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fevereiro 02, 2015

Fluxo de consciência e discurso caótico

Muitos jovens escritores se esforçam para levar o chamado “fluxo de consciência” — um aprofundamento da técnica do “monólogo interior” — a níveis talvez nunca sonhados por James Joyce.

O preço a pagar por essa radicalização é mais do que a ruptura com a sintaxe, com a pontuação, ou o exagero no uso da “escrita automática”, da livre associação de palavras.

Ao abandonar qualquer possibilidade de discurso lógico — o que James Joyce não fez em Ulysses —, esses autores rompem todos os compromissos com o ato da leitura, com a compreensão de suas narrativas. Ou seja, desprezam o leitor.

Alguns mantêm relativa coerência no discurso de seus narradores, mas apelam a outro radicalismo: como pretendem recriar a voz do inconsciente, pois acreditam que só dessa maneira revelarão o que se passa no interior do homem, transformam o texto num despejo das mais perversas patologias.

O resultado, ainda que não seja incompreensível, é um texto quase sempre monocromático e tedioso, em que o narrador apenas consegue repisar sua própria morbidez.

Ora, o “fluxo de consciência” não é, como alguns dizem,  a única linguagem sincera, a única linguagem verdadeira. E não é apenas por um motivo: ele exige do autor esforço estilístico como qualquer foco narrativo. Dizendo de outra maneira, seja qual for o narrador escolhido, o autor terá de mentir bem.

Essa pretensão de representar o inconsciente com absoluta fidedignidade nada mais é do que a tentativa de recriar o que o autor acredita ser a voz do inconsciente, da forma como ele acredita ouvi-la — o que, convenhamos, todos os escritores fazem com seus personagens e narradores.

Com uma diferença: é impossível captar o fluir da consciência — ou o pensamento em estado puro, da forma como ele brota a cada sinapse. E, repito, quanto mais nos aproximamos disso, mais o discurso torna-se incompreensível, mais o discurso sepulta o leitor.

Se não há naturalidade em nenhuma narrativa, como muitos também afirmam hoje, então a artificialidade é a senhora absoluta do “fluxo de consciência”.

Mas resta uma pergunta: por que a voz interior, por que o fluxo do pensamento precisa ser necessariamente confuso ou expressar apenas o lado mórbido do narrador?

Respondendo, é curioso como os escritores atuais preferem o monólogo da adúltera Molly Bloom e desprezam a leveza de Clarissa Dalloway. Molly agrada mais ao freudismo que se institucionalizou na ficção. Um freudismo que é não só endeusamento da libido, mas principalmente banalização do homem.

No que se refere à confusão, quantas vezes não conversamos com nós mesmos de forma ordenada, ainda que repisemos certos pensamentos? Representar a voz interior, portanto, não significa, obrigatoriamente, construir um discurso caótico. Como, aliás, Hermann Broch mostrou em A Morte de Virgílio.

janeiro 30, 2015

Problemas da literatura atual

A perplexidade do homem da maioria em relação ao homem criador está perdida
Penso em muitas coisas quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.


Uma angústia artificial perpassa as histórias.

No fundo, todos reclamam que não são felizes, como se a felicidade fosse o estado natural do ser humano, do qual eles, pobres coitados, estão excluídos por algum erro do Universo.

Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero, sofrimento. Não sabem e não imaginam.

Ou, pior, acham que desespero é ter de decidir entre o jogo de futebol na tevê, uma transa por obrigação e andar de bicicleta nas ciclovias do Haddad.

Tem-se a impressão de que eles decoraram Sartre. Ou Clarice Lispector — mas a voz que narra é a de uma Clarice diluída, desfibrada. Talvez seja o perispírito da Clarice.

Há outras opções de estilo: pode ser um Guimarães Rosa canhestro — ou a corruptela de alguma tradução do Ulysses.

As frases raramente ultrapassam 18 palavras. E são truncadas, como se o escritor sofresse de algum problema respiratório.

A superficialidade desses livrinhos faz-me lembrar do que Thomas Mann falava sobre o “tempo do homem criativo”.

Mann dizia que esse tempo “é de uma estrutura, de uma densidade e de uma produtividade diferentes daquelas frouxamente tecidas e passageiras da maioria”. E que o “homem da maioria”, admirado da “extensão de realizações que se podem acomodar neste espaço de tempo”, pergunta ao homem criativo: “Quando vais fazer tudo isso?”.

Essa perplexidade do homem comum em relação ao homem criador está perdida. Hoje, tudo é frouxo e passageiro. Hoje, o homem da maioria olha o “romance” de 15 páginas e pensa: “Isto até eu faço!”.

E ele tem razão. 

janeiro 23, 2015

Exercícios contra o despotismo da originalidade

Não procure ser original. Procure ser apenas você mesmo.
Hoje você terá um pouco de paciência comigo.

Quando comecei a escrever este texto, meu objetivo era falar sobre um tipo de exercício útil para novos escritores — e também para os velhos, desde que ainda não estejam enclausurados em seu próprio pedantismo.

Contudo, quando comecei a escrever, minha memória recuperou um pouco do meu tempo de faculdade, principalmente as aulas de Semiótica e algumas palestras que tive a oportunidade de assistir durante o curso de Letras — que, aliás, não terminei por absoluta falta de paciência.

Você verá, se tiver a paciência que não tive, como as lições da faculdade estão intimamente ligadas ao exercício de criatividade que vou propor.

Lembrar de minhas aulas — e do que a maior parte de meus professores falava sobre “ser original” — significa começar a entender a crise em que a chamada modernidade aprisionou as diferentes formas de arte.

E aprisionou por um motivo simples: por tratar a originalidade como um valor absoluto — um valor soberano, que não permite contestação ou contradição.

Hoje, o artista vive pisoteado pela angústia da originalidade. Ou, como dizia minha bisavó, ele está num mato sem cachorro.

A maioria dos escritores, por exemplo, acredita que, para se impor como artista, precisa agradar, não necessariamente nessa ordem, os membros de sua panelinha, a crítica acadêmica e a mídia. E ele não demorará a descobrir que o preço a ser pago para alcançar seu objetivo — sem tratar aqui de algumas questões perniciosas — tem apenas um nome: transformar a si mesmo num espetáculo.

Não basta escrever. É preciso escrever como os outros gostam. E não basta escrever como os outros gostam. É preciso pintar o cabelo de azul, usar um cavanhaque no estilo século 19, vestir roupas amassadas, transpirar certo descuido na forma de se comportar, como se o mundo fosse um pouco desprezível — sem jamais deixar de ser politicamente correto, claro — e afetar relativa pobreza (ainda que papai e mamãe sejam professores universitários ou fazendeiros).

A receita parece fácil. Mas não é.

Escrever como os outros gostam significa ser “dadá”, isto é, irracional e absolutamente espontâneo. Ou, como dizia Tristan Tzara, compreeender que “o pensamento se faz na boca”. (Sempre que lembro de meu professor repetindo isso com seriedade não consigo parar de rir.)

Ou seja, escrever como os outros gostam significa não ser escritor — mas, sim, um artista performático.

Essa angústia que obriga o artista a recriar um vanguardismo a cada dia contaminou toda a cultura. Leia o artigo do restaurateur Rogerio Fasano e você entenderá o que estou dizendo: hoje não basta cozinhar — é preciso ser uma espécie de abominável Dr. Phibes e recriar as dez pragas do Egito.

A angústia, o desespero da originalidade está na cama imunda da artista plástica Tracey Emin, no crucifixo imerso em urina de Andrés Serrano, na orelha implantada no braço de Stelios Arcadiou. Ou na irônica proposta de Bernardo Atxaga, de escrever um conto em 5 minutos.

Esse desespero pós-moderno pressupõe que arte é qualquer coisa colhida no ar e transportada a determinado suporte. E, não importando o resultado desse exercício, basta, ao final, seu marchand, seu editor, ou seu padrinho professor da USP anunciar: isto é arte.


Se você não acredita que, escolhendo a esmo duas palavras num dicionário e circundando-as com alguns verbos, substantivos e preposições, sejam eles quais forem, você tem um conto, então vale a pena continuar a ler este texto.

Minha proposta é que você não se preocupe em ser original — mas esteja disposto a exercitar sua criatividade.

Sempre digo que o escritor precisa escrever constantemente.

Claro, há períodos de necessária inatividade, principalmente depois de meses vivendo sob tensão diária para escrever um romance. Mas é preciso manter os motores aquecidos, ainda que em ponto morto.

Para aqueles que desejam adquirir habilidade ou se sentem vazios de idéias, costumo sugerir o exercício de dialogar com outras formas de arte.

Sem se preocupar em escrever obedecendo a determinado gênero literário, você pode produzir a partir da observação de uma pintura, de uma gravura, ou até mesmo de uma série de gravuras.

As 80 gravuras que compõem a série Los caprichos, de Francisco de Goya, oferecem múltiplas situações satíricas, a partir das quais você pode se propor a escrever, por exemplo, textos de 50 linhas.

Não se trata de descrever a gravura, mas, a partir da imagem e do que ela evoca, expressar suas próprias idéias — contrapondo-se ou não à mensagem do artista. É possível que a gravura seja o estopim para uma pequena história ou para fábulas em que você tentará construir cenas semelhantes.

O importante é não fazer crítica de arte — mas usar a gravura como um trampolim.

E criar as regras para o seu exercício: 1) escolher as gravuras; 2) estabelecer o tamanho do texto; 3) determinar em quanto tempo você alcançará o número de palavras; 4) começar; 5) cumprir as regras que você mesmo criou, de preferência sempre no mesmo horário.

Se os temas de Goya lhe parecem desprezíveis, recorra, por exemplo, às gravuras de Utagawa Hiroshige, um pintor japonês do século 19. Ele deixou uma série de 119 gravuras sobre paisagens e lugares emblemáticos da antiga Edo (hoje Tóquio).

Você pode transplantar as cenas que Hiroshige desenhou para o seu próprio cotidiano — ou tentar penetrar nas paisagens, como Akira Kurosawa fez, no filme Sonhos, com um dos quadros de Van Gogh.

Se trabalhar com imagens não lhe parece agradável, use textos.

Já que estamos falando do Japão, as narrativas de Yasunari Kawabata reunidas em Contos da palma da mão podem servir como estopim para novos textos, para novos contos. Com o agradável acréscimo de se referirem a outra cultura — e, portanto, a um imaginário em grande parte diferente do ocidental.

Você pode fazer o mesmo exercício com aforismos. Partir de uma sentença breve, de um pensamento conciso, e escrever uma pequena história.

Georg Christoph Lichtenberg é um aforista genial, pouco conhecido no Brasil, cujas frases às vezes estão muito próximas do nonsense. Uma de suas anotações diz assim: “Ele apreciava a pimenta e as linhas em zigue-zague”. Não temos aqui um personagem interessante?

Ou, se você preferir algo mais lógico, Lichtenberg também é perfeito: “Na verdade, há muitos homens que lêem apenas para não pensar”. As possibilidades de desdobrar esta afirmação num conto são infinitas.

O importante, em todos esses exercícios, é a disciplina. Você precisa estabelecer sua meta e cumpri-la. Com dedicação, com empenho, com vigor.

E não procure ser original. Procure apenas ser você mesmo.

dezembro 22, 2014

Literatura não é apenas “colisão com a realidade”

Cada artista segue um percurso único
Os caminhos que a imaginação percorre são irrepetíveis.

A própria maneira como nos aproximamos da arte, para depois reelaborá-la e criar novas formas de beleza, é surpreendente.

Leiam os diários, as cartas, as entrevistas dos escritores: diferentes estados psicológicos, hábitos opostos, sentimentos antagônicos — não importa se na raiz do ato criativo há dor ou alegria —, tudo no artista leva-o a criar.

Numa de suas inúmeras tentativas de compreender como a literatura nasce, o crítico e ensaísta Edmund Wilson afirma nos seus diários: 

“As novas anomalias e acidentes da vida constantemente sendo assimilados pela faculdade artística — imediatamente tomados e incrustados, tornados simétricos e iridescentes, como a pérola da ostra — até que, quando as ostras morrem e só resta sua obra, os anais da espécie humana parecem ser não uma sucessão de mortes, e sim um colar de pérolas”.

Sempre penso a respeito do caminho peculiar de cada artista — e guardo a certeza crescente de que todas as explicações simplificadas são errôneas, pois cada pérola é um exemplar único e inesperado.

Ontem recebi o depoimento de uma aluna, a designer e ilustradora Laura Barreto, que só confirmou minhas certezas sobre a complexidade do processo criativo.

Vejam o que Laura diz:

“Quando eu era pequenininha juntava pilhas de livros no recreio e passava todo tempo lá, rodeada deles, mesmo sem saber ler nenhuma palavra. Quando me perguntavam o que eu estava fazendo respondia que estava lendo imagens. Depois passei a odiar a escola e ler virou uma obrigação chatíssima. Mas eu amava o português! Minha professora era a melhor. Lemos vários clássicos da literatura brasileira. E aprendi muito com ela... Enfim... Estudei Artes Visuais na UFMG, depois Design Gráfico na UEMG... Aos poucos percebi que me tornei uma contadora de histórias. Mas o fato curioso é que eu continuei lendo imagens e falando por imagens. Tinha algo de indecifrável nas palavras e de indizível também. Agora eu estou fazendo uma experiência de leitora!!!! Eu me apaixonei pela literatura da Jane Austen. E eu amo a forma de Deus falar conosco através da Bíblia. Descobri a filosofia tomista e tantas outras coisas incríveis! A experiência de leitora apaixonada tem feito muito bem a mim e ao meu trabalho de designer e ilustradora!”.

Ninguém pode delinear os caminhos que trouxeram Laura até este momento, em que ela redescobre ou reencontra formas diferentes de expor suas idéias, alimentar sua criatividade, dialogar com a beleza.

O Edmund Wilson da década de 1920 dizia que “a literatura é apenas o resultado de nossas brutais colisões com a realidade, cujas repercussões, depois de nos recolhermos ao abrigo de nosso íntimo, tentamos explicar, justificar, harmonizar, colocar numa ordem lógica na corrente uniforme de um pensamento que se reestrutura depois de ser, por um momento, destroçado e dilacerado por elas”.

Já pensei como Wilson. Já admirei a relação entre arte e vida com o mesmo olhar que se supõe realista, mas esconde pessimismo e simplificação exagerada.

Hoje penso de forma diversa. Há mais do que meras “colisões com a realidade” no ato de criar. A menina que, no recreio, juntava pilhas de livros sem ler uma só palavra não estava apenas “colidindo com o real”, mas abria-se, por motivos insondáveis, à busca da beleza.

E você? Como descobriu a literatura? Por que se dedica à escrita ou outras formas de arte?

julho 04, 2014

Reflexões para os momentos de desânimo

Às vezes, encontramos entre velhos papéis o pensamento adequado, a anotação feita há muito tempo, mas que hoje ressurge para oferecer, novamente, seu pleno sentido:

“O verdadeiro destino de um grande artista é um destino de trabalho. Em sua vida chega a hora em que o trabalho domina e conduz sua destinação. As infelicidades e as dúvidas podem atormentá-lo por muito tempo. O artista pode vergar sob os golpes da sorte. Pode perder anos numa preparação obscura. Mas a vontade de obra não se extingue desde que ela encontrou uma vez seu verdadeiro foco. Começa então o destino de trabalho. O trabalho ardente e criador atravessa a vida do artista e confere a essa vida virtudes de linha reta. Tudo vai em direção à meta numa obra que cresce. Cada dia, esse estranho tecido de paciência e entusiasmo torna-se mais ajustado na vida de trabalho que faz de um artista um mestre.” — Gaston Bachelard

agosto 07, 2013

Um personagem busca seu escritor

Sempre digo que a conhecida citação de Oscar Wilde – “A vida imita a arte” – é apenas uma frase de efeito, nada mais, tentativa pueril de criar uma teoria anti-aristotélica, de oposição à mimese. Opor-se à natureza e à vida é, aliás, o tema central da obra – The Decay of Lying – em que a citação se encontra.

Mas este breve primeiro parágrafo não tem o objetivo de iniciar um debate filosófico. Serve apenas ao meu principal interesse, a literatura.

Essas idéias ressurgiram ontem à noite, quando minha esposa comentou sobre uma notícia ouvida no rádio. Minha primeira reação foi lembrar de O falecido Mattias Pascal, de Luigi Pirandello; logo a seguir, da frase de Wilde. E depois de ler a história com atenção, percebi que a vida, mais uma vez, oferecia novos caminhos à arte.

A história de Pedrito de Jesus Conceição, portanto, aguarda por um bom escritor. Alguém preparado para captar os meandros da breve existência desse homem tido como morto, depois vivo, mas que finalmente morre; antes, contudo, que o Estado lhe conceda seu “atestado de vida”. Homem que, apesar de trazer o substantivo “conceição” no nome, morreu várias vezes, de diferentes formas. Parafraseando Pirandello, trata-se de um personagem que busca seu escritor, alguém disposto a entender esse drama familiar nada desprezível, no qual a morte se estabelece e se prolonga num misto de confusão, tristeza, humor negro e dependência do Estado.

Ainda existiria esse escritor, humilde o suficiente para entender que só resta à arte imitar a vida? E que tal trabalho, de imitar a vida transformando-a, tem seu mérito indiscutível?

maio 25, 2013

Alexis de Tocqueville, literatura e democracia

“By and large the literature of a democracy will never exhibit the order, regularity, skill, and art characteristic of aristocratic literature; formal qualities will be neglected or actually despised. The style will often be strange, incorrect, overburdened, and loose, and almost always strong and bold. Writers will be more anxious to work quickly than to perfect details. Short works will be commoner than long books, wit than erudition, imagination than depth. There will be a rude and untutored vigor of thought with great variety and singular fecundity. Authors will strive to astonish more than to please, and to stir passions rather than to charm taste.” (em Democracy in America)

Prefiro não imaginar o que Alexis de Tocqueville diria se conhecesse a atual literatura brasileira.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

fevereiro 15, 2013

Escritores: entre a luta e a leviandade

“O momento de escrever sempre traz para o verdadeiro escritor uma sensação penosa e angustiante. Uma espécie de sentimento de medo ou de angústia. Certamente que não é indolência aquilo que o faz adiar o seu trabalho até o último instante possível. Ao contrário: o verdadeiro escritor ama e deseja o trabalho literário; e nessa situação mesma é que se encontrará a causa das suas hesitações. Imagina a literatura com a maior seriedade, e se imagina, por isso, indigno dela. Experimenta ao escrever um duplo sofrimento: antes, a incerteza, o receio, o medo de que nada consiga escrever; depois, o desgosto do que escreveu: a certeza de que o seu trabalho vale muito pouco, ou quase nada, porque tudo o que realiza se coloca infinitamente abaixo do que imagina e deseja. Luta dramática esta que se desenvolve, no espírito do escritor, entre a sua idealização e a sua realização. As ideias, os pensamentos, os planos não são difíceis em si mesmos; a dificuldade toda se encontra na expressão em palavras. Não sei nada de mais comovente do que essa luta de um escritor com as palavras que precisam ser conquistadas e dominadas. Fico assombrado diante da leviandade e da inconsciência com que falsos escritores jogam com as palavras, como se elas fossem uns brinquedos inofensivos e fosse a literatura um divertimento sem consequências.”
 
Álvaro Lins, em Sobre crítica e críticos.

janeiro 25, 2013

Literatura e realidade: uma página dos diários de Edmund Wilson

[...]

Toda literatura fornece uma visão falsa da vida, porque é o anverso da realidade – o artista preenche as lacunas de seu caráter ou de sua experiência forjando material espiritual imaginário.

Em primeiro lugar, o artista, em suas produções, distorce a vida numa certa direção, fabrica para ela um rosto falso – e então o leitor, que tende a ser convencido a acreditar, erroneamente, que a vida é realmente assim para o escritor e portanto pode vir a ser assim para outrem, tenta na vida real concretizar a imagem que o artista inventou justamente com o fim de preencher a lacuna de algo que ele não conseguiu encontrar. No final, as incongruências do sistema tornam-se claramente visíveis, e o modelo é jogado fora; como resultado, o leitor recrimina o escritor por ter distorcido a realidade.

A questão é que os leitores apoiam-se, como quem se apoia em algo inquestionavelmente real e forte, numa coisa que, para o escritor, era apenas falseamento confortante e perfeitamente consciente da vida, tal como sua própria experiência a revelou para ele, de forma desconcertante, uma espécie de eufemismo feito na esperança – infundada, como ele próprio sabe melhor do que ninguém – de que, dando tal aparência às coisas, ela possa realmente lhes atribuir esse caráter – ao sujeitar a totalidade de sua experiência às nuanças e padrões de seu próprio temperamento, ele se esquece por um momento do mundo real e incognoscível nesta extensão de sua própria consciência imediata para preencher – o que, ilusoriamente, parece ocorrer – toda a paisagem da experiência. Para o leitor, é como se este mundo invertido fosse talvez o mundo real que ele vem procurando, e, temporariamente, ele pode vir a aceitá-lo.
 
(Em Os anos 20)