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outubro 28, 2010

Importância da crítica literária

"A crítica literária de verdade é importante, pois é um dos mais importantes componentes na determinação das obras canônicas. O cânone poético é produzido por uma sociedade aberta, composta por poetas, críticos, professores, estudantes e leitores em geral. Ele nunca é absolutamente definitivo. De vez em quando, o direito de determinadas obras a pertencer ao cânone é questionado; de vez em quando, outras obras (novas ou antigas) entram no cânone. Mas o fato é que, à medida que o tempo passa, determinados autores que foram apreciados por várias gerações constituem uma espécie de núcleo canônico, e este dificilmente é modificado. Hoje me parece praticamente inconcebível que autores como Homero, Horácio, Dante, Shakespeare, Baudelaire, Rilke ou Drummond deixem de ser canônicos."

Antonio Cicero, aqui.

junho 21, 2009

Apartados da tradição

Em dois artigos publicados na Folha de S. Paulo (30 de maio e 13 de junho), Antonio Cicero fala sobre a idolatria do contemporâneo: “O desejo do contemporâneo não passa de sintoma de um agudo provincianismo temporal”.

De fato, quais garantias nos oferecem as obras que ainda não passaram pelo filtro do tempo? Quem olha apenas o presente condena-se ao emburrecimento, pois, na maioria das vezes, nossos contemporâneos – exaltados pela mídia – nada significam, resumindo-se a ecos medíocres da tradição.

Mas como nasce o provincianismo? E por que ele se mostra tão arraigado? O mal principia nos bancos escolares. Uma historinha explicará a afirmação: há alguns meses, jantando na casa de um amigo, pude usufruir da companhia de uma professora de história recém-formada pela USP. A jovem, muito falante, lá pelas tantas – e não pensem que ela abusou do vinho – nos brindou com uma dessas pérolas inesquecíveis: “É impossível não perceber que a filosofia e a arte gregas estão maculadas pela herança desumana da escravidão”. E destrambelhou a repetir velhos, inúteis e carcomidos chavões de esquerda, ao fim dos quais, enredada na sua própria teia, ela já condenara à fogueira Platão, Aristóteles, Sófocles e Ésquilo, absolvendo, para minha surpresa, Aristófanes, pois, outra pérola, “a comédia sempre tem um alto poder contestador”.

Imagino essa garota repetindo suas idiotices, anos a fio, para centenas de crianças e jovens. E, pior, imagino o idiota que, refestelado em sua cátedra, ensina tais absurdos. George Steiner está certo: “A maioria daqueles a quem confiamos nossos filhos na escola secundária, daqueles em quem procuramos orientação e exemplo na universidade, são, em maior ou menor intensidade, gentis coveiros” (in Lições dos Mestres).

Em minhas breves experiências na universidade tínhamos de ler Roland Barthes e Charles Sanders Peirce de joelhos. E ai dos que desviassem os olhos daquelas páginas! O escolhido deste princípio de século é Deleuze. E dentro de alguns anos, quem será o novo bezerro de ouro? Enquanto isso, a Poética e a Retórica de Aristóteles emboloram no setor mais úmido da biblioteca.

Não se trata, contudo, de trocar um guia de cego por outro. Trata-se, sim, de estar aberto a tudo, sem preconceitos – e, em primeiro lugar, ler aqueles que nos antecederam, e cuja obra foi testada por gerações.

Não é o que acontece na universidade. O adjetivo que mais ouvi nos dois cursos de Letras que frequentei foi “superado”. “Fulano está superado”, decretava o arrogante catedrático. “Essa análise está superada”, grunhia a professora. “Como você pode perder tempo com esse autor superado?”, perguntou-me a prosélita do Departamento de Semiótica ao perceber que eu lia Albert Thibaudet. A universidade vive, assim, sob uma censura camuflada, procurando mais catequisar do que abrir consciências. E pobres dos que se afastam do redil! Um longo e doloroso calvário os aguarda, afinal – esse é outro dos chavões que cansei de ouvir –, “precisamos estar inseridos na modernidade”, ou seja, devemos ser cada vez mais provincianos.

A origem do problema, no entanto, é anterior aos cursos universitários. O que dizer de um aluno que termina o ensino médio sem jamais ter lido um poema de Catulo? Que jamais tenha ouvido falar de Heráclito? Pode parecer absurdo pensar nesses nomes quando a escola mal alfabetiza, mas a recente polêmica em torno dos livros adotados nos colégios paulistas mostra o descaso, a ignorância e o desvirtuamento dos responsáveis pela escolha das obras. Eles não são apenas provincianos; são filisteus.

Apartados da tradição, da nossa melhor herança cultural, os jovens podem viver sem grandes problemas – como de fato vivem –, mas terão um número reduzido de instrumentos para lidar com suas dúvidas e seus temores; e, menos sábios, celebrarão a mediocridade todos os dias, certos de viverem no melhor dos mundos.