fevereiro 03, 2010

Tardança

O caminhante noturno segue sua jornada descontínua e sem rumo. Ele volta, numa de suas viagens recorrentes, à casa da avó paterna. O velho sobrado está às escuras – e, passo a passo, enquanto se acostuma às sombras, ele descobre mudanças na arquitetura. A escada que leva ao sótão alargou-se, está mais firme. Apoiado ao corrimão, ele sobe, mas desta vez, à sua esquerda, onde no passado havia apenas a parede, agora se abre um vão gigantesco, profundo, no qual ele vê, lá embaixo, a sacristia de uma das igrejas que frequentou na juventude. Certo homem carrega os paramentos engomados, dos quais sobressai uma estola verde, e sorri, satisfeito por alguma razão, sem perceber o observador que, acima dele, acompanha cada um dos seus gestos. A luz que brota do vão ilumina os degraus; o viajante observa, sob seus pés, o detalhe das madeiras novas, infelizmente não envernizadas, e continua a subir. Fora do sonho, seguindo o viajante através do descampado de sua mente, o homem que sonha se pergunta sobre o sentido de o personagem se deparar, naquele trecho da escada, com a sacristia; mas, impedido de agir, de se manifestar, ele pode apenas inquietar-se, tamanha a sua fragilidade. Voltando a subir a escada, o viajante chega à parte do casarão que deveria estar exatamente abaixo de onde ele se encontra, mas isso não o incomoda. A esposa e a mãe estão ali, arrumando os armários, desfazendo malas e caixas, mas ele – e também o homem que sonha – é dominado por um único pensamento: quando sua avó chegará? E o que ela pensará de tudo aquilo? De todas aquelas mudanças? Aprovará que ele volte a morar ali? Com tais pensamentos, ele senta à beirada da cama de casal e, lentamente, vai sendo tomado pela angústia, como se previsse a chegada iminente da avó, que – e é isso o que realmente o incomoda – sabe impossível, ainda que desejável, pois ela está morta. Então, deita-se na cama e dorme, entristecido. O homem que sonha olha uma última vez as mulheres atarefadas e desperta. Cabe a ele toda angústia, agora.

2 comentários:

Pedrita disse...

amei. beijos, pedrita

Manuela Marques disse...

Entrei aqui “por acaso”, coisa que já não acredito que exista, enfim. Gostei bastante dos teus escritos. Alguns me parecem contos resumidos, apropriados ao espaço de um blog. Em suma me surpreendi com o que li, e devo confessar que tal feito é raro, especialmente num mundo com tantos “iguais”. Se tiver algum tempo, te convido a conhecer meu canto(s).
Abraço.