Novembro 06, 2009
Sunt lacrimae rerum
“Há lágrimas nas coisas”, diz Virgílio na Eneida. Essa é a epígrafe de Os desaparecidos – A procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, de Daniel Mendelsohn, que analiso no Rascunho de novembro.
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Novembro 02, 2009
Finados
Não me recordo de tê-la visto um único dia sem o vestido preto. Altiva, digna, afável mas imperiosa, o luto era seu emblema, o pendão de nobreza por meio do qual ostentava seus valores – mortos, sempre mortos para quase todos. Mas ela não se escandalizava por saber que era próprio da maioria corromper-se, mentir, difamar, esquecer. Não lhe parecia estranho que seus iguais se reduzissem a algumas poucas pessoas, e demonstrava, em cada gesto, estar além das mesquinharias. Nunca permitiu que o desdém manchasse sua superioridade. Era a mesma com a japonesa que, no mercado, lhe vendia frutas, com a lavadeira baixinha e rubicunda que a visitava semanalmente, com os notáveis da cidade. Eu pedia sua bênção, beijando a mão perfumada, certo de não apenas repetir um condicionamento, mas para adentrar de algum modo àquele mundo sóbrio, delicado e regenerador que ela comandava. O ceticismo lhe caía tão bem quanto a redinha com que prendia os cabelos grisalhos; e do alto dos seus noventa anos ela podia ensinar-me que medir os homens a distância, sem escravizar-se às estreitezas de espírito, era o imperativo da fidalguia e, principalmente, da liberdade. Conceder todos os obséquios, sem jamais pedir um favor; ser amável com quem lhe solicitasse atenção, sem nunca mendigar qualquer mínima gentileza; e, acima de tudo, ordenar a conduta segundo o lema imemorial: Noblesse oblige. Assim, a mecânica ordinária do mundo dissolvia-se frente à dignidade de minha bisavó, cujo poder neutralizava a rudeza e todas as formas de incorreção. Seu túmulo é um dos poucos a que eu me dirigiria hoje, repetindo a peregrinação que ela própria empreendeu, semanalmente, para rememorar o primogênito morto aos 46 anos. E de joelhos, aos pés do sepulcro, eu lhe agradeceria pelas lições transmitidas com brandura e sutileza, pelo asteísmo de sua fala, que desmontava falsas certezas, e pelos cafés servidos na velha louça inglesa ao final da tarde, quando nós dois, sentados na pequena cozinha, visitávamos o mundo empunhando a lanterna de Diógenes.
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Novembro 01, 2009
Em berço esplêndido
Segundo a PricewaterhouseCoopers, a América Latina é a região do mundo em que menos se adquire livros: do total de obras comercializado no mundo em 2008, apenas 4,14% das vendas ocorreram em nosso continente. Dessa fatia minúscula, 70% corresponde a gastos feitos no Brasil.
Os dados são desanimadores: o brasileiro gasta, por ano, a média de US$ 19 com livros. Na França, um cidadão despende, anualmente, US$ 144. Em Israel, US$ 139.
Para essa grave deficiência, não há discurso demagógico, PAC, Bolsa Família ou qualquer outro programa populista que mascare a realidade. Só elevados gastos em educação, durante várias décadas, podem mudar esses números. Ou seja: aguardemos deitados em berço esplêndido.
Os dados são desanimadores: o brasileiro gasta, por ano, a média de US$ 19 com livros. Na França, um cidadão despende, anualmente, US$ 144. Em Israel, US$ 139.
Para essa grave deficiência, não há discurso demagógico, PAC, Bolsa Família ou qualquer outro programa populista que mascare a realidade. Só elevados gastos em educação, durante várias décadas, podem mudar esses números. Ou seja: aguardemos deitados em berço esplêndido.
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Outubro 31, 2009
Tranquilidade

Minhas preferências musicais se inclinam sempre na direção da música de câmara e dos lieder. Não que eu desgoste das grandes sinfonias, mas, antes, prefiro os concertos; e, em primeiro lugar, os pequenos grupos de executantes, que me proporcionam uma agradável sensação de aconchego, tranquilidade. No caso da música lírica ocorre o mesmo: aprecio a ópera, mas os lieder e os duetos, íntimos, breves e líricos, me cativam. Hoje, desde o início da manhã, escuto Marilyn Schmiege e Julie Kaufmann interpretando as deliciosas canções de Brahms, o que torna a vida, no mínimo, mais suportável.
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Outubro 30, 2009
Um aperitivo
A Editora Cosac Naify disponibilizou, no início deste mês, algumas páginas da tradução de Guerra e paz, de Liev Tolstói, que Rubens Figueiredo está produzindo.
Será terrível esperar até fins de 2010 pelo livro, mas, olhando para o que o tradutor nos ofereceu em Anna Kariênina, minhas expectativas serão plenamente recompensadas.
Será terrível esperar até fins de 2010 pelo livro, mas, olhando para o que o tradutor nos ofereceu em Anna Kariênina, minhas expectativas serão plenamente recompensadas.
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Outubro 28, 2009
Narratofobia
No Rascunho deste mês, meu ensaio sobre a paúra de narrar:
[...] parte da produção literária distanciou-se radicalmente do receptor da mensagem, do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades.
[...] parte da produção literária distanciou-se radicalmente do receptor da mensagem, do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades.
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Victor Borisovitch Chklovski
Outubro 25, 2009
Etéreo Brahms
Devoto meu domingo ao sagrado prazer de ouvir Brahms, principalmente sua música de câmara. Em Brahms realiza-se, plenamente, o que diz Emil Cioran sobre a música:
É a única arte que dá um sentido à palavra absoluto. É o absoluto vivido; vivido, entretanto, por meio de uma grande ilusão, pois se dissipa assim que se restabelece o silêncio. É um absoluto efêmero, em suma um paradoxo. [...] A música é a linguagem da transcendência. [...] A música é um universo infinitamente real, ainda que inapreensível e evanescente. Um indivíduo que não pode aí penetrar, por ser insensível a essa magia, está privado da própria razão de existir. O supremo lhe é inacessível. Só a compreendem aqueles a quem ela é indispensável. A música deve enlouquecer, senão é nada.
E que venerável, santa forma de loucura Brahms me proporciona!
É a única arte que dá um sentido à palavra absoluto. É o absoluto vivido; vivido, entretanto, por meio de uma grande ilusão, pois se dissipa assim que se restabelece o silêncio. É um absoluto efêmero, em suma um paradoxo. [...] A música é a linguagem da transcendência. [...] A música é um universo infinitamente real, ainda que inapreensível e evanescente. Um indivíduo que não pode aí penetrar, por ser insensível a essa magia, está privado da própria razão de existir. O supremo lhe é inacessível. Só a compreendem aqueles a quem ela é indispensável. A música deve enlouquecer, senão é nada.
E que venerável, santa forma de loucura Brahms me proporciona!
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Outubro 24, 2009
A lucidez de Guilherme Valente
Um dos mais respeitáveis editores de língua portuguesa, Guilherme Valente, editor da famosa Gradiva, de Portugal, critica José Saramago. E o faz com extrema acuidade:
Saramago é, quanto a mim, um escritor engenhoso, mas elementar e habilmente lamecha, que, em termos de ideias, escreve e fala para um público pouco culto, cuja ignorância explora, para cujos juízos mal informados, ideológicos, sectários ou primários, apela, obscurecendo, em vez de (o) iluminar. [...]
Quando fala da Bíblia, de ciência, das viagens de exploração do Universo, ou de Castro, ou de tantas outras matérias sobre as quais regularmente diz, sempre no mesmo tom teocrático, enormidades, a minha dúvida é se ele é mesmo tão limitado intelectualmente como parece, ou se não se tratará de um sacrifício pulsional da inteligência e do conhecimento. [...]
Aqui, para aqueles que desejarem ler o texto na íntegra.
E aqui, para conhecer quem é esse perspicaz editor.
Saramago é, quanto a mim, um escritor engenhoso, mas elementar e habilmente lamecha, que, em termos de ideias, escreve e fala para um público pouco culto, cuja ignorância explora, para cujos juízos mal informados, ideológicos, sectários ou primários, apela, obscurecendo, em vez de (o) iluminar. [...]
Quando fala da Bíblia, de ciência, das viagens de exploração do Universo, ou de Castro, ou de tantas outras matérias sobre as quais regularmente diz, sempre no mesmo tom teocrático, enormidades, a minha dúvida é se ele é mesmo tão limitado intelectualmente como parece, ou se não se tratará de um sacrifício pulsional da inteligência e do conhecimento. [...]
Aqui, para aqueles que desejarem ler o texto na íntegra.
E aqui, para conhecer quem é esse perspicaz editor.
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Outubro 09, 2009
Simenon
Fui resgatado das brumas por um romance de Georges Simenon: Sangue na neve. A dura objetividade da narrativa – Simenon não admite volteios de espécie alguma – sequestrou-me ao mundo nevoso, quase espectral, em que a maldade surge sem qualquer objetivo claro. Graham Greene trata melhor do tema, em seu romance de estreia, O condenado, cujo fim, triste e impactante, concentra profunda reflexão não apenas sobre a relação entre Bem e Mal, mas principalmente sobre como o Mal pode nascer movido pela gratuidade insana. Mas Simenon, ainda que fique um pouquinho atrás, nos oferece seus parágrafos curtos, certeiros; Frank, o protagonista taciturno e infantil, para quem o mundo e as pessoas são personagens de um teatro de sombras; e trechos antológicos, como este, em que se revela o cinismo da caftina Lotte, mãe de Frank, que aluga meninas em seu apartamento, ao comentar sobre os fregueses:
[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.
– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.
É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.
– Como as filhas deles, entende?
O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.
É Lotte ainda que afirma:
– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!
[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.
– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.
É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.
– Como as filhas deles, entende?
O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.
É Lotte ainda que afirma:
– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!
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Setembro 03, 2009
Estado sem limites (do jeito que a esquerda gosta)
Brilhante, para dizer o mínimo, o artigo de Demétrio Magnoli hoje no Estadão:
Nunca, desde o encerramento da ditadura militar, o Estado brasileiro violou tão profundamente a ordem democrática quanto na hora em que Mattoso selecionou, entre os milhões de correntistas da CEF, o nome de Francenildo, uma testemunha da CPI que investigava o poderoso ministro. No mesmo dia em que o presidente da CEF acessava o extrato "suspeito", mas não o transmitia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), guardando-o para Palocci, Tião Viana prometia aos jornalistas "uma grande surpresa". O poder que faz isso não conhece limites. Seu horizonte utópico é o Estado policial: a administração pública convertida em aparelho de intimidação permanente dos cidadãos, por meio da invasão da privacidade e da chantagem pessoal.
[...]
Quando proferiram seus votos, os cinco juízes enxergaram um semelhante não em Francenildo, mas em Palocci. Eles votaram na sua casta, deixando as impressões digitais do persistente patrimonialismo brasileiro nos registros da Corte constitucional.
Maus tempos os nossos, caros leitores. Tempos perigosos para os cidadãos comuns.
Nunca, desde o encerramento da ditadura militar, o Estado brasileiro violou tão profundamente a ordem democrática quanto na hora em que Mattoso selecionou, entre os milhões de correntistas da CEF, o nome de Francenildo, uma testemunha da CPI que investigava o poderoso ministro. No mesmo dia em que o presidente da CEF acessava o extrato "suspeito", mas não o transmitia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), guardando-o para Palocci, Tião Viana prometia aos jornalistas "uma grande surpresa". O poder que faz isso não conhece limites. Seu horizonte utópico é o Estado policial: a administração pública convertida em aparelho de intimidação permanente dos cidadãos, por meio da invasão da privacidade e da chantagem pessoal.
[...]
Quando proferiram seus votos, os cinco juízes enxergaram um semelhante não em Francenildo, mas em Palocci. Eles votaram na sua casta, deixando as impressões digitais do persistente patrimonialismo brasileiro nos registros da Corte constitucional.
Maus tempos os nossos, caros leitores. Tempos perigosos para os cidadãos comuns.
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Reflexões
Agosto 29, 2009
Abençoado canibalismo
Terminei de ler, há alguns dias, a biografia de Martin Heidegger escrita por Rüdiger Safranski: Heidegger – um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. Apesar dos graves erros de revisão (em certos trechos, ficamos sem saber se o texto confuso se deve a falhas de tradução ou apenas à ausência de uma virgulação correta), trata-se de um magnífico trabalho que, infelizmente, não mereceu o carinho do editor brasileiro.
Safranski disseca a vida e a obra de Heidegger sem piedade, mas não comete o erro, muito comum nos dias atuais, de diminuir a obra do filósofo por causa de suas infames opções políticas, favoráveis ao nazismo, ou de algumas características pouco lisonjeiras da personalidade de Heidegger, como, por exemplo, seu comportamento durante a fase final da amizade com Husserl. Os limites da obra, quando apontados, surgem da própria obra, ainda que o julgamento final do biógrafo seja favorável: “Ele [Heidegger] não criou uma filosofia construtiva no sentido de uma visão de mundo ou uma doutrina moral. Não há ‘resultados’ do pensar heideggeriano, como há ‘resultados’ da filosofia de um Leibniz, Kant ou Schopenhauer. A paixão de Heidegger era indagar, não responder”.
Mas comento o trabalho de Rüdiger Safranski porque li hoje, no El País, o artigo de Carlos García Gual sobre Plutarco e suas Vidas paralelas, obra que, infelizmente, até hoje não teve uma tradução completa no Brasil, um dos inúmeros sintomas do nosso atraso cultural. É compreensível que as editoras se preocupem em publicar, por exemplo, as biografias de Roberto Carlos e Paulo Coelho. São figuras insignificantes, que estarão completamente esquecidas dentro de cem ou duzentos anos, mas cujas biografias, agora, podem representar altas tiragens e, claro, bons lucros – o que não recrimino, absolutamente. Incomoda-me, isso sim, não termos um Plutarco completo, bem traduzido e bem editado, semelhante ao que os espanhóis estão fazendo na Biblioteca Clássica Gredos, cuja seção grega é dirigida por García Gual, catedrático de filologia na Universidade Complutense de Madrid, dentre outros títulos. Principalmente porque, diferente dos exemplos acima, Plutarco continuará sendo referência dentro de cem, duzentos ou quinhentos anos. Aliás, outro indício de nossa grave enfermidade cultural – que parece se traduzir, inclusive, por um inexplicável desprezo em relação à Antiguidade Greco-Romana – é não termos nada do próprio Gual traduzido; seu Los orígenes de la novela, por exemplo, é leitura obrigatória a todos os que se interessem sobre a história do romance.
E já que estamos falando de biografias, aponto outra grave lacuna: A vida de Samuel Johnson, de James Boswell. Jamais traduzida entre nós, essa obra não apenas é o retrato magistral de uma das maiores inteligências que a humanidade já conheceu, como também fixou as bases modernas do gênero biográfico. Na Espanha, o livro já recebeu duas traduções. A última, excelente, foi publicada pela Acantilado, de Barcelona, em 2007. Boswell, amigo e discípulo de Johnson, seguiu exatamente o que seu mestre e biografado mandava: “olhar para o doméstico; exibir os detalhes mínimos de todos os dias, ali onde os homens brilham uns sobre os outros por sua prudência e virtude”.
Temos ótimas biografias, sem dúvida, trabalhos exemplares como o de Raimundo Magalhães Júnior sobre Machado de Assis, reeditado recentemente (sem esquecer o clássico de Jean-Michel Massa, dedicado à juventude de Machado, também reeditado); o Lima Barreto de Francisco de Assis Barbosa; e o trabalho de Sílvio Rabelo sobre Euclides da Cunha. Ou, um dos melhores lançamentos do ano passado: Anna: a Voz da Rússia - vida e obra de Anna Akhmátova, de Lauro Machado Coelho.
Mas esses poucos exemplos não devem nos satisfazer. Precisamos exercitar, sem peias, nosso “canibalismo” (Rudyard Kipling definia assim o gênero da biografia) – e necessitamos, sempre mais, de bons e incansáveis Judas (como Oscar Wilde chamava os biógrafos).
Safranski disseca a vida e a obra de Heidegger sem piedade, mas não comete o erro, muito comum nos dias atuais, de diminuir a obra do filósofo por causa de suas infames opções políticas, favoráveis ao nazismo, ou de algumas características pouco lisonjeiras da personalidade de Heidegger, como, por exemplo, seu comportamento durante a fase final da amizade com Husserl. Os limites da obra, quando apontados, surgem da própria obra, ainda que o julgamento final do biógrafo seja favorável: “Ele [Heidegger] não criou uma filosofia construtiva no sentido de uma visão de mundo ou uma doutrina moral. Não há ‘resultados’ do pensar heideggeriano, como há ‘resultados’ da filosofia de um Leibniz, Kant ou Schopenhauer. A paixão de Heidegger era indagar, não responder”.
Mas comento o trabalho de Rüdiger Safranski porque li hoje, no El País, o artigo de Carlos García Gual sobre Plutarco e suas Vidas paralelas, obra que, infelizmente, até hoje não teve uma tradução completa no Brasil, um dos inúmeros sintomas do nosso atraso cultural. É compreensível que as editoras se preocupem em publicar, por exemplo, as biografias de Roberto Carlos e Paulo Coelho. São figuras insignificantes, que estarão completamente esquecidas dentro de cem ou duzentos anos, mas cujas biografias, agora, podem representar altas tiragens e, claro, bons lucros – o que não recrimino, absolutamente. Incomoda-me, isso sim, não termos um Plutarco completo, bem traduzido e bem editado, semelhante ao que os espanhóis estão fazendo na Biblioteca Clássica Gredos, cuja seção grega é dirigida por García Gual, catedrático de filologia na Universidade Complutense de Madrid, dentre outros títulos. Principalmente porque, diferente dos exemplos acima, Plutarco continuará sendo referência dentro de cem, duzentos ou quinhentos anos. Aliás, outro indício de nossa grave enfermidade cultural – que parece se traduzir, inclusive, por um inexplicável desprezo em relação à Antiguidade Greco-Romana – é não termos nada do próprio Gual traduzido; seu Los orígenes de la novela, por exemplo, é leitura obrigatória a todos os que se interessem sobre a história do romance.
E já que estamos falando de biografias, aponto outra grave lacuna: A vida de Samuel Johnson, de James Boswell. Jamais traduzida entre nós, essa obra não apenas é o retrato magistral de uma das maiores inteligências que a humanidade já conheceu, como também fixou as bases modernas do gênero biográfico. Na Espanha, o livro já recebeu duas traduções. A última, excelente, foi publicada pela Acantilado, de Barcelona, em 2007. Boswell, amigo e discípulo de Johnson, seguiu exatamente o que seu mestre e biografado mandava: “olhar para o doméstico; exibir os detalhes mínimos de todos os dias, ali onde os homens brilham uns sobre os outros por sua prudência e virtude”.
Temos ótimas biografias, sem dúvida, trabalhos exemplares como o de Raimundo Magalhães Júnior sobre Machado de Assis, reeditado recentemente (sem esquecer o clássico de Jean-Michel Massa, dedicado à juventude de Machado, também reeditado); o Lima Barreto de Francisco de Assis Barbosa; e o trabalho de Sílvio Rabelo sobre Euclides da Cunha. Ou, um dos melhores lançamentos do ano passado: Anna: a Voz da Rússia - vida e obra de Anna Akhmátova, de Lauro Machado Coelho.
Mas esses poucos exemplos não devem nos satisfazer. Precisamos exercitar, sem peias, nosso “canibalismo” (Rudyard Kipling definia assim o gênero da biografia) – e necessitamos, sempre mais, de bons e incansáveis Judas (como Oscar Wilde chamava os biógrafos).
Agosto 27, 2009
“Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...”
Há um poema que, desde meus tempos de colégio, sempre releio. Lembro da tarde em que certa amiga o apresentou para mim, na cozinha ensolarada onde, com os livros abertos sobre a mesa, fazíamos um trabalho de literatura. Quando comecei a ler os versos – ah!, ainda posso reviver a mesma sensação... –, foi como se o mundo à minha volta subitamente parasse e eu, adentrando um salão desconhecido, amplo e majestoso, permanecesse extático, incapaz de qualquer movimento, possuído pela poesia. Foi, aliás, quando conheci Fernando Pessoa. O poema, “Hora Absurda”.
Gostaria de poder partilhar com vocês minhas ideias sobre esse poema, mas estou sem tempo, infelizmente. Contudo, deixo aqui o link para a breve mas lúcida análise que Pasquale Cipro Neto faz, na Folha de S. Paulo de hoje, dos quatro primeiros versos:
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
E também reproduzo aqui duas das estrofes de que mais gosto:
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
Gostaria de poder partilhar com vocês minhas ideias sobre esse poema, mas estou sem tempo, infelizmente. Contudo, deixo aqui o link para a breve mas lúcida análise que Pasquale Cipro Neto faz, na Folha de S. Paulo de hoje, dos quatro primeiros versos:
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
E também reproduzo aqui duas das estrofes de que mais gosto:
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
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Agosto 26, 2009
Enriquecer, mas sem perder o discurso jamais
Não está longe o ano de 1957, quando o montenegrino Milovan Djilas, férreo apoiador de Josip Broz Tito, lançou seu bombástico A Nova Classe – análise do sistema comunista, no qual denunciava o surgimento, no bloco dos países da Cortina de Ferro, de uma classe de privilegiados – os revolucionários que, ocupando altos cargos na burocracia, enriqueciam, corrompiam-se e se deleitavam nas benesses do Estado totalitário; sem, é claro, abdicar do discurso populista e demagógico, no qual os batidos chavões do igualitarismo seguiam intactos.
Djilas amargou processos, perda de cargos, expulsão do partido e prisões por conta da coragem, mas suas denúncias e análises, depois aprofundadas no livro Além da Nova Classe, de 1969, continuam atuais. Leiam, por exemplo, a reportagem da edição de hoje do El País: “La oligarquía orteguista”, que mostra como funcionários do governo da Nicarágua – no passado, guerrilheiros que fizeram parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e lutaram contra a ditadura somozista; agora, burocratas do governo Daniel Ortega – enriquecem à sombra do Estado, sem abandonar, contudo, o discurso a favor dos pobres e as críticas à classe alta. Enquanto simulam virtude e defendem a luta de classes, cuidam com extremo carinho da própria conta bancária.
A imprensa brasileira deveria fazer reportagens semelhantes sobre os próceres do esquerdismo nacional. Há quase oito anos no poder, muitos certamente agora já podem viver de maneira nababesca – mas preservando os velhos discursos, pois uma boa pitada de contradição (que eles preferem chamar de dialética) é inerente aos catecismos leninistas.
Djilas amargou processos, perda de cargos, expulsão do partido e prisões por conta da coragem, mas suas denúncias e análises, depois aprofundadas no livro Além da Nova Classe, de 1969, continuam atuais. Leiam, por exemplo, a reportagem da edição de hoje do El País: “La oligarquía orteguista”, que mostra como funcionários do governo da Nicarágua – no passado, guerrilheiros que fizeram parte da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) e lutaram contra a ditadura somozista; agora, burocratas do governo Daniel Ortega – enriquecem à sombra do Estado, sem abandonar, contudo, o discurso a favor dos pobres e as críticas à classe alta. Enquanto simulam virtude e defendem a luta de classes, cuidam com extremo carinho da própria conta bancária.
A imprensa brasileira deveria fazer reportagens semelhantes sobre os próceres do esquerdismo nacional. Há quase oito anos no poder, muitos certamente agora já podem viver de maneira nababesca – mas preservando os velhos discursos, pois uma boa pitada de contradição (que eles preferem chamar de dialética) é inerente aos catecismos leninistas.
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Agosto 23, 2009
O som aspirado do Aleph

Mais que transgressão sacrílega, o Golem – esse mito do judaísmo que se desenvolveu na Europa Oriental e Central – possui um forte apelo à resistência judaica diante de injustiças e preconceitos. A variante dessa lenda que mais aprecio é a do Maharal de Praga – que, à época dos pogroms, cria o Golem para defender os judeus das perseguições e acusações sem fundamento. A lenda foi recontada por Elie Wiesel – e há uma bela edição de 1986 pela Editora Imago, com ilustrações de Mark Podwal. A criatura, nessa história, não é somente um autômato, mas um ser de relativa complexidade, capaz de julgar e discernir, sempre a favor do bem. Está distante, dessa forma, de outra variante da lenda, que não me agrada: a do Golem como mero experimento de homens megalomaníacos, que pretendem ser Deus.
Mas esse mito se diversificou em dezenas de histórias. Os românticos alemães foram pródigos em criá-las, apresentando um Golem que, muitas vezes, não passa de certa versão piorada da espécie humana, licencioso, mesquinho. As variações, inclusive, chegaram aos modernos: em prosa ou poesia, Jorge Luis Borges e Isaac Bashevis Singer, por exemplo, revisitam o tema.
Em 2004, o Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal de Minas Gerais publicou uma coletânea de artigos: Os fazedores de golems, organizada por Luiz Nazario e Lyslei Nascimento. O livro é a melhor introdução ao tema em língua portuguesa, além de proporcionar um diálogo entre a tradição e as reescrituras modernas da lenda, não apenas em literatura, mas também no cinema, visitando inclusive várias das criaturas artificiais criadas pela imaginação. O ensaio de abertura do livro – “O Golem: do limo à letra”, de Lyslei Nascimento –, síntese histórica perfeita da representação do Golem na arte, está disponível na web, em pdf.
De minha parte, considero uma pena que as narrativas modernas tenham perdido os dois aspectos que mais me fascinam: o da criatura que faz justiça e o essencialmente cabalístico – ou seja, o da palavra, escrita ou falada, que insufla vida no barro inerte. Segundo o mito, o Golem é criado por meio da palavra ’emet (verdade). E como explica a professora Lyslei Nascimento, quando o rabino que o criou decide adormecê-lo,
apaga da palavra ’emet a letra Aleph, na transliteração, o sinal (’) que indica a aspiração da letra hebraica, representando o vento, o fôlego da vida. Ao se apagar a letra, o som aspirado do Aleph, desaparece o som vocálico do “e” – e a palavra ’emet – “verdade” – torna-se met, “morto”.
Trata-se de um mito, portanto, que homenageia a criação por meio da palavra, do verbo. Poucas lendas se aproximaram tanto da criação através da escrita – e da angústia que lhe é inerente. Nem sempre conseguimos dar vida aos nossos textos – na maioria das vezes, chegando ao final do trabalho, depois de horas ou dias de dedicação às palavras, temos sob o olhar uma peça defeituosa, um Golem claudicante, amorfo. Talvez lutar com as palavras nada mais seja do que essa tentativa desesperada e vã de recuperar, ao menos uma só vez, o sopro do Verbo divino, o som aspirado do Aleph. (O que, aliás, me recorda Hanna Arendt, para quem “nada do que vemos, ouvimos ou tocamos pode ser expresso em palavras que se equiparem ao que é dado aos sentidos”. Ou, dito de outra forma, tudo que expressamos por meio das palavras assume a condição de Golem – um ser imperfeito, capaz de cumprir determinadas missões, mas que jamais se igualará à realidade primeira, inaugural.)
Agosto 20, 2009
Prazer e câncer do pensamento
Escrevi, para o último número do Rascunho, sobre Isaac Bashevis Singer e seu No tribunal de meu pai (Editora Cia. das Letras). A seguir, um trecho de minha crítica:
Na verdade, a formação de Isaac Bashevis Singer corrobora o que George Steiner diz, na longa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo (in George Steiner: à luz de si mesmo), sobre o vínculo entre erudição e judaísmo: “A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma bênção”. Naquele paupérrimo apartamento do número 10 da rua Krochmalna, o pequeno Singer não se dedicava apenas ao estudo prazeroso das tradições hassídicas, mas, atormentado por inesgotáveis questionamentos, lia tudo que estivesse à mão, incluindo Crime e castigo, de Dostoiévski: “Parecia um livro de histórias, mas era outra coisa. Estranho e elevado, lembrava-me a Cabala. Quem escrevia livros assim? Quem era capaz de entendê-los? Aqui e ali, uma passagem se elucidava, eu entendia um episódio, e me entusiasmava com a beleza de uma nova compreensão”. Poucos anos depois, movido pela compulsão de saber, aprende hebraico, lê poesia iídiche e devora Strindberg, Turguêniev, Tolstói, Maupassant, Tchekhov. Apaixona-se por Sherlock Holmes, estuda Hillel Zeitlin e Spinoza - mas também se debruça sobre um compêndio de física. Tragado por um turbilhão de idéias, ele é a materialização do judeu descrito por Steiner:
[...] é aquele que lê um livro com um lápis na mão [...]. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] Eu não falo em termos de gênio, porém designo uma sede incessante de conhecimento, de transcendência e de pensamento puro. Creio que o judeu é aquele que, até na soleira de uma câmara de gás, ainda corrigia um texto. Os rabinos o fizeram. Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós, sem que saibamos por que, é dizer-Lhe o que isso nos custou.
Na verdade, a formação de Isaac Bashevis Singer corrobora o que George Steiner diz, na longa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo (in George Steiner: à luz de si mesmo), sobre o vínculo entre erudição e judaísmo: “A religião judaica é a única para a qual o sábio é uma bênção”. Naquele paupérrimo apartamento do número 10 da rua Krochmalna, o pequeno Singer não se dedicava apenas ao estudo prazeroso das tradições hassídicas, mas, atormentado por inesgotáveis questionamentos, lia tudo que estivesse à mão, incluindo Crime e castigo, de Dostoiévski: “Parecia um livro de histórias, mas era outra coisa. Estranho e elevado, lembrava-me a Cabala. Quem escrevia livros assim? Quem era capaz de entendê-los? Aqui e ali, uma passagem se elucidava, eu entendia um episódio, e me entusiasmava com a beleza de uma nova compreensão”. Poucos anos depois, movido pela compulsão de saber, aprende hebraico, lê poesia iídiche e devora Strindberg, Turguêniev, Tolstói, Maupassant, Tchekhov. Apaixona-se por Sherlock Holmes, estuda Hillel Zeitlin e Spinoza - mas também se debruça sobre um compêndio de física. Tragado por um turbilhão de idéias, ele é a materialização do judeu descrito por Steiner:
[...] é aquele que lê um livro com um lápis na mão [...]. É também aquele que corrige os erros mesmo ao ler um jornal. [...] Eu não falo em termos de gênio, porém designo uma sede incessante de conhecimento, de transcendência e de pensamento puro. Creio que o judeu é aquele que, até na soleira de uma câmara de gás, ainda corrigia um texto. Os rabinos o fizeram. Corrigir um texto é interpelar Deus dizendo-Lhe que se é fiel a esse câncer do pensamento, a essa patologia do absoluto que Ele colocou em nós, sem que saibamos por que, é dizer-Lhe o que isso nos custou.
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Agosto 18, 2009
Rui Tavares e sua crítica ao “calvinismo literário”
Foi no simpático blog do Senhor Palomar que pude ler a crônica de Rui Tavares, “Bom! Bonito! Barato!”, agora disponível no blog do autor. Não deixem a leitura para depois. A seguir, um aperitivo desse texto suave, inteligente. Ele me me fez considerar uma pena que, em português, não tenhamos, no início das frases exclamativas, o sinal invertido dos espanhóis:
O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.
O texto escrito precisa de palavras curtas e palavras compridas, precisa de frases breves e de frases longas, precisa de linguagem concreta e de linguagem metafórica. O texto precisa de ritmo e esse ritmo só se consegue pela utilização de elementos diferenciados; mas o ritmo de um texto literário não é como um ritmo musical — ele não obedece sempre ao mesmo tempo, não cai em compassos, não é metronímico — e tem de ir sendo calibrado à mão em cada parágrafo, uns mais lentos, outros mais rápidos, outros que se desdobram em subordinadas. E também: frases sem verbos. O ritmo do texto não é tão regular nem sincopado como o da peça musical porque a sua busca é a da fluência. Fluência como a das melodias não musicais nas suas modulações sucessivas — como nos cursos de água, na brisa e no vento, nas chuvadas.
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Rui Tavares
Agosto 15, 2009
Péssimas escolhas
Nos últimos dias, por razão profissional, tenho sido obrigado a revisitar alguns livros que li há muitos anos – e aos quais não pretendia retornar. Refiro-me a certas obras presentes na lista da Fuvest para o Vestibular 2010.
Pois bem. Realmente desconheço o que norteia a escolha desses livros, mas certamente não são critérios estéticos. Escolher, do Romantismo brasileiro, José de Alencar, é uma afronta à sensibilidade dos jovens, é obrigá-los a perder tempo com um texto pomposo, artificial, de uma grandiloquência que chega a dar engulhos. Claro, podemos ver a escolha pelo lado bom: ao menos não obrigaram a juventude a ler O Guarani, mas, sim, Iracema, livrinho bem mais curto e relativamente menos medíocre. Mas, pergunto-me, por que escolher o que existe de pior no Romantismo brasileiro? Por que exigir que eles leiam o que há de mais embolorado em nossa literatura? Se os critérios forem aqueles que já cansamos de ouvir, de que as narrativas de Alencar serviram à criação de uma literatura efetivamente nacional, de que a prosa alencariana em Iracema é pura poesia, e blá, blá, blá..., sinceramente, precisamos, com urgência, dar um banho de água fria nos responsáveis pela escolha – e alguns talvez precisem de um bom clister ou de uma camisa-de-força.
Meu Jesus-cristinho! Minha Santa Terezinha de Lisieux! Por que não pedir que os jovens leiam o melhor?! Álvares de Azevedo e Castro Alves têm bons poemas – Azevedo, inclusive, escreveu alguns deliciosamente irônicos, em que ele ri do próprio Romantismo. E se é para ler Alencar, por favor, esqueçam essa bobagem de literatura indianista. (Isso talvez sirva aos estudiosos do folclore brasileiro, mas não à literatura.) Senhora é um romance razoável – e agredirá menos a inteligência da juventude.
Os problemas da lista, contudo, não param aí. Acho perfeito que os alunos tenham de ler Eça de Queirós. Mas não entendo porque três autores realistas (Eça, Machado e Aluísio Azevedo) – e entendo menos ainda porque, mais uma vez, não se escolhe o melhor. A cidade e as serras apresenta aquele Eça em que já se apagam as principais qualidades, como o sarcasmo e a crítica ferina à sociedade portuguesa. É um Eça que dá seus últimos suspiros. Por que não Os Maias? Por que tem muitas páginas? Ou por que a trama é complexa? Seja qual for o critério, mais uma vez despreza-se a inteligência dos jovens.
Também estranho a falta do Simbolismo. Portugal e Brasil têm ótimos poetas simbolistas. Claro que nenhum louco vai obrigar os jovens a ler um livro inteiro de Cruz e Souza, pois não há fígado que aguente. Mas, Jesus!, por que não uma boa antologia de poemas, reunindo os nomes mais importantes? Não seria melhor que os alunos pudessem ter uma visão ampla do movimento? Bastariam dez ou quinze poemas – e já teríamos uma ideia clara sobre a estética simbolista. E o mesmo poderia ser feito com os parnasianos.
Outra bobagem é Capitães da areia. Livrinho mal escrito, superficial, esquemático. Novamente escolhe-se o que um autor tem de pior. Jorge Amado já não é o que poderíamos chamar de clássico – e ainda obriga-se a juventude a ler o que ele tem de mais medíocre. Não entendo! Por que não pedir que os jovens leiam, por exemplo, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, obra divertidíssima – e uma das três ou quatro do Jorge que realmente merecem ser lembradas?
Na verdade, a lista da Fuvest é tristemente populista, pois comete o pior dos pecados: nivela por baixo a inteligência da juventude. Parte dos livros escolhidos passa a impressão de que os responsáveis se basearam naqueles estúpidos chavões: de que os jovens não leem, não gostam de ler, etc.
Ora, em minha opinião deveríamos fazer exatamente o contrário: deveríamos dar um voto de confiança aos jovens, oferecer-lhes o que a literatura de língua portuguesa tem de melhor, e entusiasmá-los à leitura de obras que realmente pudessem acrescentar algo à sua sensibilidade. Desacreditar da inteligência da juventude não é um bom recurso pedagógico. Talvez possa servir ao populismo rasteiro que grassa neste país, mas não é, decididamente, uma escolha sábia.
Pois bem. Realmente desconheço o que norteia a escolha desses livros, mas certamente não são critérios estéticos. Escolher, do Romantismo brasileiro, José de Alencar, é uma afronta à sensibilidade dos jovens, é obrigá-los a perder tempo com um texto pomposo, artificial, de uma grandiloquência que chega a dar engulhos. Claro, podemos ver a escolha pelo lado bom: ao menos não obrigaram a juventude a ler O Guarani, mas, sim, Iracema, livrinho bem mais curto e relativamente menos medíocre. Mas, pergunto-me, por que escolher o que existe de pior no Romantismo brasileiro? Por que exigir que eles leiam o que há de mais embolorado em nossa literatura? Se os critérios forem aqueles que já cansamos de ouvir, de que as narrativas de Alencar serviram à criação de uma literatura efetivamente nacional, de que a prosa alencariana em Iracema é pura poesia, e blá, blá, blá..., sinceramente, precisamos, com urgência, dar um banho de água fria nos responsáveis pela escolha – e alguns talvez precisem de um bom clister ou de uma camisa-de-força.
Meu Jesus-cristinho! Minha Santa Terezinha de Lisieux! Por que não pedir que os jovens leiam o melhor?! Álvares de Azevedo e Castro Alves têm bons poemas – Azevedo, inclusive, escreveu alguns deliciosamente irônicos, em que ele ri do próprio Romantismo. E se é para ler Alencar, por favor, esqueçam essa bobagem de literatura indianista. (Isso talvez sirva aos estudiosos do folclore brasileiro, mas não à literatura.) Senhora é um romance razoável – e agredirá menos a inteligência da juventude.
Os problemas da lista, contudo, não param aí. Acho perfeito que os alunos tenham de ler Eça de Queirós. Mas não entendo porque três autores realistas (Eça, Machado e Aluísio Azevedo) – e entendo menos ainda porque, mais uma vez, não se escolhe o melhor. A cidade e as serras apresenta aquele Eça em que já se apagam as principais qualidades, como o sarcasmo e a crítica ferina à sociedade portuguesa. É um Eça que dá seus últimos suspiros. Por que não Os Maias? Por que tem muitas páginas? Ou por que a trama é complexa? Seja qual for o critério, mais uma vez despreza-se a inteligência dos jovens.
Também estranho a falta do Simbolismo. Portugal e Brasil têm ótimos poetas simbolistas. Claro que nenhum louco vai obrigar os jovens a ler um livro inteiro de Cruz e Souza, pois não há fígado que aguente. Mas, Jesus!, por que não uma boa antologia de poemas, reunindo os nomes mais importantes? Não seria melhor que os alunos pudessem ter uma visão ampla do movimento? Bastariam dez ou quinze poemas – e já teríamos uma ideia clara sobre a estética simbolista. E o mesmo poderia ser feito com os parnasianos.
Outra bobagem é Capitães da areia. Livrinho mal escrito, superficial, esquemático. Novamente escolhe-se o que um autor tem de pior. Jorge Amado já não é o que poderíamos chamar de clássico – e ainda obriga-se a juventude a ler o que ele tem de mais medíocre. Não entendo! Por que não pedir que os jovens leiam, por exemplo, A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água, obra divertidíssima – e uma das três ou quatro do Jorge que realmente merecem ser lembradas?
Na verdade, a lista da Fuvest é tristemente populista, pois comete o pior dos pecados: nivela por baixo a inteligência da juventude. Parte dos livros escolhidos passa a impressão de que os responsáveis se basearam naqueles estúpidos chavões: de que os jovens não leem, não gostam de ler, etc.
Ora, em minha opinião deveríamos fazer exatamente o contrário: deveríamos dar um voto de confiança aos jovens, oferecer-lhes o que a literatura de língua portuguesa tem de melhor, e entusiasmá-los à leitura de obras que realmente pudessem acrescentar algo à sua sensibilidade. Desacreditar da inteligência da juventude não é um bom recurso pedagógico. Talvez possa servir ao populismo rasteiro que grassa neste país, mas não é, decididamente, uma escolha sábia.
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Agosto 08, 2009
A ilusão romântica
Mario Vargas Llosa é um dos intelectuais mais completos da atualidade. Sempre que leio seus escritos tenho a impressão de retornar àquele tempo, talvez utópico, no qual uma seleta minoria valorizava o saber não apenas como forma de distração, mas por amor ao aperfeiçoamento do potencial característico da condição humana e, pari passu, por amor à liberdade de criticar o senso comum.
Ao Vargas Llosa ficcionista, admirável contador de histórias, e teórico de literatura soma-se o polemista que não teme enfrentar a arbitrariedade do politicamente correto, a mesmice do marxismo – que hoje se encontra diluído nas diferentes áreas do pensamento – e os intelectuais transformados em totens da civilização, símbolos que a esquerda aprecia seguir e, quase sempre, imitar.
Num de seus últimos artigos, “Prohibido prohibir”, Vargas Llosa investe contra os “amenos e sofísticos ensaios” de Michel Foucault, a fim de recuperar um dos princípios da Antiguidade – e, portanto, da formação humanista: o da auctoritas.
Partindo dos problemas de indisciplina e violência nas escolas dos subúrbios parisienses, Llosa retorna a maio de 1968 e investiga as raízes da falência de uma das mais caras instituições da humanidade: a docência, o exercício do magistério – e da autoridade que lhe é inerente. Assim, o sentido de auctoritas que o escritor recupera não é o do mero poder (de fato ou de direito) de ordenar ou de se fazer obedecer, mas, sim, como ele diz, citando o Dicionário da Real Academia Espanhola, o “prestigio y crédito que se reconoce a una persona o institución por su legitimidad o por su calidad y competencia en alguna matéria”.
Maio de 68, seus ideólogos e os esquerdistas que vieram depois difundiram a ideia de que, ainda citando Vargas Llosa, “toda autoridade é suspeita, perniciosa e desprezível, e que o ideal libertário mais nobre é desconhecê-la, negá-la e destruí-la”. E se o movimento de 68 em nada alterou a política, em termos educacionais, contudo, provocou a satanização dos mestres e, inclusive, dos processos pedagógicos fundados na auctoritas. Os mestres tornaram-se, como salienta Llosa, os representantes do poder repressivo – e muitos deles, principalmente na área de Humanas, formados quase sempre sob o ideário da esquerda, deixaram-se contaminar por essas mentiras, abdicando de exercer sua autoridade.
Na opinião de Llosa, essas mudanças levaram, inclusive, à decadência do ensino público, na França e no mundo.
No entanto, sob meu ponto de vista, precisamos ir um pouco além do pensamento de Vargas Llosa. Na verdade, a disseminação da ideologia de esquerda – e, em consequência, a contaminação sofrida pelos processos de aprendizagem – instituiu a ideia de que o rebelde é, inevitavelmente, um sábio. Ou seja, elevou o ato de transgredir à categoria de regra.
Ora, quando a subversão romântica deixa de ser um fato excepcional e se torna lei, o homem se distancia da realidade. Nada mais importa, a não ser a sua quimera (ou a do seu partido). Mas seria possível um mundo onde os únicos valores são aqueles que o “eu” de cada um decreta? Seria possível viver em uma sociedade na qual só importasse a verdade de cada um? E, pior: onde cada indivíduo se considera o herói cuja missão é, atacando toda e qualquer autoridade, construir uma nova ordem, um novo mundo?
O ensinamento dos que desejam proibir toda proibição se apresenta, portanto, mais pernicioso do que Vargas Llosa expõe em seu artigo. Esses preceitos inoculam uma semente de mentira na consciência dos jovens. E quando eles se deparam com a realidade, com a vida social e suas exigências, então, para muitos daqueles supostos heróis resta apenas submergir na melancolia. Uma parte deles, abandonando as pseudofilosofias, abraçará com júbilo a tarefa de viver e construir sua obra – outros, mais fracos, seguirão recusando qualquer forma de auctoritas, ignorantes de que, na verdade, recusam a própria vida.
Ao Vargas Llosa ficcionista, admirável contador de histórias, e teórico de literatura soma-se o polemista que não teme enfrentar a arbitrariedade do politicamente correto, a mesmice do marxismo – que hoje se encontra diluído nas diferentes áreas do pensamento – e os intelectuais transformados em totens da civilização, símbolos que a esquerda aprecia seguir e, quase sempre, imitar.
Num de seus últimos artigos, “Prohibido prohibir”, Vargas Llosa investe contra os “amenos e sofísticos ensaios” de Michel Foucault, a fim de recuperar um dos princípios da Antiguidade – e, portanto, da formação humanista: o da auctoritas.
Partindo dos problemas de indisciplina e violência nas escolas dos subúrbios parisienses, Llosa retorna a maio de 1968 e investiga as raízes da falência de uma das mais caras instituições da humanidade: a docência, o exercício do magistério – e da autoridade que lhe é inerente. Assim, o sentido de auctoritas que o escritor recupera não é o do mero poder (de fato ou de direito) de ordenar ou de se fazer obedecer, mas, sim, como ele diz, citando o Dicionário da Real Academia Espanhola, o “prestigio y crédito que se reconoce a una persona o institución por su legitimidad o por su calidad y competencia en alguna matéria”.
Maio de 68, seus ideólogos e os esquerdistas que vieram depois difundiram a ideia de que, ainda citando Vargas Llosa, “toda autoridade é suspeita, perniciosa e desprezível, e que o ideal libertário mais nobre é desconhecê-la, negá-la e destruí-la”. E se o movimento de 68 em nada alterou a política, em termos educacionais, contudo, provocou a satanização dos mestres e, inclusive, dos processos pedagógicos fundados na auctoritas. Os mestres tornaram-se, como salienta Llosa, os representantes do poder repressivo – e muitos deles, principalmente na área de Humanas, formados quase sempre sob o ideário da esquerda, deixaram-se contaminar por essas mentiras, abdicando de exercer sua autoridade.
Na opinião de Llosa, essas mudanças levaram, inclusive, à decadência do ensino público, na França e no mundo.
No entanto, sob meu ponto de vista, precisamos ir um pouco além do pensamento de Vargas Llosa. Na verdade, a disseminação da ideologia de esquerda – e, em consequência, a contaminação sofrida pelos processos de aprendizagem – instituiu a ideia de que o rebelde é, inevitavelmente, um sábio. Ou seja, elevou o ato de transgredir à categoria de regra.
Ora, quando a subversão romântica deixa de ser um fato excepcional e se torna lei, o homem se distancia da realidade. Nada mais importa, a não ser a sua quimera (ou a do seu partido). Mas seria possível um mundo onde os únicos valores são aqueles que o “eu” de cada um decreta? Seria possível viver em uma sociedade na qual só importasse a verdade de cada um? E, pior: onde cada indivíduo se considera o herói cuja missão é, atacando toda e qualquer autoridade, construir uma nova ordem, um novo mundo?
O ensinamento dos que desejam proibir toda proibição se apresenta, portanto, mais pernicioso do que Vargas Llosa expõe em seu artigo. Esses preceitos inoculam uma semente de mentira na consciência dos jovens. E quando eles se deparam com a realidade, com a vida social e suas exigências, então, para muitos daqueles supostos heróis resta apenas submergir na melancolia. Uma parte deles, abandonando as pseudofilosofias, abraçará com júbilo a tarefa de viver e construir sua obra – outros, mais fracos, seguirão recusando qualquer forma de auctoritas, ignorantes de que, na verdade, recusam a própria vida.
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Julho 30, 2009
Pequena joia
A Editora Hedra acaba de preencher uma das deploráveis lacunas culturais do nosso país: lançou um precioso volumezinho, deliciosa coletânea de contos escritos por Hector Hugh Munro, mais conhecido pelo pseudônimo de Saki.
Quem ainda não conhece as sátiras deliciosamente ferinas desse autor inglês, nascido na Birmânia, não pode perder tempo. Suas histórias são aulas de sarcasmo e humor negro, escritas num estilo refinadíssimo. E se alguém não acredita que a elegância da linguagem pode destilar mordacidade em alto grau, então realmente deve ler Saki, esse mestre da narrativa breve.
Vou devorar o livrinho – Um gato indiscreto e outros contos – e depois voltamos a conversar.
Quem ainda não conhece as sátiras deliciosamente ferinas desse autor inglês, nascido na Birmânia, não pode perder tempo. Suas histórias são aulas de sarcasmo e humor negro, escritas num estilo refinadíssimo. E se alguém não acredita que a elegância da linguagem pode destilar mordacidade em alto grau, então realmente deve ler Saki, esse mestre da narrativa breve.
Vou devorar o livrinho – Um gato indiscreto e outros contos – e depois voltamos a conversar.
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Julho 27, 2009
De volta ao final de As Benevolentes
As questões não resolvidas sempre voltam. Por este ou aquele motivo, de vez em quando o cérebro as reapresenta ao nosso espírito. O final farsesco de As Benevolentes, de Jonathan Littell, é uma dessas interrogações para as quais busco resposta há algum tempo. Por que o escritor capaz de fazer uma obra de arte em 882 páginas escolhe destruir seu trabalho nas 14 restantes? Supor mera incompetência é uma solução pueril, fácil demais, e também incongruente. E a falta de coragem? O autor não teria sido capaz de ousar até o final? Mas se faltou ousadia, há uma causa no substrato dessa fraqueza.
Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.
Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.
Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.
Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.
Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.
Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.
Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.
Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.
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Julho 16, 2009
A honra de 32

As comemorações do 9 de Julho, na semana passada, foram inexpressivas. São Paulo não comemora a Revolução de 32 como seus heróis merecem. Aliás, o culto do heroísmo há muito caiu no esquecimento entre nós – a não ser, é claro, quando se trata das figuras que sucumbiram sob o regime de 64. Essas, graças à hegemonia cultural da esquerda, são sempre reverenciadas.
Minha formação, contudo, é diversa. Venho de uma época na qual 1932 era lembrado com orgulho na escola, com direito a discursos, bandeiras de São Paulo, cartazes. E a história dos jovens que morreram sob a metralha getulista, contada pelos professores, nos fazia olhar com desconfiança o jeito bonachão de Vargas.
Aliás, em minha família, desde cedo aprendemos que a luta revolucionária – que se resume, para os meus patriarcas, à luta pela liberdade – não é, não foi e nunca será uma tradição da esquerda.
No caso específico do 9 de Julho, cresci admirando o altar que meu avô paterno mantinha no escritório de sua casa: acima da escrivaninha, na parede, o capacete que ele usara nas trincheiras de 32 e um mapa do Estado de São Paulo, no qual estavam marcados à caneta as batalhas e os nomes dos amigos mortos ou feridos. Ao lado, numa estante próxima, ele mantinha sua própria foto, vestindo a farda de capitão-médico da revolução.
Meus avós e meus tios jamais falaram em separatismo ou demonstraram qualquer preconceito em relação aos outros estados. Falava-se apenas da luta de São Paulo pela legalidade, pela Constituição e contra a ditadura getulista, que desvirtuara os ideais de 1930. Durante as rodas de buraco ou de víspora, nos domingos à tarde, a política era um tema constante – e Getúlio sempre foi lembrado como um populista vulgar, nada mais.
Cresci ouvindo meu avô declamar os poemas de Guilherme de Almeida ou ler em voz alta, com orgulho, os discursos de Ibrahim Nobre. E, revendo aqueles dias, percebo que cultuar 32 representava, para nós, fazer também uma contraposição a qualquer forma de despotismo. Sim, os mais velhos eram todos anticomunistas, mas visceralmente liberais. Meu tio-avô, por exemplo, que foi deputado estadual e secretário de Justiça no governo Lucas Nogueira Garcez, infelizmente já falecido durante a ditadura de 64, subia nos palanques e descia o malho de sua oratória sobre a esquerda, mas era o único advogado em nossa cidade que aceitava defender, gratuitamente, os comunistas – e livrou muitos da cadeia.
A mãe de meu tio-avô, minha bisavó, mulher altiva, cultíssima, fluente em inglês, que chegou aos 94 anos de idade, nunca deixou de expressar sua discordância com os rumos de 64. Detestava Jango e defendia o golpe, mas achava que os militares haviam traído a confiança dos civis que apoiaram o movimento – e nunca teve receio de se referir aos presidentes do ciclo militar com os piores adjetivos. A seu modo, com a dignidade e a classe que lhe eram peculiares, enviou flores anos seguidos, no 31 de março, a políticos que, amigos de nossa família, tinham sido cassados pelos atos institucionais.
Não é de admirar, portanto, que a Revolução de 32 fosse venerada em minha casa.
Hoje, infelizmente, o obelisco do Parque Ibirapuera serve apenas para ser coberto por um preservativo gigante no Dia Mundial da Aids, nas escolas disseminou-se a mentira de que 32 foi um movimento desprezível das oligarquias paulistas, e há quem faça comentários cínicos ao ler, na entrada do mausoléu: “Viveram pouco para morrer bem – morreram jovens para viver sempre”. Mas a sordidez não muda o passado, não altera a verdade. Talvez consiga esconder das atuais gerações a honra daqueles mortos. Mas não para sempre. Não eternamente.
***
Adiciono a este post os lúcidos comentários do historiador Marco Antônio Villa, que lançou, no ano passado, um belo livro sobre a Revolução de 1932:
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Julho 09, 2009
Preceitos para a vida solitária

Toda convivência exige alguma forma de disciplina. No caso do solitário, destinado a ter exclusivamente sua própria companhia, ele apenas se manterá lúcido e apto a sobreviver se estabelecer regras – e segui-las:
1. Viver em solidão pressupõe respeitar a si mesmo. Sem esse primeiro gesto de apreço, tudo perde sentido.
2. Acordar sempre no mesmo horário e não se permitir qualquer prostração. É necessário vigor: levantar-se, expulsar da mente os sonhos ruins e os presságios (são todos falsos) – e arremeter contra o dia.
3. A higiene e os cuidados pessoais são indispensáveis. Os gregos já conheciam o poder da água fria contra os maus humores.
4. As refeições compõem um ritual imprescindível. Nada de engolir, como um símio, algumas porcarias. Dedicar-se com esmero ao ato de sentar à mesa e alimentar-se. Aqui, toda pressa é nociva. Engana-se quem pensa que cuidar das coisas triviais representa perda de tempo.
5. Se o solitário trabalha em casa, deve assemelhar-se a Maquiavel, que se lavava, vestia-se como secretarius florentinus e só então se recolhia à biblioteca para escrever.
6. Sempre negar-se a reclamar da solidão. Para si e para outrem. O solitário é um privilegiado – e não só pelo fato de ir ao banheiro e deixar a porta aberta, como dizia o melancólico Antonio Maria –, pois tem a melhor companhia que pode existir (na falta de outras que porventura surjam, não graças ao destino, mas à livre escolha).
7. Celebre, todos os dias, a liberdade de criticar o mundo sem fazer concessões a um consorte nem sempre disposto a partilhar de sua ironia.
8. Se almejar companhia, deve buscá-la – mas sem desespero, sem auto-humilhação, sem aceitar menos do que anseia. Deve ser criterioso como se lhe sobrassem opções. Quando em dúvida, postergar a escolha. Se movido pela urgência, alugar, a preço justo, os serviços de alguém.
9. Jamais transferir seus afetos a um animal doméstico. Seria humilhar-se, decair na escala da evolução. Animais podem ser bons companheiros, mas não devem partilhar o dormitório ou as refeições. Ou, ridículo, serem tratados como humanos.
10. Precaver-se dos empregados. Recordar vivamente as contrariedades sofridas pelo sinólogo Peter Kien no romance de Elias Canetti. Sob o empregado fiel quase sempre se esconde um tirano.
11. Não enganar-se quanto à própria solidão. É conhecido o caso do bancário que, ao chegar à residência, acendia todas as luzes, ligava a tevê em alto volume e punha-se a imaginar ter amigos à sua volta: em pouco tempo passou a falar sozinho – foi o primeiro passo rumo à camisa-de-força.
12. Jamais considerar-se deprimido – ou, pior, depressivo. Seria o início de um mal cujo tratamento é infinito, consome grande parte das reservas financeiras e coloca o paciente sob as ordens de um alienista (Machado de Assis captou bem o significado desse risco). A depressão não passa de uma forma deletéria de olhar para si mesmo.
13. Nenhum desmazelo é aceitável, pois todos escondem falta de amor-próprio.
14. Cultivar hobbies. Especializar-se em jardinagem ou filatelia é preferível a gastar o tempo em rodinhas sociais, mendigando atenção, fazendo-se de palhaço ou ingerindo estupefacientes (nenhum deles supera a eficácia da nossa própria imaginação).
15. Não quebrar os laços familiares – mesmo que se limitem à velha tia, caduca e ranzinza, que não deixará herança alguma.
16. Jamais, jamais aceitar o papel de terceiro, mediador ou juiz, principalmente em relações amorosas. O que lhe restará resume-se a um travo no coração – e o feliz e inconseqüente desprezo dos que o usaram.
17. Nunca alugar quartos a colegas de serviço, a fim de dividir despesas. A privacidade não pode ser violentada em nome da economia ou do sacrifício de se suportar estorvos. É preferível tornar-se monge trapista.
18. Não ensimesmar-se exageradamente. Mas ao menor sinal de que um estranho se aproxima movido pela compaixão ou pelo interesse, afastar-se. (Atenção: jamais sucumbir à curiosidade e aos favores da vizinha solteirona.)
19. Gravar, em local visível, o dístico de Schopenhauer: “Já aos trinta anos de idade estava sinceramente cansado de considerar como meus iguais seres que de fato não o são”.
20. Ter sincero e profundo orgulho de seu estado.
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Julho 08, 2009
The Book Seer
A sugestão vem de dois ótimos blogs: Pó dos Livros e Estante dos Livros: acabou de ler uma obra e gostaria de ler outras semelhantes? Tente o Book Seer.
Julho 07, 2009
Lógica booleana
O programa lembra o antigo O céu é o limite. Em um cenário tosco, no qual predominam os tons de cinza, o escritor responde às questões formuladas pelo sorridente apresentador. A cada acerto, a linha de mercúrio do imenso termômetro, colocado no fundo do cenário, sobe. Mas o escritor sempre acerta. Sempre. Não sei se estou na platéia ou no conforto de minha casa, acompanhando pela tevê. Enquanto ouço as respostas, rio sozinho, pois a linguagem do escritor é absolutamente hermética – e chego à conclusão de que se assemelha a uma falsa lógica booleana. Quanto mais incompreensível a resposta, mais largo é o sorriso do apresentador, crescem ainda mais os aplausos. O escritor também sorri, mas de maneira perniciosa. Quantos milhões ele receberá?, pergunto-me, enquanto admiro a linha de mercúrio ascendente. Imagino as respostas tomando a forma dos balões das histórias em quadrinhos, e a idéia agrada-me por sua inesperada carga de ironia. Mas, no fundo, sinto-me desolado. Então acordo.
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Julho 06, 2009
Reflexões sobre o mercado editorial
Alguns dos artigos que compõem o primeiro número da Booktailors Publishing Magazine, dirigida por Paulo Ferreira e Nuno Seabra Lopes, podem servir a inúmeras reflexões sobre o mercado editorial brasileiro. Independente disso, é reconfortante e animador ver como nossos irmãos portugueses passam em revista a arte da edição.
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Julho 03, 2009
Lamúrias
Voltando às epístolas de Ovídio, penso na exagerada fragilidade do poeta em relação ao imperador – mas não estamos também desprotegidos sob um Estado no qual as instituições são precárias e corruptas? Que poder tem, hoje, o cidadão perseguido por uma autoridade injusta? Ele não sofrerá a pena do exílio, mas se não for amigo das pessoas certas, se não dispuser de recursos para contratar advogados, se de alguma maneira for silenciado, quem se preocupará com ele? Alguém realmente acredita que, neste país, estamos livres do arbítrio?
Falta a Ovídio, no entanto, nobreza de caráter. Ou melhor: altivez. Não sabe aceitar seu destino – e perde-se em auto-acusações, humilhando-se inutilmente, desdobrando-se em elogios exagerados àqueles que poderiam ajudá-lo. Choramingas e resmungão, implora inclusive aos que o desprezam. É vergonhoso. E seu comportamento torna-se vulgar quando lembramos que ele não foi despojado dos próprios bens. Maria José de Queiroz – em seu belíssimo Os males da ausência, ou a literatura do exílio (Editora Topbooks) – relata, inclusive, que o poeta “mandara vir criados e um secretário de Roma” e que “recebera boa soma em dinheiro”. E mais: “a administração da província não o via como condenado a pena perpétua. Nem persona non grata. Isentaram-no de impostos e nomearam-no para o posto de agoníteta – presidente dos jogos sagrados”.
Como diz Carpeaux, “não é um poeta sério”. Apegou-se ao tema mais próximo e mais fácil – o culto exagerado de sua dor – e destrambelhou a maltratar seus leitores com sua lengalenga, com “o absurdo da sua pretensão e a tola ingenuidade com que dá voltas e mais voltas em torno de si mesmo, de suas angústias e, também, o que é mais triste, de suas esperanças” (Maria José de Queiroz).
A interrogação que fica, após a leitura, não é desprezível: que tipo de leitor pode apreciar essas cartas lamurientas, desprovidas daquela consciência da própria honra que os gregos nos transmitiram – e que Nietzsche resumiu em seu Amor fati?
Falta a Ovídio, no entanto, nobreza de caráter. Ou melhor: altivez. Não sabe aceitar seu destino – e perde-se em auto-acusações, humilhando-se inutilmente, desdobrando-se em elogios exagerados àqueles que poderiam ajudá-lo. Choramingas e resmungão, implora inclusive aos que o desprezam. É vergonhoso. E seu comportamento torna-se vulgar quando lembramos que ele não foi despojado dos próprios bens. Maria José de Queiroz – em seu belíssimo Os males da ausência, ou a literatura do exílio (Editora Topbooks) – relata, inclusive, que o poeta “mandara vir criados e um secretário de Roma” e que “recebera boa soma em dinheiro”. E mais: “a administração da província não o via como condenado a pena perpétua. Nem persona non grata. Isentaram-no de impostos e nomearam-no para o posto de agoníteta – presidente dos jogos sagrados”.
Como diz Carpeaux, “não é um poeta sério”. Apegou-se ao tema mais próximo e mais fácil – o culto exagerado de sua dor – e destrambelhou a maltratar seus leitores com sua lengalenga, com “o absurdo da sua pretensão e a tola ingenuidade com que dá voltas e mais voltas em torno de si mesmo, de suas angústias e, também, o que é mais triste, de suas esperanças” (Maria José de Queiroz).
A interrogação que fica, após a leitura, não é desprezível: que tipo de leitor pode apreciar essas cartas lamurientas, desprovidas daquela consciência da própria honra que os gregos nos transmitiram – e que Nietzsche resumiu em seu Amor fati?
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Julho 01, 2009
A viagem
O velho ônibus nos leva, em uma tarde de verão, à cidadezinha do interior. Somos cinco ou sete homens, espalhados no ônibus marrom e branco, sem qualquer conforto, suportando o mormaço e a poeira em nome de algo maior: um alfarrabista nos convidou para conhecer a coleção de manuscritos deixada pelo pai, leitor compulsivo que, durante anos, fez copiosas anotações sobre os livros que leu. Somos, portanto, uma comissão de peritos. Não conversamos durante a viagem. Não lemos. Sob o sol de verão, no ônibus sem ar-condicionado, nosso humor não é dos melhores. Mas chegamos. O sebo é amplo, excessivamente amplo. O filho orgulhoso nos recebe – alto, magro, cabelos emplastrados de brilhantina, óculos de aros grossos e escuros –, parecendo um tanto confuso. Depois das apresentações, sentamos em volta da mesa, no centro da loja, e ele traz os volumes, mais de quinze, todos encadernados, de diversos tamanhos. Ao abrir o primeiro da pilha, a surpresa: no alto da página, título, autor e editora do livro – e a data da leitura; e sob a bela caligrafia, tiras de histórias em quadrinhos, várias delas, algumas sobrepostas, todas coladas à página. Folheio o volume, atônito, e descubro que o exercício de colagem se repete a cada obra lida. As páginas, duras de goma-arábica, estão carregadas de recortes de jornal, sem qualquer lógica. A decepção é nítida no rosto de todos. Súbito noto a expressão alheia do nosso anfitrião, o olhar pueril, a palidez. Como não percebemos antes a evidente debilidade mental? Minha atenção, contudo, é desviada para a rua, por onde passam mulheres de maiô, algumas com saída-de-banho, outras penteando os cabelos ainda molhados. Uma delas, loira de cabelos compridos, veste um casaco de peles marrom, cujo decote deixa entrever os seios volumosos. Ela pára na esquina próxima e conversa com um idoso, pergunta-lhe sobre o dentista do bairro – e o velho, sorrindo, banguela, afirma que, graças ao profissional, perdeu todos os dentes. Levanto-me e vou à calçada. Depois, aborrecido, ao ônibus. Quando retorno, já é noite. O sebo está às escuras. Os membros da junta fuçam as estantes, fazem perguntas, querem salvar a viagem. Nosso anfitrião tem o olhar entristecido, derrotado. Ninguém se preocupa em acender as luzes. Então acordo.
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Sonhos
Junho 29, 2009
Cartas a Fábia
Condenado ao exílio pelo imperador Augusto, Ovídio partiu para o litoral do mar Negro – à época, uma terra de bárbaros. De lá, enviou a Roma duas obras: Tristia (Cantos tristes) e Epistulae ex Ponto (Cartas Pônticas). Ambas são coleções de elegias cujo objetivo é comover o imperador – de maneira que Augusto lhe permita viver o degredo em local mais aprazível – e os amigos e familiares, para que não se esqueçam do poeta e, principalmente, abracem a defesa de sua causa.
Duas das Cartas Pônticas (tradução de Geraldo José Albino, Editora WMF Martins Fontes) são enviadas a Fábia, a jovem viúva com quem Ovídio se casara. Na primeira, ele diz que seus sofrimentos o tornaram velho antes do tempo, e que a esposa se assustaria com a degradação de seu corpo. De fato, deve ser terrível envelhecer prematuramente. Mas Otto Maria Carpeaux, que define Ovídio como “excessivamente sentimental”, acusando-o de ter contaminado a literatura universal com assuntos tediosos, está certo. A carta termina com a suposição de que Fábia, agoniada pelos sofrimentos do esposo, também teria envelhecido. Ovídio deseja ser eloqüente, mas sua ênfase na suposta decadência da mulher ressuma afetação.
A segunda carta é mais interessante. Cansado de esperar, Ovídio repreende a esposa:
Não é, pois, estranho que, buscando o término de todos os meus males, eu peça sem cessar outra plaga. Mais admirável é que tu, minha esposa, não ma tenhas obtido e que possas conter as lágrimas por minhas desgraças. Perguntas-me o que fazer? Por que não o procuras tu mesma? Tu o encontrarás, se realmente quiseres encontrá-lo. Querer é pouco: para chegares ao alvo, convém que o desejes com um afã capaz de abreviar o teu sono.
Sua insistência, contudo, torna-se patética. Ele chega a ordenar que Fábia se empenhe inclusive porque, em outros poemas, ela fora citada como exemplo de esposa – e, portanto, deveria provar que os elogios do marido eram verdadeiros. A carta se resume a uma sucessão de exigências, nas quais Ovídio apela até mesmo à lei matrimonial. A cobrança é evidente:
Eu não sou indigno e, se quiseres confessar a verdade, deves a meus méritos algum agradecimento que, certamente, me devolves com grande usura.
E o poeta deixa claro qual sentimento o impulsiona. Em determinado trecho, percebe-se que ele deveria ter recebido notícias pouco agradáveis sobre o comportamento da esposa:
Os ditos indiscretos não podem prejudicar-te, embora o desejem.
Ao receber a carta, Fábia deve ter feito o oposto do que seu marido cobrava. Seria a reação mais previsível diante de um texto no qual o desespero se transforma em presunção, em arrogância. Ao abusar dos recursos que a retórica oferece, Ovídio também exorbita da paciência de seus leitores.
Duas das Cartas Pônticas (tradução de Geraldo José Albino, Editora WMF Martins Fontes) são enviadas a Fábia, a jovem viúva com quem Ovídio se casara. Na primeira, ele diz que seus sofrimentos o tornaram velho antes do tempo, e que a esposa se assustaria com a degradação de seu corpo. De fato, deve ser terrível envelhecer prematuramente. Mas Otto Maria Carpeaux, que define Ovídio como “excessivamente sentimental”, acusando-o de ter contaminado a literatura universal com assuntos tediosos, está certo. A carta termina com a suposição de que Fábia, agoniada pelos sofrimentos do esposo, também teria envelhecido. Ovídio deseja ser eloqüente, mas sua ênfase na suposta decadência da mulher ressuma afetação.
A segunda carta é mais interessante. Cansado de esperar, Ovídio repreende a esposa:
Não é, pois, estranho que, buscando o término de todos os meus males, eu peça sem cessar outra plaga. Mais admirável é que tu, minha esposa, não ma tenhas obtido e que possas conter as lágrimas por minhas desgraças. Perguntas-me o que fazer? Por que não o procuras tu mesma? Tu o encontrarás, se realmente quiseres encontrá-lo. Querer é pouco: para chegares ao alvo, convém que o desejes com um afã capaz de abreviar o teu sono.
Sua insistência, contudo, torna-se patética. Ele chega a ordenar que Fábia se empenhe inclusive porque, em outros poemas, ela fora citada como exemplo de esposa – e, portanto, deveria provar que os elogios do marido eram verdadeiros. A carta se resume a uma sucessão de exigências, nas quais Ovídio apela até mesmo à lei matrimonial. A cobrança é evidente:
Eu não sou indigno e, se quiseres confessar a verdade, deves a meus méritos algum agradecimento que, certamente, me devolves com grande usura.
E o poeta deixa claro qual sentimento o impulsiona. Em determinado trecho, percebe-se que ele deveria ter recebido notícias pouco agradáveis sobre o comportamento da esposa:
Os ditos indiscretos não podem prejudicar-te, embora o desejem.
Ao receber a carta, Fábia deve ter feito o oposto do que seu marido cobrava. Seria a reação mais previsível diante de um texto no qual o desespero se transforma em presunção, em arrogância. Ao abusar dos recursos que a retórica oferece, Ovídio também exorbita da paciência de seus leitores.
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Junho 26, 2009
Irresistível
Sofri um acesso de incontrolável identificação ao ver a capa de Veja. A revista fala exatamente o que eu gostaria de repetir, em alto e bom som, à politicalha que comanda este país: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. Foi como se o meu rosto estivesse ali, compondo a capa, encimado pelo grito de revolta que, certamente, percute na consciência de todos os que têm um mínimo de capacidade crítica: “Basta de impunidade!”.
Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.
Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.
Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.
Depois, na longa reportagem “À sombra da Constituição”, o texto enxuto, claro, preciso, é acompanhado por dezenas de declarações que, em qualquer democracia civilizada, obrigariam o presidente da República a, no mínimo, ficar de joelhos e proferir um mea-culpa. O que, é evidente, não acontecerá aqui.
Deliciosamente mordaz, a revista também me presenteou com a legenda da página 65, na qual expõe a farsa do esquerdismo e denuncia a parcialidade e a demagogia daqueles que, por muito menos, já tentaram paralisar o país: “RADICAIS CALADOS – mais de 100 000 militantes de movimentos sociais pedem a saída de FHC em 1997. Hoje, MST, CUT e UNE funcionam como braço auxiliar do governo e só promovem manifestações de apoio a Lula”.
Veja ainda me regalou com a radiografia imparcial do movimentículo paredista da USP, a resenha de Nelson Ascher sobre Hammerstein ou a Obstinação, de Hans Magnus Enzensberger, e o artigo “Empregos secretos”, de J. R. Guzzo. Só faltou, para que a leitura fosse absolutamente perfeita, um daqueles bons ensaios do Reinaldo Azevedo.
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Junho 24, 2009
Entre os livros
Descobri o mundo no Gabinete de Leitura Ruy Barbosa. Na primeira visita, à tarde, sem saber como me comportar naquele ambiente sóbrio, silencioso, passei poucos minutos no salão de leitura. Dias depois, por algum motivo – eu teria 13, 14 anos? –, visitei o local à noite: fervilhava. Através de uma portinhola sob a escadaria, servia-se chá e café; os grupos, nas mesas, folheavam jornais e discutiam política; numa saleta ao lado, jogava-se xadrez em meio à neblina dos cigarros. E o melhor: dona Odete, a bibliotecária, permitia que alguns consulentes ultrapassassem o balcão e visitassem o acervo circulante. Logo eu percorria, deslumbrado, milhares de livros.
Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.
No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.
Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.
Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.
Eram os tempos da ditadura militar, e as obras de Marx e Lênin, retiradas do acervo, permaneciam fechadas em um armário, na sala da diretoria. Os emedebistas e a esquerda silenciada murmuravam pelos cantos contra o diretor da casa, o advogado Celso Zuchetti, um anticomunista brilhante e mordaz, de quem acabei por me tornar amigo.
No andar superior ficava o salão de estudos e o acervo de pesquisa, comandados pelo velho Daniel, homem simples, boníssimo, que orientava os mais jovens nos estudos. Sentado em sua mesinha, ele batia a sineta quando os sussurros das mesas subiam de tom, fazendo com que voltássemos a ruminar os livros. Numa das extremidades da sala, o retrato a óleo de Rui Barbosa nos observava, altivo como a República Velha.
Passaram-se semanas até que Daniel me franqueasse os livros guardados nas estantes da diretoria: uma Brasiliana completa, dezenas de raridades, luxuosas encadernações de clássicos portugueses – e os comunistas, que ao mero toque queimavam a ponta dos dedos.
Ultrapassei os difíceis anos da adolescência naqueles salões. Protegido pelos livros, ouvindo os debates dos mais velhos, acordando para um novo autor a cada noite, descobri que a idéia de fraternidade nasceu em uma biblioteca. De volta para casa, ao cruzar a rua do Rosário rumo ao sobradinho na Onze de Junho, eu era a minha última versão, sempre melhorada.
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