maio 14, 2013

Reflexões de Hermann Broch sobre o sagrado

“Só no centro do nosso ser se encontra o sagrado, o sagrado da nossa vida, desta vida tão breve, que se torna mais curta a cada noite, desta vida que não é êxtase nem máquina, mas um conhecimento que floresce, que se vai abrindo como se abrem as folhas, um processo de crescimento que vai da escuridão à escuridão, do que ainda não nasceu ao que ainda não nasceu, um renascer. No centro do nosso ser as árvores são abraçadas pelo céu e sopra o vento, como um suave mensageiro que se desloca de lá para cá entre as infinitudes, entre aquelas das quais ele vem e aquelas para as quais flui, e que nos leva, num leve impulso, como o vento que arrasta uma folha de outono, para que, transformando-nos em mensageiros de nós mesmos, vislumbremos o lugar de onde viemos, a partir de onde ocorreu o nosso despertar e o lugar ao qual nos dirigimos e onde haveremos de perecer. Só no centro de nós está o saber, o saber sobre o que o homem necessita para ser homem, o saber sobre sua humanidade e sua cultura, o saber piedoso que é o saber da cultura... Ele, que não é nem um saber do sangue nem um saber da técnica, mas um saber do homem sobre si mesmo. No centro do nosso ser, só no centro – nem no escuro êxtase dos seus limites, nem no arrebatamento da nossa primitiva origem, nem no arrebatamento da técnica, mas no nosso próprio ser –, é que o divino habita em nós.”
 
[Trecho do romance inacabado, Die Verzauberung.]

Um comentário:

Adalberto de Queiroz disse...

Que maravilha este blog.
No dia mesmo em que postei no Twitter, em nome de meu poeta amado (Murilo Mendes) @Murilo_Poeta
"Dizia o poeta e comerciante Hermann Broch: "la poesia es tan sólo una forma incontenida - impaciente- de conocimiento"
Abraço,
BetoQ.
betoqueiroz.com