abril 23, 2014

García Márquez menos o mito

Poucas vezes encontrei, principalmente nos últimos dias, um julgamento tão equilibrado sobre o autor de Cem anos de solidão. Refiro-me ao ótimo artigo de Rafael Gómez Pérez, do qual coloco um trecho a seguir — texto que vai na contramão do endeusamento patrocinado pela esquerda e coloca Gabriel García Márquez no seu devido lugar:

García Márquez foi um excelente contador de histórias, oferecidas numa linguagem quase sempre muito inventiva. Mas nós não gostamos apenas de ouvir histórias; também apreciamos encontrar um pensamento de fundo, uma concepção de homem, um tema denso. Por isso Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare e Goethe são imortais... Ou, em tempos mais modernos, Tolstói e “Guerra e Paz”, ou Dostoiévski em quase toda a sua obra, principalmente em “Irmãos Karamazov”; ou a longa evocação de Proust, ou Thomas Mann em “A montanha mágica”... García Márquez não está nesse grupo, no qual poucos entraram até hoje. Ele está no grupo dos que entretêm contando algumas histórias assombrosas, que seduzem enquanto duram, ainda que, ao final, deixem um não sei quê de inconsistência. É o que se verá quando o mito perder a força e García Márquez estiver no lugar que lhe corresponde.

Recomendo que leiam a íntegra desse artigo justo e lúcido, García Márquez menos el mito.

2 comentários:

Virgílio Moreira disse...

Interessante esse artigo, porque está na contramão de praticamente tudo o que já foi dito e escrito sobre o autor colombiano e vem confirmar minhas suspeitas sobre uma unanimidade que não entendo, mas tenho certo receio - confesso - de contestar perto de seus admiradores mais entusiasmados. Apesar de conhecer pouco a obra de García Marquéz, também tenho a impressão de que ele foi endeusado em razão de sua militância política esquerdista, principalmente por sua amizade com Fidel Castro e a intransigente defesa da ditadura cubana. Tenho exatamente essa sensação de inconsistência, da qual o autor falou, quando leio seus contos ou as páginas de seu romance mais conhecido. Uma impressão de gratuidade que não tenho quando leio as obras de outros hispano-americanos, como Bioy Casares e Horacio Quiroga, e que também me assalta quando me deparo com algumas narrativas de Felisberto Hernandėz. Uma espécie de criatividade forçada. Tenho a impressão de que se tratam de histórias que, embora possam agradar aqui ou ali, uma vez lidas, serão definitivamente varridas da minha memória, como se fossem uma matéria descartável. Além disso, considero seu realismo mágico excessivo, barroco, cheio de ornamentos e penduricalhos exóticos e desnecessários e, pode ser uma impressão minha, mas penso que ele em nada inovou a literatura da América Latina, como apregoam, pois vários dos elementos característicos de Cem Anos de Solidão já estavam presentes em Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Mas pode ser que eu esteja fazendo um julgamento precipitado. Pode ser só uma impressão, pois não tenho formação de crítico literário para avaliar com pleno conhecimento e total isenção sua obra. Professor, seria interessante se o senhor escrevesse um artigo sobre o autor, esclarecendo melhor as características de sua obra e em que pontos ela inovou ou não a literatura do continente. Gostaria apenas de acrescentar que o Prêmio Nobel muitas vezes levou em conta a posição política dos escritores. O número de comunistas, socialistas ou simpatizantes da esquerda agraciados é significativo (Neruda, Saramago, Steinbeck, Hemingway, o próprio García Marquéz, entre outros).

Virgílio Moreira disse...

Interessante esse artigo, porque está na contramão de praticamente tudo o que já foi dito e escrito sobre o autor colombiano e vem confirmar minhas suspeitas sobre uma unanimidade que não entendo, mas tenho certo receio - confesso - de contestar perto de seus admiradores mais entusiasmados. Apesar de conhecer pouco a obra de García Marquéz, também tenho a impressão de que ele foi endeusado em razão de sua militância política esquerdista, principalmente por sua amizade com Fidel Castro e a intransigente defesa da ditadura cubana. Tenho exatamente essa sensação de inconsistência, da qual o autor falou, quando leio seus contos ou as páginas de seu romance mais conhecido. Uma impressão de gratuidade que não tenho quando leio as obras de outros hispano-americanos, como Bioy Casares e Horacio Quiroga, e que também me assalta quando me deparo com algumas narrativas de Felisberto Hernandėz. Uma espécie de criatividade forçada. Tenho a impressão de que se tratam de histórias que, embora possam agradar aqui ou ali, uma vez lidas, serão definitivamente varridas da minha memória, como se fossem uma matéria descartável. Além disso, considero seu realismo mágico excessivo, barroco, cheio de ornamentos e penduricalhos exóticos e desnecessários e, pode ser uma impressão minha, mas penso que ele em nada inovou a literatura da América Latina, como apregoam, pois vários dos elementos característicos de Cem Anos de Solidão já estavam presentes em Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Mas pode ser que eu esteja fazendo um julgamento precipitado. Pode ser só uma impressão, pois não tenho formação de crítico literário para avaliar com pleno conhecimento e total isenção sua obra. Professor, seria interessante se o senhor escrevesse um artigo sobre o autor, esclarecendo melhor as características de sua obra e em que pontos ela inovou ou não a literatura do continente. Gostaria apenas de acrescentar que o Prêmio Nobel muitas vezes levou em conta a posição política dos escritores. O número de comunistas, socialistas ou simpatizantes da esquerda agraciados é significativo (Neruda, Saramago, Steinbeck, Hemingway, o próprio García Marquéz, entre outros).