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janeiro 30, 2015

Problemas da literatura atual

A perplexidade do homem da maioria em relação ao homem criador está perdida
Penso em muitas coisas quando leio esses contos estendidos que hoje recebem o nome de “romance” — impressos com letra grande e num papel de alta gramatura, do contrário caberiam em 10 ou 15 páginas.

Faz alguns meses, fui à livraria, peguei uma pilha de “romancistas” atuais, sentei numa poltrona e comecei a ler.

A tarde passou. Fui interrompido duas ou três vezes. Recusei um café. E quando fechei o último livro percebi que quase todos eram do mesmo autor.

Não eram — mas tratavam dos mesmos problemas, com as mesmas lamúrias, a mesma conversinha fiada em primeira pessoa, como se o autor estivesse abrindo seu coração para o psicanalista ou, pior, para um dono de botequim.


Uma angústia artificial perpassa as histórias.

No fundo, todos reclamam que não são felizes, como se a felicidade fosse o estado natural do ser humano, do qual eles, pobres coitados, estão excluídos por algum erro do Universo.

Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero, sofrimento. Não sabem e não imaginam.

Ou, pior, acham que desespero é ter de decidir entre o jogo de futebol na tevê, uma transa por obrigação e andar de bicicleta nas ciclovias do Haddad.

Tem-se a impressão de que eles decoraram Sartre. Ou Clarice Lispector — mas a voz que narra é a de uma Clarice diluída, desfibrada. Talvez seja o perispírito da Clarice.

Há outras opções de estilo: pode ser um Guimarães Rosa canhestro — ou a corruptela de alguma tradução do Ulysses.

As frases raramente ultrapassam 18 palavras. E são truncadas, como se o escritor sofresse de algum problema respiratório.

A superficialidade desses livrinhos faz-me lembrar do que Thomas Mann falava sobre o “tempo do homem criativo”.

Mann dizia que esse tempo “é de uma estrutura, de uma densidade e de uma produtividade diferentes daquelas frouxamente tecidas e passageiras da maioria”. E que o “homem da maioria”, admirado da “extensão de realizações que se podem acomodar neste espaço de tempo”, pergunta ao homem criativo: “Quando vais fazer tudo isso?”.

Essa perplexidade do homem comum em relação ao homem criador está perdida. Hoje, tudo é frouxo e passageiro. Hoje, o homem da maioria olha o “romance” de 15 páginas e pensa: “Isto até eu faço!”.

E ele tem razão. 

dezembro 17, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Freedom e Anti-Social


A tecnologia pode ajudar o escritor a ter disciplina
No mundo conectado, em que a Web e as redes sociais consomem nossa atenção, como o escritor pode manter sua disciplina de trabalho, isolar-se e, inclusive, ampliar sua produtividade?

Se, como afirmei ontem, Evernote é essencial para reunir um grande e variado volume de informações, o escritor também precisa de recursos que o ajudem a manter o foco em seu trabalho e nas metas que ele se autoimpõe.

Há dois softwares que uso sempre. Eles fazem com que eu me concentre no que realmente importa: escrever. Contribuem para minha autodisciplina.

O mais radical é Freedom. Trata-se de um software que bloqueia todas as distrações da Internet: você estabelece o tempo que deseja ficar desconectado e ele interrompe de forma drástica a sua conexão — e você só poderá se reconectar caso reinicie o computador.

Vários escritores contemporâneos lutam contra as distrações oferecidas pela Web. A própria romancista Zadie Smith, por exemplo, já se pronunciou publicamente sobre o tema.

Quando sento para produzir minha cota diária de textos, meu primeiro gesto é ligar Freedom — o segundo é desligar o celular. São horas sagradas em que me obrigo, alegremente, a escrever de verdade.

Mas o inventor de Freedom, Fred Stutzman, também criou o programa Anti-Social, uma versão menos radical de Freedom.

Anti-Social mantém sua conexão — para que você possa, por exemplo, pesquisar na Web —, mas o impede de entrar nas redes sociais ou em qualquer site que desvie sua atenção.

Sem autodomínio e disciplina nenhum escritor se torna produtivo.

A tecnologia nos oferece ferramentas que destroem nossas desculpas esfarrapadas — e nos obrigam a escrever com produtividade e concentração crescentes.

Como dizia Hemingway, “disciplina se conquista”.

dezembro 16, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Evernote

Tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo
Estou cada vez mais distante da caneta, do lápis e do papel, ainda que mantenha um Moleskine sempre à mão.

Não sou saudosista, não me prendo a velhos hábitos — e acho curioso quem critica ou até mesmo recusa os benefícios que a tecnologia pode incorporar à vida do escritor.

Outro dia, sorri ao ler que o uso da caneta e do papel cria “um tipo especial de aproximação com o texto”, pois “desenhar as letras desperta a criatividade do escritor”.

Talvez exista algum fundamento científico em tais teorias, mas minha experiência diz o contrário: tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo, aumenta nossa produtividade.

Foi, aliás, o que senti há muitos anos, quando vi o cursor do Word pulsando na tela em branco e descobri que a máquina de escrever, com fitas imundas e corretores ineficazes, estava morta.

Como é possível viver hoje, por exemplo, sem Evernote?

O resultado de minhas pesquisas, idéias gerais, artigos que encontro na Web, insights que ocorrem no meio da rua, fotos curiosas ou inspiradoras, bibliografias às quais não paro de acrescentar novas descobertas, imagens ou textos para compartilhar nas redes sociais, PDFs que não tenho tempo de ler agora ou, com certeza, utilizarei no futuro, comentários escritos em meu Kindle… tudo, tudo está organizado em notas e cadernos no Evernote.

Neste último sábado, recomendei Evernote a meus alunos da Oficina de Escrita Criativa. Recomendo inclusive a escritores peripatéticos: enquanto você caminha de um lado a outro da biblioteca ou do escritório, pode ditar seu livro ou artigo, pois Evernote faz gravações de áudio perfeitas.

Concentrar esse volume de informações num programa auto-explicativo, de interface agradável — para PC e Mac — e que funciona de forma sincrônica no desktop, no browser e no celular é o paraíso de quem trabalha com textos.

O velho bloco de anotações continua sobre a escrivaninha. Mas, acreditem, está meio empoeirado.

novembro 25, 2014

O desejo do escritor é desvendar a existência

Como o fotógrafo, o escritor deseja fazer sua própria interpretação da vida
O fotógrafo Henri Cartier-Bresson dizia que, na verdade, não era a foto em si que o interessava. O que ele queria era “capturar uma fração de segundo do real”.

O desejo do escritor é semelhante. Ele não está — ou não deveria estar — preocupado com o livro em si, com a obra exposta numa reluzente livraria. O que o escritor almeja é desvendar um ou mais aspectos da existência, fazer sua própria interpretação da vida.

Aliás, o trabalho do escritor é semelhante ao do fotógrafo: o diafragma da câmera não escolhe sozinho a cena a ser capturada — e, para cada imagem escolhida, dezenas são desprezadas.

Se fosse de outra maneira, se nos bastasse o mero retrato da realidade, não precisaríamos da literatura e de outras formas de arte. Bastaria colocar câmeras em cada esquina, em cada casa, e permitir que qualquer um assistisse o que quisesse, quando quisesse.

A inutilidade de algo assim é tão evidente, que até mesmo um programa vulgar como Big Brother Brasil está sujeito a uma série de manipulações e provas, e supostos interrogatórios, traições e acordos — enfim, um complexo sistema ficcional, ainda que ordinário e grosseiro — para se tornar atraente.

Voltando à ficção literária, se quiséssemos listar os diferentes aspectos da vida humana, bastaria reler as principais narrativas. Um conto breve como “O colar”, de Maupassant, fala mais sobre fuga da realidade, orgulho e amor do que dezenas de tratados de psicologia.

Não foi a obra enquanto produto final que despertou o interesse de Maupassant, mas a possibilidade de capturar um sentimento, um comportamento, determinada situação, de uma forma que, ele intuía, só Maupassant poderia apreender.

novembro 12, 2014

Escritores e disciplina

No último final de semana, lembrei-me, por várias razões, de Ernest Hemingway. Muitos não sabem que ele escrevia de pé, apoiado a uma espécie de atril ou qualquer outro suporte em que, primeiro, pudesse usar lápis e papel — e depois, quando o texto começasse a fluir com arrebatamento, passar à máquina de escrever. Começava no nascer do sol e prosseguia, sem parar, até algum horário em torno do meio-dia: “Escrevo até chegar a um momento em que, ainda não tendo perdido o gás, posso antecipar o que vem em seguida”. Anotava o número diário de palavras, fazia hora extra quando, por algum motivo, não poderia escrever no dia seguinte — e, manhã após manhã, ao reiniciar o trabalho, reescrevia o que produzira no dia anterior. Questionado sobre seu método, ele não deixa dúvidas: “Disciplina se conquista”.

Esse comportamento enérgico revela muito da personalidade de Hemingway — e também serve como estímulo aos escritores que estão sempre inventando uma desculpa para a própria indolência. A eles, Hemingway dedicou sua ironia: “O fracasso e a covardia bem disfarçada são mais humanos e mais amados”.

novembro 10, 2014

Escritores e gramática

Sempre insisto com meus alunos sobre a questão da gramática. Muitos acreditam que se tornarão ótimos escritores apenas estudando Napoleão Mendes de Almeida. “Mas o que você quer ser”, eu pergunto, “um escritor ou um gramático?”. Um escritor não precisa conhecer a definição de verbo defectivo — mas precisa ao menos intuir, graças a seu convívio diário com a língua, que certos verbos não apresentam todas as formas de tempo, de pessoa, etc. Ele sabe que seu personagem, referindo-se à falência de sua empresa, só pode dizer “eu fali”, no passado, pois, no presente, esse verbo existe apenas quando usamos “nós” ou “vós”. Esta é uma forma de conhecer como os verbos defectivos funcionam. E uma dúvida facilmente resolvível em qualquer dicionário da Web, pois todos oferecem a conjugação dos verbos. O mesmo acontece quando se trata da pontuação. O jovem escritor pode decorar tratados sobre o uso da vírgula — mas é a leitura atenta dos bons escritores que o ensinará a pontuar. Visitar os capítulos da gramática, principalmente aqueles — a maioria — que não foram explicados na escola, é meritório e certamente ajuda. Mas o bom escritor precisa ir muito além de um conjunto de prescrições e regras.

novembro 07, 2014

Descobrir a voz interior

A maior dificuldade que um escritor enfrenta é descobrir sua própria voz. Uma voz que ele modulará a cada novo narrador, a cada nova trama. Estamos sempre ouvindo outras vozes — ou pensando sobre como nossa voz deveria se expressar, com que inflexões, obedecendo a quais nuances. É preciso silenciar a tagarelice da própria mente e do mundo exterior. Sozinho, em silêncio e rodeado pelo silêncio, olhando a página ou a tela em branco, o escritor deve enfrentar a primeira tarefa: deixar sua voz vir à tona. Deixar ela emergir das regiões obscuras que, quase sempre, esquecemos de visitar. Diferente do que imaginamos, contudo, não se trata de uma descida ao Inferno. Não. Passo a passo, descobrir a voz interior é uma subida rumo a pontos mais altos, onde o horizonte se amplia e a luz revela o que não veríamos se estivéssemos ao rés do chão.

novembro 04, 2014

Louis Lavelle e a importância da escrita

“A cada um de nós a verdade aparece por clarões: mas nosso espírito recai quase imediatamente em seu estado natural de inércia e obscuridade. Sentimo-nos, então, como que abandonados: e o esforço doloroso que fazemos para reencontrar a luz perdida revela-nos tão somente a nossa impotência. No entanto, se conseguimos captar essa luz pela escrita, tornamo-nos capazes de reanimá-la quando ela parecia extinta. Existem momentos privilegiados em que a verdade passa diante de nós e nos roça, para logo escapar; a escrita nos permite fazê-la renascer indefinidamente.”

novembro 03, 2014

O melhor caderno de anotações

Um dos instrumentos de escrita imprescindíveis, mesmo quando estamos cada vez mais acostumados a escrever em smartphones e tablets, continua sendo o velho caderno de anotações. Demorei anos até encontrar um que me agradasse completamente, o que aconteceu em 2005, quando ganhei de minha mulher o meu primeiro moleskine.

Não se trata de um caderno qualquer; seus tamanhos e modelos adéquam-se perfeitamente a diferentes atividades, do desenho à escrita, da música ao diário de viagem. São confeccionados de maneira a reunir praticidade, conforto e uma beleza sóbria, garantida, nos modelos clássicos, pela capa preta que envolve o papel livre de acidez.

Não bastassem essas características — além de outros detalhes, como o elástico que fecha o volume e o envelope colado na parte interna da contracapa —, o moleskine traz a tradição de ter sido usado, dentre outros, por Hemingway, Van Gogh e Breton.

O escritor Bruce Chatwin, mais conhecido por seus relatos de viagem, conta um pouco da sua experiência com esses cadernos em O Rastro dos Cantos: “Cada vez que ia a Paris, comprava uma nova leva numa papeterie da rue de l’Ancienne Comédie. As páginas eram quadriculadas, e a capa e a contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha numerado em séries. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das preocupações: perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.

Mas a verdadeira catástrofe ainda estava por vir: “Alguns meses antes de minha partida para a Austrália, a proprietária de uma papeterie disse que o vrai moleskine estava cada vez mais difícil de achar. Havia um fornecedor: uma pequena empresa familiar em Tours. Demoravam muito a responder cartas. ‘Gostaria de encomendar cem’, eu disse à madame. ‘Cem vão durar uma vida.’ Ela prometeu que telefonaria para Tours sem delonga, naquela tarde. No almoço, tive uma experiência temperante. O maître da Brasserie Lipp não mais me reconhecia: Non, monsieur, il n’y a pas de place. Às cinco, honrei meu compromisso com madame. O fabricante havia morrido. Seus herdeiros tinham vendido o negócio. Ela tirou os óculos e, quase como se estivesse de luto, disse: Le vrai moleskine n’est plus.”

Falecido em 1989, Chatwin não pôde experimentar a alegria de ver o retorno do vrai moleskine, desta vez pelas mãos de uma empresa italiana, a Modo & Modo, que reiniciou a produção em 1998.