junho 09, 2011

Virtudes parciais – vícios completos

Em seu livro A fé dos demônios, não traduzido no Brasil, o filósofo Fabrice Hadjadj analisa um trecho de Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Com rara agudeza, Hadjadj complementa Chesterton, formando, com o inglês, o duo indivisível e virtuoso do qual ele próprio fala:

Repete-se dele [de Chesterton] em nosso meio, frequentemente, esta frase: “As ideias modernas são ideias cristãs que enlouqueceram”, frase que, retirada de seu contexto, deformada em seu conteúdo, chega a ser uma ladainha que, ela própria, enlouquece. [...] Esta é a passagem da Ortodoxia de onde a frase foi retirada:  

“O mundo moderno não é mau. Sob alguns aspectos, o mundo moderno é bom demais. Está cheio de virtudes insensatas e desperdiçadas. Quando um sistema religioso é estilhaçado (como foi estilhaçado o cristianismo na Reforma), não são apenas os vícios que são liberados. Os vícios são, de fato, liberados, e eles circulam e causam dano. Mas as virtudes também são liberadas; e as virtudes circulam muito mais loucamente, e elas causam um dano mais terrível. O mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas.

Assim alguns cientistas se preocupam com a verdade, e a verdade deles é impiedosa. Assim alguns humanitários se preocupam apenas com a piedade, e a piedade deles (lamento dizê-lo) é muitas vezes falsa. [...]”

Essas linhas bebem no profundo dos últimos versículos do Salmo 61:

Deus falou uma vez,
E duas vezes eu ouvi:
Que a Deus pertence a força,
E a ti, Senhor, pertence o amor;
Pois tu devolves a cada um
Conforme as suas obras
 
Sempre ouvimos a única palavra divina [...] através de um par de enunciados que devem se manter unidos. Neste caso, a misericórdia (a ti, Senhor, pertence o amor) unida à justiça (tu devolves a cada um conforme as suas obras). Mas como isso não funciona, o mundo, segundo Chesterton, introduz o divórcio nesse difícil matrimônio e resulta que cada virtude se torna tanto mais segura de si mesma quanto mais adúltera. A dupla se transforma em dualidade. A complementaridade se quebra em contrariedade. [...] O gênio diabólico não consiste tanto em rechaçar o bem, mas em monopolizá-lo para proveito próprio [...]. Dessa forma, extravia inclusive o nosso desejo de fazer o bem, isolando as bondades que a verdade une: a justiça sem misericórdia, que se torna crueldade, frente à misericórdia sem justiça, que se torna laxismo; a humildade sem magnanimidade, que se torna modéstia indolente, frente à magnanimidade sem humildade, que se torna ativismo vaidoso... e, finalmente, a verdade sem amor, que é a fé dos demônios, frente ao amor sem verdade, que é a filantropia do diabo. Corremos atrás dessas virtudes parciais, que são vícios completos, e o mundo pode perecer pela nossa diligência.

2 comentários:

Patrícia disse...

Um texto excelente para revermos nossa conduta. Parabéns!

Cristiano Santos disse...

Muito bom. Para ver que um correta interpretação não é tarefa fácil.