junho 03, 2011

Como se rebelar contra a tirania de Eros?

Não é nenhuma novidade que Eros foi erguido à condição de grande deus do Ocidente. Mas é inacreditável como a maioria das pessoas – conduzida por uma moral acomodatícia e pelo relativismo cego – aceita esse fato demonstrando passividade diante do mal.

A proposta de uma Lei da Homofobia, o famigerado PLC 122 – na verdade, um projeto de institucionalização da ideologia do homossexualismo –, a informação de que o kit anti-homofobia, produzido pelo Ministério da Educação, seria distribuído a crianças de 11 anos – e não a jovens do Ensino Médio – e a notícia de que o polêmico sutiã com enchimento, criado pela Abercrombie & Fitch’s para aumentar os seios das meninas a partir de 8 anos, já estaria à venda no Brasil são alguns dos elementos – apenas os mais recentes – que deveriam nos alertar para um quadro preocupante: o processo de sexualização da sociedade, em vigor na maior parte do Hemisfério Norte, já se encontra instalado no Brasil, inclusive na sua forma mais diabólica: a da sexualização da infância.

O cinismo dos defensores dessas inovações – usemos, aqui, um eufemismo – parece triunfar em toda a mídia. Qualquer voz dissonante é enfrentada com discursos negacionistas, nos quais a ponderação inexiste, mostrando que há algo de perverso nessa conjuração tácita entre Estado, mídia, mercado e ideólogos de esquerda.

De fato, a esquerda, falida em suas propostas de revolução econômica e política, refugiou-se nas utopias do pansexualismo e do ecologismo. Agora aliada ao mercado, ela abandonou os ideais da planificação econômica e da igualdade social, preferindo usufruir, em petit comité, das benesses do capitalismo – seus líderes, no Brasil e no mundo, enriquecem com rapidez estonteante –, e elegeu a desordem moral como o meio que lhe permitirá controlar as consciências. Incapaz de vencer a sede de lucro pessoal e corporativo, a esquerda almeja aniquilar os valores cristãos – projeto, convenhamos, não de todo desagradável a um mercado destituído de ética e sedento de consumidores.

A nova idolatria

Quem assistiu aos vídeos que compõem o kit anti-homofobia do Ministério da Educação sabe do que falo: não há ali principalmente a lição do amor ao próximo, da aceitação do semelhante – sem que isso signifique a aprovação de suas opções morais –, mas, sim, o enaltecimento do “eu” e a exaltação da sexualidade. A mensagem sub-reptícia dos vídeos é a do “eu triunfante”, da construção de um falso heroísmo e de falsas virtudes, nascidos exclusivamente da opção sexual. Esse é o horizonte oferecido pelo Ministério da Educação às crianças e aos adolescentes: entreguem-se aos seus instintos, façam apenas o que vocês têm vontade – e isso os transformará em seres felizes e realizados. O homem, para nossos educadores de esquerda, é definido e identificado apenas por sua sexualidade; e quanto mais plena a satisfação sexual, maior será o seu valor, diante de si mesmo e dos outros.

A tirania de Eros não tem limites – e seu objetivo é o defendido por nossos educadores pós-modernos: o ser humano se resume ao baixo-ventre.

Além da ideologia do homossexualismo, os vídeos instituem uma escola da permissividade. Eles restringem a experiência do viver ao sensualismo vulgar e confinam a longa e trabalhosa conquista da maturidade – período fundamental do desenvolvimento humano – ao imediatismo hedonista.

Ora, quantas vezes o mundo pagou alto preço por seguir ideologias salvadoras? Já o fez em nome do pão e da terra para todos. Já o fez pela quimera da igualdade social absoluta. Já o fez em nome da purificação da raça e da construção do super-homem. E agora repetimos o mesmo erro, desta vez para agradar Eros, que submete o homem não só ao eterno chacoalhar do próprio ventre, mas também ao estupor fabricado pela indústria do entretenimento e à subserviência a padrões morais que não são escolhidos livre e conscientemente.

É a institucionalização do que Jean Guiton chamou de “corveia de prazer”. Sim, há muito a felicidade por meio da chamada “realização sexual” transformou-se num imperativo, numa ordem – ou melhor, numa forma de escravidão. E agora, no Brasil, a esquerda deseja, se aprovado o PLC 122, que toda a sociedade se submeta a um novo dogmatismo, uma ideologia tribalista tão furiosa, se contrariada, quanto os sodomitas que cercaram a casa de Ló (Gênesis 19).  

Se essa é a nova idolatria a que deveremos nos submeter e se a sexualização da sociedade é um processo irrefreável, pergunto-me quando construiremos o novo Muro de Berlim, para separar os felizes hedonistas da parcela necessariamente triste e frustrada da humanidade... Quando começarão a erguer os muros do primeiro gueto para encarcerar os discordantes? Na qualidade de católico, viverei nele com orgulho.

Os limites do abismo

Esclareçamos, contudo, que não se trata, aqui, de assumir o papel do moralizador que denuncia pecados e se escandaliza com a decadência dos costumes. Não se trata de estabelecer uma disputa entre permissivos e repressores morais. Antes, trata-se de afirmar que o homem está muito acima do que os nossos ideólogos e educadores de esquerda defendem.

A cada cena dos filmes produzidos para o kit anti-homofobia eu me recordava das palavras da última conferência do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, pronunciada, em 18 de maio de 2005, no Mosteiro de Santa Escolástica, em Subiaco: “[...] Já não brilha sobre o homem o esplendor de ser a imagem de Deus, que é o que lhe confere sua dignidade e inviolabilidade, mas somente o poder das capacidades humanas”. E o que resta a esse homem, cuja “força moral não cresceu com o desenvolvimento da ciência”, mas na verdade “diminuiu, porque a mentalidade técnica” pretende encarcerar “a moral no âmbito subjetivo”? Essa racionalidade que excluiu “Deus da consciência pública”, tornando-o objeto da mera subjetividade, só pode construir a “desordem da consciência moral” – o mundo no qual “nada é bom ou mau em si”.

Consentir com tal processo de secularização significa transformar nosso melhor tesouro, os valores da cristandade, base da sociedade ocidental, numa subcultura condenada ao silêncio sempre que os supostos iluministas modernos assim desejarem. Numa terrível contradição, essa “confusa ideologia da liberdade conduz a um dogmatismo que se está revelando cada vez mais hostil para a liberdade”, dizia Ratzinger – e profetizava: “O conceito de discriminação se amplia cada vez mais, de maneira que a proibição de discriminação pode se transformar, progressivamente, em uma limitação da liberdade de opinião e da liberdade religiosa. Em breve, não se poderá afirmar que a homossexualidade, como ensina a Igreja Católica, constitui uma desordem objetiva na estruturação da existência humana”.

A ideia de que cada nova elucubração do homem representa um conhecimento definitivo e inquestionável – ou seja, de que tudo é relativo – pode, inclusive, nos conduzir à definitiva sexualização da vida social e ao desaparecimento da dignidade humana. Já transformamos a busca da virtude num exercício acadêmico, num saber desligado da vida; e diminuímos a verdade até transformá-la num axioma que muda conforme a direção dos ventos, o humor dos demagogos ou a sandice do intelectual escolhido pela mídia. Quanto mais afundaremos em nossa egolatria? Em Subiaco, Ratzinger afirmava: “A tentativa, levada até o extremo, de plasmar as coisas humanas menosprezando Deus completamente nos leva cada vez mais aos limites do abismo, ao encerramento total do homem”.

Uma nova corporalidade

Trata-se, então, de dar as costas à sexualidade e encarar o homem como um ser angelical, incorpóreo? Absolutamente não. Para nós, católicos, como lembrou Bento XVI em recente discurso, “longe de se opor ao espírito, o corpo é o lugar onde o espírito pode habitar” – e “nossos corpos não são matéria inerte e pesada mas, se soubermos ouvir, falam a linguagem do amor verdadeiro”. Nos corpos de Adão e Eva, “antes da Queda, [...] existe uma linguagem que não criaram, um eros radicado na sua natureza, que os convida a receberem-se mutuamente do Criador, para assim se poderem oferecer”. E o papa conclui: “[...] No amor, o homem é ‘recriado’, Incipit vita nova  [Começa uma nova vida], dizia Dante (Vita Nuova I, 1), a vida da nova unidade dos dois numa só carne. A verdadeira fascinação da sexualidade nasce da grandeza deste horizonte que se abre: a beleza integral, o universo da outra pessoa e do ‘nós’ que nasce na união, a promessa de comunhão que nela se oculta, a nova fecundidade, o caminho que o amor abre a Deus, fonte do amor”.

Alertando para uma sexualidade “que hoje permanece encerrada no círculo restrito do próprio corpo e na emotividade”, o papa salienta que “a força do pecado não consegue cancelar a linguagem originária do corpo, a bênção de vida que Deus continua a oferecer quando o homem e a mulher se unem numa única carne”.

Ou seja, a sinalização é clara: o núcleo de resistência à barbárie da sexualização da sociedade encontra-se na família, “o lugar”, diz Bento XVI, “onde a teologia do corpo e a teologia do amor se entrelaçam. É aqui que se aprende a bondade do corpo, o seu testemunho de uma origem boa, na experiência de amor que recebemos dos pais. É aqui que se vive o dom pessoal numa só carne, na caridade conjugal que une os esposos. É aqui que se experimenta a fecundidade do amor, e que a vida se entrelaça com a de outras gerações”.

Há, portanto, uma sexualidade sã e santa. “Uma santidade”, lembra Xavier Léon-Dufour, “que transforma a corporalidade do homem e a torna continuamente presente a um mundo divino que a cerca de todos os lados”.

Contrapor-se ao que as escolas ensinam

Mas somos chamados também a nos apartar da luxúria; e as práticas homossexuais – digam o que disserem os católicos que, a seu bel-prazer, decidiram discordar do Magistério da Igreja – estão aí incluídas. O grito dos dissidentes e dos hereges ou o desolador silêncio dos tíbios não modificam o ensinamento da Santa Igreja: “Optar por uma atividade sexual com uma pessoa do mesmo sexo equivale a anular o rico simbolismo e o significado, para não falar dos fins, do desígnio do Criador a respeito da realidade sexual. A atividade homossexual não exprime uma união complementar, capaz de transmitir a vida e, portanto, contradiz a vocação a uma existência vivida naquela forma de autodoação que, segundo o Evangelho, é a essência mesma da vida cristã”.

Devemos considerar, portanto, no mínimo insultuoso o Estado que, afastando-se de suas funções, decide ensinar moral a crianças e jovens – e o faz da pior maneira, doutrinando-os com visões distorcidas da sexualidade, levando-os a acreditar que a autocomplacência e a idealização da própria sensualidade são os únicos e os melhores caminhos para o seu desenvolvimento.

Para a sociedade na qual o culto ao sexo exige de seus prosélitos que anunciem aos quatro ventos suas preferências sexuais – evidenciando uma inesgotável necessidade de autoafirmação –, reduz a felicidade e a realização humanas à escolha por esta ou aquela opção sexual, enaltece o sexo enquanto jogo promíscuo, torna a concupiscência sua regra de ouro e, apesar de todos esses esforços insanos, só consegue renovar as frustrações e as formas de carência afetiva, Bento XVI recorda que, quando a sexualidade destrói “sua conexão com o Criador, o corpo revolta-se contra o homem, perde a sua capacidade de fazer transparecer a comunhão e torna-se terreno de apropriação do outro”.

As famílias têm, assim, um árduo, difícil e honroso trabalho: contrapor-se ao que as escolas transmitem. E não só. É necessário renovar o sentido da sexualidade à luz dos ensinamentos cristãos: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?” (1 Co 6, 19). Para nós, a comunhão com o outro não está necessariamente presa à relação sexual, mas a supera; e pode independer dela. Não somos escravos da nossa libido ou das nossas pulsões.

3 comentários:

Fábio V. Barreto disse...

Realmente, o quadro é aterrador, mas fico feliz em ver cada vez mais gente consciente do problema.
Meus melhores votos!

Norma disse...

Obrigada por você ser uma pessoa tão lúcida e não deixar-se convencer diante da mediocridade e do mau-caratismo. Depois de ler este blog comecei a sentir que não estou só nesta compreensão de uma vida com mais dignidade e decência, consequentemente mais real, clara, simples e fraterna.

Rodrigo Gurgel disse...

Obrigado pelas boas palavras, meus caros Norma e Fábio. Grande abraço!