fevereiro 05, 2014
Desejo de ficção – Oliveira Vianna e “O Ocaso do Império”
Na
edição deste mês do jornal Rascunho
escrevo sobre esse ensaio histórico que não idolatra o povo, as instituições,
os partidos ou as personagens, mas nos apresenta uma trama desafortunada,
retrato da imaturidade de um país que ainda cambaleia sob o peso de
instituições frágeis e políticos oportunistas. Com ironia e cultura, sem a linguagem hermética e pedante dos que se apóiam em academicismos, Oliveira
Vianna nos faz desejar que tudo, incluindo o presente, seja apenas ficção.
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O ocaso do império,
Oliveira Vianna
janeiro 24, 2014
Por que ler Tomás de Aquino hoje?
Um lançamento da Editora Ecclesiae – a tradução, pela primeira vez no Brasil, da parte das Quaestiones disputatae dedicada ao “poder
de Deus” – recoloca uma pergunta que muitos hesitam em fazer: por que ler Tomás
de Aquino hoje?
Uma questão pertinente para alguém que, como eu, não é filósofo e, muito menos, leitor assíduo de Aquino. Por que eu deveria perder meu tempo com um padre dominicano que viveu no longínquo século XIII?
Para responder, não recorro à Wikipédia, mas às lembranças que guardo das poucas leituras que fiz, há três décadas no mínimo. O que ficou, para mim, do Aquinate?
A limpidez do raciocínio, sem dúvida. Limpidez que chegou a produzir vertigens no jovem viciado no estudo de marxistas e estruturalistas. Tive de readequar minha mente ao que, percebi com dificuldade, é a argumentação racional per se, isto é, o verdadeiro método para apreender a realidade, analisá-la, estabelecer distinções e elaborar respostas às perguntas fundamentais que se colocam quando me interrogo sobre o sentido da vida.
Essa sincera busca da verdade, uma sinceridade que se contrapõe ao mundo ideológico, incansável em seu trabalho de tentar nos convencer de que certos temas, quase sempre de ordem metafísica, são cartas definitivamente fora do baralho, foi o que me conquistou.
Lembro-me de uma pequena história contada por meu professor de Filosofia: Tomás de Aquino rezava na capela quando vê um amigo morto, que teria sido autorizado a visitá-lo apenas para se despedir. O anseio do Doutor Angélico pela verdade é tão grande, que ele não se interessa pela emoção da despedida, mas começa a interrogar seu amigo sobre as características da visão beatífica que ele, provavelmente, já alcançara.
Verdade ou não, a história revela um pouco desse homem que, livre e maduro o suficiente para interrogar um morto com naturalidade, ergueu um monumento filosófico cujo objetivo é conciliar fé e razão, imergindo os princípios aristotélicos no inesgotável oceano do cristianismo.
Um homem desse tipo, que dedicou sua vida à tarefa mais honrosa e também mais ingrata – a de buscar a verdade –, abdicando de toda vaidade, de todo orgulho, merece de nós pelo menos algumas horas de leitura.
Uma questão pertinente para alguém que, como eu, não é filósofo e, muito menos, leitor assíduo de Aquino. Por que eu deveria perder meu tempo com um padre dominicano que viveu no longínquo século XIII?
Para responder, não recorro à Wikipédia, mas às lembranças que guardo das poucas leituras que fiz, há três décadas no mínimo. O que ficou, para mim, do Aquinate?
A limpidez do raciocínio, sem dúvida. Limpidez que chegou a produzir vertigens no jovem viciado no estudo de marxistas e estruturalistas. Tive de readequar minha mente ao que, percebi com dificuldade, é a argumentação racional per se, isto é, o verdadeiro método para apreender a realidade, analisá-la, estabelecer distinções e elaborar respostas às perguntas fundamentais que se colocam quando me interrogo sobre o sentido da vida.
Essa sincera busca da verdade, uma sinceridade que se contrapõe ao mundo ideológico, incansável em seu trabalho de tentar nos convencer de que certos temas, quase sempre de ordem metafísica, são cartas definitivamente fora do baralho, foi o que me conquistou.
Lembro-me de uma pequena história contada por meu professor de Filosofia: Tomás de Aquino rezava na capela quando vê um amigo morto, que teria sido autorizado a visitá-lo apenas para se despedir. O anseio do Doutor Angélico pela verdade é tão grande, que ele não se interessa pela emoção da despedida, mas começa a interrogar seu amigo sobre as características da visão beatífica que ele, provavelmente, já alcançara.
Verdade ou não, a história revela um pouco desse homem que, livre e maduro o suficiente para interrogar um morto com naturalidade, ergueu um monumento filosófico cujo objetivo é conciliar fé e razão, imergindo os princípios aristotélicos no inesgotável oceano do cristianismo.
Um homem desse tipo, que dedicou sua vida à tarefa mais honrosa e também mais ingrata – a de buscar a verdade –, abdicando de toda vaidade, de todo orgulho, merece de nós pelo menos algumas horas de leitura.
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São Tomás de Aquino
janeiro 19, 2014
A crítica irônica de Augusto Monterroso ao relativismo cognitivo
Quando a
realidade se transforma, nas mãos de certo estudioso cínico, num mero texto que
pode ser desconstruído, quando querem nos fazer acreditar que a realidade
objetiva deve ser continuamente colocada sob suspeita e apenas decodificada ao
sabor dos nossos interesses ou intenções pessoais, temos certeza de que
penetramos no centro da desonestidade intelectual.
É o que Augusto Monterroso – escritor hondurenho de nascimento, mas que adotou a Guatemala como pátria – denuncia, com seu sarcasmo peculiar, na breve narrativa a seguir. Divirtam-se.
O Coelho e o Leão
Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.
Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr do sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.
Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.
A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.
O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.
De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.
É o que Augusto Monterroso – escritor hondurenho de nascimento, mas que adotou a Guatemala como pátria – denuncia, com seu sarcasmo peculiar, na breve narrativa a seguir. Divirtam-se.
O Coelho e o Leão
Um célebre Psicanalista encontrou-se certo dia no meio da selva, semiperdido.
Com a força que dão o instinto e o desejo de investigação, conseguiu facilmente subir numa árvore altíssima, da qual pôde observar à vontade não apenas o lento pôr do sol mas também a vida e os costumes de alguns animais, que comparou algumas vezes com os dos humanos.
Ao cair da tarde viu aparecer, por um lado, o Coelho; por outro, o Leão.
A princípio não aconteceu nada digno de mencionar, mas pouco depois ambos os animais sentiram as respectivas presenças e, quando toparam um com o outro, cada qual reagiu como desde que o homem é homem.
O Leão estremeceu a selva com seus rugidos, sacudiu majestosamente a juba como era seu costume e feriu o ar com suas garras enormes; por seu lado, o Coelho respirou com mais rapidez, olhou um instante nos olhos do Leão, deu meia-volta e se afastou correndo.
De volta à cidade, o célebre Psicanalista publicou cum laude seu famoso tratado em que demonstra que o Leão é o animal mais infantil e covarde da Selva, e o Coelho, o mais valente e maduro: o Leão ruge e faz gestos e ameaça o universo movido pelo medo; o Coelho percebe isso, conhece sua própria força, e se retira antes de perder a paciência e acabar com aquele ser extravagante e fora de si, a quem ele compreende e que afinal não lhe fez nada.
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relativismo
janeiro 14, 2014
A única sabedoria a que podemos aspirar — T. S. Eliot
A parte final da
entrevista de T. S. Eliot a Donald Hall, publicada na Paris Review (1959), é uma rara manifestação de humildade.
Hall relembra a Eliot o que este dissera dezessete anos antes: “Nenhum poeta honesto jamais poderá ter certeza absoluta do valor permanente daquilo que escreveu. Ele pode ter desperdiçado seu tempo e complicado sua vida por nada”. E pergunta: “Sente a mesma coisa agora, aos setenta anos?”. Eliot responde: “Pode ser que haja poetas honestos que tenham certeza. Eu não tenho”.
Famoso graças ao Prêmio Nobel (1948), Eliot mantinha o mesmo pensamento que deixara gravado no longo poema “East Coker”, a segunda parte de Four Quartets, publicada em 1940:
The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.
Hall relembra a Eliot o que este dissera dezessete anos antes: “Nenhum poeta honesto jamais poderá ter certeza absoluta do valor permanente daquilo que escreveu. Ele pode ter desperdiçado seu tempo e complicado sua vida por nada”. E pergunta: “Sente a mesma coisa agora, aos setenta anos?”. Eliot responde: “Pode ser que haja poetas honestos que tenham certeza. Eu não tenho”.
Famoso graças ao Prêmio Nobel (1948), Eliot mantinha o mesmo pensamento que deixara gravado no longo poema “East Coker”, a segunda parte de Four Quartets, publicada em 1940:
The only wisdom we can hope to acquire
Is the wisdom of humility: humility is endless.
A única sabedoria a que podemos aspirar
É a sabedoria da humildade: a humildade é infinita.
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janeiro 08, 2014
“Nada pode destruir o bom escritor” — William Faulkner
Trechos
antológicos da entrevista que Faulkner concedeu a Jean Stein Vanden Heuvel, da Paris Review, em 1956:
Como se tornar um bom romancista
Noventa e nove por cento de talento... noventa e nove por cento de disciplina... noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo.
A experiência do fracasso
Todos nós fracassamos em realizar nosso sonho de perfeição. De modo que estimo a nós todos com base no nosso esplêndido fracasso em realizar o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda a minha obra de novo, tenho certeza de que faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele continua trabalhando, tentando, tentando de novo; ele acredita que dessa vez irá conseguir, irá realizar o que quer. É claro que não conseguirá, é por isso que essa condição é saudável.
Sucesso, adversidade e pobreza
O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. [...] As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro.
Como se tornar um bom romancista
Noventa e nove por cento de talento... noventa e nove por cento de disciplina... noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. Nunca está tão bom quanto seria possível. Sempre sonhe e mire acima daquilo que você sabe que pode fazer. Não se preocupe apenas em ser melhor que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo.
A experiência do fracasso
Todos nós fracassamos em realizar nosso sonho de perfeição. De modo que estimo a nós todos com base no nosso esplêndido fracasso em realizar o impossível. Na minha opinião, se eu pudesse escrever toda a minha obra de novo, tenho certeza de que faria melhor, o que é a condição mais saudável para um artista. É por isso que ele continua trabalhando, tentando, tentando de novo; ele acredita que dessa vez irá conseguir, irá realizar o que quer. É claro que não conseguirá, é por isso que essa condição é saudável.
Sucesso, adversidade e pobreza
O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. [...] As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro.
janeiro 07, 2014
“Em tudo o que é linguagem humana sorri a morte” — Hermann Broch
“A metáfora
ainda não é o conhecimento, não, segue ao conhecimento, porém às vezes o
precede, como um pressentimento ilícito, imperfeito, que somente é utilizado
pelas palavras, e então, ao invés de adentrar-se no conhecimento, se plantará à
frente dele, encobrindo-o, qual biombo escuro.
[...]
Somente por metáforas pode-se captar a vida, só por metáforas se pode expressar a metáfora; a cadeia das metáforas não tem fim, e unicamente a morte carece delas, a morte rumo à qual se estende essa cadeia, como ao seu último elo, que, no entanto, já se achasse fora dela,... como se todas aquelas metáforas estivessem formadas exclusivamente em prol da morte, a fim de apanharem, apesar de tudo, a sua ausência de metáforas, sim, como se só por meio dela a língua pudesse reobter sua simplicidade original, como se a morte fosse o lugar de nascimento da linguagem terrenamente singela, do símbolo mais terreno e todavia mais divino: em tudo o que é linguagem humana sorri a morte.”
— Hermann Broch em A Morte de Virgílio, obra que estudamos na 8ª aula do curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”.
[...]
Somente por metáforas pode-se captar a vida, só por metáforas se pode expressar a metáfora; a cadeia das metáforas não tem fim, e unicamente a morte carece delas, a morte rumo à qual se estende essa cadeia, como ao seu último elo, que, no entanto, já se achasse fora dela,... como se todas aquelas metáforas estivessem formadas exclusivamente em prol da morte, a fim de apanharem, apesar de tudo, a sua ausência de metáforas, sim, como se só por meio dela a língua pudesse reobter sua simplicidade original, como se a morte fosse o lugar de nascimento da linguagem terrenamente singela, do símbolo mais terreno e todavia mais divino: em tudo o que é linguagem humana sorri a morte.”
— Hermann Broch em A Morte de Virgílio, obra que estudamos na 8ª aula do curso “Prática de Leitura e Formação do Estilo”.
dezembro 31, 2013
Poema para 2014
Aos familiares, amigos,
alunos e leitores, meu agradecimento por tudo que partilhamos no ano que
termina. Agradeço a Deus por ter-me concedido a companhia e a amizade de
pessoas valorosas, que me fizeram lembrar, a cada encontro, a cada diálogo, a
cada mensagem recebida, a prece que Ortega y Gasset fazia ao acordar: “¡Señor,
despiértanos alegres y danos conocimiento!”. A todos vocês, ofereço este poema
de Antonio Machado, que me acompanha há muitos anos e sempre me inspira, nos
bons momentos e nas dificuldades. Fraternal abraço e feliz 2014!
Sabe esperar, aguarda que la mar fluya
– así en la costa un barco – sin que el
partir te inquiete.
Todo el que aguarda sabe que la victoria
es suya;
porque la vida es larga y el arte es un
juguete.
Y si la vida es corta
y no llega la mar a tu galera,
aguarda sin partir y siempre espera,
que el arte es largo y, además, no importa.
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Antonio Machado,
Consejos
dezembro 30, 2013
O prazer do fim esconde a alegria do reinício
Acabo de colocar
o ponto final no livro que será publicado nos próximos meses, continuação de Muita Retórica – Pouca Literatura (de Alencar a Graça Aranha).
Constam, do novo volume, livros das duas décadas iniciais do século XX, período que nossos estudiosos se acostumaram a tratar como Pré-Modernismo, conceito impregnado de confusão, que se liquefaz quanto mais estudamos os escritores ali enfiados.
De Júlia Lopes de Almeida a Jackson de Figueiredo, passando por Euclides da Cunha, Coelho Neto, Simões Lopes Neto, Olavo Bilac, Lima Barreto e Monteiro Lobato, escrevo sobre autores injustamente esquecidos ou, pior, superestimados.
A tarefa, na sua totalidade, está longe de ser cumprida, pois o projeto de reler a prosa brasileira se estende até a década de 1970. Ou seja, dizer “ponto final” revela o prazer de uma parcela de trabalho concluída e a alegria do reinício. Para comemorar, abrirei uma lata de Irish Flake, guardada há meses para esta data, e encherei o fornilho do meu Savinelli Roma.
Feliz 2014, caros leitores!
Constam, do novo volume, livros das duas décadas iniciais do século XX, período que nossos estudiosos se acostumaram a tratar como Pré-Modernismo, conceito impregnado de confusão, que se liquefaz quanto mais estudamos os escritores ali enfiados.
De Júlia Lopes de Almeida a Jackson de Figueiredo, passando por Euclides da Cunha, Coelho Neto, Simões Lopes Neto, Olavo Bilac, Lima Barreto e Monteiro Lobato, escrevo sobre autores injustamente esquecidos ou, pior, superestimados.
A tarefa, na sua totalidade, está longe de ser cumprida, pois o projeto de reler a prosa brasileira se estende até a década de 1970. Ou seja, dizer “ponto final” revela o prazer de uma parcela de trabalho concluída e a alegria do reinício. Para comemorar, abrirei uma lata de Irish Flake, guardada há meses para esta data, e encherei o fornilho do meu Savinelli Roma.
Feliz 2014, caros leitores!
dezembro 27, 2013
Tolkien e a alegria do cachimbo
Vários elementos
me impressionam no vídeo abaixo, publicado por um amigo do Facebook: graças à
intimidade que J. R. R. Tolkien alcançou com o cachimbo, acendê-lo é um
conjunto de gestos descontraídos. São poucos segundos, mas o deleite — incontestável,
estampado num crescendo de alegria — atinge seu máximo no olhar que brilha diante
da delicada fumaça, na mão que se agita no ar com delicadeza, no sorriso final.
Contudo, quem conhece a vida e a obra de Tolkien sabe que há muito mais nesse início de fumada: vejo um homem que valoriza as pequenas coisas do cotidiano; um homem que descobriu a mais básica das lições: não fugir de nossos medos só aumenta a nossa própria força; um homem para quem viver pela fé inclui a chamada a algo maior do que apenas lutar, de forma covarde, pela autopreservação.
Enquanto a fumaça teima em não se dissipar, como se partilhasse do sorriso de Tolkien, vejo a satisfação de um homem consciente de que nossa única tarefa é decidir, com sabedoria, o que fazer com o tempo que nos é dado — e o principal: que até mesmo uma pequena pessoa, aparentemente inútil, pode mudar o curso do futuro. Principalmente, é claro, se ela conceder a si mesma o prazer de fumar um cachimbo.
Contudo, quem conhece a vida e a obra de Tolkien sabe que há muito mais nesse início de fumada: vejo um homem que valoriza as pequenas coisas do cotidiano; um homem que descobriu a mais básica das lições: não fugir de nossos medos só aumenta a nossa própria força; um homem para quem viver pela fé inclui a chamada a algo maior do que apenas lutar, de forma covarde, pela autopreservação.
Enquanto a fumaça teima em não se dissipar, como se partilhasse do sorriso de Tolkien, vejo a satisfação de um homem consciente de que nossa única tarefa é decidir, com sabedoria, o que fazer com o tempo que nos é dado — e o principal: que até mesmo uma pequena pessoa, aparentemente inútil, pode mudar o curso do futuro. Principalmente, é claro, se ela conceder a si mesma o prazer de fumar um cachimbo.
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J. R. R. Tolkien
dezembro 20, 2013
Vejamos o Verbo
De
todas as mensagens de Natal que tenho recebido, a do ilustrador, cartunista e
autor de HQs João Spacca foi a que mais me emocionou. Com a inestimável ajuda
do Padre Antônio Vieira, Spacca sintetiza o mistério e a novidade do Natal. O
Verbo que se deixa ver ressurge no verbo desse orador sacro que repudiava a
retórica vazia e pomposa, típica da literatura brasileira. O Verbo do Deus cujo
dizer é fazer renasce, graças ao traço de Spacca, na “designação precisa e
inconfundível das coisas” do estilo de Vieira, como bem o definiu Amadeu Amaral.
Deixo vocês com as imagens e desejo a todos um Santo Natal.
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Padre António Vieira
dezembro 13, 2013
A hora para reler Eliot
Por que voltar aos
ensaios de T. S. Eliot? Foi o que me perguntei quando selecionava os textos que
pretendia analisar no curso “A Descoberta do Ensaio”. Os trechos abaixo,
retirados de “O que é um clássico?” – originalmente escrito como um discurso à
Virgil Society, proferido em 1944 –, respondem à pergunta; e também corroboram
o que Russell Kirk disse a respeito de Eliot: “É possível que em uma distante
época futura, quando a história do século XX parecer bárbara e desconcertante
como as crônicas da Escócia medieval, a aguda perspicácia de Eliot deva ser
lembrada como a luz mais clara que resistiu às trevas universais”. Pensamento que
me leva a repetir o que afirmo a alguns amigos: esta é a hora para reler Eliot.
Evolução da língua e maturidade da literatura
A maturidade de uma literatura é um reflexo da sociedade dentro da qual ela se manifesta: um autor individual – especialmente Shakespeare e Virgílio – pode fazer muito para desenvolver sua língua, mas não pode conduzir essa língua à maturidade a menos que a obra de seus antecessores a tenha preparado para seu retoque final. Por conseguinte, uma literatura amadurecida tem uma história atrás de si – uma história que não é apenas uma crônica, um acúmulo de manuscritos e textos dessa espécie, mas uma ordenada, embora inconsciente, evolução de uma língua capaz de realizar suas próprias potencialidades dentro de suas próprias limitações.
Criatividade
A persistência da criatividade em qualquer povo consiste [...] na manutenção de um equilíbrio coletivo entre a tradição no sentido mais amplo – a personalidade coletiva, por assim dizer, consubstanciada na literatura do passado – e a originalidade da geração que se encontra viva.
Presente, passado e futuro
[...] Enquanto estivermos dentro de uma literatura, enquanto falarmos a mesma língua e tivermos fundamentalmente a mesma cultura que produziu a literatura do passado, desejaremos conservar duas coisas: o orgulho de que nossa literatura já se cumpriu e a crença de que pode ainda cumprir-se no futuro. Se deixássemos de acreditar no futuro, o passado deixaria de ser plenamente o nosso passado: tornar-se-ia o passado de uma civilização morta.
Nefasto provincianismo
Em nossa época, quando os homens parecem mais do que propensos a confundir sabedoria com conhecimento, e conhecimento com informação, e a tentar resolver problemas da vida em termos de engenharia, começa a emergir na existência uma nova espécie de provincianismo que talvez mereça um novo nome. É um provincianismo, não de espaço, mas de tempo, aquele para o qual a história é simplesmente a crônica dos projetos humanos que têm estado a serviço de suas reviravoltas e que foram reduzidos à sucata, aquele para o qual o mundo constitui a propriedade exclusiva dos vivos, a propriedade da qual os mortos não partilham.
Evolução da língua e maturidade da literatura
A maturidade de uma literatura é um reflexo da sociedade dentro da qual ela se manifesta: um autor individual – especialmente Shakespeare e Virgílio – pode fazer muito para desenvolver sua língua, mas não pode conduzir essa língua à maturidade a menos que a obra de seus antecessores a tenha preparado para seu retoque final. Por conseguinte, uma literatura amadurecida tem uma história atrás de si – uma história que não é apenas uma crônica, um acúmulo de manuscritos e textos dessa espécie, mas uma ordenada, embora inconsciente, evolução de uma língua capaz de realizar suas próprias potencialidades dentro de suas próprias limitações.
Criatividade
A persistência da criatividade em qualquer povo consiste [...] na manutenção de um equilíbrio coletivo entre a tradição no sentido mais amplo – a personalidade coletiva, por assim dizer, consubstanciada na literatura do passado – e a originalidade da geração que se encontra viva.
Presente, passado e futuro
[...] Enquanto estivermos dentro de uma literatura, enquanto falarmos a mesma língua e tivermos fundamentalmente a mesma cultura que produziu a literatura do passado, desejaremos conservar duas coisas: o orgulho de que nossa literatura já se cumpriu e a crença de que pode ainda cumprir-se no futuro. Se deixássemos de acreditar no futuro, o passado deixaria de ser plenamente o nosso passado: tornar-se-ia o passado de uma civilização morta.
Nefasto provincianismo
Em nossa época, quando os homens parecem mais do que propensos a confundir sabedoria com conhecimento, e conhecimento com informação, e a tentar resolver problemas da vida em termos de engenharia, começa a emergir na existência uma nova espécie de provincianismo que talvez mereça um novo nome. É um provincianismo, não de espaço, mas de tempo, aquele para o qual a história é simplesmente a crônica dos projetos humanos que têm estado a serviço de suas reviravoltas e que foram reduzidos à sucata, aquele para o qual o mundo constitui a propriedade exclusiva dos vivos, a propriedade da qual os mortos não partilham.
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Curso "A descoberta do ensaio",
T. S. Eliot
dezembro 05, 2013
Equívocos e retórica – Jackson de Figueiredo e “Literatura reacionária”
No Rascunho deste mês, analiso a coletânea de artigos publicada por Jackson de Figueiredo (acima, na ilustração de Leandro
Valentim) em 1924: Literatura reacionária.
Descontados os equívocos estéticos e políticos, além do texto muitas vezes
enfadonho, é possível encontrar, com uma pinça, trechos atuais e instigantes.
Para quem se interessar, meu ensaio está aqui. A análise sobre Jackson de
Figueiredo encerra a segunda parte da minha revisão dos prosadores brasileiros,
iniciada com a esquecida romancista Júlia Lopes de Almeida. A primeira já está publicada, no livro Muita retórica - Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha).
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Crítica literária,
Jackson de Figueiredo,
Literatura reacionária
novembro 28, 2013
Cachimbos e estilo, duas coisas nada simples
Meus
amigos dirão que exagero. E os que não têm a nem sempre agradável experiência
de conviver comigo certamente afirmarão o mesmo. Mas cumprirei a tarefa de ser
previsível, ao menos no que se refere a esses pequenos prazeres que me concedo,
e afirmarei que o poder de se expressar a respeito de assuntos aparentemente
triviais, transformando-os de acordo com um conjunto particular de emoções, é uma
habilidade capaz de demonstrar o grau de aperfeiçoamento a que uma nação ou um
povo chegou. É o que sinto quando leio as crônicas de Gregory L. Pease, especialmente
a última, “It’s Not That Simple”. Ele transforma o ato de encher um fornilho
com tabaco, acendê-lo e fumar durante largos minutos num exercício de reflexão
e poesia. E não há, desculpem-me os sensíveis, ninguém que faça isso em língua
portuguesa. Em poucas linhas, Pease perscruta a relação do homem com o tabaco e
o cachimbo, analisando-a não como um passatempo – a malta antitabagista diria “vício”
–, mas como uma característica da sutileza, da complexidade e, por que não?, do
requinte a que nós, pobres humanos, podemos chegar. A crônica é, sem dúvida, o
gênero literário mais ingrato, transformada, quase sempre, em presa do efêmero
pelos escritores, mas Gregory L. Pease, ainda que fale de um gesto extremamente
fugaz, consegue torná-lo atemporal, histórico. Além, é claro, de conceder
alegria a este prosélito dos cachimbos.
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Cachimbos
novembro 25, 2013
A crítica de Otto Maria Carpeaux que o Brasil prefere esquecer
Em
1958, quando lança Presenças, Otto
Maria Carpeaux inclui no volume uma crítica devastadora sobre Canaã, de Graça Aranha. Não há o que
contestar na sua breve, mas corajosa, completa análise. E não deixa de ser
curioso o comportamento de muitos dos nossos scholars, que insistem em tratar Canaã como um romance, por qualquer motivo, fundamental. A impressão
que nos passam é triste: aparentam seguir a tese de que, para se firmar, para
efetivamente possuir um cânone nacional, dependemos de algumas muletas capengas
– uma delas, Canaã.
A seguir, a íntegra do texto de Carpeaux:
A seguir, a íntegra do texto de Carpeaux:
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Graça Aranha,
Otto Maria Carpeaux
novembro 21, 2013
João Francisco Lisboa finalmente reeditado na íntegra
Acaba de ser
reeditada a Obra Completa do
maranhense João Francisco Lisboa, um dos mais geniais prosadores da língua portuguesa,
sobre quem escrevi o ensaio “O ironista macambúzio”, presente em meu livro Muita Retórica – Pouca Literatura (de Alencar a Graça Aranha).
A edição é da Academia Maranhense de Letras, sob os cuidados de Jomar Moraes, a quem agradeço pelo envio dos 4 volumes e da simpática carta.
Graças ao gesto de boa vontade do acadêmico Jomar Moraes, poderei, finalmente, ler a íntegra de três textos há anos inacessíveis: os folhetins “A Festa de Nossa Senhora dos Remédios”, “A Festa dos Mortos ou a Procissão dos Ossos” e “Teatro São Luís”.
Como afirmou Álvaro Lins – juízo com o qual concordo ipsis litteris –, “que se compare a prosa do autor do Jornal de Timon, pelo senso estilístico e pela estrutura literária, com a de seus contemporâneos […], sem excluir José de Alencar, de expressão formal tantas vezes insuportável na frouxidão ou vacuidade do seu verbalismo […] — e ver-se-á, então, que João Francisco Lisboa não parece só um escritor de outra época, mas até de outro país e de outra literatura. Como prosador, aproxima-se dele, naquele tempo, tão só Manuel Antônio de Almeida” (em A glória de César e o punhal de Brutus).
A edição é da Academia Maranhense de Letras, sob os cuidados de Jomar Moraes, a quem agradeço pelo envio dos 4 volumes e da simpática carta.
Graças ao gesto de boa vontade do acadêmico Jomar Moraes, poderei, finalmente, ler a íntegra de três textos há anos inacessíveis: os folhetins “A Festa de Nossa Senhora dos Remédios”, “A Festa dos Mortos ou a Procissão dos Ossos” e “Teatro São Luís”.
Como afirmou Álvaro Lins – juízo com o qual concordo ipsis litteris –, “que se compare a prosa do autor do Jornal de Timon, pelo senso estilístico e pela estrutura literária, com a de seus contemporâneos […], sem excluir José de Alencar, de expressão formal tantas vezes insuportável na frouxidão ou vacuidade do seu verbalismo […] — e ver-se-á, então, que João Francisco Lisboa não parece só um escritor de outra época, mas até de outro país e de outra literatura. Como prosador, aproxima-se dele, naquele tempo, tão só Manuel Antônio de Almeida” (em A glória de César e o punhal de Brutus).
novembro 18, 2013
Para iniciar o projeto Relendo os Clássicos, um curso sobre Joseph Conrad
Como
anunciei aqui em agosto, já está no ar o primeiro curso da série “Relendo os Clássicos” – e começamos
com Joseph Conrad. São 4 aulas, em
que falo sobre o romance O Agente Secreto,
a novela O Coração da Treva e os
contos Mocidade e O Parceiro Secreto. As inscrições podem
ser feitas na página do Cedet On-line, na qual se encontram informações
detalhadas.
novembro 11, 2013
A sabedoria de Léon Bloy
“Não há
literatura ‘jovem’ – há pessoas de talento e nulidades...”
“Quando um
grande homem aparece, perguntai primeiro onde está a sua dor.”
“Não conheço
situação mais vizinha do inferno do que essa: um artista que não pode ver suas
obras sem nojo, um escritor que não pode se reler.”
“O visível é a
marca dos passos do Invisível.”
“Se,
verdadeiramente, um livro, sobretudo um romance, existe, só pode ser em virtude de uma concepção genial e unipessoal
da vida humana. É preciso, necessariamente, que haja nele o que se chama uma
idéia, isto é: uma maçã metafísica colhida na árvore do bem e do mal, e posta,
para amadurecer, na palha de um estilo qualquer.”
“O homem será sempre o
apaixonado escravo da dor. Fará dela sempre sua beleza e sua glória.”
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Léon Bloy
novembro 10, 2013
O mau humor de Léon Bloy
Arthur Rimbaud: “Um aborto que defeca aos pés do
Himalaia.”
Liev Tolstói: “Lido Anna Kariênina. Infinito nojo.”
H. G. Wells: “Ateísmo anglo-saxão. Esse homem dá a
impressão de escrever no fundo de um poço.”
Émile Zola: “Não existe escritor que tenha aviltado
tanto a língua francesa, não há sofista que tenha prostrado o pensamento
francês em lugares mais baixos, e não se imagina uma aparência de homem que
tenha merecido mais o suplício último.”
Filosofia: “A filosofia talvez não seja uma
ocupação maldita, mas é, certamente, o que há de mais inútil no mundo.”
Paul Verlaine: “Um anjo que se afoga na lama. Fachada
de igreja e porta de botequim.”
Flaubert: “La
Tentation de Saint Antoine é um dos livros mais tolos e mais abjetos de que
se honra a literatura contemporânea.”
Schopenhauer: “Fétido.”
Émile Zola: “Só mesmo eu
continuo a ler Zola. Os próprios porcos não querem mais.”
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Léon Bloy
novembro 06, 2013
O mercado é uma questão de educação e cultura
Em artigo
recente, “O mercado é uma questão de língua”, Hugo Gonçalves aponta as dificuldades
culturais supostamente causadas pelas diferenças – na sintaxe e no vocabulário
– entre o português brasileiro e o de Portugal.
Ao contrário do que aponta o artigo, penso que a lusofonia não é uma ilusão. A ilusão está toda na idéia de que, no Brasil, há leitores. Mas não há. E a maioria dos existentes não consegue ler uma legenda de filme na velocidade necessária. Num país assim, as diferenças entre um português e outro ganham, é evidente, perfil monstruoso.
O problema fica claro quando Girão cita as edições do livro O Retorno, da ficcionista Dulce Maria Cardoso: em Portugal, a obra vendeu 18 mil exemplares; no Brasil, 2 mil (se é que chegou a tanto). Ora, a tese de que a má recepção do romance no Brasil se deve a dessemelhanças lingüísticas é inaceitável – significa querer mascarar o óbvio: no Brasil, repito, não há leitores. E se eles não existem – ou não existem na mesma proporção e com a mesma qualidade que há em Portugal –, não pode haver mercado.
Esse, aliás, é um dos motivos pelos quais as editoras brasileiras se agarram às compras milionárias do governo federal, seu bote salva-vidas.
O que nos separa de Portugal não é a língua, mas o estado da cultura e da educação do brasileiro, que chega a cometer aberrações como a de erigir à condição de intelectuais artistas que, em outros países, jamais deixariam de ser o que realmente são: meras figuras de entretenimento.
Mas voltemos ao artigo: ali encontramos a compreensível decepção da editora Bárbara Bulhosa. Não sei se ela acreditou que duas décadas de governos de esquerda revolucionariam o Brasil. De qualquer forma, o que deveria ser uma revolução de repercussões seculares transformou-se num traque, infelizmente milenar, como, aliás, demonstrou a matéria recentemente publicada pela BBC, “‘Geração do diploma’ lota faculdades, mas decepciona empresários”, radiografia do Brasil que ainda demorará muito para ter bons leitores como Portugal: “Administradores recém-formados não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos não conseguem resolver equações simples, estagiários ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos”.
Quando se trata de educação e cultura, não há milagres, ainda que a esquerda tenha se especializado em produzir miragens, sua única vocação. Portanto, não coloquem a culpa na língua portuguesa, não tentem esconder o sol com uma peneira. A questão é simples: quando há educação e cultura, barreiras lingüísticas muito maiores se desfazem como estátuas de sal.
Ao contrário do que aponta o artigo, penso que a lusofonia não é uma ilusão. A ilusão está toda na idéia de que, no Brasil, há leitores. Mas não há. E a maioria dos existentes não consegue ler uma legenda de filme na velocidade necessária. Num país assim, as diferenças entre um português e outro ganham, é evidente, perfil monstruoso.
O problema fica claro quando Girão cita as edições do livro O Retorno, da ficcionista Dulce Maria Cardoso: em Portugal, a obra vendeu 18 mil exemplares; no Brasil, 2 mil (se é que chegou a tanto). Ora, a tese de que a má recepção do romance no Brasil se deve a dessemelhanças lingüísticas é inaceitável – significa querer mascarar o óbvio: no Brasil, repito, não há leitores. E se eles não existem – ou não existem na mesma proporção e com a mesma qualidade que há em Portugal –, não pode haver mercado.
Esse, aliás, é um dos motivos pelos quais as editoras brasileiras se agarram às compras milionárias do governo federal, seu bote salva-vidas.
O que nos separa de Portugal não é a língua, mas o estado da cultura e da educação do brasileiro, que chega a cometer aberrações como a de erigir à condição de intelectuais artistas que, em outros países, jamais deixariam de ser o que realmente são: meras figuras de entretenimento.
Mas voltemos ao artigo: ali encontramos a compreensível decepção da editora Bárbara Bulhosa. Não sei se ela acreditou que duas décadas de governos de esquerda revolucionariam o Brasil. De qualquer forma, o que deveria ser uma revolução de repercussões seculares transformou-se num traque, infelizmente milenar, como, aliás, demonstrou a matéria recentemente publicada pela BBC, “‘Geração do diploma’ lota faculdades, mas decepciona empresários”, radiografia do Brasil que ainda demorará muito para ter bons leitores como Portugal: “Administradores recém-formados não sabem escrever um relatório ou fazer um orçamento, arquitetos não conseguem resolver equações simples, estagiários ignoram as regras básicas da linguagem ou têm dificuldades de se adaptar às regras de ambientes corporativos”.
Quando se trata de educação e cultura, não há milagres, ainda que a esquerda tenha se especializado em produzir miragens, sua única vocação. Portanto, não coloquem a culpa na língua portuguesa, não tentem esconder o sol com uma peneira. A questão é simples: quando há educação e cultura, barreiras lingüísticas muito maiores se desfazem como estátuas de sal.
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novembro 03, 2013
Murilo Mendes: “Camões – o homem sim”
“O
homem moderno efetuou a disjunção entre a palavra e o fato; é um homem dúbio,
farisaico. O homem Camões é firme e integral. Nele não combatem o sim e o não.
O homem Camões é o Sim. Seu ato é fiel à sua palavra. Este Luís de Camões sabia
muito bem o que é o Verbo: por isso pôde encarná-lo.” (em O Discípulo de Emaús)
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novembro 02, 2013
Alcides Maia – o filho tardio de Alencar
No Rascunho deste mês, analiso Alma bárbara, coletânea de contos do
gaúcho Alcides Maia, publicada em 1922. A seguir, um trecho do ensaio:
“Água parada”, que abre o volume, já anuncia o saudosismo do autor e seu apego aos adjetivos. A narrativa idílica, que não chega a criar um conto, fixa-se no tema bucólico e aí permanece, definindo certa idealizada lagoa como “profunda, singular, diferente de todas”, com águas também “profundas”, novamente “diferentes” e, por fim, “atraentes”. Vencidos poucos parágrafos, a água torna-se “calada, solitária, arrastadora”, mais uma vez “atraente” e, a seguir, “indiferente”. Sob o domínio de tal adjetivação, o discurso pernóstico, de nítida influência alencariana, é conseqüência inevitável: “Lá embaixo, bem no fundo, estremeceria ainda, na algidez dos seus desejos torpentes, alguma iara sonolenta, das que outrora seduziam os guerreiros com seus olhos cerúleos e as suas verdes madeixas?”, pergunta-se o narrador. Não faltam — elementos indispensáveis nesse tipo de texto — os lugares-comuns, na forma de “beijos de brisas perfumadas pelas flores da encosta”.
“Água parada”, que abre o volume, já anuncia o saudosismo do autor e seu apego aos adjetivos. A narrativa idílica, que não chega a criar um conto, fixa-se no tema bucólico e aí permanece, definindo certa idealizada lagoa como “profunda, singular, diferente de todas”, com águas também “profundas”, novamente “diferentes” e, por fim, “atraentes”. Vencidos poucos parágrafos, a água torna-se “calada, solitária, arrastadora”, mais uma vez “atraente” e, a seguir, “indiferente”. Sob o domínio de tal adjetivação, o discurso pernóstico, de nítida influência alencariana, é conseqüência inevitável: “Lá embaixo, bem no fundo, estremeceria ainda, na algidez dos seus desejos torpentes, alguma iara sonolenta, das que outrora seduziam os guerreiros com seus olhos cerúleos e as suas verdes madeixas?”, pergunta-se o narrador. Não faltam — elementos indispensáveis nesse tipo de texto — os lugares-comuns, na forma de “beijos de brisas perfumadas pelas flores da encosta”.
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Ricardo Güiraldes
novembro 01, 2013
Paulo César de Araújo e os verdadeiros reacionários
Assisti
atentamente ao Programa Roda Viva desta semana, em que o jornalista e professor
Paulo César de Araújo, autor da famosa biografia de Roberto Carlos, foi
entrevistado.
O que sobrou do programa, depois de ouvir todas as ponderações de Araújo? De um lado, o profissional sensato, com pleno domínio do tema que escolheu para pesquisar e que, em qualquer país civilizado, teria seu trabalho reconhecido. Do outro, artistas populares que se dizem revolucionários, este ou aquele com fama de enfant terrible, mas que na verdade são reacionários na pior acepção do termo, ou seja, hostis à democracia, à liberdade de expressão.
Abaixo, coloco o primeiro bloco do programa. Os demais podem ser vistos no YouTube:
O que sobrou do programa, depois de ouvir todas as ponderações de Araújo? De um lado, o profissional sensato, com pleno domínio do tema que escolheu para pesquisar e que, em qualquer país civilizado, teria seu trabalho reconhecido. Do outro, artistas populares que se dizem revolucionários, este ou aquele com fama de enfant terrible, mas que na verdade são reacionários na pior acepção do termo, ou seja, hostis à democracia, à liberdade de expressão.
Abaixo, coloco o primeiro bloco do programa. Os demais podem ser vistos no YouTube:
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Paulo César de Araújo
outubro 31, 2013
A saudável arte do cachimbo – Parte 3
Publicado pela
Tabacaria SIQLO, de
Florianópolis, em 2003, Cachimbo amigo,
de Herres de Souza, merece lugar de destaque na prateleira de quem pretende se
iniciar ou dá os primeiros passos na nobre arte de fumar cachimbo.
Trata-se de um
guia básico, completo o bastante para responder a grande parte das perguntas
que o iniciante, ao perceber as opções quase infindáveis que o aguardam – em
termos de cachimbos e acessórios –, sempre faz a si mesmo, às vezes com
relativa angústia.
O texto flui de
maneira agradável e o autor consegue estabelecer, logo nos primeiros capítulos,
um clima de intimidade com seu leitor. Herres de Souza dialoga conosco como se estivéssemos
sentados em poltronas confortáveis, protegidos pela penumbra de uma sala que recende
a tabaco, conhaque e especiarias.
Não pensem que
exagero. Todo iniciante gostaria de, antes de adquirir seu primeiro cachimbo,
ter lido este conselho – simples e bem escrito – sobre o formato das piteiras:
Ao examiná-las, leve em consideração se
elas se adaptam bem aos seus lábios, boca, dentes e à sua postura física ao
fumar. A piteira e a embocadura não podem importunar você no ato relaxante e prazeroso
de cachimbar.
Ou este, que
resume bem o estilo direto do autor e encerra o Capítulo 1:
O importante é, como dizem os
especialistas, que o cachimbo seja aconchegante ao tato, que se adapte bem à
sua mão, ao seu modo de vida e à sua personalidade.
Faltam ao livro
maiores informações sobre os tipos de tabaco, mas a técnica de fumar e os
procedimentos de limpeza e manutenção dos cachimbos são explicados de forma
didática, com o apoio de ilustrações:
É pena que Cachimbo amigo não possa ser encontrados
nas livrarias, mas a Tabacaria SIQLO, responsável pela edição da obra, continua de portas abertas, oferece seus produtos inclusive no Facebook e talvez ainda
disponha de alguns exemplares deste livro acolhedor.
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outubro 30, 2013
O que é um gênio?
![]() |
| Boris Pasternak |
“[...] Ele
falava formulando magníficos períodos em câmara lenta, com ocasionais torrentes
intensas de palavras. Sua fala freqüentemente transbordava as margens da
estrutura gramatical – passagens lúcidas eram seguidas por imagens loucas, mas
sempre maravilhosamente vívidas e concretas –, e essas poderiam ser seguidas
por palavras obscuras, quando era difícil acompanhá-lo – e então de repente ele
voltava a entrar numa clareira. Seu discurso era sempre o de um poeta, assim
como seus escritos. Alguém disse certa vez que há poetas que são poetas quando
escrevem poesia e prosadores quando escrevem prosa; outros são poetas em tudo o
que escrevem. Pasternak era um poeta de gênio em tudo que fazia e era. Quanto a
sua conversa, nem me atrevo a descrever sua qualidade. Só conheci uma outra
pessoa que falasse como ele: Virginia Woolf, que fazia a mente do interlocutor
disparar assim como ele conseguia fazer, obliterando no ouvinte a visão normal
da realidade do mesmo modo inebriante e, às vezes, estarrecedor.
Uso a palavra ‘gênio’ de caso pensado. Às vezes me
perguntam o que quero dizer com esse termo impreciso, mas altamente evocativo.
Em resposta, só posso afirmar o seguinte: perguntaram certa vez ao bailarino
Nijinsk como ele conseguia saltar tão alto. Parece que ele teria respondido que
não via grande problema nisso. A maioria das pessoas, quando pulava no ar,
descia à terra imediatamente. ‘Por que descer imediatamente? Pode-se ficar um
pouco no ar antes de retornar à terra, por que não?’, dizem ter sido a
resposta. Um dos critérios para definir o gênio
me parece ser precisamente isto: o poder de fazer algo perfeitamente simples e
visível, que as pessoas comuns não conseguem realizar e sabem que não podem
fazer – nem sabem como é realizado, nem por que não podem nem sequer imaginar
como fazer. Pasternak às vezes falava em grandes saltos; seu emprego das
palavras era o mais imaginativo que já encontrei; arrebatado e muito comovente.
Há sem dúvida muitas variedades de gênio
literário: Eliot, Joyce, Yeats, Auden, Russell (pela minha experiência) não
falavam assim. [...]”
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Boris Pasternak,
Curso "A descoberta do ensaio",
Isaiah Berlin
outubro 24, 2013
Homens ocos – em T. S. Eliot e Joseph Conrad
O anúncio da
morte de Kurtz, que Eliot utiliza como epígrafe do longo poema “The Hollow Men”
(“Os Homens Ocos”), proclama que, finalmente, o personagem emudeceu. Os que
leram O Coração das Trevas, de Joseph
Conrad, devem se lembrar da eloqüência de Kurtz, da forma como repetia os
possessivos, acreditando-se dono de tudo – ele, “sombra insaciável de
aparências esplendorosas e aterradoras realidades; sombra mais escura que as
sombras da noite e envolta nas dobras de uma deslumbrante eloqüência”,
conta-nos Marlow, o narrador.
Kurtz é um dos
homens ocos, um “elmo cheio de nada”, como escreve Eliot no início do poema:
Mas de que tipo de vazio
fala Eliot? Marlow nos conta qual o vazio de Kurtz: “Tanto o amor diabólico
quanto o ódio sobrenatural dos mistérios em que havia penetrado disputavam a
posse daquela alma saciada de emoções primitivas, ávida de glórias enganosas,
de falsas honrarias, de todas as aparências do sucesso e do poder”. Na verdade,
o vazio é apenas uma metáfora para definir a abundância das coisas inúteis, o
excesso de tudo que representa opulência, mas que transforma os homens em seres
“empalhados”.
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Joseph Conrad,
T. S. Eliot
outubro 22, 2013
Literatura, crítica literária e muito mais
Nos últimos
vinte dias, concedi três entrevistas, nas quais falo sobre crítica literária,
meus cursos on-line, ensino de literatura nas escolas e nas faculdades,
e-books, poesia, escrita criativa e muito mais. Para os que desejarem conhecer
um pouco de minhas idéias, estes são os links:
outubro 20, 2013
Ana Maria Machado engana-se mais uma vez
Na entrevista
concedida ao jornal Valor Econômico (18/10/2013),
a escritora Ana Maria Machado comete novo deslize (vejam meu post de 29/08/2013) ao afirmar, referindo-se a
seu romance Infâmia: “Não apareceu um
único crítico, num único jornal, que fizesse uma resenha ou um comentário
mostrando que tinha lido o livro”.
De fato, a presidente da Academia Brasileira de Letras parece desconhecer o que se passa a seu redor: se fosse minimamente informada, teria lido meu texto na Folha de S. Paulo (29/11/2012), no qual explico a nota zero que dei a seu romance e saliento a) as cansativas referências literárias, históricas e bíblicas que ela utiliza para referendar as teses que se espraiam pelo romance, b) o enredo esquemático, em que as personagens só conseguem emitir julgamentos repetitivos e politicamente corretos, c) o didatismo escancarado, d) os estereótipos e as cenas inverossímeis.
Em meio às respostas recheadas de lugares-comuns, o entrevistador sai em defesa da escritora e considera “um disparate” a nota zero que lhe dei. Ora, no Brasil em que a crítica literária, com honrosas exceções, especializou-se em elaborar discursos anódinos ou açucarados, acariciar cocurutos de escritores e se esconder sob a sintaxe intrincada e o vocabulário muitas vezes hermético, é perfeitamente compreensível que pretendam transformar o ato de julgar num disparate. “O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”, caros leitores.
De fato, a presidente da Academia Brasileira de Letras parece desconhecer o que se passa a seu redor: se fosse minimamente informada, teria lido meu texto na Folha de S. Paulo (29/11/2012), no qual explico a nota zero que dei a seu romance e saliento a) as cansativas referências literárias, históricas e bíblicas que ela utiliza para referendar as teses que se espraiam pelo romance, b) o enredo esquemático, em que as personagens só conseguem emitir julgamentos repetitivos e politicamente corretos, c) o didatismo escancarado, d) os estereótipos e as cenas inverossímeis.
Em meio às respostas recheadas de lugares-comuns, o entrevistador sai em defesa da escritora e considera “um disparate” a nota zero que lhe dei. Ora, no Brasil em que a crítica literária, com honrosas exceções, especializou-se em elaborar discursos anódinos ou açucarados, acariciar cocurutos de escritores e se esconder sob a sintaxe intrincada e o vocabulário muitas vezes hermético, é perfeitamente compreensível que pretendam transformar o ato de julgar num disparate. “O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol”, caros leitores.
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