agosto 10, 2011

Reflexões sobre o católico escritor

No ensaio que escreveu sobre François Mauriac – “Mauriac?” –, Otto Maria Carpeaux, com sua característica consistência, cria não só um roteiro seguro para se conhecer as bases do pensamento desse romancista francês, mas, sopesando aspectos positivos e negativos, estabelece, de maneira indireta, as linhas mestras da ficção e do ensaísmo católicos.

De antemão afirmo que não se trata, neste texto, de colocar o problema da possibilidade de uma ficção católica brasileira contemporânea. E por um simples motivo: o tema não me preocupa, pois, sob o ponto de vista teológico, o qual não desprezo nem um pouco, “o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus” (1Co 2,10). Ou seja, apesar do ateísmo, do materialismo e de todos os demais “ismos” que proliferam hoje, a oportunidade de uma literatura que se pretenda católica está presente, ainda que desprezada por certa intelligentsia cínica – e fadada a cumprir, sem qualquer demérito, o papel de sal e fermento: desaparecer, mas para dar sabor e volume; para ocupar, no substrato da cultura, um papel talvez despercebido, mas jamais secundário.

As perguntas que me coloco são outras: de que trata uma literatura católica? Ou um ensaísmo católico? O que significa ser católico e também escritor?

Seguindo o raciocínio de Carpeaux, há um tema básico: o pecado. Por sua própria natureza, o homem vive em oposição à vontade de Deus; sua inclinação para o bem está debilitada. O senso comum, se deseja compreender esta questão, precisa abandonar a ideia de pecado enquanto mera desobediência a preceitos religiosos. Para a teologia católica, o pecado é uma tendência natural, um “hábito inato”. Por razões sobre as quais não tratarei aqui, o homem tende ao mal. Assim, se o pecado é, como diz Carpeaux, “o caminho da morte e da vida”, será inevitável ao escritor católico se defrontar com esse tema.

Mas como fazê-lo? Segundo Carpeaux, com a “inquietação” de Mauriac. Mas não só. Usando de finíssima ironia, o ensaísta nos aponta o caminho: abandonar os moralismos. Ele nos dá um exemplo curioso, próprio do que ocorria quando escreveu seu texto, ao criticar aqueles que, “em meio ao incêndio da civilização cristã e à difamação do nome cristão por povos cristãos, se ocupam dos maillots na praia”. Mas também nós corremos esse perigo, apesar de não estarmos vivendo as consequências da Segunda Guerra Mundial e os maiôs já não serem novidade, visto que há sempre o risco de colocarmos “a ética antes do ser”, como afirma Bento XVI, lembrando que “o cristianismo não é um moralismo”, pois “não somos nós que temos de realizar aquilo que Deus espera do mundo, mas em primeiro lugar temos de entrar” no que o Papa chama de “mistério ontológico: Deus entrega-se a si mesmo. O seu ser, o seu amar precede o nosso agir [...]”.

Um católico, incluindo aqueles que são escritores, deve compreender que, apesar da indiscutível realidade do pecado, Deus deseja conceder ao homem um novo ser. “Esta é a grande dádiva”, diz Bento XVI, “o ser precede o agir e a partir dele segue-se, depois, o agir, como uma realidade orgânica, porque o que somos, podemos sê-lo também na nossa atividade”. É assim que Deus nos aparta do moralismo, pois ser cristão não significa apenas “obedecer a uma lei que está diante de nós, mas simplesmente [...] agir em conformidade com a nossa nova identidade”. Não se trata, portanto, de “uma obediência, algo exterior, mas sim uma realização do dom do novo ser”.

Voltando a Carpeaux, trata-se, portanto, para o ficcionista, de “resolver o problema do pecado e da graça (literariamente, não teologicamente)”, de “não desfigurar o seu cristianismo em moralismo”. Graça – ou seja, doação, pois Deus “se nos doou antecipadamente a si mesmo, entregando-nos o seu amor”, lembra o Papa.

Outro risco é “petrificar-se” no pietismo, o que Carpeaux chama de “catolicismo de fórmulas vazias”. Ele não se refere apenas à tese da superioridade da fé sobre a razão, mas àquela tendência de responder ao pecado não por meio de uma vida autenticamente evangélica, mas de uma religiosidade superficial, apegada a manifestações sentimentais.

Carpeaux também defende o abandono de quaisquer mediações: o artista deve enfrentar os problemas do seu tempo, sob pena de, recusando-se a fazê-lo, condenar-se ao laxismo (afirmação, aliás, extremamente contemporânea). Assim, nosso crítico repudia o intelectual apenas “bem-pensante”, que privilegia seu comodismo e prefere fazer concessões a se defrontar com temas espinhosos. Carpeaux, com razão, qualifica esse tipo de católico como “um abastardamento” do escritor.

Amor criativo

Em busca de escritores que sejam mais do que “filhos dos seus confessores”, Otto Maria Carpeaux demonstra ter um objetivo claro: “A própria vida, assunto do romance, é o caminho da santidade”.

Um novo elemento se adiciona, dessa forma, ao nosso raciocínio: a que se refere o crítico quando diz “santidade”? O santo é aquele que, tendo compreendido as realidades do pecado e da graça, cinge-se àquele “mistério ontológico” sobre o qual falamos acima e descobre a verdadeira alegria, que não é apenas laetitia, mas gaudium, júbilo, regozijo. “Quem se deixou sensibilizar por este mistério, que Deus se revelou, rasgou o véu do templo e mostrou o seu rosto, encontra uma fonte de alegria permanente”, diz Bento XVI.

Vejo, a partir deste ponto, uma estrada com duas vias: numa, encontro o escritor que compreende o mistério, ou que ao menos deseja desvendá-lo, e por esse motivo busca, em sua vida pessoal, a santidade – e na outra descubro o mesmo escritor, traduzindo, por meio da escrita, as quedas e recaídas do homem que, dividido entre o pecado e a graça, anseia experimentar, concretamente, a verdadeira alegria. Ocorre que este escritor é indissociável do primeiro: ele sabe, portanto, que viver na graça “é amor, amor criativo, que encontra sozinho a riqueza, a abundância do bem”, segundo o que nos ensina Bento XVI – e também por esse motivo escreve.

Mas, atenção: quando Bento XVI diz que “quanto mais repletos estivermos desta alegria de ter descoberto o rosto de Deus, tanto mais o entusiasmo do amor será autêntico em nós e produzirá fruto”, ele não se refere a uma vida desgarrada da realidade, na qual só há espaço para o arroubo místico, mas a experiências concretas – tão palpáveis quanto o ato de escrever um livro. Carpeaux tem consciência disso; e por esse motivo pode dizer, graças não só à erudição, mas principalmente movido por sua fé, que “um romance católico que pretende ignorar o pecado, é mentira” – e “um romance católico que inclui e supera o pecado, tem valor de teodiceia”, ou seja, pode defender e justificar a crença em Deus.

Humanismo cristão

Retomando a questão da santidade, o católico que é escritor deve saber – exatamente como Santa Teresa de Jesus – que “a morte dá à história a sua verdadeira medida”. É o que lemos no ensaio de Carpeaux (“A lição de uma santa”) sobre essa religiosa carmelita canonizada em 1622, a quem Paulo VI concederia, em 1970, o título de Doutora da Igreja. Teresa, ela própria sublime escritora, serve como modelo aos intelectuais católicos contemporâneos, ficcionistas ou não. Seus escritos e sua vida confirmam a abundância gratuita que nasce do “amor criativo”, seiva que o escritor, ramo da videira, sorve e distribui, repleto de alegria por ter descoberto o rosto de Deus. Não é à toa que Teresa exclama, em meio aos seus textos, “Oxalá pudesse eu escrever com muitas mãos!”.

Só intelectuais dessa estirpe podem deixar uma obra capaz de confrontar, ao longo dos séculos, heresias, modismos, miragens fabricadas pela estultícia humana. E Teresa alcançou esse objetivo exatamente por não almejar tal glória. Como acertadamente afirma Juan Marichal (La voluntad de estilo – teoría e historia del ensayismo hispánico), “em Santa Teresa opera sobretudo um princípio espiritual oposto ao de todo criador artístico: porque ela desejava testemunhar, com seus escritos, mais sua condição de criatura [grifo do autor] do que seu poder de criadora”.

“Não se dá esse rei senão a quem se entrega de todo”, dizia Santa Teresa – e foi o seu fervor que a transformou num dos melhores símbolos do que Carpeaux chama de “notável e estranha oposição do humanismo cristão”. Oposição à qual os católicos são constantemente chamados, hoje e sempre. Quando prepondera a autossuficiência humana – nada mais que um neopelagianismo –, o católico que escreve alerta para os limites do homem e sua dependência em relação a Deus. Quando a ciência pretende se tornar um novo baal, o católico que escreve recorda os milhares de crimes perpetrados em nome da razão. Quando se propagandeia o espírito revolucionário, o católico que escreve relembra os totalitarismos e se recusa a fazer da história uma tábula rasa. Quando o humanismo ateu deseja se impor, o católico que escreve clama contra a falsa ética dessa deformação do pensamento, sempre pronta a instituir o hedonismo e a egolatria como leis gerais.      

Charles Moeller, na introdução ao volume IV do seu Literatura do século XX e Cristianismo, afirma que “a escravidão da percepção literária consiste em se aproximar por baixo, partindo do sofrimento dos homens e de sua nostalgia da felicidade, para alcançar o mundo da Revelação, que está acima”. E ele próprio conclui: “Mas ‘Deus nos busca antes que nós o busquemos’. Vem a nós até onde estamos. O povo de Israel sabia algo disto. Este povo é também a Igreja. E cada um de nós”. Carpeaux, ao falar sobre Mauriac em sua História da Literatura Ocidental, dirá que “a representação completa do pecado justifica o trabalho do romancista: o desfecho literariamente satisfatório vale como reconhecimento da Justiça e da Graça de Deus”. Esses dois pensamentos formam, com certeza, a síntese do trabalho a que se propõe o escritor católico: partir do que pode chegar a ser inumano para mostrar a transcendência escondida no homem; descrever o nível de degradação que a sociedade pode atingir para fazer sobressair a irrupção da graça divina. Há nele paixão e lógica, mística e zelo – o zelo de Teresa de Jesus; ou o de Elias, no Horeb, que exclama duas vezes, a última com o rosto coberto pelo manto: “Eu me consumo de ardente zelo por Iahweh dos Exércitos, porque os filhos de Israel abandonaram tua aliança, derrubaram teus altares e mataram teus profetas à espada” (1Rs 20,10.14).

2 comentários:

Beatriz disse...

Inspirado, Rodrigo! E capaz de , com a graça de Deus, nos mostrar que há maneiras de escaparmos do criticismo (essa voragem que se apossou da cultura desde os anos 50 via escola de Frankfurt...). Feliz é você que foi sondado pelo Espírito...no mais profundo e nos presenteia com boa reflexão. Ah, que bom é ter um amigo iluminado, abençoado.

Rodrigo Gurgel disse...

Obrigado, minha querida amiga. Obrigado por TUDO!