maio 03, 2010

Em defesa de Wilson Martins

Transcrevo abaixo, com a autorização de Affonso Romano de Sant'Anna, o artigo que ele publicou hoje em seu blog, resposta sóbria, lúcida e destemida ao artigo de Flora Sussekind:

Crítica do necrológio e necrológio da crítica

Affonso Romano de Sant'Anna

1. Crítica do necrológio

Quando Wilson Martins morreu, várias pessoas escreveram lembrando sua obra. E algumas lamentaram sua morte. Mas Flora Sussekind lamenta que Wilson Martins tivesse vivido. Por isto, no no texto publicado n’O Globo (23.04.2010), afirma expressamente que talvez seja necessário “matar uma vez mais Wilson Martins”. Ou seja, além da morte física, ela se esforça por extirpar os textos de Wilson da literatura brasileira.

No texto de Flora, em que tantos leitores já acusaram estilística e retoricamente um pensamento tortuoso e mal formulado, é possível, com mais paciência, desentranhar vestígios de questões que poderiam ser mais claramente expostas. Ao que parece, ela pretende fazer uma análise da situação da crítica literária no país. E aí logo surge a questão: será que realiza o seu intento? Dentro deste propósito ela se detém não exatamente sobre a obra do crítico Wilson Martins, mas sobre o seu suposto necrológio feito especialmente por três críticos: Alcir Pécora, Miguel Sanchez Neto e Sérgio Rodrigues.

Vou tratar aqui da “maltratada” questão do “necrológio” e do mito do “herói solitário”, deixando para outra oportunidade outros equívocos da autora.

Aos ingênuos poderia parecer uma simples metáfora essa de “matar uma vez mais Wilson Martins”, pois o objetivo dela seria uma reflexão para se rever a crítica literária no país. Não é bem assim. “Matar” é tirar a vida, eliminar, apagar, limpar os vestígios. E a ensaísta está tão incomodada com o nome ou o fantasma de Wilson Martins rondando seu imaginário que investiu contra aqueles que escreveram sobre ele quando ele faleceu. Não basta ter ocultado, censurado o nome do crítico nos cursos de literatura quando ele era vivo, agora é necessário também censurar (quem sabe “matar”?) os que escrevem sobre ele.

Se algum estudante de linguística, de literatura ou psicolinguística aplicar a técnica da “análise de conteúdo” à diatribe que ela escreveu, vai notar que palavras como “ressentimento”, “agressivamente”, “virulência”, “truculência”, “exacerbado” pavimentam sintomaticamente o seu texto.

Isto consubstancia uma “pulsão de morte” sub specie crítica que no plano político e social aproxima-se de ideologias e regimes que incitam a matar, extirpar nomes e imagens de adversários como forma de apropriar-se da história.

Dito isto, tenho que me demorar ainda mais um pouco sobre a questão do necrológio, já que a autora do interessante ensaio “O sapateiro Silva” insiste em sapatear sobre a sepultura de Wilson Martins. Consideremos o sentido do necrológio tanto na sociedade primitiva quanto na civilizada. Diga-se logo, que ao negar aos outros que façam o necrológio afetivo ou intelectual de Wilson Martins, talvez Flora esteja escrevendo um epitáfio para si mesma enquanto crítica, além de promover uma desleitura do que significam os necrológios na antropologia e na sociologia.

A celebração, a evocação dos mortos não é uma aberração nem pode ser abolida pela pretensa racionalidade de alguém, pois são exigência do imaginário humano. As sociedades recorrem a esses rituais para elaborar sentimentos, remorsos, fantasias e até dialogar com a morte. Diz L. V. Thomas que “o homem é um animal que enterra seus mortos”. Acrescenta Françoise Charpentier que “nenhum grupo humano se desinteressa de seus cadáveres”. E Michel Ragon (“L'espace de la mort”) arrola umas 15 maneiras que as diversas culturas elaboraram de lidar com seus mortos: fazendo tumbas, incinerando, praticando o canibalismo, expondo-os às bestas ferozes, jogando ao mar, lançando ao fogo, colocando em urnas, árvores, nichos etc.

Na tragédia Antígona, Sófocles narra a patética estória da heroína procurando enterrar seu irmão Polinice, ao qual o rei Creonte negava o direito de sepultura. Antígona enfrenta o poder e enterra o irmão. Negar a sepultura e o ritual necrológio a Polinice foi o princípio crítico da decadência de Creonte, como advertiu o sábio Tirésias.

Só nos regimes e mentalidades autoritários destroem-se cemitérios, apaga-se a história, faz-se tabula rasa do passado. Os familiares dos mortos na última ditadura que tivemos (e eu vivi este período) ainda clamam pelo direito de enterrar seus “desaparecidos”. De resto, neste caso, é bom lembrar aquele imperador chinês, que mandou não só matar todos os sábios da corte, mas queimar seus livros, e decretou que a história começasse com ele mesmo.

Por sua vez, a cultura barroca, refazendo os costumes arcaicos, elaborou uma oratória, um “elogio fúnebre” que era um gênero literário dos mais considerados e com uma função social específica. Phillippe Ariès nota que uma das características da sociedade industrial “contemporânea” (e Flora se quer “contemporânea”), é perverter, disfarçar e até interditar o sentimento de morte. No entanto, mesmo modernamente, o “necrológio”, sobre ser um fato socioantropológico, é também um gênero jornalístico e literário cultivado com singularidade pelo The Times e The New York Times, que têm redatores especializados no assunto.

Lembro essas coisas, mas me dou conta que o incômodo que a figura de Wilson Martins provoca em Flora é de tal ordem, que ela está execrando até mesmo os necrológios feitos sobre cadáver recente.

Talvez se devesse lhe dizer: Flora, você não tem que levar flores à tumba de Wilson Martins. Mas também não tem que dar chutes nem tentar destruir sua lápide.

2. O mito do herói solitário

No processo de decomposição da imagem de Wilson Martins, Flora Sussekind refere-se, por duas vezes, ao fato que alguns o consideram um “herói solitário”. Ela ironiza essa expressão ou idéia que estaria expressa ou subentendida nos textos escritos sobre ele.

Aqui a questão torna-se constrangedora e pode-se supor que ela desconhece não só a obra como a própria vida desse anti-herói. É querer ignorar que ele abriu mão de agremiações literárias, abriu mão de grupelhos e de partidos e centrou-se desde sempre no seu fazer crítico. É não saber que por ter as opiniões críticas que tinha, foi despedido de vários jornais. E no último jornal em que trabalhou, ou não recebia pagamento ou tinha que se esforçar para tal. É querer negar o que há de solitário e heróico em realizar, sozinho, uma obra complexa como História da Inteligência Brasileira, em 7 volumes. É querer invalidar além dos 2 volumes de A crítica literária no Brasil, os 17 volumes de críticas jornalísticas. É querer negar que ele é o único historiador e crítico que fez uma leitura abrangente de nossa cultura de 1500 até 2010. Ninguém fez isto entre nós. E noutras literaturas não sei de nada semelhante. Durante sua trajetória, alguns críticos evidentemente surgiram, mas trabalharam apenas alguns anos e pararam ou foram desestimulados. Ele persistiu desde 1942 até 2010, portanto, quase 70 anos. E é isto que a autora de “Até segunda ordem não risquem nada”, com meia dúzia de argumentos mal alinhavados, quer jogar no lixo.

Alguém pode até dizer malevolamente: melhor se Wilson Martins tivesse lido menos e pensado mais. Como tirada tem lá sua graça momentânea, mas não se ajusta a ele. Quem pretende ser crítico e historiador tem mesmo que ler “tudo” e não pode resumir-se a elogiar seus confrades e a operar pela exclusão (coisa que é muito familiar à autora de “Papéis colados”). E Wilson Martins, crítico semanal, estava na “linha de fogo” opinando sobre obras ainda não canonizadas. Como escrevi em outra ocasião, ao longo de cinco décadas de atividade crítica ele pode ter feito um inimigo por semana, ou seja, uns 2.600 ao longo de 50 anos. E certamente Flora é um deles, pois Wilson Martins mostrou o que ele chama de “falácias” de seu livro “O Brasil não é longe daqui”.

Lembremos, por outro lado, que essa obra extensiva e intensiva que Wilson Martins produziu, ele a elaborou não com uma equipe, mas individualmente, só, solitariamente, num tempo em que não havia Google ou internet. E mais, a executou apesar das suas deficiências físicas, movendo-se com dificuldade para chegar aos locais de trabalho e fazer suas pesquisas. Por isto, embora eu possa discordar dele quanto à leitura ou o julgamento de um autor ou outro, ou de uma idéia ou outra, diria que ele com sua deficiência física é mais imprescindível à cultura brasileira que outros com sua deficiência intelectual.

Uma das coisas mais irônicas, paradoxais, senão patéticas, que se pode constatar no texto de Flora é que ela, em alguns aspectos, está defendendo as mesmas teses de Wilson Martins, sem o saber. Em 1996, numa entrevista dada a José Castelo, o crítico já assinalava a “morte da crítica literária no Brasil”. Dizia, com a autoridade que tinha, que “nos jornais propagou-se com rapidez a idéia de que a crítica literária não tem mais importância”. Portanto, Flora está atrasadíssima no seu diagnóstico.

Garcia Marquez tem o conhecido romance, Crônica de uma morte anunciada, e vários autores têm livros onde falam da segunda morte de seus personagens. Isto me ocorre enquanto analiso o que está sucedendo nessa tentativa de novo assassinato de Wilson Martins. Na verdade, a “morte” de Wilson Martins já havia sido anunciada há muito. Ele mesmo se encarregou de divulgar isto, quando, naquela entrevista em 1996, disse que a morte da crítica literária estava em curso com as mudanças ocorridas na imprensa e na vida social. Neste sentido, o texto de Flora está atrasado 14 anos em relação ao de Wilson ao vir falar agora sobre “a perda de lugar social da crítica”. E mais: torna-se repetitivo. Quando Wilson assinalava, com tristeza e ironia, que a crítica literária estava sendo assassinada, havia um toque autobiográfico nisto, porque ele era crítico e estava, portanto, falando de seu próprio extermínio social. E essa que seria simbolicamente a morte de um gênero literário tornou-se algo mais concreto e físico quando o próprio Wilson foi demitido do jornal que, agora, sem crítico de literatura, alardeia o artigo de Flora sobre a morte da crítica literária.

Portanto, com a proposta de novo assassinato de Wilson Martins e diante desse desejo de “matar uma vez mais” o crítico, estamos diante de uma terceira morte. Mas como nas regras onde o mais é menos e o menos é mais, está ocorrendo um renascimento da obra do crítico, as pessoas estão procurando os seus volumes para entender a razão de tanto desejo de morte em relação a ele. A virulência desejada sobre seu nome está provocando interesse em torno de sua obra, para o tormento dos que querem autoritariamente controlar a vida e o sistema literário.

3 comentários:

Leo disse...

Se para continuar a não entender o desprezo de Flora é preciso reler Wilson Martins, vou buscar agora e lerei, com toda satisfação, quem sabe descubro o que na escrita dele a deixa tão certa de que sua obra deva ser esquecida. Por menos que Flora concorde com ele, tem que saber que isto, na verdade não faz a mínima diferença, pois sua obra está feita e o que se pode fazer é ler e reler, para discutir o conteúdo e não tentar fazer com que o autor seja apagado do seu pequeno mundo.

Anônimo disse...

No site Wordle, é possível gerar nuvens de palavras onde cada uma aparece com tamanho proporcional a seu peso no texto analisado. O de Flora gera a seguinte:

http://www.wordle.net/show/wrdl/1986598/Flora_Sussekind_e_Wilson_Martins

Maria Filomena disse...

Com toda essa história, o que ela conseguiu foi trazer " à vida "ainda mais o crítico Wilson Martins. Freud explica esse tipo de comportamento.
Saudações de Maria Filomena