dezembro 31, 2009

Tem de haver mais

Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

Nada de mau se perdeu,
Nada de bom foi em vão,
Uma luz clara ilumina tudo,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido,
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

Arseny Alexandrovich Tarkovsky

A todos – amigos, leitores, clientes – um feliz 2010, repleto de boas leituras, tranqüilidade e harmonia.

***

Observação (em 3 de janeiro de 2010):

Lauro Machado Coelho, em seu Poesia soviética (Editora Algol), apresenta outra tradução desse poema:

Agora o verão passou.
Ele podia nunca ter acontecido.
Está quente ao sol,
Mas isso não é bastante.

Tudo isso poderia ter ocorrido
Como um trevo de cinco pontas
Flutuando em minha mão,
Mas isso não é o bastante.

Nem o mal nem o bem
Desvaneceram-se em vão,
Tudo ardeu e houve luz,
Mas isso não é o bastante.

A vida tem sido como um escudo,
E tem oferecido proteção.
Tenho tido bastante sorte,
Mas isso não é o bastante.

As folhas não se queimaram,
Os ramos não se quebraram,
Claro como vidro o dia está,
Mas isso não é o bastante.

2 comentários:

Roberto disse...

A primeira tradução é sua? Não conheço russo, mas flui belíssima em português. Acompanho seus textos no Rascunho, meus parabéns. O texto "Narratofobia (ensaio sobre a paúra de narrar)" é essencial, e vai fundo na psicologia dos escrevinhadores brasileiros atuais. Abraços.

Rodrigo Gurgel disse...

Prezado Roberto, obrigado por suas palavras e por me acompanhar no Rascunho. Não sei quem fez a primeira tradução. Tenho-a há vários anos, numa fotocópia que um amigo me deu. E é belíssima, sem dúvida. Forte abraço!