maio 05, 2010

O que parcela da crítica literária quer?

O que se esconde no substrato do texto prolixo e confuso de Flora Sussekind é uma determinada concepção de literatura – uma concepção excludente, preconceituosa e autoritária.

Concepção, aliás, defendida por significativa parcela da crítica literária brasileira contemporânea. Para esses críticos, ou a literatura se transforma num vanguardismo eterno – no qual a linguagem é elevada à condição de única protagonista da obra, o que gera livros sem enredo e sem personagens, narrativas nas quais enredo, personagens, fluxo de tempo, configuração do espaço etc. amontoam-se num verdadeiro caos –, ou abraça cegamente o dogma do politicamente correto – e cria obras em que as chamadas minorias sociais são sempre apresentadas como boas, justas, belas, corretas e bem-aventuradas. Ou, ainda, une as duas possibilidades e dá vida a narrativas que, além de incompreensíveis, são também demagógicas.

Para tais críticos, a obra literária que não se incluir em alguma dessas categorias já está classificada, de antemão, como mero exercício beletrista, ultrapassado e, portanto, condenado ao desprezo absoluto desses luminares.

Não importa que, ao seguir esses dogmas absurdos, a produção literária se distancie radicalmente do leitor, transformando-o em um ser incapacitado para decodificar o texto, condenando-o a ler sem entender, ou ler defrontando-se com dificuldades sobre dificuldades. O que importa para tais críticos é a mistificação de que a verdadeira obra de arte literária é, necessariamente, enigmática, difícil de ser compreendida. Ou seja, a leitura, para ser uma experiência realmente libertadora, deve se tornar, necessariamente, um exercício obscuro, aflitivo – uma nova forma de tortura.

Além de expulsar o leitor do sistema literário-cultural, essas concepções críticas reforçam um fenômeno exótico: o dos escritores que se bajulam mutuamente em suas seitas particulares, repetindo o que Antonio Candido já detectou nos primórdios da vida cultural brasileira: a situação artificial em que os próprios escritores são “ao mesmo tempo grupo criador, transmissor e receptor; grupo multifuncional de ressonância limitada e dúbia caracterização, onde a literatura acabava por abafar a si mesma, esterilizando-se por falta de um ponto de apoio”.

É óbvio, portanto, que esses mandarins pretendam assassinar duplamente Wilson Martins (como propõe Flora Sussekind). Isso não é nenhuma novidade, pois já assassinam, no nascedouro, qualquer narrativa que não siga os limites estreitos que eles pretendem impor à literatura nacional.

2 comentários:

Marcos Fabio de Faria disse...

Há cinco dias exatos leio esse texto com bastante exitação. Já compartilhei com amigos e outros contatos. O fato é que, na academia, somos obrigados a sempre glorificar certas críticas, que nem muito mais acrescentam aos dias de hoje. Temos um grande problema a enfrentar: a literatura brasileira ainda se encontra nas mãos se psudo-Deuses?
Acho que esse seu texto é o que muitos queriam dizer.

Rodrigo Gurgel disse...

Prezado Marcos: parcela da crítica literária brasileira é formada por homens que se pretendem deuses. Eles encarnam tão bem o papel, que, quando falam ou escrevem, os discípulos nada entendem - e ficam se perguntando qual o verdadeiro sentido das palavras herméticas do mestre. Contudo, não há nenhum sentido, pois o que foi tomado por sabedoria não passa de um texto (ou fala) que, além de repetir mecanicamente conceitos importados e ultrapassados, revela um raciocínio obscuro, tortuoso. Em alguns casos, o pretenso domínio de meia dúzia desses conceitos excêntricos serve, inclusive, para esconder a própria ignorância. Nesses casos, o acadêmico/crítico, a fim de obstruir qualquer possível contraposição, quase sempre se reveste de grande empáfia e até de certa agressividade.