junho 15, 2012

Inveni cor meum


Livrei-me do inverno de minha alma há dois anos. E da escuridão. E também de certa perplexidade angustiada, de quem olha o mundo, as pessoas e diz a si mesmo que não é possível que tudo seja, ao final, apenas vazio, apenas nada. E que estrela após estrela, cada vez mais longe na viagem noturna, reste apenas um antifinal, vazio ininterrupto. Noite após noite, com a insônia vencida graças à antiga oração – a mesma que ouvia meu pai balbuciar em seu quarto –, desfolhei as camadas do mistério, adentrei os cômodos empoeirados, subi a pequena escada suja, repleta de insetos mortos, e encontrei meu coração. Inveni cor meum. Ele palpitava à minha frente, minúsculo, frágil, infartado. Escondido na urna que queimava sem se consumir. Guardaste meu coração, Senhor, em Teu coração. Guardaste meu segredo em Teu segredo. Escondeste a minha dor na Tua imorredoura piedade pelos homens. Então me ofereceste o centro da minha vida, que já não era mais meu, que já não batia mais por minha vontade ou graças ao pulsar do meu sangue, mas era agora parte de Ti. Ou me resignava ao vazio – ou aceitava o Teu dom, que ainda era eu, mas estava longe de ser o que eu fora, pois já se consumia, sem que eu soubesse, no fogo do Teu amor. E eu o aceitei, Senhor. O que me sustenta, então, agora também me consome. Nada mudou. Tudo mudou. E meu coração, preso ao Teu, leva-me para longe da infância, longe das ondas agitadas por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens e pela astúcia que conduz ao erro. Leva-me sempre, a cada manhã. E quando os ventos querem trazer-me de volta à praia repleta de escolhos, vem o Sopro, o Murmúrio de uma brisa suave – e faço-me ao largo, enquanto meu coração vibra no Teu coração, como nos dias da juventude, quando lia o romance de Conrad e rezava, solitário, na capelinha do Carmelo. Vem a cada instante, Senhor, com Teu coração que incendeia o meu, expulsando “o sangue velho dos avós” e seduzindo-me a permanecer em Ti. Inveni cor meum, ut orem Deum meum. Et ego inveni cor regis, fratris et amici benigni Jesu. Et nunquid non adorabo? Orabo utique. Cor enim illius mecum est, audacter dicam, si, imo quia caput meum Christus est.

3 comentários:

Pedrita disse...

belo texto. beijos, pedrita

Gabriel Viviani disse...

Bonito e comovente! Fez-me recordar o Glauco Valentim, protagonista do meu romance: O Evangelho dos Loucos.

Dayher Giménez disse...

Comovente. Eis a fé.
Um abraço.