés de simplificá-la. Progredir é, em certos casos, um sinônimo adequado de complicar. Os aparelhos, os sinais, as linguagens e os sons gradativamente incorporados à vida consomem nossa atenção, nossos gestos, nossa capacidade de entender. Além disso, do manual de instruções de um aparelho eletrônico à numeração das linhas de ônibus, passando pelo desenho das vias urbanas, pelos impostos que escorcham e pelas regras que somos obrigados a obedecer – inclusive nos atos mais simples, como o de andarmos, a pé ou de carro –, há uma evidente arbitrariedade que se insinua no cotidiano, às vezes melíflua, às vezes violenta.

Não há espaço melhor para averiguarmos as afirmações acima do que os principais centros urbanos. Na opinião do falecido Milton Santos, um marxista romântico,

a cidade é o lugar em que o Mundo se move mais; e os homens também. A co-presença ensina aos homens a diferença. Por isso, a cidade é o lugar da educação e da reeducação. Quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado. (1) 

Essa linha de pensamento, contudo, não é seguida por nós, os realistas, entre os quais se inclui o narrador de O silencieiro, (2) escrito pelo argentino Antonio Di Benedetto. Para nós, o progresso transformou as cidades em confusas aglomerações, nas quais a opressão e o abuso vicejam.  

Revolta e impotência

Mais do que os comportamentos expressos pelo sufixo eiro, o narrador-personagem do romance de Di Benedetto anseia desesperadamente pelo silêncio. E não se trata de uma aspiração, mas, sim, de uma febre cuja intensidade aumenta na exata medida em que o nível dos ruídos cresce.

Os barulhos, elementos inextricáveis da cidade, intrometem-se no cotidiano desse homem, ganhando, pouco a pouco, existência própria. Deixam de ser meras conseqüências do aprimoramento tecnológico e se transformam em entidades possuidoras de uma teimosia que não só perturba a vida, mas a altera profundamente. Recolhido ao quarto, o narrador ouve, por exemplo, os sons aflitivos da oficina mecânica instalada no imóvel vizinho. Eles invadem o aposento; e a percepção do ruído é tão intensa, que não se trata de apenas ouvi-lo, mas de vivenciá-lo tal qual uma pena, um sofrimento: “Não o vejo, simplesmente o padeço”. Em outro trecho, ele dirá que o ruído chega ao “dorso” do dormitório, criando uma metáfora – repetida no transcorrer da obra – que não deixa dúvidas sobre a força do barulho, capaz de atingir o quarto como se este fosse parte do corpo do protagonista.  

Os ruídos indesejados arrombam a privacidade, obrigando os personagens a participarem do que não lhes interessa: um churrasco para comemorar a inauguração da oficina; os bailes no salão aberto do outro lado da rua; o programa de rádio que o proprietário da venda próxima escuta no último volume.

Página a página, os rumores circundam e acossam o narrador, obrigando-o a ser o que não deseja, a agir em desacordo com sua índole. Violentado, ele busca refúgio na lei, mas o estudo do Código Civil mostra-lhe as dubiedades do texto: uma defesa do cidadão, mas também uma perigosa teia, na qual o reclamante pode se tornar réu.   

Não há segurança, portanto. E a própria espera do barulho, sua antevisão, a certeza de que ele se repetirá, despedaça o narrador. O barulho, então, migra da oficina para o âmago do personagem, transformando-o num hospedeiro revoltado, mas impotente:

Volto ao lar. No caminho, a cidade que desce pela minha rua apaga suas vitrines, baixa persianas: desmantela seus andaimes de trabalho. Até amanhã.

Mas resta um lugar onde a atividade prossegue: no dorso da minha casa.

A luz cinge-se ao canto onde está o torno, esse torno que pulsa conseqüente, como descubro que começa a pulsar, na minha cabeça, uma veia que bombeia algo mais sacrificada que as outras, e dói um pouco.

Lentamente, os ruídos – cuja “sina é avançar” – o levam a pequenas distrações, pequenos erros, falhas sem importância. E à medida que o barulho deixa de ser exceção para se tornar a norma irrevogável, todas as soluções possíveis fracassam e as polaridades do real se alternam. A partir desse ponto, o drama envereda rumo à loucura, cumprindo as etapas do estresse, da doença e, finalmente, do delírio. Mas seria ingênuo tratar esse narrador-personagem sem nome como um caso patológico. Na verdade, são os ruídos que lhe subtraem essência e existência, até levá-lo à despersonalização extrema, ao desejo da morte como promessa de um silêncio absoluto: “Penso no Além e imagino um silêncio incorruptível”.

Gênese e estilo

Enquanto o personagem esquadrinha a cidade em sua busca por silêncio, também sonha escrever um livro, cujo tema central seria o desamparo. Mas é exatamente essa a obra que se faz enquanto ele investiga a origem dos barulhos, livro no qual ele se encontra, cada vez mais privado do que lhe é indispensável, escrito, contudo, por outra pessoa, alguém chamado Antonio Di Benedetto. O autor, inclusive, revela – em entrevista concedida a Günter W. Lorenz (3) – a gênese do romance, num relato que, guardadas as devidas proporções, assemelha-se à trajetória de seu personagem:

[...] Digo que em El silenciero discuto o ruído físico e metafísico. Os dois me perturbam, como pessoa comum e como romancista, desde certa época penosa de minha vida. Tinha o tema, mas não conseguia nem tramar a narração nem ver e definir os personagens. Ainda que o protagonista fosse eu mesmo! Quando tive acesso à Europa, convenci-me de que em Paris – cidade que supunha mais ruidosa e atormentadora –, com mais seres atormentados pelas duas classes de ruídos, me envolveriam os elementos necessários para os argumentos. Puro engano. Não vi nem soube observar, ou melhor, não ouvi nem soube escutar, nem em Paris, nem em Bordéus, nem em Amsterdã, nem em Londres. Regressei à Argentina. Fiz-me todo ouvidos. Bem, é um exagero, pois na verdade não precisava me empenhar, os ruídos bloqueavam-me novamente, mortificantes e destruidores. Observei, estudei, o problema se encarnou em personagens que começaram a dar forma ao romance. Nasceu El silenciero: psicologias, comportamentos, neuroses, metafísica de homens de cidade, talvez de qualquer cidade moderna, industrial ou pré-industrial; todavia, captadas, aprendidas, aprofundadas em meu milieu.

Di Benedetto constrói sua história por meio de um estilo tenso, de frases enxutas, objetivas: uma prosa antibarroca, que dá vida à voz cortante do narrador desconfiado, prestes a explodir, andando pelas ruas como se os barulhos o tocaiassem a cada esquina. Narrada em primeira pessoa, a saga desesperante apresenta um homem indefeso, ciente de seus direitos, mas constatando a cada passo que o Estado, as pessoas e a tecnologia trabalham contra ele. Os verbos ressaltam dos períodos, formando um cortejo de sons ruidosos – bater, pregar, rebitar, fender, limar, acelerar, acionar, acometer, esfregar, morder, triturar – que acabam por engolfar o leitor.

De fato, a precisão das palavras torna flagrante a materialidade dos ruídos e os diferentes estados de ânimo que o narrador observa ou experimenta. Por exemplo, ao se referir à mãe, com quem vive, ele afirma: “Andava crivada a buzinaços”. E quando o delírio sobrevém, a confusão mental é evidente: “Na esquina bebe – ou esteve bebendo – uma grossa serpente que se arrasta pela rua. O bombeiro que cuida dela nesta ponta me tira a apreensão: não se trata do meu lar”.

A vida imposta

No período de tempo em que finalizo esta análise, o fragor das ruas invade mais uma vez o apartamento. Uma serra circular guincha com estridência em algum ponto; da quadra da escola, situada no quarteirão em frente, sobe insistente microfonia e a voz melancólica do funcionário que testa o amplificador dezenas de vezes; ônibus e carros aceleram, freiam, buzinam; um operário arranca a marteladas a estrutura de ferro que, presa à marquise do prédio, sustentava um letreiro. É sábado, início da manhã, o inferno da cidade apenas começa – e não sou o protagonista de O silencieiro. Ou talvez seja, talvez tenha sido sempre, sem saber.  

A cidade realmente conspira contra o homem. As derivações da tecnologia fugiram, há muito tempo, do nosso controle. Entre a elaboração da ciência e os resultados que ela provoca – em termos de técnicas, instrumentos, modos de vida e variações de comportamento –, existe um abismo de irracionalidade, diante do qual o narrador de O silencieiro se diz um mártir, “mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”. Como resposta, ouve de um político, ex-jornalista, a acusação de ser “inimigo do progresso”, ou seja, nada mais que o velho recurso dos cínicos, o lugar-comum que serve para manter as coisas exatamente onde estão.

Assim, vivendo sob a arbitrariedade, o narrador-personagem descobre, com amargura, que a lógica e a ética não servem à vida real. Os fatos se colocam apenas; são o que são. Os ruídos produzem loucos que, por sua vez, buscam novos ruídos – ou uma solução excêntrica, semelhante à experimentada pelo silencieiro, mas de conseqüências injustas e implacáveis.




(1) Em “Metrópole: a força dos fracos é seu tempo lento” (Técnica – Espaço – Tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, Editora Hucitec, 2ª edição, SP, 1996).
(2) Editora Globo, SP, 2006.
(3) Lorenz, Günter W. Diálogo com a América Latina – panorama de uma literatura do futuro, E.P.U. – Editora Pedagógica e Universitária Ltda., SP, 1973.

maio 06, 2013

Contra a mornidão de certa crítica literária

Diante dos melindrosos e ressentidos, que só admitem crítica literária sem julgamento – ou seja, que desejam transformar a crítica literária num exercício anódino ou meramente confortador –, devo lembrar um dos bons trechos de Álvaro Lins: “Julgar é um testemunho da dignidade da crítica. Ela não fica bem nas mãos dos conformistas, dos frágeis, dos amáveis, dos indistintos, dos suaves, dos incolores, dos frívolos, dos snobs”. Aos interessados em saber o motivo deste post, vale a pena ler a análise correta e corajosa que Cristiano Ramos faz do livro Tangolomango, de Raimundo Carrero, e que tem provocado a ira dos adeptos da cordialidade brasileira, sempre prontos a distribuir lisonjas, servilismo e outros afagos.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

abril 27, 2013

A luta contra a mesmice

Vozes dissonantes são sempre bem-vindas neste mar de bajulações, hermetismos e lugares-comuns em que se transformou a crítica literária brasileira.

Neste mês de abril, ao ler, no Rascunho, “Sobraram apenas os óculos e o bigode”, ensaio no qual Marcos Pasche desconstrói Paulo Leminski, percebi, com alegria, que as coisas realmente começam a mudar. Sentimento, aliás, que já havia experimentado com Cristiano Ramos, que, no ensaio “O curioso caso de José Lins do Rego” (partes 1 e 2), rebate com vigor a injusta depreciação crítica do romancista paraibano.

Sucede que, em meio a trabalhos e leituras, passei por cima da coletânea de críticas que Marcos Pasche publicou – De pedra e de carne (Editora Confraria do Vento) – e teve a gentileza de me enviar. Só hoje uni o sanguinário autor do ensaio sobre Leminski ao nome que está na capa do livro. E, numa passada de olhos, encontrei no volume, para minha alegria, ao menos dois outros textos que recomendo a leitura: “Na vitrine do shopping” e “Com rigor e com afeto”. O primeiro, publicado no Rascunho sob o título de “Perto do tempo, longe da arte”, demole a poesia de Fabrício Corsaletti – confirmando o que Luis Dolhnikoff (outra boa voz dissonante) já havia percebido e eu próprio afirmara, mas referindo-me à prosa desse que é mais um dos tenros queridinhos da literatura nacional.

Quanto ao segundo ensaio, “Com rigor e com afeto”, trata-se da entusiasmada análise de um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as nossas faculdades de Letras: A literatura em perigo, no qual Tzvetan Todorov faz a síntese do que começou a perceber em Critique de la critique, de 1984, não por acaso nunca traduzido no Brasil, onde os acadêmicos preferem acreditar – comportamento, aliás, bem cômodo, para não dizer desonesto – que Todorov parou de escrever em 1971, ao publicar A poética da prosa, obra ultrapassada e, sob vários aspectos, renegada pelo autor.
 
Este post, contudo, não pretende assumir, nas últimas linhas, um tom pessimista. Não. O objetivo é exatamente o de comemorar as vozes críticas que começam a surgir – aliadas, cada uma a seu modo, na luta contra a mesmice.

abril 23, 2013

Literatura, ideologia e mundo empírico

O que acontece quando certa figura de estilo deixa de ser um recurso para ampliar a capacidade expressiva da linguagem e passa a obscurecer diferentes aspectos da realidade, da experiência humana?

A resposta a esse problema esquecido nos dias de hoje – quando alguns teóricos e escritores pretendem desvincular a literatura da realidade – encontra-se no artigo “Inversão retórica e realidade invertida”, que Olavo de Carvalho publicou em 2009.
 
Partindo de François Villon e Jean-Jacques Rousseau, Olavo analisa os perigos decorrentes da figura de linguagem que, transformada em ideologia, incorpora-se à psique – e, de forma indireta, denuncia a falácia de se acreditar que a literatura é autossuficiente ou está desligada do mundo empírico.