outubro 16, 2013

Três poemas de Emily Dickinson


Dizer toda a Verdade – em modo oblíquo –
           No Circunlóquio, o êxito:
Brilha demais p’ra nosso enfermo gozo
            O seu sublime susto.

Como a meninos se explica o relâmpago
            De modo a sossegá-los –
A Verdade há de deslumbrar aos poucos
             Os homens – p’ra não cegá-los.

***

Brincamos com pedra falsa,
Puxando-a ao ponto de pérola –
Depois soltamos a massa
E vemos quão tolos fomos – 

E, no entanto, as formas eram análogas, –
E a mão que ainda tateia
Aprendeu tática de gemas
Praticando com areia. 

*** 

A beleza não se faz – ela é.
Você a caça, ela cessa;
Se desiste, ela persiste. 

Tente imitar as estrias 

No capinzal, quando o vento
Corre-lhe os dedos por dentro –
Algum deus vai estar atento
Para frustrar o seu intento.
 
(Tradução de Aíla de Oliveira Gomes)

outubro 15, 2013

Sobriedade e sutileza – Amadeu Amaral e “A pulseira de ferro”

Amadeu Amaral por Fábio Abreu
No jornal Rascunho deste mês, minha análise do principal trabalho de ficção escrito pelo paulista Amadeu Amaral. Esta é a abertura do ensaio:

Amadeu Amaral permanece indispensável à cultura brasileira graças a O dialeto caipira — estudo pioneiro sobre as características da linguagem no interior do Estado de São Paulo —, à permanente campanha em defesa do folclore, cujas pesquisas nos permitiriam alcançar o que ele chamava de “conhecimento exato da nossa gente”, e aos insights das análises literárias reunidas em O elogio da mediocridade, incluindo o ensaio que dá título ao livro, deliciosa peça de ironia sobre o papel do crítico e dos escritores. Poeta menor, deixou uma novela exemplar, A pulseira de ferro, presente no volume “Novela e conto” de suas Obras completas — publicadas por causa do empenho de Paulo Duarte, intelectual paulista injustamente esquecido.

outubro 08, 2013

Jorge Luis Borges e o sofrimento como argila

“Um escritor, ou todo homem, deve pensar que tudo o que lhe ocorre é um instrumento; todas as coisas lhe foram dadas para determinado fim – e isso tem de ser mais forte no caso de um artista. Tudo o que acontece a ele, inclusive as humilhações, as vergonhas, as desventuras, todas essas coisas lhe foram dadas como argila, como matéria-prima para sua arte; ele tem de aproveitá-las. Por isso já falei num poema do antigo alimento dos heróis: a humilhação, a desgraça, a discórdia. Essas coisas nos foram dadas para que as transmutemos, para que façamos, da miserável circunstância de nossa vida, coisas eternas ou que aspirem a sê-lo.” – Jorge Luis Borges (“A cegueira”, em Borges oral & Sete noites)

outubro 07, 2013

Como pensa um esquerdista?

Você deseja entender como pensa um esquerdista? Quer compreender a mentalidade revolucionária? Então, leia O Agente Secreto, de Joseph Conrad, publicado em 1907. Baseado em fatos reais – um atentado anarquista ocorrido em Londres, no ano de 1894, e que provocou a morte de seu autor, o francês Marcial Bourdin –, trata-se de um dos grandes romances políticos da literatura ocidental, comparável a O vermelho e o negro, de Stendhal, Os demônios, de Dostoiévski, Princesa Casamassima, de Henry James, ou O Zero e o Infinito, de Artur Koestler. Conrad faz uma análise implacável da “sangrenta futilidade” e da “irracionalidade malévola” dos movimentos revolucionários – e nos mostra como “o caminho da revolução, mesmo a mais justificável, é preparado por impulsos pessoais disfarçados em credos”. 

Esse e outros textos de Conrad serão analisados por mim no projeto “Relendo os clássicos”, sobre o qual já falei neste blog e que logo estará disponível no Cedet On-line.

outubro 04, 2013

O animal que não investiga

“[...] O mundo geralmente não está interessado nos motivos de qualquer ato público mas em suas conseqüências. O homem pode sorrir e tornar a sorrir, mas não é um animal que investiga. Ele ama o óbvio. Exime-se de explicações.”

– Joseph Conrad, no Prefácio do romance O Agente Secreto.

outubro 03, 2013

A saudável arte do cachimbo – Parte 2

Capa
Acabo de adquirir o livro História do Cachimbo, publicado em 1970. Segundo informações que recebi de um membro da Confraria dos Amigos do Cachimbo, Cláudio Carvalho, “tecnicamente foi o primeiro livro a tratar do tema no Brasil”. É uma brochura de poucas páginas, sem autoria, mas agradavelmente ilustrada, contendo informações básicas sobre a história do cachimbo, a arte de fumar e outras curiosidades.

Dois pontos chamaram minha atenção: primeiro, o autor desconhecido não partilha da tese de que existe a “maldição dos cachimbeiros”, segundo a qual estaríamos condenados a não sentir o aroma dos tabacos enquanto fumamos. Quando fui informado da “maldição” fiquei perplexo, pois, nestes poucos meses em que me dedico ao cachimbo, sempre senti, ainda que momentaneamente e em diferentes escalas, o aroma dos meus tabacos. Agora, neste livro, vejo que não estou só. O autor afirma, de maneira clara – e quase lírica:

“O homem tem cinco sentidos. O fumante inteligente precisa de todos os cinco para fruir plenamente de um cachimbo:
o paladar – porque ele saboreia a fumaça do tabaco na língua;
o olfato – porque ele aspira o perfume pelo nariz;
a visão – porque o cachimbo e as tênues nuvens de fumaça encantam os olhos;
o tato – porque é gostoso envolver o cachimbo com a mão e apalpar o fornilho;
a audição – porque o suave crepitar da brasa é música para o ouvido do fumante”.

Como vemos pelo texto desta página, em 1970 o Brasil ainda desconhecia "a ira dos intolerantes"
O livro termina oferecendo ao leitor algumas informações curiosas sobre fumantes célebres, das quais selecionei as que mais me agradaram exatamente por sua singularidade:

“William Thackeray [importante romancista inglês do século XIX] certa vez escreveu: ‘O cachimbo faz sair a sabedoria da boca do filósofo e fecha a boca do tolo’.”

“Thomas Yewat, um grande industrial de Ohio, quebrou por infelicidade um de seus cachimbos prediletos. Por causa disto durante três meses vestiu traje de luto.”

E a última, carregada de delicioso humor:

“São por demais conhecidas, mas tão espirituosas que merecem ser repetidas, as palavras do célebre caricaturista Paul Gavarni, dirigidas a um amigo, pouco antes de morrer: ‘Deixo-te meu cachimbo e minha mulher; cuide bem do cachimbo’.
Uma das ilustrações de Paul Gavarni

setembro 26, 2013

A saudável arte do cachimbo

Uma de minhas decisões mais acertadas foi, por influência de minha esposa, abandonar o charuto e migrar para o mundo dos cachimbos. A variedade de tabacos, a verdadeira arte que há em produzir e mesclar tabacos, além dos próprios cachimbos, com sua infinidade de tipos, marcas e formatos, dá vida a um universo muito mais interessante, sedutor e saboroso do que o dos charutos. Cada novo blend é uma viagem ao interior de sabores e perfumes inesperados; cada novo cachimbo carrega em suas curvas, em seu design, parcela dessa característica, infelizmente não muito comum nos homens, de continuamente se aperfeiçoar.

Ainda estou nos primeiros passos, mas já experimentei horas agradáveis utilizando o cachimbo como ponte para o mundo das abstrações, para a meditação, o simples e descomprometido lazer – e também para, no silêncio da madrugada, orar. O cachimbo é um permanente convite à introspecção.

Nas últimas semanas, fiz rápida pesquisa sobre livros que, publicados no Brasil, tratassem do tema. O resultado, é claro, foi decepcionante. Mas descobri, nesse deserto bibliográfico, um verdejante arbusto: Tabacos e cachimbos – de Cristóvão Colombo até hoje, de Alfredo A. Maia. O autor é decano da Confraria dos Amigos do Cachimbo e tem muito a ensinar. Coloco abaixo a capa e o Sumário, para que possam ter idéia do conjunto de informações – e recomendo a obra, manual seguro para os que se iniciam nessa nobre arte. O livro, infelizmente, não está disponível nas livrarias e só pode ser adquirido com o próprio autor via e-mail.



setembro 25, 2013

Antes do silêncio – Carmen Laforet e “Nada”

Carmen Laforet pertence àquele grupo de escritores notabilizados por uma única obra, que alcançou sucesso graças à confluência de vários fatores, incluindo o literário. No caso específico dessa catalã, é curioso que, depois do seu primeiro e famoso romance, Nada, a crítica tenha deixado de se empolgar com os poucos trabalhos que ela publicou – e há certa estranheza na maneira como Laforet acaba enveredando por uma senda de progressivo isolamento. Nem mesmo seu terceiro livro, La mujer nueva, narrativa de sua angustiada reconversão ao catolicismo – que lhe valeu o Prêmio Menorca, o Prêmio Nacional de Literatura e alguns problemas com a censura eclesiástica que vigorava na Espanha franquista –, demonstrou ter força suficiente para não apenas impor-se no quadro da literatura espanhola, mas, principalmente, convencer a escritora do seu próprio valor. Em 1963 surgiria um novo romance, La insolación, mas a partir desse ponto a voz de Laforet murcha até alcançar completo silêncio, sem cumprir o plano da trilogia intitulada Tres pasos fuera del tiempo, da qual La insolación seria o primeiro volume. O segundo, Al volver la esquina, surgirá postumamente, em 2004.

Assim, chega a ser desolador que o furacão provocado por Nada não tenha se repetido. Depois de vencer a primeira edição do Prêmio Nadal, o romance, publicado em 1945, ganhou reimpressões quase que imediatas. Mais tarde, em 1948, a Real Academia Espanhola distingue Laforet com o Prêmio Fastenrath, o que assegura ao livro um êxito que repercutiria nas décadas de 1950 e 1960, conquistando, até hoje, leitores e o respeito da crítica.

Sem diminuir o valor da obra, essa reação, quando analisada passado mais de meio século, pode ser facilmente compreendida: na Espanha em que o ódio entre franquistas e republicanos permanecia latente, com algumas das melhores vozes literárias exiladas, mortas ou silenciadas pela censura, parece natural que a jovem Carmen Laforet e sua personagem/narradora Andrea – ingênua, tímida e frágil, tentando se libertar de uma família moralmente devastada, e ao mesmo tempo ansiando por amizade, amor e segurança – arrebatassem o país. Elas se tornaram, sem dúvida, a metáfora de uma Espanha que, apesar da destruição e dos miasmas da guerra que também devastara a Europa, buscava renascer.

Pássaros escuros

O primeiro capítulo de Nada já mostra a desenvoltura de Laforet. Em meio à chegada solitária na Barcelona noturna, carregando a mala repleta de livros, Andrea registra as primeiras impressões da cidade – intensas, marcadas por um poder de síntese que recupera odores, luzes, sons – e o clima de crescente expectativa, rompido abruptamente, logo no primeiro contato com os familiares, “figuras alongadas, quietas e tristes, como luzes de um velório de interior”. A partir daí, a ansiedade da jovem se transmuta em pesadelo. O apartamento da rua Aribau fede, o banheiro parece povoado de figuras fantasmagóricas e a cama, preparada às pressas, coberta pela manta preta, assemelha-se a um ataúde. As ilusões se desfazem.

A família neurótica que a acolhe vive impulsionada por crises e escândalos. A violência entre irmãos impera. E o drama será levado ao extremo pela crescente pobreza, pela fome. Relacionando-se com desrespeito e cinismo, os parentes se apegam a seus mundinhos particulares, a certezas mesquinhas, afundando cada dia mais. Naquele apartamento se concentram os vícios humanos – e a narradora compara os moradores, acertadamente, aos personagens dos Caprichos de Goya. O texto de Laforet não tem a corrosão, a sátira ou o grotesco das gravuras do pintor, mas é igualmente implacável. Angustias, a tia hipócrita e autoritária, é “uma daquelas últimas folhas de outono, mortas na árvore antes de serem arrancadas pelo vento”. Em certo trecho, a narradora lembra: “Vejo que eram como pássaros envelhecidos e escuros, com os peitos arfantes por terem voado muito num pedaço de céu muito pequeno”. A única que guarda alguma dignidade é a avó, crédula, protegida em seu casulo quase arteriosclerótico, movendo-se pelo apartamento às escuras com “distinção espectral”.

Orfandade

A esses exemplares de uma classe média fracassada, Laforet contrapõe o mundo da universidade, com os amigos igualmente burgueses, mas abastados. Pouco saberemos dos estudos, das leituras de Andrea, mas acompanhamos a vergonha que sente por causa dos sapatos envelhecidos, o sentimento de inferioridade provocado pela pobreza e a renitente mania de presentear a amiga Ena e sua mãe, mesmo que isso signifique não ter dinheiro para comer. É a forma de Andrea mendigar atenção, amor.

A jornada da protagonista oscila entre preservar sua individualidade e construir relações que possam libertá-la da família – e também de seus medos, da insegurança, de suas carências. Sem amor-próprio, porém, ela se torna uma presa fácil das armadilhas que se escondem na vida social. Mesmo a amizade com um grupo de jovens boêmios ricos, supostos artistas, não se concretiza – ao contrário, todos os relacionamentos são pouco profundos, contaminados por um persistente sentimento de inadequação. Os dias mais felizes serão passados ao lado de Ena e seu namorado, Jaime. Andrea se alegra sinceramente pelos dois, mas sente-se deslocada; e, terminados os passeios, ela voltará a experimentar a solidão.

Há uma orfandade que supera o fato de ela ter perdido os pais. Seu desamparo é mais vasto, mais denso. E para amadurecer, Andrea pagará alto preço, nada aviltante, é verdade, mas constituído por uma série de descobertas dolorosas. E ela só consegue vencer algumas de suas inseguranças e abandonar a família depois de agir exatamente como não desejava: unindo seus dois mundos, ainda que durante brevíssimo tempo.

A solução para parcela dos problemas de Andrea virá na forma de um convite inesperado, o que interrompe a narrativa abruptamente. Fica-se, portanto, com a impressão de que o processo de amadurecimento não se completou. Ela se despede de nós – e jamais saberemos quais dos seus sonhos se concretizaram. Assim, diferente do que alguns dizem, Nada não é um clássico bildungsroman, pois enfoca tão-somente uma fase crítica da existência, passageira, aquela que ultrapassamos para garantir o direito de entrar na vida adulta.

Nômade

Fernando Valls, professor de literatura espanhola contemporânea da Universidade Autônoma de Barcelona, em artigo publicado no El País, em 23 de março de 2004, questiona-se sobre o misterioso silêncio de Carmen Laforet, do qual falávamos no início desta resenha. Na opinião de Valls, “tem-se a sensação de que, uma vez realizadas as obras que tinham como fundo as vicissitudes de sua própria biografia, ela não foi capaz de obter os mesmos sucessos com a invenção de outras vidas”. Mas o crítico também aponta, com absoluta razão, o caráter ético dessa escritora, salientando a “sensatez” e a “exigência incomuns que ela demonstrou ao reconhecer sua incapacidade para alcançar de novo essa arte sincera, humilde e verdadeira à qual aspirava com tamanho afã”.

Faltam-me elementos para avançar nessas reflexões. Mas tenho a viva impressão de que Laforet passou sua vida em permanente crise, sem jamais encontrar a resposta que pudesse satisfazê-la plenamente. Em 1956, cinco anos depois de reabraçar a fé, ela renunciaria ao catolicismo. E à medida que abandona a escrita, parece navegar sem rumo, nômade em busca de certezas, como se a descoberta de Andrea repercutisse em seu íntimo: “Eu então percebia, pela primeira vez, que tudo segue, desbota, estraga enquanto a vida continua. Que não existe final na nossa história até que chega a morte e o corpo se desfaz...”. Não por outro motivo seu principal romance chama-se Nada. Mas é terrível imaginar que a melancolia ou a sensação de vazio tenham dominado sua existência. Viver imersa em uma atmosfera soturna teria sido um peso excessivo, injusto, para essa mulher cuja voz renovadora conseguiu iluminar a Espanha submersa na cisão e no ódio.

setembro 19, 2013

Marcel Reich-Ranicki (1920–2013)

Perdemos, ontem, um dos maiores críticos literários da atualidade: Marcel Reich-Ranicki. Como tantos outros pensadores essenciais, desconhecido no Brasil.

setembro 11, 2013

Críticos que não chamam de ótimo o que é medíocre

O Projeto CRITICON, sobre o qual já falei neste blog, mereceu uma simpática nota na edição do Rascunho deste mês:
A idéia de reunir os colegas foi de Cristiano Ramos, que também criou o site. Como já afirmei, CRITICON reúne críticos literários com algumas afinidades: nada de acariciar cocurutos de escritores, nada de chamar de ótimo o que é medíocre, nada de temer a honrosa tarefa de julgar. Estamos irmanados pela crítica humanista, avessa ao compadrio; e pela rejeição aos dogmatismos teóricos, pretensamente científicos. Como afirmava José Guilherme Merquior, citado por Cristiano Ramos no texto de apresentação do site, “temos coisa melhor para fazer do que permitir que nosso pensamento e sensibilidade se escravizem a uma sovada e infundada ideologia de negação e desespero”.

setembro 04, 2013

Onde estão os ensaístas ingleses?

Quando comecei a preparar o curso “A Descoberta do Ensaio”, minha consciência sobre o isolamento cultural brasileiro ganhou dimensões angustiantes. Sempre reclamei sobre o fato de Samuel Johnson e William Hazlitt serem ignorados entre nós; e, claro, que Matthew Arnold, um pouco posterior a esses dois gênios ingleses, representasse apenas certa sombra incômoda numa intelectualidade devastada pelo marxismo e pelos estruturalistas franceses. Já havia lido, com prazer, Hume e Carlyle – o primeiro, certamente não por causa do seu ceticismo. Mas, então, ao selecionar os autores que enfocaria no curso, fui me lembrando de Charles Lamb, Ruskin, Walter Pater, Macaulay, Fielding, Dryden, Cowley, Froude, Bagehot, Coleridge... e ainda Oliver Goldsmith e Thomas De Quincey... Lista interminável de magníficos ensaístas ingleses... desconhecidos, completamente desconhecidos no Brasil. Vejam, por exemplo, De Quincey: qualquer vanguardista de meia tigela já leu, é claro, “Confessions of an English Opium Eater”, traduzido, creio que pela Brasiliense, há algumas décadas – afinal, tudo que nos rebaixar ao underground é bem visto entre nós... De Quincey, no entanto, é muito mais que “Opium”. Há uma grave lacuna a preencher na nossa cultura. Lacuna humilhante, que demorará séculos para ser apagada, infelizmente.

agosto 31, 2013

Machado de Assis: sob a forma livre, amargo e perverso

Chega a ser desolador como as teorias lingüísticas, de braços dados com o marxismo, desvincularam a literatura da realidade. Quem, hoje, escreveria páginas semelhantes a essas, que coloco abaixo, de José-Maria Belo, sobre Machado de Assis? Quem teria coragem de dizer que, à parte o estilo límpido, à parte a linguagem que corresponde perfeitamente à trama, o Bruxo do Cosme Velho, como dizia Manuel Bandeira, tem “o gosto doentio de espiar o sofrimento alheio. E a psicologia dura, derrotista, insultante de quase toda a obra”?

Nos trechos a seguir, retirados do livro Inteligência do Brasil, ressurge o Machado de Assis esquecido, o Machado que estruturalistas & Cia. querem que nós esqueçamos: “Sempre o móvel egoísta, e ainda que limpo, inconfessável. [...] Um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, que nunca haveria de fazer mal a ninguém, mas não obstante um monstro”, como dizia Manuel Bandeira, sem medo de contrariar nossos críticos e acadêmicos niilistas.



agosto 29, 2013

Ana Maria Machado e sua delicada inverdade

Em entrevista concedida ao jornal Zero Hora (edição de hoje, dia 29), a escritora Ana Maria Machado refere-se à nota zero que dei ao seu romance, Infâmia, na última edição do Prêmio Jabuti. Comete, entretanto, terrível injustiça. Ou delicada inverdade.

Em certo trecho da entrevista, citando-me, a presidente da Academia Brasileira de Letras diz: “– No caso dele, o que se estranhou, pelo que se contou depois, foi que na primeira rodada ele deu nota alta para o meu livro. Na segunda, quando viu que os outros haviam dado 9 ou 10, ele mudou. Ele tinha o direito de fazer isso? Tinha, sempre tem. Mas exerceu um poder em nome de uma coisa direcionada”.

Ora, ou Ana Maria Machado pretende ocultar a verdade dos leitores gaúchos ou, o que é ainda mais surpreendente, não foi informada sobre o que ocorreu no Prêmio Jabuti. E a verdade, a absoluta verdade, é que seu romance – por ser mal escrito e não passar de uma peça de proselitismo ideológico – sequer constou na minha primeira lista de escolhidos. Diferente do que ela fala, portanto, não mudei minha nota de uma rodada a outra.

Para os que desejarem conhecer os fatos – e não as versões dos ressentidos –, sugiro que leiam a entrevista que dei ao jornal O Globo, em 3 de dezembro de 2012. Entrevista, aliás, que Ana Maria Machado, ao que parece, não quis ler. Ali, respondendo às perguntas, deixo clara minha posição: “Na minha lista de dez finalistas da fase classificatória, Infâmia, de Ana Maria Machado, nem constou”. E quando a jornalista me pergunta “Isso significa que você nem avaliou o romance de Ana Maria Machado na primeira etapa?”, respondo: “Não, eu o avaliei, mas o avaliei mal, tão mal que ele sequer ficou na minha lista de dez melhores”.

Assim, se, como diz Ana Maria Machado, “exerci um poder em nome de uma coisa direcionada”, de fato o fiz; e na direção certa: na direção de não permitir que um romance mal escrito passasse à segunda fase do Jabuti. Essa é a verdade. O resto, caros leitores, inclui-se no que dizia o Dr. Samuel Johnson: “É difícil contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem propositalmente o que julgam impossível obter”.

agosto 27, 2013

Em breve, novo projeto: “Relendo os Clássicos”

Na linha do que venho fazendo em meus cursos on-line, preparo também uma série de gravações dedicadas aos clássicos da literatura universal.

A idéia do projeto nasceu de um amigo, Lucas Monachesi, produtor audiovisual, especialista em cinema, tevê e mídias digitais pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Depois de cursar Vídeo Design no Instituto Europeu de Design de Milão, ele se estabeleceu em São Paulo, onde trabalha na gravação de comerciais, videoclipes e conteúdo didático. Assim como eu, Lucas é aluno de Olavo de Carvalho no Seminário de Filosofia. O Cedet On-line, plataforma da web em que ministro meus cursos, será responsável por disponibilizar as gravações.

A seguir, publico o trecho em que explico nosso objetivo e falo um pouco do primeiro autor escolhido: Joseph Conrad.

agosto 21, 2013

Cursos on-line de literatura – rompendo com o lugar-comum

Meu projeto no Cedet On-line tem, desde o início, a mesma estratégia: romper com os lugares-comuns que hoje são disseminados em cursos e workshops.

É um trabalho à contracorrente, no qual abandono as receitas em voga, ensino literatura sem jargões acadêmicos, sem discursos herméticos, repetindo o que faço na crítica literária: tratar a literatura como “uma das vias régias que conduzem à realização pessoal de cada um”, para usar o lúcido pensamento de Tzvetan Todorov.

A parceria já rendeu os cursos “Bases da Criação Literária”, “Prática de Leitura e Formação do Estilo” e “A Descoberta do Ensaio”, que começamos na semana passada. Os alunos não são obrigados a assistir às aulas ao vivo, pois a Internet apresenta, dentre outros, um aspecto extremamente positivo: aulas e material didático ficam gravados no site – e os cursos podem ser feitos a qualquer momento.

Novos cursos virão, para escritores e leitores, para quem deseja aperfeiçoar a técnica de escrita, conhecer literatura ou apenas ler com maior profundidade. E sem jamais tratar a obra literária como insignificante exemplo de visões formalistas, niilistas ou solipsistas – mas inserindo-a sempre na totalidade da experiência humana.

agosto 19, 2013

Olavo de Carvalho e “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”


Acaba de chegar aqui o último livro do meu caro Olavo de Carvalho: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (em pré-venda na Livraria do Seminário). Mais que uma simples coletânea da sua extensa produção de artigos, a obra apresenta importante diferencial: os textos foram organizados por temas – e o organizador do volume, Felipe Moura Brasil, teve o cuidado de acrescentar notas esclarecedoras, relevantes, que indicam bibliografia suplementar e fornecem trechos elucidativos de outros textos do autor.
 
O alentado volume oferece oportunidade ímpar aos detratores de Olavo: podem, a partir de agora, falar mal dele não motivados por suas próprias mesquinharias, mas com base no que ele realmente escreveu. A frase anterior é, claro, apenas um exercício irônico de estilo: aqueles que não leram Olavo até agora – e preferem não ler e não gostar –, dificilmente mudarão de atitude. Perdem, assim, a oportunidade de conhecer o pensamento mais audacioso que surgiu neste país nas últimas décadas. Mas isso nada significa para quem está feliz seguindo o rebanho, de olhos presos ao chão e pronto a balir em uníssono.
 
Num rápido passar de olhos, reencontrei artigos e ensaios memoráveis. Todo jovem deveria ler “Vocação e equívocos”, originalmente publicado na extinta Bravo!, em fevereiro de 2000 – exemplo do que nossos educadores deixaram de ensinar, o texto expõe a ética subjacente às aulas que Olavo ministra em seu Seminário de Filosofia.
 
Em “Literatura do baixo ventre” (Jornal da Tarde, 3 de julho de 2003), Olavo serve-se das Memórias de Adolfo Bioy Casares para realizar uma vivissecção na literatura contemporânea brasileira, grande parte dela produzida com um arremedo de fervor, tão rasteiro quanto as lições estruturalistas, desconstrucionistas e relativistas que nossos acadêmicos repetem como autômatos.
 
E se você, leitor deste blog, sente-se de alguma forma desconfortável na universidade ou no colégio; se a cada fala do professor uma luz incômoda acende em seu cérebro, sem que você consiga descobrir o motivo do seu mal-estar; ou se, depois de perceber seu desacordo em relação ao que lhe ensinaram, você ainda não alcançou clareza suficiente para compreender onde está o erro, onde está a mentira; se as lições diante das quais todos dizem “amém” já não lhe servem; em qualquer destes casos, comece o livro pela última seção, “Estudo”, e perceberá que o naufrágio da cultura nacional não é uma cena épica de Joseph Conrad, com um navio majestoso afundando depois de servir aos mais nobres ideais, mas triste, trágica decadência – à qual, entretanto, não estamos condenados.
 
A cada capítulo, falando de política internacional ou economia, desnudando nossa intelligentsia ou a farsa petista, Olavo de Carvalho reafirma o que disse, com ironia, em janeiro de 2007, no artigo “A autoridade religiosa do mal”, publicado no Diário do Comércio e reproduzido neste livro: “Não sou covarde o bastante para me abster de dizer as coisas como as vejo, só por medo de uma rotulação pejorativa”. Em outros termos, é como se dissesse: “Não me peçam para obedecer ao senso comum”.
 
Ora, o que mais se pode pedir da inteligência de um homem, exatamente quando, da janela do meu apartamento, vejo todos, praticamente todos, caminhando na mesma direção?

agosto 16, 2013

CRITICON: críticos que não têm medo de julgar


Cristiano Ramos teve a idéia, convidou colegas de ofício, criou o site e assumiu o cansativo trabalho de editar nossos textos: assim nasceu CRITICON, projeto que reúne críticos literários com algumas afinidades: nada de acariciar cocurutos de escritores, nada de chamar de ótimo o que é medíocre, nada de temer a honrosa tarefa de julgar.
 
Temos estilos diferentes, pensamentos diferentes, valores diferentes – mas estamos irmanados pela crítica humanista, avessa ao compadrio; e pela rejeição aos dogmatismos teóricos, pretensamente científicos. Como afirmava José Guilherme Merquior, citado por Cristiano Ramos no texto de apresentação do site, “temos coisa melhor para fazer do que permitir que nosso pensamento e sensibilidade se escravizem a uma sovada e infundada ideologia de negação e desespero”.
 
Com vocês, amigos e leitores, CRITICON, reunindo Cristiano Ramos, Eduardo Cesar Maia, Fabio Silvestre Cardoso, Marcos Pasche, Peron Rios e Rodrigo Gurgel.

agosto 13, 2013

“O escritor é uma espécie de jejuador perpétuo”


Poucos, na literatura brasileira, compreenderam os sábios conselhos de Augusto Meyer em sua Epístola a Porfírio:
 
“[...] Aprender a escrever é aprender a escolher, cheirar, pesar, medir, sacudir antes de usar, apalpar, comparar e afinal rejeitar muito mais que adotar linguarudas famílias de palavras, que atravancam a memória e impedem que a gente se ouça um pouco, nos raros momentos de diálogo e murmúrio subjetivo. Para mim, o escritor é uma espécie de jejuador perpétuo: condenado a transformar toda a exuberância da vida em dois ou três compassos da sua música interior, inatingível na essência mais profunda, jejua à mesa posta dos seus desejos, castigando com cilício as luxúrias do verbo. [...]”.

agosto 12, 2013

Um curso para conhecer o “centauro dos gêneros”


A partir da próxima quarta-feira, dia 14, estudaremos treze importantes ensaístas, para aprender com eles, por meio da leitura de seus textos, como podemos aperfeiçoar o nosso próprio estilo de escrever. Perceberemos que o caráter híbrido do ensaio – entre literatura e tese; entre reflexão pessoal e vontade de estilo – é exatamente a sua força. Por esse motivo Alfonso Reyes, grande intelectual mexicano, definiu o ensaio como o “centauro dos gêneros”.

O curso será ministrado via Internet. As inscrições estão abertas. Aulas e material de leitura ficarão gravados, disponíveis para os alunos que não possam acompanhar a transmissão ao vivo. Todos os detalhes podem ser obtidos no site do Cedet, por telefone (19-3249-80) ou por e-mail: livros@cedet.com.br.

agosto 09, 2013

Editor da revista “dEsEnrEdoS” analisa “Muita retórica – Pouca literatura”

Wanderson Lima, professor da Universidade Estadual do Piauí e um dos editores da dEsEnrEdoS, analisou meu livro no último número dessa revista eletrônica. Wanderson faz leitura independente e criteriosa – mostrando-se, para meu prazer, em desacordo com algumas de minhas avaliações. De qualquer forma, a resenha mostra que, fora do eixo Rio-São Paulo, há intelectuais dispostos a se contrapor ao pensamento hegemônico na área de Letras.

A revista está disponível na Web – e o texto pode ser lido a partir da página 169. À parte qualquer pequena discordância, Wanderson captou o essencial: “O critério valorativo de Gurgel é o estético, mas ele não é esteticista nem formalista: não ergue um patamar supramundano para o discurso literário nem corrobora a máxima derridiana, tão em voga, de que nada há fora do texto. O beletrismo e o experimentalismo, enquanto expressões de um culto esteticista que esvazia a literatura de seu conteúdo humano, lhe causam arrepios”.

agosto 08, 2013

“Só há uma escola: a do talento” – Vladimir Nabokov


Gosto de reler as entrevistas da Paris Review. Algumas delas revelam pormenores que ajudam a compreender o caminho escolhido pelos escritores, sua visão da realidade, do seu tempo – ou, no mínimo, permitem conhecer a personagem na qual o escritor se transforma ao se manifestar publicamente.
 
A entrevista que Vladimir Nabokov concedeu a Herbert Gold, em 1967, é um exemplo de savoir-vivre, sarcasmo e inteligência. As respostas que escolhi para este post contribuem para provar por que Nabokov pertence, sem nenhuma dúvida, à “escola do talento”:
 
Personagens são escravos

Pergunta: E. M. Forster fala que suas personagens principais às vezes ganham vida própria e ditam o curso de seus romances. Isso alguma vez constituiu um problema para o senhor, ou tem pleno domínio sobre as personagens?

Nabokov: O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com as personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos.

Imitações sem vida

Pergunta: E existe algum [autor] que o senhor acompanhe a duras penas?

Nabokov: Não. Muitos autores reconhecidos simplesmente não existem para mim. São nomes gravados em túmulos vazios, seus livros são imitações sem vida, são perfeitas nulidades no que diz respeito ao meu gosto para leitura. Brecht, Faulkner, Camus e muitos outros não significam absolutamente nada para mim, e tenho que me esforçar muito para não acreditar na existência de uma conspiração contra a minha inteligência quando vejo que são aceitos calmamente como “literatura maior”, seja por críticos como que por companheiros de ofício. As copulações de Lady Chatterley ou as bobagens pretensiosas de Ezra Pound, uma tapeação só. Reparei que, em algumas casas, ele substituiu o Sr. Schweitzer nas estantes.

Fácil, fácil demais

Pergunta: Como admirador de Borges e Joyce, o senhor também parece compartilhar o prazer que eles têm em provocar o leitor com truques, trocadilhos e enigmas. Como acha que deve ser a relação entre leitor e autor?

Nabokov: Não me recordo de nenhum trocadilho em Borges, mas só li traduções de seus livros. De qualquer forma, seus pequenos contos delicados e seus minotauros em miniatura não têm nada em comum com os engenhos enormes de Joyce. Também não encontro muitos enigmas no mais lúcido dos romances, Ulysses. Por outro lado, eu detesto Punnegans wake, [*] onde um tumor maligno formado pelo tecido de palavras fantasiosas mal chega a recuperar a lamentável jovialidade do folclore e a alegoria fácil, fácil até demais.

Pergunta: O que aprendeu com Joyce?

Nabokov: Nada.

Pergunta: Ora, convenhamos...

Nabokov: James Joyce não me influenciou de forma alguma. Meu primeiro e breve contato com Ulysses foi por volta de 1920 na Universidade de Cambridge, quando um amigo, Peter Mrozovski, que trouxera um exemplar de Paris, leu para mim, enquanto caminhava para cima e para baixo em meus aposentos, uma ou duas passagens picantes do monólogo de Molly, que, cá entre nós, é o capítulo mais fraco do livro. Só quinze anos mais tarde, quando já estava bem formado como escritor, e relutava em aprender ou desaprender qualquer coisa, li Ulysses, e gostei imensamente. Já em relação a Finnegans wake, eu sou indiferente, como o sou a toda literatura regional escrita em dialeto — mesmo que seja o dialeto de um gênio.

[*] “Pun”, em inglês, significa trocadilho, jogo lingüístico, recurso extremamente usado em Finnegans wake.

Uma coisa dura, artificial

Pergunta: Como escritor, o senhor sente ter alguma falha secreta ou evidente?

Nabokov: A falta de um vocabulário natural. Uma coisa estranha para se confessar, mas é verdade. Dos dois instrumentos de que disponho, um — minha língua nativa —, eu não posso mais usar, não só por falta de um público russo, mas também porque o entusiasmo pela aventura da palavra em russo foi morrendo pouco a pouco, depois que me voltei para o inglês em 1940. O meu inglês, o segundo instrumento, que sempre tive, é, no entanto, uma coisa dura, artificial, que pode ser boa, talvez, para descrever um pôr-do-sol ou um inseto, mas que não consegue esconder a pobreza da sintaxe e a escassez de um linguajar doméstico quando preciso do atalho entre o armazém e a loja. E nem sempre se prefere um antigo Rolls-Royce a um jipe comum.

Tudo muito divertido

Pergunta: Qual a sua opinião sobre o posicionamento competitivo dos escritores contemporâneos?

Nabokov: É, eu já notei que, com relação a isso, nossos críticos profissionais são verdadeiros bookmakers. Quem está no páreo, quem não está, e para onde foram as neves de antanho? [*] Tudo muito divertido. Fico um pouco sentido por ser deixado de fora. Não conseguem decidir se sou um escritor americano de meia-idade ou um velho escritor russo — ou uma anomalia internacional que não tem idade.

[*] Refere-se a François Villon: “Mais où sont les neiges d’antan?”, refrão de “Ballade (des dames du temps jadis)”.

Só há uma escola

Pergunta: Como o senhor considera hoje em dia poetas como Blok, Mandelshtam e outros que escreviam antes de o senhor deixar a Rússia?

Nabokov: Li esses poetas quando era garoto, há mais de meio século. Desde então me tomei um apreciador incondicional da lírica de Blok. Seus poemas mais longos são fracos, e o famoso “Os doze” é pavoroso, conscientemente concebido em um falso tom “primitivista”, com um Jesus Cristo em cartolina cor-de-rosa colado no final. Quanto a Mandelshtam, também o sabia de cor, mas ele me oferecia um prazer menos apaixonado. Hoje, pela ótica de um destino trágico, sua poesia parece maior do que realmente é. Noto, por sinal, que muitos professores de literatura ainda colocam esses dois poetas em escolas diferentes. Só há uma escola: a do talento.