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janeiro 19, 2014

A crítica irônica de Augusto Monterroso ao relativismo cognitivo

Quando a realidade se transforma, nas mãos de certo estudioso cínico, num mero texto que pode ser desconstruído, quando querem nos fazer acreditar que a realidade objetiva deve ser continuamente colocada sob suspeita e apenas decodificada ao sabor dos nossos interesses ou intenções pessoais, temos certeza de que penetramos no centro da desonestidade intelectual.

É o que Augusto Monterroso – escritor hondurenho de nascimento, mas que adotou a Guatemala como pátria – denuncia, com seu sarcasmo peculiar, na breve narrativa a seguir. Divirtam-se.

O Coelho e o Leão

Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.

Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr do sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.

Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.

A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.

O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.

De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.

janeiro 09, 2013

Salvo da banalidade

Escrevo, no Rascunho deste mês, sobre o goiano Hugo de Carvalho Ramos, cujas narrativas (em Tropas e boiadas) estão acima do que se costumou chamar, entre nós, de regionalismo, termo dúbio e sempre aberto a revisões. Impregnados de tom épico, alguns contos parecem nascer de episódios da Chanson de Roland e outras canções de gesta, com seus personagens heroicos, reticentes no que se refere a introspecções, mas sempre prontos à presteza e à coragem, aceitando com naturalidade a vida sob permanente tensão.

julho 24, 2011

Inglês de Sousa – acima do naturalismo

A coletânea Contos amazônicos reúne a melhor produção do paraense Inglês de Sousa, para fins didáticos classificado, entre as escolas literárias, como naturalista. Contudo, a desdizer tal classificação, trata-se do seu livro menos preso ao naturalismo, apresentando características realistas e, também, fantásticas. Reunidas em 1893, essas narrativas conformam a despedida do autor em relação à escrita ficcional, pois ele continuaria escrevendo, mas exclusivamente obras jurídicas, incluindo-se o Projeto de Código Comercial, de 1912.

Para nossa felicidade, esses contos, publicados três anos depois de O Cortiço, não apresentam, no geral, a preocupação ou a necessidade de provar teses sociológicas com base na biologia, denunciar vícios supostamente hereditários ou condenar a humanidade ao fado da corrupção moral, as chamadas “superstições do naturalismo”, segundo Sérgio Buarque de Holanda (no clássico ensaio “Inglês de Sousa: O Missionário”), que agradavam sobremaneira a Aluísio Azevedo. 

Trata-se de uma coletânea desigual, cuja epígrafe é formada por alguns versos de “Adozinda”, de Almeida Garret, escolha reveladora das motivações do autor, pois o poema romântico nasce da pesquisa sobre poesias trovadorescas e outras composições do romanceiro popular português, enquanto os contos do brasileiro estão repletos de referências a lendas, costumes e episódios históricos da região amazônica.

Poder descritivo

Composto de oito narrativas curtas e uma noveleta de cunho histórico, “O rebelde”, o livro inicia com “Voluntário”, título que define, de maneira irônica, o recrutamento forçado durante o período da Guerra do Paraguai, tema central do conto. Encontramos aqui as frases de “ritmo sereno e ondulante” e o “espraiamento das palavras com breve estação nos incidentes ora curtos, ora longos” que, segundo Aurélio Buarque de Holanda (no prefácio à 3ª edição de O Missionário), o autor teria aprendido com Eça de Queirós. Mas o texto ainda está contaminado de determinismos típicos da escola naturalista, como ao descrever os moradores ribeirinhos:

É naturalmente melancólica a gente da beira do rio. Face a face toda a vida com a natureza grandiosa e solene, mas monótona e triste do Amazonas, isolada e distante da agitação social, concentra-se a alma num apático recolhimento, que se traduz externamente pela tristeza do semblante e pela gravidade do gesto.

O caboclo não ri, sorri apenas; e a sua natureza contemplativa revela-se no olhar fixo e vago em que se leem os devaneios íntimos, nascidos da sujeição da inteligência ao mundo objetivo, e dele assoberbada. Os seus pensamentos não se manifestam em palavras por lhes faltar, a esses pobres tapuios, a expressão comunicativa, atrofiada pelo silêncio forçado da solidão.

Inglês de Sousa também se mostra panfletário em diferentes trechos, por exemplo, ao acusar o governo brasileiro de não compreender o que Solano Lopes realmente era: “Uma coragem de herói, uma vontade forte, uma inteligência superior ao serviço de uma ambição retrógrada”. E perde-se numa retórica enfadonha, fazendo exatamente o que prometera não fazer: “Carregar nos tons sombrios do quadro de miséria do proletariado brasileiro naqueles tempos calamitosos”.

À parte tais exageros, ele apresenta um pouco de suas melhores qualidades: timing para criar falsas esperanças no leitor, fazendo-o duvidar que a história realmente acabará mal; e inegável poder descritivo, atento aos pormenores que iluminam situações, como nestes ridículos soldados do Império:

As portas e as janelas das ruas por onde passava a nova leva de recrutas estavam apinhadas de gente. As mulheres e as crianças corriam a vê-los de perto, conservando-se, porém, a uma distância respeitável dos guardas nacionais, que marchavam pesadamente, acanhados, vestidos na sua jaqueta de velho pano azul, quase vermelho, e vexados com a comprida baioneta colocada muito atrás, a bater-lhes os rins num compasso irregular, conforme os acidentes das ruas mal calçadas.

E neste outro trecho – início de um longo e melancólico parágrafo –, no qual o narrador quase se coloca, por um brilhante momento, no lugar dos recrutados que partem:

Quando as canoas largaram da praia, as mulheres romperam num clamor; e os tapuios, acocorados ao fundo da igarité que os separava da ribanceira, seguiam com a vista a terra que recuava, fugindo deles. Tinham os olhos secos, mas amortecidos.

Saliente-se também, neste primeiro conto, o final terrível, em que uma inocente quadrinha popular intensifica o drama da tapuia enlouquecida.

Um cético

“A feiticeira” principia de forma peculiar, como se o narrador falasse na sequência de outros contadores de histórias, todos reunidos ao pé do fogo. Essa voz, que chega a ser agradavelmente coloquial, constrói bem o protagonista, o incrédulo e zombeteiro tenente Antônio de Sousa, e Maria Mucoim, a feiticeira, figura clássica, digna de estar nas mais tétricas narrativas de mistério.

O tenente, “vítima de sua leviandade”, ousará enfrentar a Mucoim; e quando sai para o derradeiro encontro, a própria natureza prenuncia o seu destino. Natureza, aliás, que se rebela completamente no final, quando pesadelo e fantástico se instalam, conduzindo o cético Antônio a uma situação funesta.

Inconvincente

Na narrativa seguinte, “Amor de Maria”, o mal também prevalece. O narrador, contrapondo-se a seu colega do conto “A feiticeira”, pretende que sua história seja melhor, mais verossímil. Contudo, o frívolo Lourenço de Miranda e Mariquinha, torturada pelo ciúme, não convencem – e as melhores cenas, como a do amanhecer em que a jovem é embalada na rede pela velha e imprudente Margarida, não enveredam para um final realmente dramático, capaz de nos comover ou aterrorizar.

Fantasmagoria

“Acauã” segue pelo mesmo caminho, infelizmente, apesar do início fantasmagórico, impressionante, que lembra as melhores cenas de “A Salamanca do Jarau” e “A mboitatá”, lendas recontadas pelo gaúcho Simões Lopes Neto:

Raios caíram com fragor enorme, prostrando cedros grandes, velhos de cem anos. O capitão Jerônimo não podia mais dar um passo, nem já sabia onde estava. Mas tudo isso não era nada. Do fundo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá, levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tornou um clamor horrível, insano, uma voz sem nome que dominava todos os ruídos da tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar os condenados no dia do Juízo Final.

Os cabelos do capitão Ferreira puseram-se de pé e duros como estacas. Ele bem sabia o que aquilo era. Aquela voz era a voz da cobra grande, da colossal sucuriju, que reside no fundo dos rios e dos lagos. Eram os lamentos do monstro em laborioso parto.

O clima mágico se desfaz ao longo da narrativa, no entanto, e o tema lendário torna-se mero exotismo, com uma das personagens transformada num ser diabólico incapaz de convencer até mesmo o leitor menos assíduo às histórias da carochinha.

Bom humor

A Questão Christie, crise diplomática que envolveu Brasil e Grã-Bretanha – e durou de 1862 a 1865 –, é o tema de “O donativo do capitão Silvestre”. Na iminência de o Brasil ser invadido pelos ingleses – uma esquadra inglesa chegou a bloquear o porto do Rio de Janeiro –, os moradores de Óbidos, no interior do Pará, deixam-se levar pela histeria coletiva: “Os mais ignorantes tremiam de susto à ideia de ver surgir no porto de cima um navio de guerra de S. M. Britânica, pejado de canhões negros e ameaçadores”. O conto tem trechos prolixos, eivados de patriotada, mas o autor consegue captar o clima de loucura e a esperteza das lideranças políticas locais, que se aproveitam da crise para angariar fundos e reunir prosélitos. A narrativa termina com a excelente pilhéria do capitão Silvestre.

Infernal

Encontramos um bom número de preconceitos populares em “O baile do judeu” – festa evidentemente diabólica. O narrador, um divertido católico, sustenta a narrativa de maneira espirituosa e oferece bons trechos, como este, no qual um incógnito convidado dança com a mulher mais atraente da festa:    

No meio destas e outras exclamações semelhantes, o original cavalheiro saltava, fazia trejeitos sinistros, dava guinchos estúrdios, dançava desordenadamente, agarrado a d. Mariquinhas, que já começava a perder o fôlego e parara de rir. O Rabequinha friccionava com força o instrumento e sacudia nervosamente a cabeça; o Carapanã dobrava-se sobre o violão e calejava os dedos para tirar sons mais fortes, que dominassem a vozeria; o Penaforte, mal contendo o riso, perdera a embocadura e só conseguia tirar da flauta uns estrídulos sons desafinados, que aumentavam o burlesco do episódio; os três músicos, eletrizados pelos aplausos dos circunstantes e mais pela originalidade do caso, faziam um supremo esforço, enchendo o ar de uma confusão de notas agudas, roucas e estridentes, que dilaceravam os ouvidos, irritavam os nervos e aumentavam a excitação cerebral, de que eles mesmos e os convidados estavam possuídos.

Assim, tudo se torna infernal nessa reunião festiva – mas, por razões que não vale a pena adiantar, será esse o último concorrido baile do judeu.

Religião e aguardente

Os críticos marxistas e a historiografia politicamente correta devem ter ataques de urticária ao ler a noveleta “O rebelde”, pois Inglês de Sousa resume a Cabanagem a um movimento “vítima de dupla alucinação: religiosa e patriótica”. Sua visão crítica surge nesta cena perfeita, na qual o romântico moderno vê a concretização dos ideais socialistas, enquanto as pessoas lúcidas só encontram crime e desvario:

[...] Uma centena de pessoas, homens, mulheres e crianças, caboclos na maior parte, negros e mulatos muito poucos, desembarcavam desordenada e ruidosamente. Os homens vestiam calças e camisas de algodão tinto em murixi vermelho, cobriam-se com grande chapéu de palha, com topes de duas cores, vermelha e negra, em forma de cruz. No peito da camisa tinham distintivo igual, e à cintura traziam um horroroso troféu de orelhas humanas, enfiadas em um embira, em ostentação de perversidade e valentia.

As mulheres trajavam saias e camisas da mesma fazenda de algodão, sendo somente as saias tintas em murixi, e sobre os amplos peitos morenos destacava-se a cruz de duas cores que distinguia os cabanos, inimigos dos maçons e dos portugueses. As crianças estavam quase todas nuas. Homens e mulheres [...] tinham fisionomia bestial e feroz e vinham armados de espingardas, terçados, chuços e espadas.

Toda aquela gente, num tumulto de desenfreada licença, ria e gritava, praguejava e rezava ladainhas, entrecortados de soluços aguardentados e de gestos de ameaça e de ódio que me causavam calafrios. [...]

É pena que certa loquacidade contamine a narrativa. Bons trechos, como o acima, acabam se diluindo numa lenga-lenga algo sentimental, em que certo mulato, herói da Revolução Pernambucana de 1817, enfrenta o dilema ético de apoiar os revoltosos ou proteger uma família de portugueses e o pároco da vila.

O melhor

Dois contos merecem atenção redobrada: “O gado do Valha-me-Deus” e “A quadrilha de Jacó Patacho”.

No primeiro, somos guiados por um narrador de tom coloquial agradavelmente ranzinza, cujo discurso é repleto de frases interpostas e autoelogios. Estilo, aliás, do qual Guimarães Rosa deve ter sorvido algumas boas doses. Trata-se do vaqueiro Domingos Espalha, famoso, segundo o que ele nos diz, por “conhecer as manhas do gadinho” e segurar-se “na sela sem estribos nem esporas”. Idoso, ele recorda quando foi contratado por Amaro Pais para recolher o gado na fazenda que este herdara de um padre: “As proezas de Amaro Pais tinham feito embravecer o gado, que, por fim, já ninguém era capaz de o levar para a malhada e ainda menos de o meter no curral [...]”. Incumbido, juntamente com outro vaqueiro, Chico Pitanga, de “tomar conta da fazenda, assinalar o gado orelhudo” e escolher “uma vaca bem gorda”, para ser assada na festa de S. João, os dois partem certos de que as tarefas serão cumpridas facilmente.  

Encontrada a rês, começam os problemas. O inesperado e o fantástico surgem lentamente na narrativa – e o objetivo do trabalho sempre escapa aos dois vaqueiros, por mais que se esforcem:

Vimos perfeitamente o lugar onde o gado passara a noite, um grande largo, com o capim todo machucado, mas nem uma cabecinha pra remédio! Já tinham os diachos seguido seu caminho, sempre deixando atrás de si uma rua larga, aberta no capinzal, em direção à serra do Valha-me-Deus, que depois de duas horas de viagem começamos a ver muito longe, espetando no céu as suas pontas azuis. Galopamos, galopamos atrás deles, mas qual gado, nem pera gado, só víamos diante da cara dos cavalos aquele imenso mar de capim com as pontas torradas por um sol de brasa, parecendo sujas de sangue, e no fundo a serra do Valha-me-Deus, que parecia fugir de nós a toda pressa. Ainda dormimos aquela noite no campo, a outra e a outra, sempre seguindo durante o dia as pegadas dos bois, e ouvindo à noite a grande choradeira que faziam a alguns passos de distância de nós, mas sem nunca lhes pormos a vista em cima, nem um bezerro desgarrado, nem uma vaquinha preguiçosa! Eu já estava mesmo levado da carepa, anojado, triste, desesperado da vida, cansado na alma de ouvir aquela prantina desenfreada todas as noites, sem me deixar pregar o olho [...]; ambos com fome, já não podíamos mover os braços e as pernas, galopando, galopando por cima do rasto da boiada, e nada de vermos coisa que parecesse com boi nem vaca, e só campo e céu, céu e campo, e de vez em quando bandos e bandos de marrecas, colhereiras, nambus, maguaris, garças, tuiuiús, guarás, carões, gaivotas, maçaricos e arapapás que levantavam o voo debaixo das patas dos cavalos, soltando gritos agudos, verdadeiras gargalhadas por se estarem rindo do nosso vexame lá na sua língua deles. [...]

O que prometia ser facílimo torna-se, num crescendo, inalcançável. Sorrimos diante de cada nova dificuldade, mas, sob a camada de humor – não só nesse belo e hiperbólico parágrafo –, o inusitado transpira. A angústia se instala; o fracasso implacável assume a condição de protagonista. Nada se conclui – e, exatamente por esse motivo, a história é perfeita.

O conto “A quadrilha de Jacó Patacho” pode ser dividido em quatro seções. Principia com a descrição do velho Salvaterra e sua família, que experimentam o clima de absoluta tranquilidade noturna, logo após o jantar. Um ruído estranho, contudo, ouvido pela jovem Anica, filha de Salvaterra, quebra a paz. Ela e a mãe, mais lúcidas que o pai e os outros dois filhos, introduzem o receio ao verbalizarem seus temores. Do fundo das trevas surgirão os personagens que tornam o medo palpável. A partir desse momento, o leitor é preso numa gangorra emocional, pois simples características – certo olhar lascivo, um “riso alvar” – ou pensamentos podem nos levar da certeza à dúvida, e vice-versa: existe a quadrilha? Quem são esses homens? Os dois caboclos que surgem no meio da noite representam o mal ou são pobres trabalhadores a pedir abrigo?

A segunda seção começa com as divagações de Anica em seu quarto, preparando-se para dormir. Os temores crescem entre as sombras do cômodo. Enquanto a jovem se deixa levar por alucinações, o leitor já não sabe em que se apoiar. Então, do fundo da memória de Anica surge um pormenor esquecido. Lembrança após lembrança, ela se indaga sobre qual é a verdade – e atrás dela segue o leitor, perdido, desorientado, num vaivém que não se esgota nem mesmo quando a jovem toma sua decisão. A noite, antes escura, com um céu no qual “nuvens negras corriam para o sul como fantasmas em disparada”, agora está límpida: “A chuva cessara inteiramente, e do chão molhado subia uma evaporação de umidade, que, misturada ao cheiro ativo das laranjeiras em flor, dava aos sentidos uma sensação de odorosa frescura”. Mas essa natureza é apenas o símbolo antagônico por meio do qual o autor deseja, mais uma vez, nos desorientar, pois logo Anica é tomada de pavor, o que só aprofunda sua hesitação.

O grito da jovem dá início à terceira parte:

A sua voz nervosa repercutiu como um brado de suprema angústia pela modesta casinha, e o eco foi perder-se dolorosamente, ao longe, na outra margem do rio, dominando o ruído da corrente e os murmúrios noturnos da floresta.

Tem início a luta terrível, enquanto o brado dos cabanos selvagens – “Mata marinheiro! Mata! Mata!” – ecoa mais alto que o da jovem heroína. O embate desigual concretiza as piores expectativas – nossas e de Anica –, mas o narrador reserva ainda a quarta e última seção, um testemunho melancólico que amplia a tragédia familiar: poucas observações, mas capazes de conceder ao desespero os tremores do horror.

São duas narrativas soberbas – em termos de linguagem e estrutura –, que colocam toda a produção literária de Inglês de Sousa em segundo plano. Elas excedem, inclusive, as qualidades que Sérgio Buarque de Holanda elenca no ensaio já citado: “a tranquilidade honesta e quase descuidada de quem reconhece e sabe aceitar as próprias limitações” e a sábia escolha do vocabulário, capaz de dispor “sempre do termo justo para exprimir um comportamento ou para definir um personagem”. Dois contos que deveriam ser lidos e estudados não como exemplos da escola naturalista, pois estão muito acima dela, mas do que a literatura brasileira produziu, até hoje, de melhor.
 

novembro 26, 2010

O riso da dobrez – e outro riso

Presente, passado remoto, futuro e passado próximo se alternam nos dois primeiros parágrafos do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, para introduzir o leitor na história que só pode ser contada, sem dissimulações, agora (conforme o presente a partir do qual o narrador fala) que os três personagens estão mortos. História de algum modo embaraçosa, portanto, e também complexa, pois exige que o narrador recue “à origem da situação”. Assim Machado fisga o leitor: jogando com o tempo, sugerindo a gravidade dos fatos que levaram à cena inicial do conto – “[...] os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto de Garcia uma expressão de severidade” – e escondendo de nós o que sente o terceiro personagem, Fortunato, que, “na cadeira de balanço, olhava para o teto”.

A partir do terceiro parágrafo, será Fortunato o centro da narrativa. Mas quem é, realmente, o homem que Garcia, então estudante de medicina, vê, en passant, saindo da Santa Casa? Um médico? Um samaritano? Mais tarde saberá que se trata de um “capitalista, solteiro” – e conhecerá, lentamente, muito mais.

Quando reencontra o homem que, por algum motivo, o impressionou, está no teatro, teatrinho de periferia, à qual “só os mais intrépidos ousavam estender os passos”. O “dramalhão cosido a facadas” hipnotiza Fortunato – e sua exagerada atenção desperta a curiosidade de Garcia. Este segue o primeiro, vendo-o caminhar “cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia”.

Antes, porém, o narrador nos oferece um detalhe curioso: Fortunato abandona o teatro assim que o drama termina, indiferente à peça seguinte, uma farsa. As sutilezas de Machado, bem sabemos, nunca são ornamentos inúteis, e não é diferente neste caso, em que o fato de o personagem desprezar uma peça cômica, mas redobrar sua atenção nos “lances dolorosos” do drama, é a primeira, tênue característica de Fortunato, complementada, logo a seguir, pelos cães que ele deixa ganindo enquanto caminha.

No próximo encontro, surpreendente, Garcia descobrirá que esse homem pode não apenas salvar um estranho esfaqueado, mas também se desvelar à cabeceira do ferido, com “rara dedicação”. Há algo perturbador, contudo, pois a fácies de Fortunato não corresponde aos seus gestos: “Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria”. Para completar o quadro, ficamos sabendo que a vítima da agressão encontra apenas desdém quando, recuperada, vai agradecer ao seu salvador. E o leitor se pergunta: Por que, então, ele foi bom? Por que despreza com arrogância o agradecimento?

Anos depois, quando Garcia começa a se tornar íntimo desse enigmático personagem e passa a frequentar a casa que ele divide com a esposa, Maria Luísa, a lembrança da dedicação de Fortunato retorna, e o amigo o descreve com elogios à mulher atenta. Esta, que em relação ao marido tem “uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na resignação e no temor”, ouve a história, primeiro “espantada”, depois “risonha e agradecida”. A reação do marido, contudo, é diversa. Fortunato complementa o relato de Garcia com a narração da visita do esfaqueado; e o faz de maneira incomum, rindo muito. E o narrador observa: “Não era o riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco”. Parece haver, realmente, uma terrível contradição nesse homem: na aparência caridoso, é capaz de zombar de quem ele próprio ajudou.

Esse é o centro da trama psicológica criada por Machado, para quem os homens ocultam, sempre, uma segunda intenção em cada gesto. A bondade de Fortunato, o leitor descobrirá, guarda um propósito detestável – o bem que ele pratica possui um só objetivo: satisfazer a sua perversão. À medida que o conto se desenrola e a personalidade desse curioso benfeitor ganha novos contornos, o leitor acordará para uma espécie sui generis de mal, sem jamais poder acusar Fortunato de ser mau. Machado nos oferece a oportunidade de refletir sobre as possíveis gradações da busca do prazer, “um vasto prazer, quieto e profundo”, no qual não há “nem raiva, nem ódio”, mas que, forjado no que parece ao leitor um antagonismo atroz, transforma o personagem numa “redução de Calígula”. Portanto, como se trata de Machado, talvez Fortunato seja, de alguma forma, mau...

Em uma de suas crônicas, “Antonieta Rudge”, Manuel Bandeira diz que o autor de Dom Casmurro tem “o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio”. E completa: “A psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra. Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. [...] Em suma eu achava, e ainda hoje acho, que Machado de Assis era um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, que nunca haveria de fazer mal a ninguém, mas não obstante um monstro”. Ora, quem sonda as filigranas dos homens está fadado a descobrir monstruosidades e santidades, mas isso não faz dele, necessariamente, um monstro ou um santo. O “gosto doentio” de Machado resume-se à investigação das zonas escuras do ser humano, nada mais. E se ele encontra máculas, também consegue ver, na mesma pessoa – neste caso, em Fortunato –, o devotamento amoroso.

Na verdade, nada é simples ou plano no Bruxo do Cosme Velho. Ele afastou de si as generalizações – e não se satisfez apenas com a busca do que Nabokov chamava de “o pormenor incongruente”, mas a forma por meio da qual expressou suas descobertas também fugiu a todos os estereótipos, pois é possível ouvir ao fundo, enquanto o leitor se revolta ou escandaliza, o seu riso algo diabólico, sempre instigante, que nunca julga, jamais condena.