maio 19, 2014

Só um alienista pode salvar o país

Quando o populismo e a demagogia imperam — exatamente como acontece nos últimos anos no Brasil —, a cultura pequena predomina, ganha altos postos e financiamentos soberbos.

É curioso o discurso dos que justificam o rebaixamento de Machado de Assis a uma linguagem popular, supostamente acessível ao povo: enquanto lança perdigotos, o magnânimo evangelizador literário das massas, com a serenidade típica de um cônego que recolhe esmolas apenas para garantir o próprio consumo de presunto e vinho, desfia seu amor desabrido, realmente perdulário, não ao dinheiro captado graças à esdrúxula Lei Rouanet, mas à “copeira do escritório”, ao “balconista da farmácia”, ao “motorista de táxi”.

Chegam a ser comoventes esses padrinhos e madrinhas dos pobres iletrados brasileiros. Quanto amor! Quanta prodigalidade! Se pudessem, levariam a cada lar um volume de Machado de Assis. E de quebra, quem sabe, uma terrina de caldo de galinha! Ah, se pudessem!, esses médicos de almas sentariam à cabeceira de cada brasileiro, cobrindo as cabecinhas pouco iluminadas do povo com suas infalíveis compressas de cultura.

Quanto paternalismo! Quanta simulação de virtude! Quanta receita infalível e pretensiosa, enquanto o país rasteja para se agarrar às últimas posições de todas as estatísticas, de todos os índices, de todas as pesquisas que avaliam níveis de educação.

É fácil construir um túnel de livros, criar impacto numa mídia sedenta de impacto e se dizer benfeitor da cultura. O difícil é, com giz e lousa, sob o sol e a chuva, no verão e no inverno, na caatinga, na Amazônia ou sob uma árvore raquítica no quintal de casa, ser professor, formar uma nova geração, preparar bons leitores de Machado. Isso ninguém quer fazer – e os que fazem, os que realmente se dedicam a educar, para esses não há Lei Rouanet, mas só o minguado contracheque.

É realmente irônico, machadiano demais, que a salvação literária nacional seja oferecida ao povo por meio de um alienista. Alienista de roupinha puída, doutorzinho medíocre, de poucas luzes, perfeito para os burros doidos deste país.

Mas não deixemos que a ironia nos engane. No substrato dessa proposta, na base de um Estado que acolhe e ajuda a financiar tal projeto, só há vulgaridade. Ortega y Gasset estava, desgraçadamente, certo: a vulgaridade tornou-se um direito – e domina toda a vida pública.

8 comentários:

Anônimo disse...

Bravo!

Carla Farinazzi disse...

Bravíssimo, Rodrigo, muito bom e triste. Bom por ser lúcido e corajoso, triste por tudo que contém. "a vulgaridade tornou-se um direito – e domina toda a vida pública" - como isto é exato.
Um abraço, e obrigada mais uma vez.

Carla Farinazzi

Marcos disse...

Ótimo texto, Rodrigo! Infelizmente, terrivelmente verdadeiro.

Ana Carolina disse...

Excelente texto! Esses lobos, que pousam de pedagogos bonzinhos, usam a desculpa de estar dando oportunidade de o povo entender o mais sublime da linguagem para deixar a população prostrada, burra, sem crescimento intelectual. Tolhem a oportunidade de o povo ampliar seu vocabulårio (e com ele as ideias!), querem promover a visão de mundo baixa, vulgar, para continuarem brincando no chiqueiro lepo lepo. Não querem que o povo olhe para cima, porque têm medo de que amadureçam, e por isso rebaixam a arte machadiana à comidinha mastigada para o povão sem dente. Como já disse um pensador "Mais fåcil é rebaixar a cultura ao povo do que elevar à cultura". Cabe às famílias incutir nos jovens o valor dos estudos, porque se depe der do governo, quanto mais burro for melhor.

Francisco A. disse...

Excelente, sr. Gurgel.
Aproveito e deixo aqui este artigo do lúcido José Maria e Silva.
http://www.jornalopcao.com.br/reportagens/discipula-de-paulo-freire-assassina-machado-de-assis-4399/

Cumprimentos!

Anônimo disse...

O senhor é demais!

Marcio Henrique Nassif disse...

De quem é essa pintura?

Rodrigo Gurgel disse...

Goya.