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janeiro 26, 2015

O bom escritor boceja diante das teorias

Vamos imaginar uma situação excêntrica, sob todos os aspectos indesejável:

Você se inscreve numa Oficina de Escrita Criativa e, no primeiro dia de aula, a professora — ela está quase nos 50, mas ainda se veste como uma adolescente — entra na classe e começa a falar sobre Roland Barthes ou a respeito de algum estruturalista russo.

Você vai tomando notas, sem entender direito o que está acontecendo, pois a professora é famosa, tem dezenas de livros publicados.

Além disso, sua melhor amiga — por quem você tem uma certa caída — está sentada ao seu lado. Ela estuda Letras e, a cada afirmação da professora, sorri e move a cabeça de maneira afirmativa.

A primeira hora parece interminável — e ainda que você tenha anotado tudo, não entendeu nada.

Quando você está mais perdido que cachorro em dia de mudança, a professora diz: “Bem… então, agora que vimos as 31 funções de Vladimir Propp, vocês podem escolher algumas e usá-las para escrever um texto breve, um conto que vamos discutir na próxima aula. Vamos fazer um intervalo e, depois do café, voltamos para ver a questão do ‘actante’ em Greimas”.

Meio perturbado, você levanta da carteira. Sua amiga já correu para o lado da professora. E assim que você se aproxima, nota que as duas conversam alegremente numa língua que só às vezes parece português.

O mal-estar que você experimenta nesse momento acende uma luz vermelha na sua cabeça e dispara uma sirene.

Por um simples motivo: você sabe, ainda que de maneira intuitiva, que escritores não precisam de teorias.

Não me consta que, antes de escrever seus contos, Tchekhov tenha estudado teoria literária.

Ou que Machado de Assis tenha, antes de começar a escrever, destrinçado a Poética de Aristóteles.

Teorias literárias, sistemas e classificações servem, em primeiro lugar, a teóricos, acadêmicos e críticos.

É verdade que alguns escritores, depois de acumular experiência, escreveram ensaios teóricos — ou demonstraram, em sua correspondência, em seus diários, idéias precisas sobre o que pretendiam expressar ou atingir com seus textos.

Basta pensar, por exemplo, nas cartas de Flaubert e Tchekhov — ou nos ensaios de Edgar Allan Poe e Julio Cortázar.

Mas criar obedecendo antecipadamente a uma teoria jamais foi a preocupação primeira desses autores.

Os vanguardistas de certo modo fizeram isso: inventaram modelos e depois, acorrentados a seus manifestos, tiveram de seguir produzindo de acordo com o esquema. Submeteram seu impulso criador a uma coerência infantil e irresponsável. Poucos tiveram coragem de buscar novos caminhos.

Mas os grandes escritores obedecem, em primeiro lugar, a si próprios. E se buscam um modelo — e é bom que o façam —, procuram-no entre os seus iguais, quase sempre aqueles que consideram perfeitos.

Nada impede que o escritor estude, conheça teorias — e seja, inclusive, professor de teoria literária.

O problema é colocar a carroça na frente dos bois. O erro está em apresentar aos jovens uma teoria, um modelo, e dizer que seguir esse sistema fará deles escritores.

É o mesmo que enfiá-los numa camisa de força. Ou no estreito corredor de um matadouro.

A escrita deve ser livre. Livre, inclusive, para ir contra a estética do seu tempo.

O escritor deve se sentir livre para escrever como Madame de La Fayette ou — vamos ainda mais longe — como Murasaki Shikibu. Deve ser livre para se inspirar nessas escritoras e, gradativamente, formar seu próprio estilo.

Ao escrever, esqueça as teorias estéticas.

O escritor deve ser livre para bocejar diante de Barthes, para cair de sono depois de uma página de Propp, para jogar no lixo os tratados de semiótica.

janeiro 23, 2015

Exercícios contra o despotismo da originalidade

Não procure ser original. Procure ser apenas você mesmo.
Hoje você terá um pouco de paciência comigo.

Quando comecei a escrever este texto, meu objetivo era falar sobre um tipo de exercício útil para novos escritores — e também para os velhos, desde que ainda não estejam enclausurados em seu próprio pedantismo.

Contudo, quando comecei a escrever, minha memória recuperou um pouco do meu tempo de faculdade, principalmente as aulas de Semiótica e algumas palestras que tive a oportunidade de assistir durante o curso de Letras — que, aliás, não terminei por absoluta falta de paciência.

Você verá, se tiver a paciência que não tive, como as lições da faculdade estão intimamente ligadas ao exercício de criatividade que vou propor.

Lembrar de minhas aulas — e do que a maior parte de meus professores falava sobre “ser original” — significa começar a entender a crise em que a chamada modernidade aprisionou as diferentes formas de arte.

E aprisionou por um motivo simples: por tratar a originalidade como um valor absoluto — um valor soberano, que não permite contestação ou contradição.

Hoje, o artista vive pisoteado pela angústia da originalidade. Ou, como dizia minha bisavó, ele está num mato sem cachorro.

A maioria dos escritores, por exemplo, acredita que, para se impor como artista, precisa agradar, não necessariamente nessa ordem, os membros de sua panelinha, a crítica acadêmica e a mídia. E ele não demorará a descobrir que o preço a ser pago para alcançar seu objetivo — sem tratar aqui de algumas questões perniciosas — tem apenas um nome: transformar a si mesmo num espetáculo.

Não basta escrever. É preciso escrever como os outros gostam. E não basta escrever como os outros gostam. É preciso pintar o cabelo de azul, usar um cavanhaque no estilo século 19, vestir roupas amassadas, transpirar certo descuido na forma de se comportar, como se o mundo fosse um pouco desprezível — sem jamais deixar de ser politicamente correto, claro — e afetar relativa pobreza (ainda que papai e mamãe sejam professores universitários ou fazendeiros).

A receita parece fácil. Mas não é.

Escrever como os outros gostam significa ser “dadá”, isto é, irracional e absolutamente espontâneo. Ou, como dizia Tristan Tzara, compreeender que “o pensamento se faz na boca”. (Sempre que lembro de meu professor repetindo isso com seriedade não consigo parar de rir.)

Ou seja, escrever como os outros gostam significa não ser escritor — mas, sim, um artista performático.

Essa angústia que obriga o artista a recriar um vanguardismo a cada dia contaminou toda a cultura. Leia o artigo do restaurateur Rogerio Fasano e você entenderá o que estou dizendo: hoje não basta cozinhar — é preciso ser uma espécie de abominável Dr. Phibes e recriar as dez pragas do Egito.

A angústia, o desespero da originalidade está na cama imunda da artista plástica Tracey Emin, no crucifixo imerso em urina de Andrés Serrano, na orelha implantada no braço de Stelios Arcadiou. Ou na irônica proposta de Bernardo Atxaga, de escrever um conto em 5 minutos.

Esse desespero pós-moderno pressupõe que arte é qualquer coisa colhida no ar e transportada a determinado suporte. E, não importando o resultado desse exercício, basta, ao final, seu marchand, seu editor, ou seu padrinho professor da USP anunciar: isto é arte.


Se você não acredita que, escolhendo a esmo duas palavras num dicionário e circundando-as com alguns verbos, substantivos e preposições, sejam eles quais forem, você tem um conto, então vale a pena continuar a ler este texto.

Minha proposta é que você não se preocupe em ser original — mas esteja disposto a exercitar sua criatividade.

Sempre digo que o escritor precisa escrever constantemente.

Claro, há períodos de necessária inatividade, principalmente depois de meses vivendo sob tensão diária para escrever um romance. Mas é preciso manter os motores aquecidos, ainda que em ponto morto.

Para aqueles que desejam adquirir habilidade ou se sentem vazios de idéias, costumo sugerir o exercício de dialogar com outras formas de arte.

Sem se preocupar em escrever obedecendo a determinado gênero literário, você pode produzir a partir da observação de uma pintura, de uma gravura, ou até mesmo de uma série de gravuras.

As 80 gravuras que compõem a série Los caprichos, de Francisco de Goya, oferecem múltiplas situações satíricas, a partir das quais você pode se propor a escrever, por exemplo, textos de 50 linhas.

Não se trata de descrever a gravura, mas, a partir da imagem e do que ela evoca, expressar suas próprias idéias — contrapondo-se ou não à mensagem do artista. É possível que a gravura seja o estopim para uma pequena história ou para fábulas em que você tentará construir cenas semelhantes.

O importante é não fazer crítica de arte — mas usar a gravura como um trampolim.

E criar as regras para o seu exercício: 1) escolher as gravuras; 2) estabelecer o tamanho do texto; 3) determinar em quanto tempo você alcançará o número de palavras; 4) começar; 5) cumprir as regras que você mesmo criou, de preferência sempre no mesmo horário.

Se os temas de Goya lhe parecem desprezíveis, recorra, por exemplo, às gravuras de Utagawa Hiroshige, um pintor japonês do século 19. Ele deixou uma série de 119 gravuras sobre paisagens e lugares emblemáticos da antiga Edo (hoje Tóquio).

Você pode transplantar as cenas que Hiroshige desenhou para o seu próprio cotidiano — ou tentar penetrar nas paisagens, como Akira Kurosawa fez, no filme Sonhos, com um dos quadros de Van Gogh.

Se trabalhar com imagens não lhe parece agradável, use textos.

Já que estamos falando do Japão, as narrativas de Yasunari Kawabata reunidas em Contos da palma da mão podem servir como estopim para novos textos, para novos contos. Com o agradável acréscimo de se referirem a outra cultura — e, portanto, a um imaginário em grande parte diferente do ocidental.

Você pode fazer o mesmo exercício com aforismos. Partir de uma sentença breve, de um pensamento conciso, e escrever uma pequena história.

Georg Christoph Lichtenberg é um aforista genial, pouco conhecido no Brasil, cujas frases às vezes estão muito próximas do nonsense. Uma de suas anotações diz assim: “Ele apreciava a pimenta e as linhas em zigue-zague”. Não temos aqui um personagem interessante?

Ou, se você preferir algo mais lógico, Lichtenberg também é perfeito: “Na verdade, há muitos homens que lêem apenas para não pensar”. As possibilidades de desdobrar esta afirmação num conto são infinitas.

O importante, em todos esses exercícios, é a disciplina. Você precisa estabelecer sua meta e cumpri-la. Com dedicação, com empenho, com vigor.

E não procure ser original. Procure apenas ser você mesmo.

janeiro 09, 2015

Não acredite que a inspiração fará o trabalho pesado

Nenhum escritor se submete ao que desconhece
Certos escritores insistem na idéia de que o ato de narrar tem algo de místico.

Já falei aqui sobre autores que se dizem dominados por suas personagens. Mas há também aqueles que afirmam não escolher suas próprias histórias: “Elas se impõem”, falam alguns, como se narrativas surgissem do nada ou fossem desfiadas por um gênio semelhante à criança que, sem saber o que faz, puxa o fio de um novelo.

É evidente que há uma base de intuição no processo criativo — mas é também evidente que, dentre as várias histórias possíveis, a escolha de uma em especial obedece a determinado conjunto de auto-imposições: ninguém, em sã consciência, decide escrever sobre o que desconhece ou não pesquisou.

Um autor não precisa ter a experiência de Joseph Conrad para escrever aventuras marítimas, mas será obrigado, como Patrick O’Brian, por exemplo, a fazer minuciosas pesquisas, consultar especialistas, viajar. (Leiam a entrevista de O’Brian na Paris Review.)

E não bastam apenas pesquisas. Devemos pensar no planejamento que uma obra requer — para evitar incongruências, absurdos.

Hoje, quando qualquer conto ampliado recebe o nome de “romance”, o planejamento tem merecido o menosprezo de alguns supostos experts e de muitos escritores.

Mas quem se dispuser a ir além de um conto estendido deve se preparar para escolher um tema que lhe seja de alguma forma próximo — ou se dispor a planejamento e pesquisa exaustivos. Sua história não descerá rutilante e pronta dos céus.

E se uma história, como alguns escritores místicos gostam de dizer, se impõe, ela certamente o faz porque foi alimentada no imaginário. Estava ali, nas sombras da mente do autor, tomando forma, aguardando para escapar. E ele não pode dizer que a desconhecia.

Nenhum escritor se submete ao que desconhece. Só os navegantes de primeira viagem cometem o erro de abraçar um tema que não dominam ou que sequer imaginam como poderão dominar.

Quando um principiante percebe o erro que cometeu, sua primeira reação é tentar resumir, em 50 páginas, o que precisaria de 400 para ser narrado. Um autor experiente abandonaria o projeto ou faria um conto. Ou enfrentaria as dificuldades — e teríamos 400 páginas empolgantes.

Além disso, dizer que a história se impõe é autodepreciar-se. E toda a habilidade técnica, todo o domínio do idioma, da capacidade de imaginar e narrar?

Tudo nasce da inspiração? E as anotações feitas? E o número de horas debruçado sobre o papel, além dos longos dias em que, fazendo outras coisas, o escritor, na verdade, só pensa na sua história?

Os novatos, portanto, devem acreditar menos nas afirmações quase sobrenaturais de certos autores — e confiar mais na certeza de que escrever exige dedicação, reflexões, esforço, aperfeiçoamento constante, domínio do idioma. Além de um mergulho sem volta na psicologia humana.

Portanto, se, no início, sentindo-se inseguro, você não consegue ir além de um ou dois personagens, de um ou dois cenários, de uma trama simples, não se angustie: escreva sua história como for possível, dentro dos seus limites. Mas não acredite que a inspiração fará o trabalho pesado.

Certa imagem, um gesto, a leitura de uma notícia, o fragmento de conversa no ônibus podem desencadear, sem dúvida, a imaginação. Mas esse é apenas o início, o primeiro passo de um longo trabalho.

janeiro 07, 2015

A disciplina é a liberdade do escritor

Sem constância, não há escritor
Qual o lugar perfeito para escrever?

É o local que conseguimos criar dentro das nossas possibilidades, nas circunstâncias em que vivemos.

Se escrever é realmente essencial, as dificuldades não importam: você conseguirá criar seu espaço.

Nos últimos 12 anos, mudei três vezes de residência. Na primeira, a janela do quarto dava para duas paisagens paulistanas: a rua movimentada, que os ônibus subiam forçando os motores, e a quadra de uma escola. Eu escrevia obedecendo aos horários de entrada, recreio e saída das crianças. Quando chegava o final de semana, pronto a comemorar o relativo silêncio, descobria que a escola cedera a quadra para um show de rock.

Mas há situações diferentes: conheço escritores que lêem e escrevem num apartamento minúsculo, com 3 filhos brincando à sua volta.

Você pode e deve buscar o lugar ideal — mas a necessidade de escrever, tão premente em certos casos, sempre se adapta à realidade.

Além disso, se ficamos esperando pelo espaço ideal, jamais escreveremos.

A urgência de escrever cria os locais — a urgência de escrever força situações. Um banco de jardim, um café no qual possamos ficar esquecidos em alguma mesinha, o balcão da padaria, uma biblioteca pública — qualquer lugar serve, desde que você possa se concentrar.

Meu sonho é escrever diante de uma janela aberta sobre o horizonte amplo, montanhoso, e ouvir, ao fundo, o murmurar de um riacho. Mas passei dois anos escrevendo no quarto de um apartamento em que, ao abrir a janela, se estendesse o braço, tocaria o prédio vizinho.

Na verdade, abstrair-se, concentrar-se, requer expediente. Isto é, decisões rápidas (e muitas vezes simples) para se livrar das dificuldades. E persistência.

Quando a empregada do apartamento grudado ao meu ligava o rádio no último volume, eu colocava fones de ouvido e escutava Brahms. Depois de alguns minutos, não ouvia nada: nem as musiquinhas suburbanas nem o meu clássico. Escutava apenas minhas próprias idéias, ouvia as frases que se formavam e a voz que dialogava comigo sobre qual verbo, qual substantivo expressaria melhor o que eu tinha a dizer.

Todos os escritores repetem essa experiência: há minutos de aquecimento, em que as idéias parecem emperradas, em que tudo incomoda — depois, mergulha-se numa espécie de alheamento. Não é um transe, não perdemos contato com a realidade, mas nosso mundo interior nos domina, ganha força, se sobrepõe às coisas que nos limitam.

Escrevemos, então, numa espécie de umbral localizado entre nossas construções mentais, o espaço em que estamos e a consciência de nosso corpo.

Reviver essa experiência dia após dia exige disciplina — um ritual que precisa ser construído, descoberto.

Em que horário sua produção flui com facilidade? Tenho amigos notívagos, outros preferem o amanhecer, alguns precisam de solidão, outros gostam da presença quieta de alguém, dos movimentos cotidianos e simples de uma casa.

Alguns necessitam que a mesa esteja limpa — ou que os objetos a seu redor fiquem perfeitamente organizados. Um amigo só escreve depois de repetir determinados gestos.

É preciso descobrir esse sistema pessoal de trabalho — e repeti-lo. Mas a descoberta só ocorre se o escritor estiver atento a si mesmo.

A palavra disciplina pode parecer pesada, mas uso-a no sentido de comportamento metódico. Sem constância, não há escritor.

A disciplina liberta a mente para o que mais importa: escrever. O escritor se prepara, repete seu ritual, sente-se dono do seu minúsculo espaço, comanda aquele período de horas em que dialogará consigo mesmo. E cria.

Depois de algum tempo, conhecemos o caminho da luz solar sobre a escrivaninha — e como ele muda à medida que os meses passam. Esse conhecimento nos conforta, nos liberta para o desgastante e prazeroso exercício de escrever.

Quando o dia termina, quando o tempo dedicado ao ritual se encerra, as páginas estão cheias — e não de rabiscos sem sentido.

A disciplina é a liberdade do escritor.

janeiro 05, 2015

Por que alguns autores se esforçam para ser incompreensíveis?

O leitor real grita no ouvido do vanguardeiro tupiniquim: "— Quero apenas uma boa história!"
Muitos escritores — e parcela da crítica — enaltecem, no Brasil, a literatura que se limita a fazer acrobacias ou malabarismos lingüísticos.

Contudo, ao valorizar de forma extrema esses experimentos vanguardistas, quase sempre inócuos, o escritor transforma seu texto numa peça ilegível, que serve apenas para agradar a meia dúzia de supostos iluminados.

Esse esforço para criar um texto incompreensível mostra que o autor se concentrou no seu narratário, no seu leitor imaginário, mas esqueceu o leitor real. Este, o leitor de verdade, está, portanto, condenado ao ato de ler sem entender, à leitura transformada em tortura, mero exercício de decifração.

Parece, inclusive, haver um pacto entre algumas editoras: o de só publicar literatura brasileira que seja hermética, confusa, repleta de jargões.

Os bons escritores deveriam proclamar, sem dissimulação, sem receio do ataque das panelinhas, que o leitor não tem obrigação de ser um paleógrafo. Não quer ser um paleógrafo. Detesta paleografia!

Abandonados diante da página impressa, condenados ao deserto no qual a imaginação, por mais que se esforce, não consegue dar conta de construir o que seria tarefa do escritor, nossos poucos leitores são facilmente raptados para o mundo da subliteratura, tornam-se reféns dos romancinhos de auto-ajuda e de tantas outras panacéias na forma de brochura.

Na verdade, os vanguardeiros tupiniquins, alguns editores e parte da crítica esquecem que a linguagem não lhes pertence exclusivamente, que a linguagem, como ensina Georges Gusdorf, “manifesta o ser relacional do homem”.

O leitor real — não o leitor fictício — é o “outro”, de quem Gusdorf nos fala em La Parole. O outro que é, “para cada um, condição de existência”.

O leitor que deseja apenas uma boa história aprendeu com Gusdorf e grita para o vanguardeiro surdo: — Aprenda: você “fala porque não está só”! “O ser humano não se contém dentro de si próprio: os contornos do seu corpo desenham uma linha de demarcação, mas nunca um limite absoluto”!

dezembro 27, 2014

Os 7 top posts de 2014

2014 foi um ótimo ano. E, graças a meus leitores, 2015 será ainda melhor
Reler cada um desses textos significa, neste final de ano, reavaliar meu trabalho.

Graças a você, que é leitor deste blog, estes são os 7 posts mais acessados em 2014:

— Um texto sucinto e objetivo para ajudar quem deseja escrever.

— Sugestões para mostrar que você pode, sim, se tornar um escritor.

— Análise criteriosa do clássico escrito por meu amigo e professor Olavo de Carvalho.

— Meus comentários sobre o decreto que confirma a lição da história: o melhor dos mundos, quando se trata da esquerda, está sempre próximo do que imaginamos ser o Inferno, quando não é o próprio Inferno.

— O que teria sido da literatura brasileira se o mulato pobre Machado de Assis não tivesse lutado para abandonar o Morro do Livramento?

— Vida intelectual sem exercício da virtude, sem intrepidez, é o mesmo que construir castelos na areia.

— Devemos “perder” tempo com um padre dominicano que viveu no longínquo século XIII?

Como você pode ver, 2014 foi um ótimo ano. E tenho certeza de que, graças a meus leitores, 2015 será ainda melhor!

dezembro 18, 2014

Scrivener: a ferramenta essencial para o escritor

Scrivener é, como dizem seus criadores, a libertação do caos
Se você está acorrentado à lógica do Word, certamente não entenderá os benefícios que Scrivener tem a oferecer.

No começo, eu mesmo não entendi. Mas depois de uma semana lendo artigos na Web e trabalhando com esse incrível processador de textos, acredite, o Word tornou-se uma pintura na Gruta de Lascaux: ainda tem alguma importância, mas muito limitada.

O programa Word nos acostumou a ver nossos textos como produções isoladas — e não como eles realmente são: criações interdependentes.

Imagine que você está escrevendo um livro dividido em vários capítulos. Que opções de organização o Word lhe oferece? Você pode abrir uma pasta com o nome do seu livro — e incluir nela os capítulos numerados. Ou pode abrir um único arquivo: e escrever seu livro numa longa seqüência.

Pense nessas duas opções.

Imagine você trabalhando num livro — ficção ou não ficção — com 20 capítulos, cada capítulo com 15 ou 30 páginas.

Muito bem. Agora responda:

— Onde estão as anotações que você usa para cada capítulo?

— O que você tem de fazer quando está no Capítulo 19, quer comparar um trecho com o Capítulo 3 e também verificar se a mesma informação não foi repetida no Capítulo 8?

— Quantos arquivos do mesmo capítulo você precisa fazer se quiser escrever versões diferentes do seu trabalho e, depois, compará-las?

— Como você consegue ter uma visão completa do conjunto de sua produção, incluindo a seqüência dos capítulos, o tamanho de cada um, os temas enfocados, as diferentes versões de cada capítulo e, principalmente, os metadados?

Sim, os metadados! Ou seja, todos os trechos em que a personagem C aparece; ou todos os trechos em que a personagem D interage com a personagem A. Ou, se você está escrevendo um ensaio, ter à mão a recorrência de certas idéias — e também a relação delas com outras informações.

As perguntas parecem complicadas apenas por um motivo: você está preso à lógica do Word. Uma lógica linear, que só permite que você pense e escreva como se desenrolasse um imenso rolo, no qual as folhas de papiro ou pergaminho estão emendadas.

A lógica de Scrivener não é linear. E por um simples motivo: ele foi pensado para escritores, para profissionais da escrita — e não apenas para quem precisa produzir um ou mais textos.

Para Scrivener, não existem apenas “textos” ou apenas “arquivos” — mas, sim, projetos.

Quando você abre seu projeto em Scrivener encontra três campos: o “Fichário” (à esquerda), o “Editor” (no centro) e o “Inspetor” (à direita):


No fichário você organiza os capítulos ou os diferentes textos do seu projeto, dividindo-os da forma que considerar melhor. Por exemplo: tenho todos os posts do meu blog num único projeto, seguindo uma primeira grande divisão, por anos — e depois subdivisões por meses.

Na parte inferior do Fichário você encontra a pasta “Pesquisa”, que aceita arquivos de imagem, PDFs e outros textos que possam ajudá-lo de alguma maneira.

No Editor, o lugar em que você escreve, Scrivener oferece três formas de visualização do seu trabalho:

— Um único arquivo:


— Um quadro de cortiça:


— Um esboçador em que você visualiza todos os capítulos numa ordem contínua:


No “Inspetor” você tem todas as notas do capítulo (ou, se preferir, as notas mais gerais do projeto), as referências bibliográficas, as palavras-chave, os metadados (que você pode personalizar como quiser), as imagens de todas as versões de um mesmo capítulo (para que você possa compará-las), além das notas de rodapé e dos comentários que você produz por diferentes motivos.

Há muito, muito mais.

Quando você coloca o ponto final no seu livro, pode exportá-lo com todos os capítulos reunidos na ordem que você desejar (incluindo notas, cabeçalhos, folha de rosto, etc.) E pode exportá-lo como Word, PDF ou um e-book pronto para ser publicado no formato Kindle (além de outras opções).

E se você gosta de escrever sem distrações visuais, pode optar pela “tela cheia”:


Você pode baixar uma versão completa de Scrivener e experimentar o programa durante 30 dias (ele vem com dois tutoriais, um deles autoexplicativo — ambos em inglês, mas numa linguagem clara e direta, que, se você precisar, o tradutor do Google não complicará).

Scrivener, como dizem seus criadores, é a libertação do caos.

dezembro 15, 2014

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida

Cada página escrita é um "não" firme às desculpas que usamos para não escrever
Cada página que você escreve não é apenas mais um capítulo ou mais algumas linhas na direção da obra que você deseja completar.

Não.

Cada linha escrita é uma vitória sobre as características e as limitações da sua personalidade, dos seus hábitos.

Cada nova página produzida é a resposta que você dá às investidas da preguiça.

Cada página escrita é o seu “não” firme a todas as desculpas que inventamos para não escrever, para não sermos o que desejamos ser.

Cada hora debruçado sobre um texto é a sua resposta contra os limites físicos, contra as pressões familiares, os fracassos do passado, o medo do futuro, a falta de recursos, as insuficiências do seu meio, do seu país, da sua cultura.

Não esqueça o que W. H. Auden escreveu: “Aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos próprios olhos, ele é poeta apenas no momento em que faz a última revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial; no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez para sempre”.

Um escritor só é escritor se consegue permanecer vigilante, com sua atenção voltada a tudo que pode ajudá-lo a escrever.

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida.

dezembro 09, 2014

O bom escritor: mestre dos detalhes

"A literatura nos ensina a observar" — James Wood
Para que servem os detalhes na literatura?

Eles não são apenas o ponto de fuga de um cenário, para onde o olhar do personagem se desvia a fim de descobrir um centro de equilíbrio. Ou o elemento que o escritor utiliza para estabelecer um contraste com o restante do espaço e, assim, dar concretude às proporções.

Estas são funções importantes, sem dúvida, mas refiro-me a outro tipo de detalhe.

Falo daquele detalhe que, segundo James Wood, quando usado na literatura, “faz com que nos fixemos mais na vida”. Vida que, por sua vez, “nos faz melhores leitores dos detalhes na literatura”.

Nessa inter-relação entre vida e literatura, a segunda difere da primeira, pois, segundo a correta observação de Wood, “a vida está repleta de detalhes acumulados e raramente nos leva para eles, enquanto a literatura nos ensina a observar.”

Quem leu Madame Bovary deve lembrar da cena em que, numa das primeiras visitas de Charles à Quinta dos Bertaux, o futuro casal bebe licor. Depois de servir a si mesma uma dose pequena, Emma leva o copinho à boca e Flaubert escreve:

“Como estava quase vazio, ela inclinava-se para trás, para beber; e com a cabeça deitada, avançando os lábios, com o pescoço retesado, ria por nada sentir, enquanto, passando a ponta da língua entre os dentes finos, lambia aos poucos o fundo do copo”.

Prestem atenção ao riso, à língua que brota entre os dentes como se fosse uma delicada serpente: as diversas compulsões de Emma, que se revelarão ao longo do romance, estão todas concentradas nesse divertido, breve gesto de luxúria.

Em “A dama do cachorrinho”, de Anton Tchekhov, depois que Gurov e Ana têm a primeira relação amorosa, enquanto Ana sente-se culpada e sofre por ter traído o esposo, Gurov, então sempre pronto a odiar as mulheres, corta um pedaço de melancia e come “sem se apressar”, diz o narrador, passando meia hora em silêncio.

O ato de comer e o vermelho que brota da fruta intensificam o descaso do amante — e se contrapõem à mulher agora desolada, de traços murchos e “cabelos que pendem tristemente dos lados do rosto”.

Enquanto Gurov se lambuza na polpa da fruta, como se repetisse o que acabara de fazer com Ana, esta, sem qualquer vivacidade, sob a penumbra da vela que mal ilumina seu rosto, exala “a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco”.

As oposições que percebemos entre o prazer consumado, a indiferença e o sofrimento concentram-se todas no vermelho da melancia.

Esta é a força dos detalhes — eles destroem as generalizações e, como diz Vladimir Nabokov, carregam, nas suas incongruências, o poder de descrever fatos e personagens.

novembro 29, 2014

Como nasce a inspiração?

Borges: "No caso de um conto, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta"
Como surge a idéia de um conto, de um romance, de um poema?

Cada escritor tem sua história, sua forma de inspiração.

Vejam o que Jorge Luis Borges fala:

“Começa por uma espécie de revelação. Mas eu uso essa palavra de uma maneira modesta, não ambiciosa. Ou seja, de repente eu sei que algo vai acontecer e que isso que vai acontecer pode ser, no caso de um conto, o princípio e o fim. No caso de um poema, não: é uma idéia mais geral, e às vezes tem sido a primeira linha. Ou seja, algo me é dado, e depois intervenho, talvez estrague tudo (ri). No caso de um conto, por exemplo, eu conheço o princípio, o ponto de partida, conheço o fim, conheço a meta. Mas depois tenho que descobrir, através dos meus muito limitados meios, o que acontece entre o começo e o final”.

O que Borges conta é apenas o nascimento, a primeira fulguração do texto.

Todo o complexo e estimulante jogo de construir a narrativa vem depois.

novembro 26, 2014

O mistério do escritor

Ao mesmo tempo frágil e confiante, o escritor avança e repete seu "sim" ao ato de criar
Como surge um escritor?

O escritor nasce da dialética entre vocação — o conjunto de influências, em grande parte indetermináveis, que direciona sua forma de perceber a vida e de refletir sobre ela — e circunstância.

Mas tal reflexão, que devo a Ortega y Gasset, não explica tudo. No máximo, demarca a estrada por onde segue o escritor.

Permanece obscuro, portanto, como, em meio a fragilidades e incertezas, obrigado a decidir sozinho os rumos da sua obra, sentindo-se inseguro ou, raras vezes, confiante, o escritor sempre repete seu “sim” irrepreensível ao ato de criar.

É um mistério. Mas é o mistério que ele deseja.

novembro 25, 2014

O desejo do escritor é desvendar a existência

Como o fotógrafo, o escritor deseja fazer sua própria interpretação da vida
O fotógrafo Henri Cartier-Bresson dizia que, na verdade, não era a foto em si que o interessava. O que ele queria era “capturar uma fração de segundo do real”.

O desejo do escritor é semelhante. Ele não está — ou não deveria estar — preocupado com o livro em si, com a obra exposta numa reluzente livraria. O que o escritor almeja é desvendar um ou mais aspectos da existência, fazer sua própria interpretação da vida.

Aliás, o trabalho do escritor é semelhante ao do fotógrafo: o diafragma da câmera não escolhe sozinho a cena a ser capturada — e, para cada imagem escolhida, dezenas são desprezadas.

Se fosse de outra maneira, se nos bastasse o mero retrato da realidade, não precisaríamos da literatura e de outras formas de arte. Bastaria colocar câmeras em cada esquina, em cada casa, e permitir que qualquer um assistisse o que quisesse, quando quisesse.

A inutilidade de algo assim é tão evidente, que até mesmo um programa vulgar como Big Brother Brasil está sujeito a uma série de manipulações e provas, e supostos interrogatórios, traições e acordos — enfim, um complexo sistema ficcional, ainda que ordinário e grosseiro — para se tornar atraente.

Voltando à ficção literária, se quiséssemos listar os diferentes aspectos da vida humana, bastaria reler as principais narrativas. Um conto breve como “O colar”, de Maupassant, fala mais sobre fuga da realidade, orgulho e amor do que dezenas de tratados de psicologia.

Não foi a obra enquanto produto final que despertou o interesse de Maupassant, mas a possibilidade de capturar um sentimento, um comportamento, determinada situação, de uma forma que, ele intuía, só Maupassant poderia apreender.

novembro 24, 2014

O salto da imaginação à escrita

Os campanários de Martinville formam o momento libertador em que a imaginação se torna palavra escrita
Como o desejo de escrever se transforma em ato concreto?

No primeiro volume de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, o narrador conta sua experiência: ele recorda sua infância, quando escrever era um anseio atormentador.

Cada detalhe inspira o garoto. No entanto, há um abismo entre o pensamento e o gesto de empunhar o lápis. Sua angústia o persegue — e ser incapaz de concretizar o desejo de escrever muitas vezes o aniquila:

“Parecia-me então que eu existia da mesma forma que os outros homens, envelheceria e morreria como eles e que, no meio deles, apenas pertencia ao número dos que não têm pendor para escrever. E assim, desanimado, renunciava para sempre à literatura […]”.

A aflição cresce. A realidade está sempre a chamá-lo.

Como todo candidato a escritor que aguarda a inspiração genial ou o tema perfeito, ele se confunde. Os elementos, entretanto, acumulam-se — até que, num transbordamento, tudo se precipita quando, certo dia, vê as torres da igreja de Martinville.

Os campanários de Martinville formam esse momento libertador, em que, finalmente, imagens, sons, odores e sentimentos se transformam em palavras escritas.

O trecho interessará a quem deseja escrever e está acostumado à ansiedade de não conseguir saltar do sentimento ao texto. Pode ser lido neste link.

novembro 22, 2014

O bom escritor sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro

O que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível
Em Os Testamentos Traídos, Milan Kundera conta a história do seu professor de música, um judeu perseguido pelos nazistas que, antes de partir para o Campo de Concentração de Terezin, é obrigado a mudar de uma residência a outra, sempre levando consigo seu pequeno piano.

Esse professor, certo dia, no final da aula, diz ao menino: “Há muitos trechos surpreendentemente fracos em Beethoven. Mas são os trechos fracos que dão destaque aos trechos fortes. É como um campo sem o qual a bela árvore que nele cresce não nos daria prazer”.

Ora, não é assim com as obras literárias? Não é assim com o conjunto da obra de um escritor?

Quando alguém começa a escrever, sonha em criar obras indispensáveis, perfeitas e inovadoras em seus mínimos detalhes — mas essa preocupação muitas vezes inibe sua criatividade e estraga o que poderia ser espontâneo.

O bom escritor, ao contrário, sabe que é impossível ser genial o tempo inteiro. Sabe também que a chamada originalidade é uma quimera.

Aliás, o que move o bom escritor é apenas o desejo de contar sua história da melhor forma possível. Assim ele planta seu campo, de forma espontânea — e ali podem surgir algumas árvores raras.