julho 29, 2013

Conselhos e reflexões de Anton Tchekhov


 
Não se faz literatura com sociologia

Tudo aquilo que possui um caráter temporário, todas essas alfinetadas dirigidas aos críticos e aos liberais da época, todas as observações críticas que se pretendem certeiras e atuais, e todos os assim chamados pensamentos profundos, plantados aqui e ali – como tudo isso é insignificante e ingênuo hoje em dia! Pois aí é que está o busílis: o bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório.

E muito menos com política

[...] Os grandes escritores e os grandes artistas devem se ocupar da política apenas na medida em que é preciso defender-se dela. [...]

Busca contínua da verdade

Nunca se deve mentir. A grandeza da arte reside no fato de que ela não admite a mentira. É possível mentir no amor, na política, na medicina; é possível enganar as pessoas e até mesmo Deus, mas na arte é impossível mentir.

Reler, reler...

Acordo toda noite e leio Guerra e Paz. A gente o relê com tanta curiosidade e ingênua admiração, como se fosse a primeira vez.

Não engrandecer o que é pequeno; não falsear a realidade

Sou repreendido por escrever apenas sobre acontecimentos medíocres, por não ter heróis positivos. [...]
Levamos uma vida provinciana, as ruas de nossas cidades nem sequer são pavimentadas, nossas aldeias são pobres, nosso povo vive num péssimo estado. Na juventude, chilreamos feito pássaros em cima de um monte de esterco; aos quarenta já somos velhos e começamos a pensar na morte. Que espécie de heróis somos nós? [...]
Gostaria apenas de dizer com toda a honestidade às pessoas: reparem, reparem como vivem mal, e que vida enfadonha estão levando. O importante é que as pessoas compreendam isso; se compreenderem, inventarão uma vida diferente e melhor. O homem torna-se melhor quando lhe mostramos como ele é.

Abandonar a retórica

[...] Ao fazer a revisão, corte, onde possível, os atributos dos substantivos e dos verbos. Você coloca tantos atributos que fica difícil para a atenção do leitor não se perder, e ele se cansa. É compreensível quando escrevo: “o homem sentou-se na grama”; é compreensível por ser claro e não reter a atenção. Ao contrário, é pouco inteligível e pesado para o cérebro, se escrevo: “um homem alto, de peito cavado, porte discreto e barbicha ruiva sentou-se na grama verde, já pisoteada pelo transeuntes; sentou-se sem fazer ruído, olhando tímida e temerosamente à sua volta”. Isso demora um pouco a entrar no cérebro, e a literatura deve entrar imediatamente, num átimo.

Repugnantes panelinhas

[...] Não é o escrever em si que me causa repugnância, mas esse entourage literário do qual não se pode escapar e do qual se é portador em todo lugar, assim como a terra é portadora da atmosfera.

[Do livro Sem trama e sem final – 99 conselhos de escrita.]

6 comentários:

Henrique Ahrens disse...

Prezado Rodrigo,

Gostei muito desse post - e de todos os outros, na verdade. Tchekhov é realmente um dos maiores escritores da história, e esses conselhos são sábios e deveriam ser lidos por alguns dos escritores em atividade.

Só discordo, em parte, de um dos conselhos: o de cortar os atributos, para ser o mais simples e direto possível. Esse conselho é parecido com o que Graciliano Ramos dizia sobre a literatura. A concisão e a clareza são, de fato, importantes. Mas há grandes escritores que têm estilos muito diferentes desse defendido por Tchekhov - estilos mais rebuscados, de frases longas e cheias de adjetivos. Penso em dois gigantes: Marcel Proust e Henry James.

O que você acha disso?

Um abraço do seu leitor fiel
Henrique Ahrens

Marta Soubre disse...

"O homem torna-se melhor quando lhe mostramos como ele é."

Isso me lembra Freud.

Rodrigo Gurgel disse...

Lembrança terrível, Marta! Mas tenho certeza de que não era essa a idéia do nosso escritor. Grande abraço!

Rodrigo Gurgel disse...

Olá, Henrique! Concordo com você. Mas é importante perceber que os elementos que compõem o estilo de Proust ou James estão ali respondendo uns aos outros, em harmonia. As frases são tortuosas, se comparadas a Tchékhov, mas não são retóricas, não são pomposas, o discurso não é ornamentado e vazio, como o do exemplo que Tchékhov usa. Então, pensando em termos pedagógicos, Tchékhov está certo: é preciso cortar. Não cortar significa, para o nosso russo, escrever de forma pomposa.

J.Paulo disse...

Muito bom!
Seu blog é mesmo excelente!

Rodrigo Gurgel disse...

Obrigado, J. Paulo!