agosto 02, 2013

A navalha de Somerset Maugham



Se considerarmos “genial” um sinônimo de “vanguardista”, erro comum nos dias de hoje, William Somerset Maugham jamais poderia receber o primeiro qualificativo. Mas se pensarmos que o elogio serve àquelas pessoas notáveis, cuja capacidade intelectual as coloca acima da maioria das pessoas, então esse fecundo escritor inglês de fato produziu alguns livros geniais. 

Edmund Wilson, no entanto, não pensava assim. Para ele, a fama de Maugham nos EUA era um sinal da decadência dos padrões literários. Wilson chamava Maugham de “escritor de segunda linha”, definia sua linguagem como “banal”, afirmava que o escritor sequer possuía um “ritmo interessante” e deixou um julgamento que se pretende definitivo: trata-se de “romancista medíocre, que escreve mal, mas que é lido com regularidade por leitores médios que não se preocupam com a escrita”.

As observações de Wilson certamente causam mal-estar nos leitores que apreciam Maugham mas não se sentem qualificados para se contrapor ao crítico ou deixam-se influenciar pela opinião de um intelectual que, sem dúvida, merece deferência. A verdade é que, depois de lermos Maugham, podemos até chegar a conclusões semelhantes, mas duvido que um leitor consciencioso, que se disponha a passar alguns minutos entretido, por exemplo, com “Chuva”, um dos melhores contos da literatura universal, não julgue haver exagero no veredicto de Wilson.

Erros e acertos

O mesmo elogio não pode ser feito, infelizmente, a O fio da navalha – tradução de 1945 que vem ganhando sucessivas reimpressões ­–, romance menor mas famoso, com duas versões cinematográficas (a de 1946, com Tyrone Power, merece ser vista), que não é o melhor de Maugham, mas, ainda assim, está muito acima de uma literatura, digamos, de entretenimento.

O que me incomoda em O fio da navalha é o fato de Maugham conceder ao personagem Lawrence Darrell uma importância que ele não tem. Maugham tentou construir um romance que falasse das desilusões, dos traumas e do vazio que se abatem sobre as pessoas em tempo de guerra, principalmente sobre os soldados que, de volta a seus lares, não se readaptam à vida em sociedade. Darrell – ou Larry, como ele é chamado ao longo do romance – volta da I Guerra Mundial consternado pela morte do amigo que lhe salvara a vida; e passa, então, a buscar sentido para a existência. Trata-se de homem simples, herdeiro de pequena fortuna, que, movido por inquietações metafísicas, percorre o mundo em busca de respostas. Após experimentar diferentes religiões e empreender inúmeros estudos, torna-se uma espécie de santo leigo, alguém que, como o próprio narrador anuncia, “ao morrer não deixará vestígio de sua passagem pela terra”. Mas Larry – enigmático até mesmo para o narrador, que chega a ser repetitivo nas descrições, como se não conseguisse perscrutar o personagem – acaba se transformando num ser apático, destituído de grandes emoções, místico às vezes irritante. Esse falso protagonista surge de maneira intermitente no romance – e Maugham se esforça para, por meio dele, unir as peças de sua trama.

Traído por seu protagonista, o escritor perdeu a oportunidade de escrever um clássico, o que aconteceria se tivesse centrado sua atenção no esnobe Elliott Templeton, o melhor personagem do romance: norte-americano que vive em Paris, bon vivant, frívolo e pedante, de passado suspeito, que, graças ao comércio de arte, enriqueceu durante a I Guerra. Fofoqueiro, tio solteirão, aparentemente homossexual, com tino para organizar festas ou recepções, ele transita na alta burguesia e na nobreza européias com facilidade. Mas é também homem generoso, que sai inabalado do crash da Bolsa, em 1929, não por ser um escroque, mas apenas pelo fato de possuir as fontes certas. Apegado aos valores de classe social que o acolheu – e como poderia ser diferente? –, Elliott se escandaliza, por exemplo, quando, de volta temporariamente aos EUA, um motorista de táxi o chama de “amigo” e não de “senhor”. Por meio dele, o narrador radiografa a vida e os valores das classes altas, mas, o que é um mérito, sem fazer julgamentos ideológicos, sem descair para o achincalhe ou, pior, para a exaltação dos pobres como bem-aventurados e puros de coração. Esse tipo de demagogia, nunca encontraremos em Maugham. Ao contrário, ele nos seduz com a “requintada ironia” de Elliott – há diálogos repletos de falas ferinas, inteligentes, plenas daquele tipo de esgrima social que presenciamos com facilidade nos grupos que sabem unir elegância, verve e rapidez de pensamento. Esses diálogos permitem que visualizemos até pequenas rugas de humor nas expressões dos personagens; e nosso autor jamais se rende à literatura de tese.

Seguimos parte da vida de Elliott e, depois, sua decadência física, seu crescente medo da solidão; e o vemos se transformar num homem digno de piedade, apegando-se com todas as forças, apesar da doença, ao frenesi de uma vida glamorosa. Um dos mais perfeitos trechos do romance é o que descreve sua agonia e morte, bem como a preparação do cadáver. Cena triste, com uma ponta de humor negro, pois Elliott deixara ordens expressas para ser vestido de uma maneira que, sob o olhar do narrador, transforma o dândi num “corista de uma ópera de Verdi”. Acompanhamos a humilhação que a morte impinge – o quanto ela pode nos tornar ridículos – e, ao mesmo tempo, sofremos, pois nos acostumamos a gostar desse requintado bufão, ironista que ascendeu socialmente, sabe-se lá a que preço.

Larry não tem um terço da complexidade de Elliott ou de Isabel Bradley, de quem se torna noivo por um breve período. Sobrinha de Elliott, Isabel é o exemplo de uma das melhores qualidades de Maugham: retratar personagens femininos. Ela evolui no transcorrer do romance, física e psicologicamente, e seu longo diálogo com Larry, quando rompem o noivado, mostra uma mulher realista, diante de quem Larry se transforma numa insignificante caricatura, sem respostas, que apela à ironia vulgar e covarde quando se sente sob pressão. Frente à lógica de Isabel, ele não passa de um idealista exacerbado – e como todos os sonhadores, um egoísta a quem os próprios ideais bastam. A frieza dessa mulher, contudo, se lhe dá forças para sobreviver quando o marido, Gray Maturin, perde tudo na crise de 29, também a leva a cometer um delito que comprometerá a vida de outra personagem, Sophie MacDonald. De encantadora colegial a rainha perversa, Isabel reúne todos os matizes femininos.

É uma pena que a tradução seja muito antiga e não tenha sido revisada. Isabel, por exemplo, toma refresco usando uma “palhinha” e não um canudo; um personagem “dá uma perobinha” com outro, talvez uma gíria da década de 1940 no Brasil, mas da qual não consegui encontrar o significado; as mulheres têm “pestanas” e não cílios; outro personagem, cheio de vivacidade, é “um azougue”; e, numa festa, todos se divertem “à grande”. Mas isso não estraga a narrativa. Aqui e ali, às vezes encontramos lugares-comuns ou descrições que chegam a ser bobas – e imediatamente lembramos de Edmund Wilson –, mas Maugham também nos oferece, além dos diálogos espirituosos, sólidas descrições dos personagens e trechos que são boas descobertas, como ao dizer que os mortos se assemelham a “fantoches de uma companhia falida” ou, apenas outro exemplo, quando comenta sobre a Avenue de Clichy, ao amanhecer: “Sórdida à noite, tinha agora um ar garboso, lembrando a mulher pintada, abatida, que caminhasse com o passo vivo de uma moça”.

O único homem livre

Em seu romance O destino de um homem, Maugham apresenta longa e precisa definição sobre os escritores, da qual sempre gosto de me lembrar, principalmente por suas últimas linhas:

É uma vida cheia de contratempos. Para começar, ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem sua opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.

Não poderia haver melhor definição do próprio William Somerset Maugham. E um autor com tamanha autoconsciência deve ser perdoado por sua obra irregular.

No que concerne a O fio da navalha, o narrador que desmente a si mesmo desde a primeira página e faz exatamente o oposto do que pensávamos ser uma decisão irrevogável; o narrador que escreve com a mesma paixão sobre a natureza, a beleza das mulheres e Racine – chegando à discutível e polêmica idéia de que “a arte triunfa quando consegue servir-se do convencionalismo em benefício próprio”; o narrador que consegue extrair drama da classe social que o senso comum e a esquerda julgam erroneamente viver em meio a futilidades e devaneios; um narrador assim, que conclui, falando sobre seu protagonista, ter faltado a Lawrence Darrell “aquela pequena nota de crueldade que mesmo os santos precisam ter para conseguir sua auréola”, certamente merece não apenas nossa atenção, mas também o nosso respeito.

5 comentários:

Jose Lima disse...

Sr. Rodrigo,

Eu me admiro de como sempre é consistente a exposição de ideias do senhor; é tão consistente que vai nos arrastando à revelia, até cedermos, estupidificados com a clareza, pelas suas mesmas conclusões. Mas neste texto tive sensação estranha: não compreendi por que o Larry, no seu entender, é um personagem fraco. O senhor aponta aquela fraqueza com uma excessiva obviedade que me estranha muito, porque para desqualificar um tipo humano destes, minha consciência exigiria explicação mais miúda. " Mas Larry – enigmático até mesmo para o narrador, que chega a ser repetitivo nas descrições, como se não conseguisse perscrutar o personagem – acaba se transformando num ser apático, destituído de grandes emoções, místico às vezes irritante". Reconstituindo trechos do romance na minha cabeça, uma afirmação dessas não me entra. É impossível! Toda a saga de Larry, -- que pareça idealizada a nós, filhinhos de mamães e papais, nascidos no Brasil sem nunca conhecer a insegurança, sem qualquer imaginação do que seja um homem devotado inteiro a existir efetivamente como homem -- , sim, toda a saga de Larry, mostra o sentido da palavra entusiasmo certa vez explicada pelo Louis Pasteur: » Ce sont les Grecs qui nous ont légué le plus beau mot de notre langue : le mot " enthousiasme" - du grec “en théo”, un Dieu intérieur. »

Se não se vê entusiasmo neste senso mais profundo num personagem como o Larry, talvez me faça sentido ver nele idealismo imaturo, mas falha-me o julgamento se atribuo esta possibilidade à fraqueza do personagem ou do leitor. Minha pergunta é: quem de nós seria capaz de identificar-se com a grave, convicta e, também, desconcertantemente feliz escolha de Larry sem sentir os apelos do sangue frio e covarde, tão nosso? Da já poetizada reação mental: "Ora direis, perdeste o senso!". Será que é fraco o personagem ou somos fracos nós, incapazes de compreender o seu entusiasmo?

Rodrigo Gurgel disse...

Acho que o erro de Maugham, meu caro José Lima, foi não nos mostrar toda a complexidade de Larry. Não basta dizer que ele encontrou seu "Deus interior". O que desejo saber é: como ele encontrou? E, nesse ponto, o romance falha, porque Maugham não nos mostra toda a luta interior de alguém que passa pelas experiências que Larry passou. Às vezes, ele parece ter uma espécie de ataraxia, um tipo especial de indiferença... Sim, ele é bom. Mas é um bom, digamos, quase infantil. Seria um personagem apaixonante se sua bondade nascesse de um coração realmente dilacerado -- algo que não encontro nele. Forte abraço! E obrigado pelas boas palavras!

Marcão disse...

Quando li o livro me diverti e interessei muito mais com Elliot do que com Larry, que me era mesmo enfadonho em várias passagens. Mas gostei muito do romance como um todo. De leitura agradável, uma escrita sem entraves, Maugham me apresentou uma narrativa em um tom muito diferente da literatura brasileira. Por indicação de seu amigo Paulo Briguet, fui atrás de Servidão Humana. Ainda não li, qual sua avaliação desta obra, professor?

ps - estou inclinado a fazer seu curso, mas não poderei acompanhar sempre as aulas on-line, o Sr. entende que mesmo assim poderei acompanhá-lo sem grandes perdas?

Obrigado!!

Marcos Ursi

Rodrigo Gurgel disse...

Marcos: li "Servidão humana" há muitos anos. Há décadas, para ser preciso. Do que me lembro, parece-me superior ao "Navalha", mas precisaria reler. Quanto ao curso, fique tranquilo: é perfeitamente possível fazê-lo da forma que você deseja. Não haverá nenhuma perda de conteúdo. Grande abraço!

Marcão disse...

Obrigado, professor.