maio 21, 2013

Em defesa da urgente “centralização dos biltres”

Camilo Castelo Branco explica, neste trecho de A Queda dum Anjo, como às vezes cabe ao escritor garantir que os políticos corruptos não sejam esquecidos. De fato, muitos não merecem apenas “escorregar” da vida ao inferno; o mais justo e correto seria que, antes, a execração pública os cobrisse de maldições. Mas isso só acontece em países onde cuida-se que haja “a centralização dos biltres”:   
 
Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escrita com um despejo não vulgar em bacharéis d’aqueles sítios. Aquele homem, se tivesse nascido em terras onde há a centralização dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n’aquelas serras, onde não apegou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novelas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração pública o cubra de maldições.

maio 18, 2013

Cem anos de um autêntico reacionário

Hoje comemoramos o centenário do magnífico Nicolás Gómez Dávila. Ele fala por si mesmo, com a força dos seus escólios, aos quais adicionei títulos inocentes:

A alguns funestos críticos literários

– A paixão igualitária é uma perversão do sentido crítico: atrofia a capacidade de distinguir.

Aos pretensos filósofos

– Uma gramática insuficiente prepara para uma filosofia confusa.

À maioria dos escritores

– Para seduzir não é necessário que o escritor tenha algo a dizer, mas que seja alguém.

Aos que desprezam os clássicos

– Toda literatura é contemporânea para o leitor que sabe ler.

Aos que vomitam palavras

– Não devemos escrever como falamos, mas como deveríamos falar.

Aos que acreditam pensar

– Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.

Aos que não gostam de mim
 
– O reacionário escapa da escravidão da história porque persegue na selva humana as pegadas dos passos divinos.

maio 15, 2013

Contradições e a arte de escrever em Theodor Adorno


Em alguns dos fragmentos que compõem Minima Moralia, Theodor Adorno fala sobre a escrita. No seu estilo muitas vezes seco, sempre a um passo de se tornar hermético, ele parece acreditar no que expõe: “Faz parte da técnica de escrever ser capaz de renunciar até mesmo a pensamentos fecundos, se a construção o exigir. Sua plenitude e sua força beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos. Como à mesa, não se deve comer até os últimos bocados, nem beber até o fim. Do contrário, nós nos tornamos suspeitos de pobreza”.

É o Adorno burguês quem fala nesse trecho do fragmento 51 – burguês no sentido flaubertiano do termo, aquele que realmente acredita ter abertura de espírito, mas só consegue destilar preconceito. Na verdade, exagera apenas para justificar seu próprio estilo, como, aliás, já fizera pouco antes, quando argumenta que o escritor deve “verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez”.

Ora, angústias desse tipo servem à criação de textos fracionários. Há uma divagação – ou, melhor, uma circum-navegação – que não é de todo ruim: recorrer, por exemplo, a outras referências, que aparentemente se distanciam do tema central, apenas para iluminá-lo melhor.

Todo texto exige, em alguma medida, certa retórica. O próprio Adorno não pôde evitá-la. Nesse mesmo fragmento, gasta cinco linhas para compor uma bela metáfora, cuja função é, inclusive, demonstrar que ele sabe escrever direito: “Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas. Os materiais afluem facilmente para eles”.

As duas frases finais não seriam desnecessárias? Elas repetem, com outras palavras, o que está sintetizado nas duas iniciais – mas Adorno não teme usá-las; e, vaidoso, “come até o último bocado, bebe até o fim”. Mas isso é Adorno. Como todo marxista, contraditório.

Na verdade, não se deve “renunciar aos pensamentos fecundos”. Se eles podem, de fato, conectar-se ao tema central, por que não readequar o todo, por que não reescrever e reescrever até atingir o que efetivamente pretendemos?

Mas, sejamos justos, Adorno também acerta. “Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em cem alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível de texto” – conselho corretíssimo. Da mesma forma que é acertada sua observação sobre os lugares-comuns, muitas vezes “associações de palavras” nas quais “murmura o fluxo indolente de uma linguagem insípida”.

Entretanto, é pena que – ele chega a citar Karl Kraus – sua análise do clichê seja superficial. Mas não poderia ser de outro modo. Adorno não tem como evitar a vagueza, não pode retomar as críticas severas que Kraus fazia à linguagem submetida à ideologia, pois isso significaria ter de atacá-las, a fim de defender o marxismo...

Aliás, é o militante esquerdista quem afirma, no mesmo fragmento: “O sonho de uma existência sem ignomínia, ao qual a paixão pela linguagem se apega quando já não se pode mais representá-lo enquanto conteúdo, deve ser estrangulado com pérfida alegria”. Aí está o pensamento revolucionário, em permanente luta com a realidade, sempre pronto a substituí-la por seus próprios sonhos. O marxista precisa acreditar que a existência só é possível com ignomínia – e deve recusar a linguagem que pretenda reafirmar a dignidade e a glória da vida. Se não o fizer, como justificará a absoluta necessidade da utopia? Se não o fizer, não poderá justificar o que mais defende: que todos os meios são aceitáveis para construir o Paraíso aqui e agora.

Para Adorno, “o escritor não pode aceitar a distinção entre a expressão bela e a expressão adequada ao assunto. [...] Se consegue dizer inteiramente o que pretende dizer, então é belo o que diz”. Mas, logo depois, o militante tenta derrotar o esteticista: “Quem todavia, sob o pretexto de servir com abnegação a uma causa, negligencia a pureza de expressão, está por isso mesmo traindo a própria causa”. O contraditório marxista não sabe o que fazer: primeiro, a beleza é uma categoria que só pode ser medida pela vontade do próprio escritor; depois, há uma “pureza de expressão”, mas que não é definida.

Podemos aproveitar, contudo, os trechos felizes, como este: “O envolvimento afetivo com o texto e a vaidade tendem a diminuir a escrupulosidade. O que se deixa passar apenas como uma dúvida insignificante pode tornar manifesta a falta de valor objetivo do todo”. Quase sempre esquecidas, as duas frases deveriam permanecer à vista de todos os que são ou almejam ser escritores: render-se à vaidade é perder o rigor.

maio 14, 2013

Reflexões de Hermann Broch sobre o sagrado

“Só no centro do nosso ser se encontra o sagrado, o sagrado da nossa vida, desta vida tão breve, que se torna mais curta a cada noite, desta vida que não é êxtase nem máquina, mas um conhecimento que floresce, que se vai abrindo como se abrem as folhas, um processo de crescimento que vai da escuridão à escuridão, do que ainda não nasceu ao que ainda não nasceu, um renascer. No centro do nosso ser as árvores são abraçadas pelo céu e sopra o vento, como um suave mensageiro que se desloca de lá para cá entre as infinitudes, entre aquelas das quais ele vem e aquelas para as quais flui, e que nos leva, num leve impulso, como o vento que arrasta uma folha de outono, para que, transformando-nos em mensageiros de nós mesmos, vislumbremos o lugar de onde viemos, a partir de onde ocorreu o nosso despertar e o lugar ao qual nos dirigimos e onde haveremos de perecer. Só no centro de nós está o saber, o saber sobre o que o homem necessita para ser homem, o saber sobre sua humanidade e sua cultura, o saber piedoso que é o saber da cultura... Ele, que não é nem um saber do sangue nem um saber da técnica, mas um saber do homem sobre si mesmo. No centro do nosso ser, só no centro – nem no escuro êxtase dos seus limites, nem no arrebatamento da nossa primitiva origem, nem no arrebatamento da técnica, mas no nosso próprio ser –, é que o divino habita em nós.”
 
[Trecho do romance inacabado, Die Verzauberung.]

maio 10, 2013

Decadência e desespero, segundo Cyril Connolly

Cyril Connolly continua, infelizmente, desconhecido em língua portuguesa. Seu The Unquiet Grave, escrito sob o pseudônimo de Palinuro – o piloto do navio de Eneias, sacrificado pelos deuses para salvar a vida dos demais guerreiros –, “inspira a mesma sensação de uma catedral gótica em ruínas: uma sugestão de violenta e fúnebre beleza”, como afirma o editor da tradução espanhola.

Lembrei-me de Connolly graças a Eduardo Andrade de Carvalho, que me enviou um exemplar do número 11 da revista Amarello, na qual ele homenageia Daniel Piza, leitor, eu não sabia, desse instigante crítico literário inglês, para quem “toda dor, uma vez reconhecida pela mente, por ser curada por esta [...]; o cérebro humano, quando entra em funcionamento, como na composição de um poema, transcende o espaço e o tempo, e é imune à dor”.

Não foi outra a compensação que o próprio Connolly recebeu durante seus 71 anos de vida.

Abaixo, coloco um trecho do The Unquiet Grave. Vejam como, em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, Connolly já experimentava a decadência que, nos anos posteriores, se ampliou cada vez mais. A ditadura do homem-massa, que Ortega y Gasset anunciara em 1929, já se estabelecera. E se trocarmos as invenções, atualizando-as para os eletrônicos contemporâneos, ou substituindo o cinema pela web, veremos que o declive se acentuou perigosamente. A conclusão de Connolly, no entanto, não é pessimista, ainda que ingênua. E, de qualquer forma, ele coloca as possíveis soluções em nossas mãos.

Fiquem com o homem que encontrou consolo apenas nos pensamentos e nos livros:

“A tripla decadência: Decadência do material; da linguagem do escritor. A neve virgem sobre a qual Shakespeare e Montaigne traçaram seus sulcos profundos não é agora nada além de um declive que pisadas infinitas aplainaram até ser capaz apenas de mostrar novas pegadas. Decadência do mito, já que não há uma crença unificadora (como o cristianismo ou o humanismo renascentista) que imponha temor e respeito a um escritor, um temor e um respeito que ele compartilhe com a maioria da humanidade. Inclusive o último dos mitos, o mito da vocação do artista, do ‘l’homme c’est rien, l’oeuvre c’est tout’ (o homem é nada, a obra é tudo), acaba destruído pelos tempos, pela terceira decadência, a da sociedade. Na época que nos coube viver, vimos como as artes penetraram cada vez mais num beco sem saída, escuro e estéril. A ciência fez pouco para ajudar o artista, exceto contribuir com o rádio, a linotipia e o cinema; invenções que ampliaram enormemente o alcance do artista, mas o comprometeram, como nunca antes, com a política estatal e as demandas dos ignorantes. Disney é o Shakespeare de décima categoria dos nossos dias, obrigado por seu público universal a elaborar, de modo cada vez mais hábil, o seu sentimentalismo do novo mundo. Podem surgir Leonardos da tela e do microfone que nos assombrem, mas não basta que o declive das outras artes as tenha convertido em artesanatos regionais ou de luxo, como a encadernação de livros, a marcenaria, os tetos de colmo ou estuque. Hoje um artista deve estar preparado para escrever sobre a água e esculpir com areia.
 
Ainda assim, viver uma decadência não nos deve desesperar; é só um problema técnico adicional que o artista deve resolver.”

maio 06, 2013

Contra a mornidão de certa crítica literária

Diante dos melindrosos e ressentidos, que só admitem crítica literária sem julgamento – ou seja, que desejam transformar a crítica literária num exercício anódino ou meramente confortador –, devo lembrar um dos bons trechos de Álvaro Lins: “Julgar é um testemunho da dignidade da crítica. Ela não fica bem nas mãos dos conformistas, dos frágeis, dos amáveis, dos indistintos, dos suaves, dos incolores, dos frívolos, dos snobs”. Aos interessados em saber o motivo deste post, vale a pena ler a análise correta e corajosa que Cristiano Ramos faz do livro Tangolomango, de Raimundo Carrero, e que tem provocado a ira dos adeptos da cordialidade brasileira, sempre prontos a distribuir lisonjas, servilismo e outros afagos.

maio 03, 2013

Canalhice e afetação

No Rascunho deste mês, escrevo sobre o péssimo A correspondência de uma estação de cura, de João do Rio. Nessa tentativa de escrever um romance epistolar, o cronista só conseguiu reunir pedantismos, usando persistente tom de zombaria. O que foi grandioso nas mãos de Samuel Richardson (autor de Pamela e Clarissa) — e se aperfeiçoou com Rousseau (Julie ou la nouvelle Héloïse, 1761), Goethe (Os sofrimentos do jovem Werther, 1774), Chordelos de Laclos (As ligações perigosas, 1782) e Ugo Foscolo (Ultime lettere di Jacopo Ortis, 1802) — tornou-se medíocre sob a pena de João do Rio.

abril 30, 2013

O idílio de Antônio Candido e a realidade

As melhores respostas às lucubrações românticas e aos devaneios idealistas de Antônio Candido em relação ao socialismo podem ser encontradas em dois ensaios magistrais: “De Profundis”, de George Steiner, publicado em George Steiner at The New Yorker (no Brasil, Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker, Editora Globo); e “Menos que um”, de Joseph Brodsky (em livro homônimo, publicado pela Cia. das Letras em 1994).

Esses dois ensaios mostram o que Antônio Candido insiste em não recordar, pois certamente não desconhece a verdade: retratam a vida concreta dos que lutaram para sobreviver sob um regime utopista, controlado pelos defensores do que Candido trata como “doutrina triunfante”.

Se há algo que triunfa sob regimes socialistas – sob o socialismo que Candido chama de “grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano” –, esse algo é a corrupção das consciências em nome da igualdade mentirosa, que concede poder, dinheiro, benesses e honrarias apenas aos bajuladores do governo.

O que prevalece sob regimes pretensamente igualitários é a fraude. E também o servilismo. Como disse Brodsky, ao recordar sua juventude na União Soviética, “os quatro anos de Exército (para o qual os homens eram convocados aos dezenove anos) completavam o processo de rendição total ao Estado. A obediência se transformava numa primeira e também numa segunda natureza”.

O que triunfa sob os regimes que Antônio Candido defende confortavelmente, sem ter experimentado um único dia de luta pela sobrevivência nos cárceres cubanos ou poucos minutos de tortura em algum Gulag, é sempre a morte. Moral ou física, mas sempre a morte.
 
Uma aula sobre “paralaxe cognitiva” não faria mal a Antônio Candido.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

abril 27, 2013

A luta contra a mesmice

Vozes dissonantes são sempre bem-vindas neste mar de bajulações, hermetismos e lugares-comuns em que se transformou a crítica literária brasileira.

Neste mês de abril, ao ler, no Rascunho, “Sobraram apenas os óculos e o bigode”, ensaio no qual Marcos Pasche desconstrói Paulo Leminski, percebi, com alegria, que as coisas realmente começam a mudar. Sentimento, aliás, que já havia experimentado com Cristiano Ramos, que, no ensaio “O curioso caso de José Lins do Rego” (partes 1 e 2), rebate com vigor a injusta depreciação crítica do romancista paraibano.

Sucede que, em meio a trabalhos e leituras, passei por cima da coletânea de críticas que Marcos Pasche publicou – De pedra e de carne (Editora Confraria do Vento) – e teve a gentileza de me enviar. Só hoje uni o sanguinário autor do ensaio sobre Leminski ao nome que está na capa do livro. E, numa passada de olhos, encontrei no volume, para minha alegria, ao menos dois outros textos que recomendo a leitura: “Na vitrine do shopping” e “Com rigor e com afeto”. O primeiro, publicado no Rascunho sob o título de “Perto do tempo, longe da arte”, demole a poesia de Fabrício Corsaletti – confirmando o que Luis Dolhnikoff (outra boa voz dissonante) já havia percebido e eu próprio afirmara, mas referindo-me à prosa desse que é mais um dos tenros queridinhos da literatura nacional.

Quanto ao segundo ensaio, “Com rigor e com afeto”, trata-se da entusiasmada análise de um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as nossas faculdades de Letras: A literatura em perigo, no qual Tzvetan Todorov faz a síntese do que começou a perceber em Critique de la critique, de 1984, não por acaso nunca traduzido no Brasil, onde os acadêmicos preferem acreditar – comportamento, aliás, bem cômodo, para não dizer desonesto – que Todorov parou de escrever em 1971, ao publicar A poética da prosa, obra ultrapassada e, sob vários aspectos, renegada pelo autor.
 
Este post, contudo, não pretende assumir, nas últimas linhas, um tom pessimista. Não. O objetivo é exatamente o de comemorar as vozes críticas que começam a surgir – aliadas, cada uma a seu modo, na luta contra a mesmice.

abril 25, 2013

James Joyce e o remordimento da consciência

James Joyce passou a vida em busca de epifanias. Não a manifestação divina, mas pequenas ou grandiosas iluminações que, ele acreditava, escondiam-se sob os fatos e seriam capazes de arrancá-lo do presente repleto de mesmice e angústia – luta, em grande parte decepcionante, para libertar-se da Irlanda, das influências e lembranças familiares, do catolicismo e de sua própria fragilidade.

Herdada do cristianismo, essa tentativa de compreender a realidade a partir de uma perspectiva transcendental refuta as interpretações comuns do tempo. Para Joyce, a história não pode ser um contínuo corruptível, com começo, meio e fim, mas, como dizia Gregório de Nissa, deve ir “de começos em começos por começos que não têm mais fim”. Ou, nas palavras de Agostinho de Hipona, em suas Confissões, “não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras”.

Os motivos do escritor irlandês, contudo, não eram religiosos ou teológicos; ele não estava preocupado em sublimar a imanência ou distinguir, de forma profética, o destino do homem e do mundo. O que Joyce transformou em técnica literária, o registro do que ele acreditava serem revelações nasce do desespero para perpetuar o presente, do temor de que tudo lhe escape a cada instante. Ele tenta reter a essência dos fatos – para que o tempo não passe, não se desdobre. Como afirma Harry Levin no clássico James Joyce: A Critical Introduction (1941), “o afã de toda a vida de Joyce foi escapar do pesadelo da história, conceber a totalidade das experiências humanas num plano simultâneo, sincronizar passado, presente e futuro”.

Dois lançamentos da editora Iluminuras mostram aspectos do desespero joyciano: se Epifanias apresenta alguns dos resultados que o autor alcançou na tentativa de revelar mistérios para os quais a maioria dos homens está cega, em Cartas a Nora, correspondência enviada a sua mulher, Nora Barnacle (1884-1951), conhecemos a aflição no seu estado mais cru, livre das regras que o autor se impunha ao escrever literatura.

Epifanias é um livro desigual, provoca reações opostas. Para o editor e crítico literário John Gross, esses pequenos textos são “obstinadamente exânimes”, “carentes de drama”, “amorfos e insubstanciais”. Na opinião de Harry Levin, podem ser lidos “como exemplos de um gênero único e delicado, manifestações concretas da quidditas [essência] escolástica ou do porquê das coisas”. Ambos estão certos, a depender do trecho.

O leitor que enfrenta a primeira epifania pensará como Gross. Trata-se de um diálogo que só adquire sentido ao ser redescoberto no início de Retrato do Artista Quando Jovem. Mas, se não empreendemos esse exercício detetivesco ou não procuramos o auxílio de um guia seguro, as poucas linhas transformam-se numa cena desprovida de sentido – e podem despertar a culpa no leitor inexperiente, que se perguntará por que não percebe a singularidade de um texto do autor de Ulysses. Não há erro nenhum, no entanto, pois esses fragmentos são apenas exercícios de estilo, excertos de diálogos, rápidas cenas urbanas, visões do mundo onírico, amostras do que ele desenvolveria nos contos e romances.

As epifanias mostram a distância que há, quando se dispõe apenas de palavras, entre pretender desvelar um episódio fortuito e atingir realmente o objetivo, a ponto de produzir algo semelhante a um arrebatamento. Convidam o leitor a se manter equidistante da veneração e do menosprezo; só assim não se comportará como alguns obsessivos estudiosos, que poderiam descobrir literariedade até numa lista de compras, se encontrassem uma escrita por Joyce.

Mas há passagens extraordinárias, como a Epifania 33, na qual a primeira impressão, fotográfica, prolonga-se num quadro noturno povoado de prostitutas melancólicas e carentes. Ele a utilizará anos mais tarde, no Ulysses, mas antes transcreve o trecho, com variações, numa carta pungente que envia a Nora, em 29 de agosto de 1904. Só após lermos tal peça autobiográfica começamos a entender esse homem dilacerado pelo remorso e pelo anseio de ser famoso.

É curioso que, num espaço de três décadas, esta seja a segunda edição brasileira das cartas de Joyce a Nora – a primeira, de 1982, foi lançada por Massao Ohno e Roswitha Kempf, com tradução de Mary Pedrosa. Nossos editores parecem dar preferência às confissões íntimas do escritor, desprezando, na ampla epistolografia que deixou, as cartas, por exemplo, ao poeta Ezra Pound (1885-1972) ou a Sylvia Beach (1887-1962), sua benfeitora, que editou o Ulysses em 1922.

De qualquer forma, a correspondência revela muito mais que o escritor fetichista. Nora não foi apenas a epifania carnal de Joyce; veja-se, em 21 de agosto de 1909, a descrição próxima a um êxtase místico: “Teu amor me atravessou e agora sinto que a minha alma é algo assim como uma opala, isto é, cheia de matizes e de cores estranhamente variáveis”. Antes, tornou-se, para o escritor apóstata, a substituta profana da Virgem Maria: “Minha mãezinha, me ponha no escuro santuário do teu útero. Proteja-me, querida, do mal! Sou muito criançola e impulsivo para viver só. Me ajude, querida, ore por mim!” (24 de dezembro de 1909). Esse trecho e outros, repletos de lamentos tediosos de menino inseguro e desprotegido, não passam de degradações, na forma e no conteúdo, das Epifanias 7 e 34, nas quais brilha o tema do amor maternal.

À parte os clichês melosos e as súplicas infantis, o desespero de Joyce se irradia por todas as direções. Exige que Nora recorde os locais onde se encontraram e, segundo ele, foram felizes. Ela passa cinco dias sem lhe enviar uma carta, e ele a acusa de ter esquecido “os belos dias do nosso amor”. Reconhece que tal cobrança é algo monstruoso – mas volta a fazê-la na mesma carta (12 de julho de 1912). Quando está em Dublin, visita repetidamente esses lugares, incluindo os que ela habitou; e sua desesperadora insistência em recordar está longe do sereno “presente respeitante às coisas passadas” de Agostinho: “Vejo-te... vejo-te... vejo-te...”, repisa ele a 25 de outubro de 1909, buscando epifanias que façam renascer o passado tirânico.

Há igual sentimento em relação ao futuro. Reconhece que as “ambições desmedidas” são as “forças dominantes” de sua vida (27 de outubro de 1909) e a promessa de alcançar a fama, o sonho de Stephen Dedalus, seu alter ego, de um tempo ulterior em que suas epifanias serão enviadas a “todas as grandes bibliotecas do mundo, incluindo a de Alexandria” (em Ulysses), ecoa pelas cartas.

Nada muda quando se trata do “presente respeitante às coisas presentes”. O Joyce perfeccionista, capaz de ordenar detalhes no vestuário de Nora, é o mesmo que visitava amigos para anotar trechos de seus diálogos e apreender, nas conversas banais, o indício de algo único, revelador. Ele reconhece, a 22 de agosto de 1912, sua compulsão: após perguntas e recomendações que descem a detalhes da higiene pessoal de Nora, exclama, referindo-se a si mesmo, num paroxismo, “Pobre Jim! Sempre planejando e planejando!”.

A realidade se encarregou de atormentar o autor de Finnegans Wake com antiepifanias. E, apesar do permanente remordimento da consciência – o agenbite of inwit que ele inocula em Dedalus e Leopold Bloom, de Ulysses –, Joyce conseguiu extrair beleza do desespero. Os “cascos que brilham no meio da pesada noite como diamantes, apressando-se para além do gris” (Epifania 27) ou os olhos de Nora, “flores silvestres azuis crescendo em alguma sebe emaranhada e molhada de chuva”, na carta escrita a 19 de novembro de 1909, são comoventes. Mas a “besta ártica”, que o escritor fustiga com a bengala na Epifania 16, avulta de forma perturbadora: ela é o próprio James Joyce, contorcendo-se sobre si mesmo e murmurando palavras numa língua incompreensível.
 
(Publicado na Folha de S. Paulo, em 23 de dezembro de 2012.)

abril 23, 2013

Literatura, ideologia e mundo empírico

O que acontece quando certa figura de estilo deixa de ser um recurso para ampliar a capacidade expressiva da linguagem e passa a obscurecer diferentes aspectos da realidade, da experiência humana?

A resposta a esse problema esquecido nos dias de hoje – quando alguns teóricos e escritores pretendem desvincular a literatura da realidade – encontra-se no artigo “Inversão retórica e realidade invertida”, que Olavo de Carvalho publicou em 2009.
 
Partindo de François Villon e Jean-Jacques Rousseau, Olavo analisa os perigos decorrentes da figura de linguagem que, transformada em ideologia, incorpora-se à psique – e, de forma indireta, denuncia a falácia de se acreditar que a literatura é autossuficiente ou está desligada do mundo empírico.

abril 19, 2013

O encadeamento da vida humana

“O que conta em uma vida humana não são os acontecimentos que a dominam através dos anos – ou inclusive dos meses – ou inclusive dos dias. É o modo como cada minuto se encadeia ao seguinte, e o que isso custa a cada um em seu corpo, em seu coração, em sua alma – e, sobretudo, no exercício da sua faculdade de atenção – para efetuar minuto por minuto esse encadeamento.”
 
Simone Weil, La condition ouvrière

abril 16, 2013

Muito mais que linguagem

Um curso sobre prática de leitura e formação do estilo pode ter inúmeras utilidades. É o que experimentamos, meus alunos e eu, nas últimas semanas, dialogando com Homero, W. B. Yeats, Italo Calvino, Paul Valéry e tantos outros autores. Contudo, a lição que mais nos estimula é perceber, a cada aula, como Roland Barthes estava errado: numa narração não há apenas “a aventura da linguagem”, ainda que a retórica barthesiana, sempre pronta a querer nos iludir, insista, subindo o tom: “a incessante celebração do advento da linguagem”. Belas palavras, mas, como em todo exercício de retórica, no fundo não refletem a realidade, são apenas um adereço que busca seduzir, convencer sem provar.
 
Na verdade, a cada aula redescobrimos que a literatura é “o dispositivo mais importante da civilização para aprender o que deve ser afirmado e o que deve ser negado”, como disse John Gardner, pois não há literatura desvinculada do real, apartada do contexto das nossas escolhas pessoais, da nossa vida. Ou, nas claríssimas palavras de Matthew Arnold: “A vida diária de um homem, em sua solidez e valor, depende de se ele lê nesse dia; e ainda muito mais do que ele lê durante esse dia”.

abril 13, 2013

abril 11, 2013

Sejamos velhos!

O conselho de Friedrich Schlegel aos eternos vanguardistas:
 
A afetação nasce não tanto do esforço para ser novo quanto do receio de ser velho.

abril 09, 2013

Otimismo insano e desintegração da ideia de autoridade

Trecho de uma carta do historiador Jacob Burckhardt a seu amigo, Friedrich von Preen:

“[...] O grande dano teve início no século passado, principalmente através de Rousseau, com sua doutrina da bondade da natureza humana. Com base nisso, os plebeus e as pessoas educadas destilaram a doutrina da idade do ouro que viria infalivelmente, desde que as pessoas fossem deixadas por sua conta. O resultado, como qualquer criança sabe, foi a completa desintegração da ideia de autoridade da cabeça dos mortais, e é claro que, em consequência, periodicamente somos vítimas do poder absoluto. Enquanto isso, a ideia da bondade natural do homem transformou-se, entre o estrato inteligente da Europa, na ideia de progresso, isto é, fazer dinheiro e desfrutar de confortos modernos sem perturbação, com a filantropia para acalmar a consciência. [...]

A única salvação concebível seria que esse insano otimismo, em menor ou maior grau, desaparecesse do cérebro das pessoas. Mas, então, nosso atual cristianismo não está à altura da incumbência; ele optou por isso e acabou se misturando ao otimismo nos últimos duzentos anos. Uma mudança terá de vir, mas só Deus sabe à custa de que sofrimentos. Nesse meio tempo você está construindo escolas – pelo menos você pode assumir essa responsabilidade perante Deus; enquanto eu instruo meus alunos e meu público. Não faço grande segredo de minha filosofia a meus alunos; os mais inteligentes me entendem, e, ao mesmo tempo que faço tudo o que posso para honrar a verdadeira felicidade que o estudo e o conhecimento oferecem – por menos que possam ser –, sou capaz de dar a cada um algum grau de consolo.”
 
(2 de Julho de 1871)

abril 08, 2013

Ideias que obscurecem o que somos e sentimos

De um ensaio de T. S. Eliot sobre William Blake:

“Os Songs of innocence and of experience, assim como os poemas do manuscrito Rossetti, são poemas que revelam um profundo interesse pelas emoções humanas e um profundo conhecimento destas. As emoções são expostas sob forma extremamente simplificada e abstrata. Essa forma é uma ilustração da eterna luta da arte contra a educação, do artista literário contra a contínua decomposição da língua.

É importante que o artista deva ser altamente educado em sua própria arte; mas sua educação é aquela que atrapalha mais do que ajuda, pois ele a recebe através do processo comum da sociedade em que se resume a educação do homem comum. É que esse processo consiste amplamente na aquisição de ideias impessoais que obscurecem o que de fato somos e sentimos, o que realmente desejamos e o que na verdade instiga nosso interesse. Não se trata, é claro, da efetiva informação adquirida, mas do conformismo que o acúmulo de conhecimentos será capaz de impor, o que é nocivo. Tennyson nos dá o claríssimo exemplo de um poeta já totalmente incrustado na opinião do público, já completamente incorporado ao seu meio. Blake, por outro lado, sabia o que lhe interessava e, por conseguinte, apresenta apenas o essencial, apenas, na verdade, o que pode ser apresentado, e dispensa explicações. E porque não se perturbou, ou não se apavorou, ou não se ocupou de nada que não fossem concisas afirmações, pôde entender. Ele estava nu, e viu o homem nu, do centro do seu próprio cristal. Para ele não havia nenhuma razão pela qual Swedenborg fosse mais absurdo do que Locke. Ele aceitou Swedenborg, como eventualmente o rejeitou, por razões de estrito foro íntimo. Abordou tudo com a mente alheia às opiniões então vigentes. Não havia nele nada que sugerisse a pessoa superior. E isso o tornou aterrorizante.”
 
(Tradução de Ivan Junqueira)

abril 06, 2013

Como nasceu a literatura?

Vladimir Nabokov, com seu incomparável senso de humor, nos dá a resposta:

“A literatura não nasceu quando um rapaz a gritar ‘Lobo! Lobo!’ saiu a correr do vale de Neanderthal com um grande lobo na sua cola: a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar ‘Lobo! Lobo!’ e não havia lobo nenhum a persegui-lo. O fato de o pobre diabo, porque mentiu demasiadas vezes, ter acabado por ser comido por uma fera verdadeira é perfeitamente acidental. Mas eis o que é importante. Entre o lobo no meio do mato e o lobo no conto há um difuso mediador. Esse mediador, esse prisma, é a arte da literatura.
 
[...] A magia da arte estava na sombra do lobo que ele deliberadamente inventou, no seu sonho do lobo; depois a história dos seus truques fez uma boa história. Quando finalmente pereceu, a história dele adquiriu as tonalidades de uma boa lição ao redor da fogueira do acampamento. Mas foi ele o pequeno mago. Foi ele o inventor.”

abril 04, 2013

Qual Nelson Rodrigues?

Escrevi, há alguns meses, um breve ensaio sobre Nelson Rodrigues para a Revista Vila Nova. O texto acaba de ser publicado, na íntegra e no formato original, no Mídia sem Máscara.

abril 02, 2013

Carlos de Laet, o “não eterno”


Esquecido ou menosprezado, Carlos de Laet teve coragem de erguer a voz contra o golpe republicano, em 1889, e contra os governos ditatoriais que se seguiram. Apesar da verbosidade muitas vezes estafante, possui ironia singular, divertidíssima, de rara inteligência, além de ser um crítico feroz dos modernistas. É sobre ele que escrevo, este mês, no jornal Rascunho.  

março 26, 2013

Chesterton e a coragem de buscar os antigos ideais

A seguir, coloco um trecho do prefácio que escrevi para O que há de errado com o mundo, de G. K. Chesterton, editado pela Ecclesiae. O texto integral do prefácio foi publicado ontem no Mídia sem Máscara:

Chesterton refutava o conjunto de opiniões que pretendia se impor como natural ou necessário. Um de seus primeiros cuidados em O que há de errado com o mundo é denunciar o poder do “grande preconceito impessoal” do mundo moderno, contrapondo-lhe “uma sanidade mental de aço e uma firme resolução de não dar ouvidos aos modismos”. Contra o caráter efêmero das ideias que via espocar em cada esquina, Chesterton retorquia com uma proposta até hoje ousada, a de buscar a dignidade escondida no passado:

A mente moderna vê-se forçada na direção do futuro pela sensação de fadiga – não isenta de terror – com que contempla o passado. Ela é propelida para o futuro. Para usar uma expressão popular, é arremessada para meados da semana que vem. E a espora que a impulsiona avidamente não é uma afeição genuína pela futuridade, pois a futuridade não existe, pois que ainda é futura. É antes um medo do passado: um medo não só do mal que há no passado, senão também do bem que há nele. O cérebro entra em colapso ante a insuportável virtude da humanidade. Houve tantas fés flamejantes que não podemos suportar; houve heroísmos tão severos que não somos capazes de imitar; empregaram-se esforços tão grandes na construção de edifícios monumentais ou na busca da glória militar que nos parecem a um tempo sublimes e patéticos. O futuro é um refúgio onde nos escondemos da competição feroz de nossos antepassados. São as gerações passadas, não as futuras, que vêm bater à nossa porta.
 
O texto chestertoniano está repleto de trechos assim, nos quais a verdade é anunciada com eloquência comovedora. Ele nos arrebata porque, no fundo de nossas mentes corrompidas pelas ideologias, sabemos o quanto seu pensamento está certo: “Os homens inventaram novos ideais porque não se atrevem a buscar os antigos. Olham com entusiasmo para a frente porque têm medo de olhar para trás”. Esperanças baseadas em sofismas, as promessas dos ideólogos são balões de ar que explodem em contato com a pressão da realidade. “O futuro é uma parede branca na qual cada homem pode escrever seu próprio nome tão grande quanto queira”, diz Chesterton, mas “o passado já está abarrotado de rabiscos ilegíveis de nomes como Platão, Isaías, Shakespeare, Michelangelo, Napoleão”.

março 25, 2013

Prática de Leitura e Formação do Estilo – 3ª aula

Hoje, às 20h30, teremos a terceira aula do curso Prática de Leitura e Formação do Estilo. Todos os que se inscreveram durante esta semana ou ainda desejam se inscrever, não se preocupem, pois as duas aulas anteriores estão gravadas, disponíveis no site do Cedet para os novos alunos. Aliás, todo o curso está sendo gravado. Maiores informações, no próprio Cedet (liguem para 19-3249-80 ou enviem e-mail para livros@cedet.com.br).

março 23, 2013

A ensolarada retórica de Chesterton

A revivescência de G. K. Chesterton, exatamente num dos períodos mais populistas e demagógicos da história brasileira, não é fruto do acaso, mas o anúncio de que parcela da nossa sociedade permanece lúcida, pronta a buscar a verdade – e não as histórias da carochinha que insistem em nos contar todos os dias.

Acaba de sair, pela Editora Ecclesiae, mais um volume desse irônico polemista inglês, O que há de errado com o mundo, no qual assino o prefácio, estudo que contextualiza as ideias de Chesterton no início do século XX, quando o livro foi publicado.  

Como afirmo no prefácio, intitulado “O que falta ao nosso tempo”,
 
com seu raciocínio envolvente, construído por meio de analogias e paradoxos inesperados, Chesterton dilui a camada de banalidade que recobre as coisas comuns. Sua retórica ensolarada pisoteia, com a alegria de um menino, grande parte do ensaísmo contemporâneo, principalmente no Brasil, onde a arrogância epistêmica se espalha, renovando-se, a cada dia, por meio da sintaxe confusa e do jargão intraduzível. Há algo de agradavelmente hipnótico na sua escrita, correndo solta, desimpedida, livre de exercícios tautológicos, um dos cacoetes herdados da semiologia de inspiração barthesiana. Chesterton não se refugia no vocabulário afetado ou hermético porque não dissimula, não é um enfadonho esnobe, possui convicções e dá à linguagem o tratamento merecido: o de honrosa ferramenta – e não o de uma divindade. Movido por profundo respeito pelo leitor, seus textos nascem da consciência de que, “para um católico, qualquer ato cotidiano é uma dramática dedicação ao serviço do bem ou do mal”. Alto, obeso, de riso tonitruante, seu volumoso corpo só foi superado pela multifacetada abrangência de suas ideias. Era o que mais falta ao nosso tempo: um sábio.

março 21, 2013

O escritor deve se proteger da política

“Rapidamente eu vi – ou melhor, intuí (pois não vejo nada rapidamente) – que escritores raras vezes são intelectuais. ‘Uma pitada de ideologia e de ideias da moda é extremamente apropos’, disse Tchékhov certa vez – com ar de troça, eu desconfio. Com um espírito mais sério, ele escreveu que os escritores ‘deviam tomar parte na política só o suficiente para se proteger da política’. ‘Ausência de palavrório de natureza política, social e econômica’, este era um de seus lemas, e recomendava também objetividade, brevidade, audácia, recusa de estereótipos e compaixão. (Ah, para uma época em que estas palavras ainda não haviam caído em descrédito.)” – Saul Bellow, com melancolia e pessimismo, in “Escritores, intelectuais, políticos: sobretudo reminiscências”, 1993.

março 20, 2013

O dia em que Napoleão Mendes de Almeida previu as redações do Enem e a degradação da língua portuguesa patrocinada pelo governo

Afirma Horácio em sua Arte poética: “Muitas palavras que já caíram renascerão, e as que agora estão em voga e estimação também hão de cair se assim o quiser o uso, o qual é o juiz, o árbitro e a regra da linguagem”.
 
Mas o sábio Napoleão Mendes de Almeida completa: “Não disse Horácio que tanto mais caprichoso é o uso de um idioma quanto menos escolas tem a nação que o fala. De tal forma se entranham solecismos e barbarismos no falar de universitários que de estranho nada se poderá encontrar dentre pouco na afirmação de que a língua que se fala no Brasil não tem gramática nem vocabulário que a caracterizem. Se não há muito escarnecia-se o erro, hoje o estudioso e lido é que se escarnece” (Dicionário de questões vernáculas).

março 14, 2013

Lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)” em Curitiba

Neste sábado, dia 16, a partir das 14h, estarei na Livraria Danúbio, em Curitiba, para o lançamento de meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha), publicado pela Vide Editorial. Além dos autógrafos, o objetivo é fazer um bate-papo sobre literatura e crítica literária com os presentes. A Livraria Danúbio fica na Alameda Prudente de Morais, 1.239, Batel Soho. Informações: (41) 3324-1784.

março 13, 2013

“Cansei-me da solenidade da queixa”, diz Saul Bellow

– Trechos da entrevista de Saul Bellow realizada em 1965 e publicada na Paris Review:

O sofredor derrotado

“Tudo aquilo em que o ser humano acreditava no século XIX [...] tornou inevitável que o herói do romance realista não fosse um herói, mas um sofredor que acaba sucumbindo.”

Sapateiros

“[...] Ontem à noite, na cama, eu estava lendo uma coletânea de artigos de Stendhal. Um deles me divertiu bastante, me comoveu. Stendhal estava dizendo como eram sortudos os escritores da época de Luís XVI por não terem ninguém que os levasse a sério. A obscuridade lhes era valiosa. Corneille estava morto havia dias quando alguém na corte julgou o fato importante o bastante para ser mencionado. No século XIX, diz Stendhal, teria havido diversos panegíricos públicos, e os funerais de Corneille seriam cobertos por todos os jornais. Há enormes vantagens em não ser levado a sério demais. Alguns escritores são excessivamente sérios em relação a si mesmos. Aceitam as ideias do ‘público culto’. Existe essa coisa de pôr em maiúscula o A do artista. Certos escritores e músicos compreendem isso. Stravinski diz que o compositor deveria praticar seu ofício exatamente como faz um sapateiro. Mozart e Haydn aceitavam encomendas – compunham sob encomenda. No século XIX, o artista esperava altivamente pela Inspiração. Uma vez que você se alce ao nível de instituição cultural, está em apuros.”

O absurdo da elegia

“[...] A literatura moderna foi dominada por um tom de elegia, dos anos 20 aos anos 50, a atmosfera de Eliot em A terra desolada, e ade Joyce em Retrato do artista quando jovem. A sensibilidade absorveu essa tristeza, essa visão do artista como único elo contemporâneo violentado em seus (patrícios) sentimentos por todos os aspectos da civilização moderna. Isso foi muito mais longe do que deveria ter ido. Caiu no absurdo, do qual acho que já tivemos o bastante.”

Literatura russa

“[...] Os russos exercem uma atração carismática imediata [...]. Suas convenções lhes permitem expressar livremente sentimentos sobre a natureza e os seres humanos. Nós herdamos uma atitude mais constrangedora e aprisionante em relação às emoções. Temos que contornar as imposições puritanas e estoicas. Falta-nos a abertura russa. Nossa trilha é mais estreita.”

Como resistir ao niilismo

“[...] Parece que o que perguntei em meus livros foi: ‘Como é que se pode resistir aos controles desta vasta sociedade sem virar um niilista, evitando o absurdo de uma rebelião vazia?’. Perguntei: ‘Existiriam outras formas, mais bondosas, de resistir e de escolher livremente?’. Acho que, como a maioria dos americanos, dei preferência ao lado mais reconfortante, mais meliorista da questão. Não estou dizendo que deveria ter sido mais ‘pessimista’, porque descobri que o ‘pessimismo’, em quase todas as suas manifestações, é tão vazio quanto o ‘otimismo’. Mas sou forçado a admitir que não aprofundei essas questões o bastante. Não posso me culpar por não ter sido um severo moralista; sempre posso dar a desculpa de que, afinal de contas, não sou nada amis que um escritor de ficção. Mas não me sinto satisfeito com o que fiz até agora, a não ser com o lado cômico.”

O caminho mais sábio e mais viril

“[...] Cansei-me da solenidade da queixa, perdi mesmo a paciência com a queixa. Compelido a escolher entre a queixa e a comédia, escolhi a comédia, como mais energética, mais sábia e mais viril.” [Refere-se ao romance Herzog.]

março 11, 2013

Hoje, a primeira aula do Curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”

Às 20h30, no site do Cedet, darei início ao curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”. Para quem não puder acompanhar ao vivo, as aulas ficarão gravadas, disponíveis a todos que se inscreverem. Quem tiver dúvidas ou desejar mais informações, basta escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar, no horário comercial, para 19-3249-80. Até lá!

março 05, 2013

Novo curso: Prática de Leitura e Formação do Estilo

Planejei este curso pensando que, antes de tudo, precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo que a chamada “modernidade” alimenta em relação à linguagem. Ao mesmo tempo, quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, ferramenta indispensável para:

1. Descobrir as possibilidades expressivas da linguagem; e
2. Absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

O curso, que começa no próximo dia 11 de março, via Internet, foi elaborado de maneira que esses dois exercícios sejam feitos de forma concomitante, por meio da leitura e da análise de autores paradigmáticos, não só de ficção.

Ao final do curso, será proposto um exercício de redação – e comentarei, um a um, por escrito, todos os trabalhos.

A seguir, um resumo do que será tratado nas 12 aulas:

Aula 1 – Apresentação do curso. A linguagem, instrumento de comunicação, conhecimento e criação literária. Libertar a linguagem da ideologia.
Aula 2 – Por que ler? Há uma forma correta de ler? Exercício de leitura.
Aula 3 – Leitura como “absorção ativa”. Trata-se apenas de imitar? Ler, aprender e transformar.
Aula 4 – O texto homérico. Sobriedade e síntese. As coisas como elas são, mas transformadas.
Aula 5 – O relato bíblico. A estrutura da vida humana. Psicologia e camadas de sentido.
Aula 6 – Plínio, o jovem: o inusitado descrito sem retórica. Desprezo pela amplificação.
Aula 7 – Tolstói e o detalhe iluminador. Pensamentos e gestos criam uma personalidade.
Aula 8 – A descrição da realidade com delírio e assombro: Hermann Broch.
Aula 9 – A antítese como hábito da inteligência: as cartas paulinas.
Aula 10 – Alegoria, lógica e analogias: a argumentação nos sermões do Padre Antônio Vieira.
Aula 11 – Montaigne: argumentação sem convencimento – o ato de pensar com o “encanto da conversa entre amigos”.
Aula 12 – Paradoxo e ironia: o riso da argumentação em Chesterton. No final da aula, proposta de exercício de redação.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet Online.

– Valores, dúvidas e inscrições, basta visitar a página do curso, escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar para 19-3249-80 (horário comercial).

março 04, 2013

Síntese do estilo machadiano

“Para a família literária de Machado de Assis são muitos os chamados, raros os escolhidos. Não é só uma semelhante natureza humana que se exige, também os rigores do trabalho artístico: um estilo que tenha elegância, precisão e agudeza, sem nada perder na sua simplicidade; uma técnica que signifique completo domínio do mundo imaginativo, sem prejuízo da sua aparência de espontaneidade e abandono; um conhecimento dos homens e da vida social que indique aprofundamento constante da visão, sem esquecer a sua fonte de participação nessa existência pessoal e social dos seus semelhantes.” – Álvaro Lins
 
Aliás, como ensinou o próprio Machado de Assis, “dê um pouco de poesia à vida, mas não caia no romanesco; o romanesco é pérfido” (em Iaiá Garcia).

março 02, 2013

“Um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”

Hoje, depois de minha palestra no Círculo de Estudos Políticos – onde falei sobre a liberdade de expressão na Rússia pós-Revolução de 1917 –, conversando com alguns dos participantes, lembrei-me de Isaiah Berlin e de seus ensaios, que foram fundamentais para mim, principalmente durante o período em que, passo a passo, percebi os erros, as falhas do pensamento esquerdista. Repito aqui, para os jovens que me ouviram, o que escrevi num post de 2009, neste blog:

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), deixo, prazerosamente, que Berlin me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.
 
O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.