maio 31, 2013

Antonio Di Benedetto e o silêncio impossível

O processo impregnado de complexidade, ao qual se sobrepõem idéias de avanço ou expansão intensamente ideologizadas, e que convencionamos chamar pelo nome de progresso, tem, dentre outros, um atributo característico: tornar a organização da vida cada vez mais tortuosa, ao invés de simplificá-la. Progredir é, em certos casos, um sinônimo adequado de complicar. Os aparelhos, os sinais, as linguagens e os sons gradativamente incorporados à vida consomem nossa atenção, nossos gestos, nossa capacidade de entender. Além disso, do manual de instruções de um aparelho eletrônico à numeração das linhas de ônibus, passando pelo desenho das vias urbanas, pelos impostos que escorcham e pelas regras que somos obrigados a obedecer – inclusive nos atos mais simples, como o de andarmos, a pé ou de carro –, há uma evidente arbitrariedade que se insinua no cotidiano, às vezes melíflua, às vezes violenta.

Não há espaço melhor para averiguarmos as afirmações acima do que os principais centros urbanos. Na opinião do falecido Milton Santos, um marxista romântico,

a cidade é o lugar em que o Mundo se move mais; e os homens também. A co-presença ensina aos homens a diferença. Por isso, a cidade é o lugar da educação e da reeducação. Quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado. (1) 

Essa linha de pensamento, contudo, não é seguida por nós, os realistas, entre os quais se inclui o narrador de O silencieiro, (2) escrito pelo argentino Antonio Di Benedetto. Para nós, o progresso transformou as cidades em confusas aglomerações, nas quais a opressão e o abuso vicejam.  

Revolta e impotência

Mais do que os comportamentos expressos pelo sufixo eiro, o narrador-personagem do romance de Di Benedetto anseia desesperadamente pelo silêncio. E não se trata de uma aspiração, mas, sim, de uma febre cuja intensidade aumenta na exata medida em que o nível dos ruídos cresce.

Os barulhos, elementos inextricáveis da cidade, intrometem-se no cotidiano desse homem, ganhando, pouco a pouco, existência própria. Deixam de ser meras conseqüências do aprimoramento tecnológico e se transformam em entidades possuidoras de uma teimosia que não só perturba a vida, mas a altera profundamente. Recolhido ao quarto, o narrador ouve, por exemplo, os sons aflitivos da oficina mecânica instalada no imóvel vizinho. Eles invadem o aposento; e a percepção do ruído é tão intensa, que não se trata de apenas ouvi-lo, mas de vivenciá-lo tal qual uma pena, um sofrimento: “Não o vejo, simplesmente o padeço”. Em outro trecho, ele dirá que o ruído chega ao “dorso” do dormitório, criando uma metáfora – repetida no transcorrer da obra – que não deixa dúvidas sobre a força do barulho, capaz de atingir o quarto como se este fosse parte do corpo do protagonista.  

Os ruídos indesejados arrombam a privacidade, obrigando os personagens a participarem do que não lhes interessa: um churrasco para comemorar a inauguração da oficina; os bailes no salão aberto do outro lado da rua; o programa de rádio que o proprietário da venda próxima escuta no último volume.

Página a página, os rumores circundam e acossam o narrador, obrigando-o a ser o que não deseja, a agir em desacordo com sua índole. Violentado, ele busca refúgio na lei, mas o estudo do Código Civil mostra-lhe as dubiedades do texto: uma defesa do cidadão, mas também uma perigosa teia, na qual o reclamante pode se tornar réu.   

Não há segurança, portanto. E a própria espera do barulho, sua antevisão, a certeza de que ele se repetirá, despedaça o narrador. O barulho, então, migra da oficina para o âmago do personagem, transformando-o num hospedeiro revoltado, mas impotente:

Volto ao lar. No caminho, a cidade que desce pela minha rua apaga suas vitrines, baixa persianas: desmantela seus andaimes de trabalho. Até amanhã.

Mas resta um lugar onde a atividade prossegue: no dorso da minha casa.

A luz cinge-se ao canto onde está o torno, esse torno que pulsa conseqüente, como descubro que começa a pulsar, na minha cabeça, uma veia que bombeia algo mais sacrificada que as outras, e dói um pouco.

Lentamente, os ruídos – cuja “sina é avançar” – o levam a pequenas distrações, pequenos erros, falhas sem importância. E à medida que o barulho deixa de ser exceção para se tornar a norma irrevogável, todas as soluções possíveis fracassam e as polaridades do real se alternam. A partir desse ponto, o drama envereda rumo à loucura, cumprindo as etapas do estresse, da doença e, finalmente, do delírio. Mas seria ingênuo tratar esse narrador-personagem sem nome como um caso patológico. Na verdade, são os ruídos que lhe subtraem essência e existência, até levá-lo à despersonalização extrema, ao desejo da morte como promessa de um silêncio absoluto: “Penso no Além e imagino um silêncio incorruptível”.

Gênese e estilo

Enquanto o personagem esquadrinha a cidade em sua busca por silêncio, também sonha escrever um livro, cujo tema central seria o desamparo. Mas é exatamente essa a obra que se faz enquanto ele investiga a origem dos barulhos, livro no qual ele se encontra, cada vez mais privado do que lhe é indispensável, escrito, contudo, por outra pessoa, alguém chamado Antonio Di Benedetto. O autor, inclusive, revela – em entrevista concedida a Günter W. Lorenz (3) – a gênese do romance, num relato que, guardadas as devidas proporções, assemelha-se à trajetória de seu personagem:

[...] Digo que em El silenciero discuto o ruído físico e metafísico. Os dois me perturbam, como pessoa comum e como romancista, desde certa época penosa de minha vida. Tinha o tema, mas não conseguia nem tramar a narração nem ver e definir os personagens. Ainda que o protagonista fosse eu mesmo! Quando tive acesso à Europa, convenci-me de que em Paris – cidade que supunha mais ruidosa e atormentadora –, com mais seres atormentados pelas duas classes de ruídos, me envolveriam os elementos necessários para os argumentos. Puro engano. Não vi nem soube observar, ou melhor, não ouvi nem soube escutar, nem em Paris, nem em Bordéus, nem em Amsterdã, nem em Londres. Regressei à Argentina. Fiz-me todo ouvidos. Bem, é um exagero, pois na verdade não precisava me empenhar, os ruídos bloqueavam-me novamente, mortificantes e destruidores. Observei, estudei, o problema se encarnou em personagens que começaram a dar forma ao romance. Nasceu El silenciero: psicologias, comportamentos, neuroses, metafísica de homens de cidade, talvez de qualquer cidade moderna, industrial ou pré-industrial; todavia, captadas, aprendidas, aprofundadas em meu milieu.

Di Benedetto constrói sua história por meio de um estilo tenso, de frases enxutas, objetivas: uma prosa antibarroca, que dá vida à voz cortante do narrador desconfiado, prestes a explodir, andando pelas ruas como se os barulhos o tocaiassem a cada esquina. Narrada em primeira pessoa, a saga desesperante apresenta um homem indefeso, ciente de seus direitos, mas constatando a cada passo que o Estado, as pessoas e a tecnologia trabalham contra ele. Os verbos ressaltam dos períodos, formando um cortejo de sons ruidosos – bater, pregar, rebitar, fender, limar, acelerar, acionar, acometer, esfregar, morder, triturar – que acabam por engolfar o leitor.

De fato, a precisão das palavras torna flagrante a materialidade dos ruídos e os diferentes estados de ânimo que o narrador observa ou experimenta. Por exemplo, ao se referir à mãe, com quem vive, ele afirma: “Andava crivada a buzinaços”. E quando o delírio sobrevém, a confusão mental é evidente: “Na esquina bebe – ou esteve bebendo – uma grossa serpente que se arrasta pela rua. O bombeiro que cuida dela nesta ponta me tira a apreensão: não se trata do meu lar”.

A vida imposta

No período de tempo em que finalizo esta análise, o fragor das ruas invade mais uma vez o apartamento. Uma serra circular guincha com estridência em algum ponto; da quadra da escola, situada no quarteirão em frente, sobe insistente microfonia e a voz melancólica do funcionário que testa o amplificador dezenas de vezes; ônibus e carros aceleram, freiam, buzinam; um operário arranca a marteladas a estrutura de ferro que, presa à marquise do prédio, sustentava um letreiro. É sábado, início da manhã, o inferno da cidade apenas começa – e não sou o protagonista de O silencieiro. Ou talvez seja, talvez tenha sido sempre, sem saber.  

A cidade realmente conspira contra o homem. As derivações da tecnologia fugiram, há muito tempo, do nosso controle. Entre a elaboração da ciência e os resultados que ela provoca – em termos de técnicas, instrumentos, modos de vida e variações de comportamento –, existe um abismo de irracionalidade, diante do qual o narrador de O silencieiro se diz um mártir, “mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”. Como resposta, ouve de um político, ex-jornalista, a acusação de ser “inimigo do progresso”, ou seja, nada mais que o velho recurso dos cínicos, o lugar-comum que serve para manter as coisas exatamente onde estão.

Assim, vivendo sob a arbitrariedade, o narrador-personagem descobre, com amargura, que a lógica e a ética não servem à vida real. Os fatos se colocam apenas; são o que são. Os ruídos produzem loucos que, por sua vez, buscam novos ruídos – ou uma solução excêntrica, semelhante à experimentada pelo silencieiro, mas de conseqüências injustas e implacáveis.




(1) Em “Metrópole: a força dos fracos é seu tempo lento” (Técnica – Espaço – Tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, Editora Hucitec, 2ª edição, SP, 1996).
(2) Editora Globo, SP, 2006.
(3) Lorenz, Günter W. Diálogo com a América Latina – panorama de uma literatura do futuro, E.P.U. – Editora Pedagógica e Universitária Ltda., SP, 1973.

maio 29, 2013

Malditos bons livros

Na primavera de 1934, em plena Grande Depressão, Arnold Samuelson, um jovem que sonhava se tornar escritor, viajou mais de três mil quilômetros para pedir conselhos a Ernest Hemingway. Depois dos primeiros minutos de conversa, Hemingway lhe perguntou de que autores gostava. Samuelson citou Robert Louis Stevenson e Henry David Thoreau. Ao que o escritor respondeu: “Você nunca leu Guerra e Paz?”. Diante da negativa do jovem, Hemingway completou: “É um maldito bom livro. Você deveria ler. Vamos até o meu escritório e vou fazer uma lista do que você deve ler”. O gesto de generosidade de Hemingway foi preservado:

maio 25, 2013

Alexis de Tocqueville, literatura e democracia

“By and large the literature of a democracy will never exhibit the order, regularity, skill, and art characteristic of aristocratic literature; formal qualities will be neglected or actually despised. The style will often be strange, incorrect, overburdened, and loose, and almost always strong and bold. Writers will be more anxious to work quickly than to perfect details. Short works will be commoner than long books, wit than erudition, imagination than depth. There will be a rude and untutored vigor of thought with great variety and singular fecundity. Authors will strive to astonish more than to please, and to stir passions rather than to charm taste.” (em Democracy in America)

Prefiro não imaginar o que Alexis de Tocqueville diria se conhecesse a atual literatura brasileira.

maio 24, 2013

Graça e natureza

Infelizmente esquecido ou desconhecido no Brasil, Charles Moeller dizia: “Um só homem é todo um mundo: o mundo da graça e da natureza que deseja viver e resplandecer nele”. Na verdade, seu pensamento ecoava as palavras de Santo Tomás de Aquino: “A graça não destrói a natureza, antes a aperfeiçoa”.

maio 21, 2013

Em defesa da urgente “centralização dos biltres”

Camilo Castelo Branco explica, neste trecho de A Queda dum Anjo, como às vezes cabe ao escritor garantir que os políticos corruptos não sejam esquecidos. De fato, muitos não merecem apenas “escorregar” da vida ao inferno; o mais justo e correto seria que, antes, a execração pública os cobrisse de maldições. Mas isso só acontece em países onde cuida-se que haja “a centralização dos biltres”:   
 
Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escrita com um despejo não vulgar em bacharéis d’aqueles sítios. Aquele homem, se tivesse nascido em terras onde há a centralização dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n’aquelas serras, onde não apegou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novelas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração pública o cubra de maldições.

maio 18, 2013

Cem anos de um autêntico reacionário

Hoje comemoramos o centenário do magnífico Nicolás Gómez Dávila. Ele fala por si mesmo, com a força dos seus escólios, aos quais adicionei títulos inocentes:

A alguns funestos críticos literários

– A paixão igualitária é uma perversão do sentido crítico: atrofia a capacidade de distinguir.

Aos pretensos filósofos

– Uma gramática insuficiente prepara para uma filosofia confusa.

À maioria dos escritores

– Para seduzir não é necessário que o escritor tenha algo a dizer, mas que seja alguém.

Aos que desprezam os clássicos

– Toda literatura é contemporânea para o leitor que sabe ler.

Aos que vomitam palavras

– Não devemos escrever como falamos, mas como deveríamos falar.

Aos que acreditam pensar

– Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.

Aos que não gostam de mim
 
– O reacionário escapa da escravidão da história porque persegue na selva humana as pegadas dos passos divinos.

maio 15, 2013

Contradições e a arte de escrever em Theodor Adorno


Em alguns dos fragmentos que compõem Minima Moralia, Theodor Adorno fala sobre a escrita. No seu estilo muitas vezes seco, sempre a um passo de se tornar hermético, ele parece acreditar no que expõe: “Faz parte da técnica de escrever ser capaz de renunciar até mesmo a pensamentos fecundos, se a construção o exigir. Sua plenitude e sua força beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos. Como à mesa, não se deve comer até os últimos bocados, nem beber até o fim. Do contrário, nós nos tornamos suspeitos de pobreza”.

É o Adorno burguês quem fala nesse trecho do fragmento 51 – burguês no sentido flaubertiano do termo, aquele que realmente acredita ter abertura de espírito, mas só consegue destilar preconceito. Na verdade, exagera apenas para justificar seu próprio estilo, como, aliás, já fizera pouco antes, quando argumenta que o escritor deve “verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez”.

Ora, angústias desse tipo servem à criação de textos fracionários. Há uma divagação – ou, melhor, uma circum-navegação – que não é de todo ruim: recorrer, por exemplo, a outras referências, que aparentemente se distanciam do tema central, apenas para iluminá-lo melhor.

Todo texto exige, em alguma medida, certa retórica. O próprio Adorno não pôde evitá-la. Nesse mesmo fragmento, gasta cinco linhas para compor uma bela metáfora, cuja função é, inclusive, demonstrar que ele sabe escrever direito: “Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas. Os materiais afluem facilmente para eles”.

As duas frases finais não seriam desnecessárias? Elas repetem, com outras palavras, o que está sintetizado nas duas iniciais – mas Adorno não teme usá-las; e, vaidoso, “come até o último bocado, bebe até o fim”. Mas isso é Adorno. Como todo marxista, contraditório.

Na verdade, não se deve “renunciar aos pensamentos fecundos”. Se eles podem, de fato, conectar-se ao tema central, por que não readequar o todo, por que não reescrever e reescrever até atingir o que efetivamente pretendemos?

Mas, sejamos justos, Adorno também acerta. “Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em cem alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível de texto” – conselho corretíssimo. Da mesma forma que é acertada sua observação sobre os lugares-comuns, muitas vezes “associações de palavras” nas quais “murmura o fluxo indolente de uma linguagem insípida”.

Entretanto, é pena que – ele chega a citar Karl Kraus – sua análise do clichê seja superficial. Mas não poderia ser de outro modo. Adorno não tem como evitar a vagueza, não pode retomar as críticas severas que Kraus fazia à linguagem submetida à ideologia, pois isso significaria ter de atacá-las, a fim de defender o marxismo...

Aliás, é o militante esquerdista quem afirma, no mesmo fragmento: “O sonho de uma existência sem ignomínia, ao qual a paixão pela linguagem se apega quando já não se pode mais representá-lo enquanto conteúdo, deve ser estrangulado com pérfida alegria”. Aí está o pensamento revolucionário, em permanente luta com a realidade, sempre pronto a substituí-la por seus próprios sonhos. O marxista precisa acreditar que a existência só é possível com ignomínia – e deve recusar a linguagem que pretenda reafirmar a dignidade e a glória da vida. Se não o fizer, como justificará a absoluta necessidade da utopia? Se não o fizer, não poderá justificar o que mais defende: que todos os meios são aceitáveis para construir o Paraíso aqui e agora.

Para Adorno, “o escritor não pode aceitar a distinção entre a expressão bela e a expressão adequada ao assunto. [...] Se consegue dizer inteiramente o que pretende dizer, então é belo o que diz”. Mas, logo depois, o militante tenta derrotar o esteticista: “Quem todavia, sob o pretexto de servir com abnegação a uma causa, negligencia a pureza de expressão, está por isso mesmo traindo a própria causa”. O contraditório marxista não sabe o que fazer: primeiro, a beleza é uma categoria que só pode ser medida pela vontade do próprio escritor; depois, há uma “pureza de expressão”, mas que não é definida.

Podemos aproveitar, contudo, os trechos felizes, como este: “O envolvimento afetivo com o texto e a vaidade tendem a diminuir a escrupulosidade. O que se deixa passar apenas como uma dúvida insignificante pode tornar manifesta a falta de valor objetivo do todo”. Quase sempre esquecidas, as duas frases deveriam permanecer à vista de todos os que são ou almejam ser escritores: render-se à vaidade é perder o rigor.

maio 14, 2013

Reflexões de Hermann Broch sobre o sagrado

“Só no centro do nosso ser se encontra o sagrado, o sagrado da nossa vida, desta vida tão breve, que se torna mais curta a cada noite, desta vida que não é êxtase nem máquina, mas um conhecimento que floresce, que se vai abrindo como se abrem as folhas, um processo de crescimento que vai da escuridão à escuridão, do que ainda não nasceu ao que ainda não nasceu, um renascer. No centro do nosso ser as árvores são abraçadas pelo céu e sopra o vento, como um suave mensageiro que se desloca de lá para cá entre as infinitudes, entre aquelas das quais ele vem e aquelas para as quais flui, e que nos leva, num leve impulso, como o vento que arrasta uma folha de outono, para que, transformando-nos em mensageiros de nós mesmos, vislumbremos o lugar de onde viemos, a partir de onde ocorreu o nosso despertar e o lugar ao qual nos dirigimos e onde haveremos de perecer. Só no centro de nós está o saber, o saber sobre o que o homem necessita para ser homem, o saber sobre sua humanidade e sua cultura, o saber piedoso que é o saber da cultura... Ele, que não é nem um saber do sangue nem um saber da técnica, mas um saber do homem sobre si mesmo. No centro do nosso ser, só no centro – nem no escuro êxtase dos seus limites, nem no arrebatamento da nossa primitiva origem, nem no arrebatamento da técnica, mas no nosso próprio ser –, é que o divino habita em nós.”
 
[Trecho do romance inacabado, Die Verzauberung.]

maio 06, 2013

Contra a mornidão de certa crítica literária

Diante dos melindrosos e ressentidos, que só admitem crítica literária sem julgamento – ou seja, que desejam transformar a crítica literária num exercício anódino ou meramente confortador –, devo lembrar um dos bons trechos de Álvaro Lins: “Julgar é um testemunho da dignidade da crítica. Ela não fica bem nas mãos dos conformistas, dos frágeis, dos amáveis, dos indistintos, dos suaves, dos incolores, dos frívolos, dos snobs”. Aos interessados em saber o motivo deste post, vale a pena ler a análise correta e corajosa que Cristiano Ramos faz do livro Tangolomango, de Raimundo Carrero, e que tem provocado a ira dos adeptos da cordialidade brasileira, sempre prontos a distribuir lisonjas, servilismo e outros afagos.

maio 03, 2013

Canalhice e afetação

No Rascunho deste mês, escrevo sobre o péssimo A correspondência de uma estação de cura, de João do Rio. Nessa tentativa de escrever um romance epistolar, o cronista só conseguiu reunir pedantismos, usando persistente tom de zombaria. O que foi grandioso nas mãos de Samuel Richardson (autor de Pamela e Clarissa) — e se aperfeiçoou com Rousseau (Julie ou la nouvelle Héloïse, 1761), Goethe (Os sofrimentos do jovem Werther, 1774), Chordelos de Laclos (As ligações perigosas, 1782) e Ugo Foscolo (Ultime lettere di Jacopo Ortis, 1802) — tornou-se medíocre sob a pena de João do Rio.

abril 30, 2013

O idílio de Antônio Candido e a realidade

As melhores respostas às lucubrações românticas e aos devaneios idealistas de Antônio Candido em relação ao socialismo podem ser encontradas em dois ensaios magistrais: “De Profundis”, de George Steiner, publicado em George Steiner at The New Yorker (no Brasil, Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker, Editora Globo); e “Menos que um”, de Joseph Brodsky (em livro homônimo, publicado pela Cia. das Letras em 1994).

Esses dois ensaios mostram o que Antônio Candido insiste em não recordar, pois certamente não desconhece a verdade: retratam a vida concreta dos que lutaram para sobreviver sob um regime utopista, controlado pelos defensores do que Candido trata como “doutrina triunfante”.

Se há algo que triunfa sob regimes socialistas – sob o socialismo que Candido chama de “grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano” –, esse algo é a corrupção das consciências em nome da igualdade mentirosa, que concede poder, dinheiro, benesses e honrarias apenas aos bajuladores do governo.

O que prevalece sob regimes pretensamente igualitários é a fraude. E também o servilismo. Como disse Brodsky, ao recordar sua juventude na União Soviética, “os quatro anos de Exército (para o qual os homens eram convocados aos dezenove anos) completavam o processo de rendição total ao Estado. A obediência se transformava numa primeira e também numa segunda natureza”.

O que triunfa sob os regimes que Antônio Candido defende confortavelmente, sem ter experimentado um único dia de luta pela sobrevivência nos cárceres cubanos ou poucos minutos de tortura em algum Gulag, é sempre a morte. Moral ou física, mas sempre a morte.
 
Uma aula sobre “paralaxe cognitiva” não faria mal a Antônio Candido.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

abril 27, 2013

A luta contra a mesmice

Vozes dissonantes são sempre bem-vindas neste mar de bajulações, hermetismos e lugares-comuns em que se transformou a crítica literária brasileira.

Neste mês de abril, ao ler, no Rascunho, “Sobraram apenas os óculos e o bigode”, ensaio no qual Marcos Pasche desconstrói Paulo Leminski, percebi, com alegria, que as coisas realmente começam a mudar. Sentimento, aliás, que já havia experimentado com Cristiano Ramos, que, no ensaio “O curioso caso de José Lins do Rego” (partes 1 e 2), rebate com vigor a injusta depreciação crítica do romancista paraibano.

Sucede que, em meio a trabalhos e leituras, passei por cima da coletânea de críticas que Marcos Pasche publicou – De pedra e de carne (Editora Confraria do Vento) – e teve a gentileza de me enviar. Só hoje uni o sanguinário autor do ensaio sobre Leminski ao nome que está na capa do livro. E, numa passada de olhos, encontrei no volume, para minha alegria, ao menos dois outros textos que recomendo a leitura: “Na vitrine do shopping” e “Com rigor e com afeto”. O primeiro, publicado no Rascunho sob o título de “Perto do tempo, longe da arte”, demole a poesia de Fabrício Corsaletti – confirmando o que Luis Dolhnikoff (outra boa voz dissonante) já havia percebido e eu próprio afirmara, mas referindo-me à prosa desse que é mais um dos tenros queridinhos da literatura nacional.

Quanto ao segundo ensaio, “Com rigor e com afeto”, trata-se da entusiasmada análise de um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as nossas faculdades de Letras: A literatura em perigo, no qual Tzvetan Todorov faz a síntese do que começou a perceber em Critique de la critique, de 1984, não por acaso nunca traduzido no Brasil, onde os acadêmicos preferem acreditar – comportamento, aliás, bem cômodo, para não dizer desonesto – que Todorov parou de escrever em 1971, ao publicar A poética da prosa, obra ultrapassada e, sob vários aspectos, renegada pelo autor.
 
Este post, contudo, não pretende assumir, nas últimas linhas, um tom pessimista. Não. O objetivo é exatamente o de comemorar as vozes críticas que começam a surgir – aliadas, cada uma a seu modo, na luta contra a mesmice.

abril 23, 2013

Literatura, ideologia e mundo empírico

O que acontece quando certa figura de estilo deixa de ser um recurso para ampliar a capacidade expressiva da linguagem e passa a obscurecer diferentes aspectos da realidade, da experiência humana?

A resposta a esse problema esquecido nos dias de hoje – quando alguns teóricos e escritores pretendem desvincular a literatura da realidade – encontra-se no artigo “Inversão retórica e realidade invertida”, que Olavo de Carvalho publicou em 2009.
 
Partindo de François Villon e Jean-Jacques Rousseau, Olavo analisa os perigos decorrentes da figura de linguagem que, transformada em ideologia, incorpora-se à psique – e, de forma indireta, denuncia a falácia de se acreditar que a literatura é autossuficiente ou está desligada do mundo empírico.

abril 19, 2013

O encadeamento da vida humana

“O que conta em uma vida humana não são os acontecimentos que a dominam através dos anos – ou inclusive dos meses – ou inclusive dos dias. É o modo como cada minuto se encadeia ao seguinte, e o que isso custa a cada um em seu corpo, em seu coração, em sua alma – e, sobretudo, no exercício da sua faculdade de atenção – para efetuar minuto por minuto esse encadeamento.”
 
Simone Weil, La condition ouvrière

abril 16, 2013

Muito mais que linguagem

Um curso sobre prática de leitura e formação do estilo pode ter inúmeras utilidades. É o que experimentamos, meus alunos e eu, nas últimas semanas, dialogando com Homero, W. B. Yeats, Italo Calvino, Paul Valéry e tantos outros autores. Contudo, a lição que mais nos estimula é perceber, a cada aula, como Roland Barthes estava errado: numa narração não há apenas “a aventura da linguagem”, ainda que a retórica barthesiana, sempre pronta a querer nos iludir, insista, subindo o tom: “a incessante celebração do advento da linguagem”. Belas palavras, mas, como em todo exercício de retórica, no fundo não refletem a realidade, são apenas um adereço que busca seduzir, convencer sem provar.
 
Na verdade, a cada aula redescobrimos que a literatura é “o dispositivo mais importante da civilização para aprender o que deve ser afirmado e o que deve ser negado”, como disse John Gardner, pois não há literatura desvinculada do real, apartada do contexto das nossas escolhas pessoais, da nossa vida. Ou, nas claríssimas palavras de Matthew Arnold: “A vida diária de um homem, em sua solidez e valor, depende de se ele lê nesse dia; e ainda muito mais do que ele lê durante esse dia”.

abril 09, 2013

Otimismo insano e desintegração da ideia de autoridade

Trecho de uma carta do historiador Jacob Burckhardt a seu amigo, Friedrich von Preen:

“[...] O grande dano teve início no século passado, principalmente através de Rousseau, com sua doutrina da bondade da natureza humana. Com base nisso, os plebeus e as pessoas educadas destilaram a doutrina da idade do ouro que viria infalivelmente, desde que as pessoas fossem deixadas por sua conta. O resultado, como qualquer criança sabe, foi a completa desintegração da ideia de autoridade da cabeça dos mortais, e é claro que, em consequência, periodicamente somos vítimas do poder absoluto. Enquanto isso, a ideia da bondade natural do homem transformou-se, entre o estrato inteligente da Europa, na ideia de progresso, isto é, fazer dinheiro e desfrutar de confortos modernos sem perturbação, com a filantropia para acalmar a consciência. [...]

A única salvação concebível seria que esse insano otimismo, em menor ou maior grau, desaparecesse do cérebro das pessoas. Mas, então, nosso atual cristianismo não está à altura da incumbência; ele optou por isso e acabou se misturando ao otimismo nos últimos duzentos anos. Uma mudança terá de vir, mas só Deus sabe à custa de que sofrimentos. Nesse meio tempo você está construindo escolas – pelo menos você pode assumir essa responsabilidade perante Deus; enquanto eu instruo meus alunos e meu público. Não faço grande segredo de minha filosofia a meus alunos; os mais inteligentes me entendem, e, ao mesmo tempo que faço tudo o que posso para honrar a verdadeira felicidade que o estudo e o conhecimento oferecem – por menos que possam ser –, sou capaz de dar a cada um algum grau de consolo.”
 
(2 de Julho de 1871)

abril 08, 2013

Ideias que obscurecem o que somos e sentimos

De um ensaio de T. S. Eliot sobre William Blake:

“Os Songs of innocence and of experience, assim como os poemas do manuscrito Rossetti, são poemas que revelam um profundo interesse pelas emoções humanas e um profundo conhecimento destas. As emoções são expostas sob forma extremamente simplificada e abstrata. Essa forma é uma ilustração da eterna luta da arte contra a educação, do artista literário contra a contínua decomposição da língua.

É importante que o artista deva ser altamente educado em sua própria arte; mas sua educação é aquela que atrapalha mais do que ajuda, pois ele a recebe através do processo comum da sociedade em que se resume a educação do homem comum. É que esse processo consiste amplamente na aquisição de ideias impessoais que obscurecem o que de fato somos e sentimos, o que realmente desejamos e o que na verdade instiga nosso interesse. Não se trata, é claro, da efetiva informação adquirida, mas do conformismo que o acúmulo de conhecimentos será capaz de impor, o que é nocivo. Tennyson nos dá o claríssimo exemplo de um poeta já totalmente incrustado na opinião do público, já completamente incorporado ao seu meio. Blake, por outro lado, sabia o que lhe interessava e, por conseguinte, apresenta apenas o essencial, apenas, na verdade, o que pode ser apresentado, e dispensa explicações. E porque não se perturbou, ou não se apavorou, ou não se ocupou de nada que não fossem concisas afirmações, pôde entender. Ele estava nu, e viu o homem nu, do centro do seu próprio cristal. Para ele não havia nenhuma razão pela qual Swedenborg fosse mais absurdo do que Locke. Ele aceitou Swedenborg, como eventualmente o rejeitou, por razões de estrito foro íntimo. Abordou tudo com a mente alheia às opiniões então vigentes. Não havia nele nada que sugerisse a pessoa superior. E isso o tornou aterrorizante.”
 
(Tradução de Ivan Junqueira)

abril 06, 2013

Como nasceu a literatura?

Vladimir Nabokov, com seu incomparável senso de humor, nos dá a resposta:

“A literatura não nasceu quando um rapaz a gritar ‘Lobo! Lobo!’ saiu a correr do vale de Neanderthal com um grande lobo na sua cola: a literatura nasceu quando um rapaz apareceu a gritar ‘Lobo! Lobo!’ e não havia lobo nenhum a persegui-lo. O fato de o pobre diabo, porque mentiu demasiadas vezes, ter acabado por ser comido por uma fera verdadeira é perfeitamente acidental. Mas eis o que é importante. Entre o lobo no meio do mato e o lobo no conto há um difuso mediador. Esse mediador, esse prisma, é a arte da literatura.
 
[...] A magia da arte estava na sombra do lobo que ele deliberadamente inventou, no seu sonho do lobo; depois a história dos seus truques fez uma boa história. Quando finalmente pereceu, a história dele adquiriu as tonalidades de uma boa lição ao redor da fogueira do acampamento. Mas foi ele o pequeno mago. Foi ele o inventor.”

abril 04, 2013

Qual Nelson Rodrigues?

Escrevi, há alguns meses, um breve ensaio sobre Nelson Rodrigues para a Revista Vila Nova. O texto acaba de ser publicado, na íntegra e no formato original, no Mídia sem Máscara.

abril 02, 2013

Carlos de Laet, o “não eterno”


Esquecido ou menosprezado, Carlos de Laet teve coragem de erguer a voz contra o golpe republicano, em 1889, e contra os governos ditatoriais que se seguiram. Apesar da verbosidade muitas vezes estafante, possui ironia singular, divertidíssima, de rara inteligência, além de ser um crítico feroz dos modernistas. É sobre ele que escrevo, este mês, no jornal Rascunho.  

março 25, 2013

Prática de Leitura e Formação do Estilo – 3ª aula

Hoje, às 20h30, teremos a terceira aula do curso Prática de Leitura e Formação do Estilo. Todos os que se inscreveram durante esta semana ou ainda desejam se inscrever, não se preocupem, pois as duas aulas anteriores estão gravadas, disponíveis no site do Cedet para os novos alunos. Aliás, todo o curso está sendo gravado. Maiores informações, no próprio Cedet (liguem para 19-3249-80 ou enviem e-mail para livros@cedet.com.br).

março 21, 2013

O escritor deve se proteger da política

“Rapidamente eu vi – ou melhor, intuí (pois não vejo nada rapidamente) – que escritores raras vezes são intelectuais. ‘Uma pitada de ideologia e de ideias da moda é extremamente apropos’, disse Tchékhov certa vez – com ar de troça, eu desconfio. Com um espírito mais sério, ele escreveu que os escritores ‘deviam tomar parte na política só o suficiente para se proteger da política’. ‘Ausência de palavrório de natureza política, social e econômica’, este era um de seus lemas, e recomendava também objetividade, brevidade, audácia, recusa de estereótipos e compaixão. (Ah, para uma época em que estas palavras ainda não haviam caído em descrédito.)” – Saul Bellow, com melancolia e pessimismo, in “Escritores, intelectuais, políticos: sobretudo reminiscências”, 1993.

março 20, 2013

O dia em que Napoleão Mendes de Almeida previu as redações do Enem e a degradação da língua portuguesa patrocinada pelo governo

Afirma Horácio em sua Arte poética: “Muitas palavras que já caíram renascerão, e as que agora estão em voga e estimação também hão de cair se assim o quiser o uso, o qual é o juiz, o árbitro e a regra da linguagem”.
 
Mas o sábio Napoleão Mendes de Almeida completa: “Não disse Horácio que tanto mais caprichoso é o uso de um idioma quanto menos escolas tem a nação que o fala. De tal forma se entranham solecismos e barbarismos no falar de universitários que de estranho nada se poderá encontrar dentre pouco na afirmação de que a língua que se fala no Brasil não tem gramática nem vocabulário que a caracterizem. Se não há muito escarnecia-se o erro, hoje o estudioso e lido é que se escarnece” (Dicionário de questões vernáculas).

março 14, 2013

Lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)” em Curitiba

Neste sábado, dia 16, a partir das 14h, estarei na Livraria Danúbio, em Curitiba, para o lançamento de meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha), publicado pela Vide Editorial. Além dos autógrafos, o objetivo é fazer um bate-papo sobre literatura e crítica literária com os presentes. A Livraria Danúbio fica na Alameda Prudente de Morais, 1.239, Batel Soho. Informações: (41) 3324-1784.

março 13, 2013

“Cansei-me da solenidade da queixa”, diz Saul Bellow

– Trechos da entrevista de Saul Bellow realizada em 1965 e publicada na Paris Review:

O sofredor derrotado

“Tudo aquilo em que o ser humano acreditava no século XIX [...] tornou inevitável que o herói do romance realista não fosse um herói, mas um sofredor que acaba sucumbindo.”

Sapateiros

“[...] Ontem à noite, na cama, eu estava lendo uma coletânea de artigos de Stendhal. Um deles me divertiu bastante, me comoveu. Stendhal estava dizendo como eram sortudos os escritores da época de Luís XVI por não terem ninguém que os levasse a sério. A obscuridade lhes era valiosa. Corneille estava morto havia dias quando alguém na corte julgou o fato importante o bastante para ser mencionado. No século XIX, diz Stendhal, teria havido diversos panegíricos públicos, e os funerais de Corneille seriam cobertos por todos os jornais. Há enormes vantagens em não ser levado a sério demais. Alguns escritores são excessivamente sérios em relação a si mesmos. Aceitam as ideias do ‘público culto’. Existe essa coisa de pôr em maiúscula o A do artista. Certos escritores e músicos compreendem isso. Stravinski diz que o compositor deveria praticar seu ofício exatamente como faz um sapateiro. Mozart e Haydn aceitavam encomendas – compunham sob encomenda. No século XIX, o artista esperava altivamente pela Inspiração. Uma vez que você se alce ao nível de instituição cultural, está em apuros.”

O absurdo da elegia

“[...] A literatura moderna foi dominada por um tom de elegia, dos anos 20 aos anos 50, a atmosfera de Eliot em A terra desolada, e ade Joyce em Retrato do artista quando jovem. A sensibilidade absorveu essa tristeza, essa visão do artista como único elo contemporâneo violentado em seus (patrícios) sentimentos por todos os aspectos da civilização moderna. Isso foi muito mais longe do que deveria ter ido. Caiu no absurdo, do qual acho que já tivemos o bastante.”

Literatura russa

“[...] Os russos exercem uma atração carismática imediata [...]. Suas convenções lhes permitem expressar livremente sentimentos sobre a natureza e os seres humanos. Nós herdamos uma atitude mais constrangedora e aprisionante em relação às emoções. Temos que contornar as imposições puritanas e estoicas. Falta-nos a abertura russa. Nossa trilha é mais estreita.”

Como resistir ao niilismo

“[...] Parece que o que perguntei em meus livros foi: ‘Como é que se pode resistir aos controles desta vasta sociedade sem virar um niilista, evitando o absurdo de uma rebelião vazia?’. Perguntei: ‘Existiriam outras formas, mais bondosas, de resistir e de escolher livremente?’. Acho que, como a maioria dos americanos, dei preferência ao lado mais reconfortante, mais meliorista da questão. Não estou dizendo que deveria ter sido mais ‘pessimista’, porque descobri que o ‘pessimismo’, em quase todas as suas manifestações, é tão vazio quanto o ‘otimismo’. Mas sou forçado a admitir que não aprofundei essas questões o bastante. Não posso me culpar por não ter sido um severo moralista; sempre posso dar a desculpa de que, afinal de contas, não sou nada amis que um escritor de ficção. Mas não me sinto satisfeito com o que fiz até agora, a não ser com o lado cômico.”

O caminho mais sábio e mais viril

“[...] Cansei-me da solenidade da queixa, perdi mesmo a paciência com a queixa. Compelido a escolher entre a queixa e a comédia, escolhi a comédia, como mais energética, mais sábia e mais viril.” [Refere-se ao romance Herzog.]

março 11, 2013

Hoje, a primeira aula do Curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”

Às 20h30, no site do Cedet, darei início ao curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”. Para quem não puder acompanhar ao vivo, as aulas ficarão gravadas, disponíveis a todos que se inscreverem. Quem tiver dúvidas ou desejar mais informações, basta escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar, no horário comercial, para 19-3249-80. Até lá!

março 05, 2013

Novo curso: Prática de Leitura e Formação do Estilo

Planejei este curso pensando que, antes de tudo, precisamos abandonar a desconfiança e o cinismo que a chamada “modernidade” alimenta em relação à linguagem. Ao mesmo tempo, quem deseja criar seu próprio estilo de escrever deve reaprender a arte da leitura, ferramenta indispensável para:

1. Descobrir as possibilidades expressivas da linguagem; e
2. Absorver e transformar os estilos que se tornaram clássicos.

O curso, que começa no próximo dia 11 de março, via Internet, foi elaborado de maneira que esses dois exercícios sejam feitos de forma concomitante, por meio da leitura e da análise de autores paradigmáticos, não só de ficção.

Ao final do curso, será proposto um exercício de redação – e comentarei, um a um, por escrito, todos os trabalhos.

A seguir, um resumo do que será tratado nas 12 aulas:

Aula 1 – Apresentação do curso. A linguagem, instrumento de comunicação, conhecimento e criação literária. Libertar a linguagem da ideologia.
Aula 2 – Por que ler? Há uma forma correta de ler? Exercício de leitura.
Aula 3 – Leitura como “absorção ativa”. Trata-se apenas de imitar? Ler, aprender e transformar.
Aula 4 – O texto homérico. Sobriedade e síntese. As coisas como elas são, mas transformadas.
Aula 5 – O relato bíblico. A estrutura da vida humana. Psicologia e camadas de sentido.
Aula 6 – Plínio, o jovem: o inusitado descrito sem retórica. Desprezo pela amplificação.
Aula 7 – Tolstói e o detalhe iluminador. Pensamentos e gestos criam uma personalidade.
Aula 8 – A descrição da realidade com delírio e assombro: Hermann Broch.
Aula 9 – A antítese como hábito da inteligência: as cartas paulinas.
Aula 10 – Alegoria, lógica e analogias: a argumentação nos sermões do Padre Antônio Vieira.
Aula 11 – Montaigne: argumentação sem convencimento – o ato de pensar com o “encanto da conversa entre amigos”.
Aula 12 – Paradoxo e ironia: o riso da argumentação em Chesterton. No final da aula, proposta de exercício de redação.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet Online.

– Valores, dúvidas e inscrições, basta visitar a página do curso, escrever para livros@cedet.com.br ou telefonar para 19-3249-80 (horário comercial).

março 02, 2013

“Um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”

Hoje, depois de minha palestra no Círculo de Estudos Políticos – onde falei sobre a liberdade de expressão na Rússia pós-Revolução de 1917 –, conversando com alguns dos participantes, lembrei-me de Isaiah Berlin e de seus ensaios, que foram fundamentais para mim, principalmente durante o período em que, passo a passo, percebi os erros, as falhas do pensamento esquerdista. Repito aqui, para os jovens que me ouviram, o que escrevi num post de 2009, neste blog:

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), deixo, prazerosamente, que Berlin me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.
 
O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.

fevereiro 28, 2013

O escritor que nos falta

“O grande escritor é aquele que amplia a perspectiva da sensibilidade humana, que mostra uma abertura, um padrão a seguir, para homens desnorteados, que não sabem o que fazer.” – Joseph Brodsky

fevereiro 26, 2013

O mal da retórica na literatura brasileira

Álvaro Lins estava coberto de razão quando dizia: “Continuo, com os elementos do meu ofício, a fazer o exercício de colecionar frases desproporcionadas. Desproporcionadas entre as ideias, que são magras, e as palavras, que são muito gordas. Um artifício semelhante ao que realizam os alfaiates modernos: roupas de atletas para corpos de tísicos. Mas este artifício, de que resulta um sucesso na arte dos alfaiates, não apresenta o mesmo êxito na arte literária. O que resulta dele é um aleijão. O aleijão mais constante da literatura brasileira”.

fevereiro 15, 2013

Escritores: entre a luta e a leviandade

“O momento de escrever sempre traz para o verdadeiro escritor uma sensação penosa e angustiante. Uma espécie de sentimento de medo ou de angústia. Certamente que não é indolência aquilo que o faz adiar o seu trabalho até o último instante possível. Ao contrário: o verdadeiro escritor ama e deseja o trabalho literário; e nessa situação mesma é que se encontrará a causa das suas hesitações. Imagina a literatura com a maior seriedade, e se imagina, por isso, indigno dela. Experimenta ao escrever um duplo sofrimento: antes, a incerteza, o receio, o medo de que nada consiga escrever; depois, o desgosto do que escreveu: a certeza de que o seu trabalho vale muito pouco, ou quase nada, porque tudo o que realiza se coloca infinitamente abaixo do que imagina e deseja. Luta dramática esta que se desenvolve, no espírito do escritor, entre a sua idealização e a sua realização. As ideias, os pensamentos, os planos não são difíceis em si mesmos; a dificuldade toda se encontra na expressão em palavras. Não sei nada de mais comovente do que essa luta de um escritor com as palavras que precisam ser conquistadas e dominadas. Fico assombrado diante da leviandade e da inconsciência com que falsos escritores jogam com as palavras, como se elas fossem uns brinquedos inofensivos e fosse a literatura um divertimento sem consequências.”
 
Álvaro Lins, em Sobre crítica e críticos.

fevereiro 13, 2013

A façanha menor

“Não se espera dos críticos, como se espera dos poetas, que nos ajudem a encontrar um sentido para nossa vida. Cabe-lhes apenas tentar a façanha menor de descobrir um sentido às formas em que pretendemos encontrar um sentido para nossa vida.”
 
– Frank Kermode, em The Sense of an Ending