maio 27, 2009

Reflexões sobre a crítica literária


Há alguns dias, respondendo ao e-mail de um amigo, no qual ele fazia comentários sobre minhas resenhas no Rascunho, escrevi que esse era um trabalho nem sempre agradável. E por uma simples razão: muitas vezes, a honestidade me obrigava a fazer críticas desfavoráveis.

À parte o fato de meus juízos estarem ou não corretos, o que apenas o tempo poderá dizer – e a história da crítica está pontilhada de erros e acertos, estes últimos em maioria –, quando, depois de ler certa obra, vejo-me obrigado a mostrar incongruências e desatinos, ajo assim sem qualquer prazer. Na verdade, sou tomado de certo mal-estar, pois, se há uma pulsão que move meu trabalho, é a de apontar acertos. Ao contrário do que muitos pensam, duvido que algum crítico seja movido por uma pulsão sádica.

Na verdade, os autores brasileiros não estão acostumados a receber críticas. Do que leio na mídia, percebo que a crítica desfavorável é, muitas vezes, escrita de forma velada, protegida sob uma terminologia praticamente hermética, como se, ao dissimular seu julgamento, o crítico pretendesse não se comprometer ou não fazer inimigos. Outra prática comum entre nós é a de considerar bom o que é apenas razoável ou medíocre. Alguns escritores, certamente, ficam satisfeitos – e o suposto crítico ganha amigos e fama. Esse tipo de celebridade, contudo, mostra apenas o quanto a perversão atingiu a literatura, a vida intelectual.

De minha parte, se considero um livro ruim, afirmo claramente o que penso. Por que haveria de fazer concessões? Por que haveria de tratar como gênio quem é somente mediano? Gotthold Lessing (na ilustração acima) tinha um pensamento apropriado sobre o assunto: “Em uma competição de coxos, o primeiro que chega ao final continua sendo coxo, apesar de tudo”.

Para Marcel Reich-Ranicki, os críticos atuam como porteiros de um baile, devendo introduzir um pouco de ordem na festa e, sobretudo, rechaçar, logo na entrada, os charlatães e os incapazes, a fim de deixar mais espaço no salão para os bons dançarinos. O pensamento de Ranicki, um dos críticos que mais aprecio, serve, no entanto, à realidade alemã. Em um país subdesenvolvido, onde a leitura não é um hábito, as edições raras vezes superam os dois mil exemplares e grande parte da população não ultrapassa a linha do analfabetismo funcional, o papel do crítico não é o de ser porteiro do baile. Simplesmente porque o salão está quase vazio e a orquestra toca, sem entusiasmo, para poucos dançarinos.

Quem faz crítica literária neste país, deveria trocar idéias, de maneira didática e sincera, com a minoria iluminada que se interessa pelo assunto, tentando formar consciências para uma verdade simples: em literatura, exatamente como acontece nos demais espaços da vida, há o ótimo, o bom, o medíocre e o ruim.

O baile, portanto, ainda está aberto a todos. Mas não há nada de errado em se aproximar de um dançarino e dizer: “Meu caro, você precisa treinar mais” ou “Meu amigo, você é um desastre”.

5 comentários:

Luiz Paulo Faccioli disse...

Meu caro Rodrigo,
concordo inteiramente contigo. Na condição de também resenhista (fujo como o diabo da cruz da denominação de "crítico"), sei bem que é infinitamente mais agradável falar das virtudes do que apontar defeitos numa obra que se analise, embora uma crítica bem construída é sempre mais proveitosa do que um elogio. E nem é preciso enumerar os motivos. Mas o irracional acontece com indesejada frequencia: os que mais teriam a aprender com uma crítica são também os mais refratários a ela. Isto quando não preferem desqualificar o resenhista a procurar qualificar o que escrevem. Por essas e outras, meu caro, ser resenhista hoje é quase uma profissão de fé.
Grande abraço,
Luiz Paulo

Samara L. disse...

Caro amigo,

Antes da mais nada, saudades!
Concordo contigo e entendo tua posição. Não faço resenhas literárias, mas já me meti a escrever sobre dança oriental, outro assunto que me fascina.
É papel do crítico apontar falhas, por mais que nos desagrade. O problema entre nós, brasileiros, entretanto, parece ser uma passionalidade exacerbada. Aqui ninguém recebe crítica como oportunidade de crescimento e correção, mas como ofensa pessoal. Pelo menos no meio da dança é assim e, pelo que já ouvi na academia, na crítica literária não é diferente.
Criticar é avaliar - e todo que expõe seu trabalho está sujeito à avaliação, não?

Cordial abraço.

Gregório Dantas disse...

Caro Rodrigo,
ótima reflexão.

E concordo com o que o Faccioli disse no comentário acima: o mais comum é tentativa de desqualificar o resenhista, por parte do autor da obra criticada ou por seus aficcionados (veja bem, a obra foi criticada, não o seu autor).

Tomar o debate sobre literatura como ofensa pessoal é a prática mais comum, por aqui.

Tenho acompanhado suas resenhas no Rascunho, sempre com o maior interesse.

Abraço,
Gregório

Pedrita disse...

bom, vc tem embasamento pra poder falar claramente se um livro é razoável e medíocre. acho que algumas pessoas preferem não radicalizar até mesmo pq ficam na dúvida se o ponto de vista e análise dele é realmente o que é. eu acho que no brasil todos veem a crítica de forma estranha. não veem que uma crítica é de alguém que estudou muito pra isso, que coloca as suas considerações e q outro crítico, com o mesmo embasamento, poderá ter uma visão dimetralmente oposta. são raros os casos de unanimidade. a crítica é um produto pra nos ajudar a conhecer melhor a obra, termos mais recursos pra avaliarmos se queremos ou não ler ou ver alguma obra. e concordo com vc, qt mais sincera melhor, mesmo que seja pra discordar. beijos, pedrita

isa disse...

Querido Rodrigo: de fato, é penoso elaborar uma crítica em que os defeitos de um texto são apontados -- e têm que ser apontados --, em detrimento dos méritos. Aconteceu-me esta semana passar pela livraria Cultura e ver ali um livro de uma antiga colega de mestrado que, coincidentemente, foi uma grande amiga. Mas era aluna desatenciosa, não gostava de estudar, não lia os textos necessários para o curso, privilegiava outros afazeres que não a leitura (nossa opção foi, em Semiótica, pelo cinema). Enfim, minha querida amiga era uma intelectual medíocre, para resumir. Mas, como acredito no ser humano e sua capacidade de crescimento, assim que vi seu livro sobre cinema na estante de tal livraria e ainda no Espaço Banco Nacional, pensei: olha, as pessoas mudam mesmo! Ela lançou um livro sobre cinema! E abri o dito cujo: deparei-me com uma bibliografia medíocre, um texto raso, superficial, erros crassos de português. Decepção total. Ainda insisti em ler mais alguns trechos, mas o texto, sinceramente, não dá para "engolir". Aí sim, caro Rodrigo, a saia é justa; se eu tivesse que fazer uma resenha sobre tal livro, como a coisa ficaria? Claro que usaria de honestidade, mas correndo o risco, claro, de perder a amiga. Embora eu ache que, mesmo nas críticas, na medida do possível devemos ser sutis e educados. Aliás, educação SEMPRE! Enfim, eu poderia escrever mais sobre isto aqui, mas o assunto é extenso e dá pano para manga. Abraço! (E sempre grata pela oportunidade que me deu no LMD).