julho 04, 2010

“Perdulários de felicidade”

A relação do homem com a divindade, com o sagrado, sempre me fascinou. Mas não me refiro ao fascínio do antropólogo ou de qualquer outro estudioso, necessariamente frio e distante. Refiro-me a um interesse apaixonado que, se bem recordo, ganhou força quando, perto dos quinze anos, aproximei-me da espiritualidade carmelita. Há um pequeno Carmelo em minha cidade natal, onde duas dezenas de irmãs vivem segundo a regra de santa Teresa D’Ávila, e acostumei-me a visitá-lo quase todas as semanas. Até hoje, tendo passado dos cinquenta anos, é impressionante lembrar da alegria daquelas irmãs, do estranho fulgor que a tudo iluminava quando a janela do locutório se abria e as cortinas escuras eram afastadas. Não, não era uma alegria qualquer, mas uma perturbadora autossuficiência, como se elas bastassem a si próprias e todo o resto, incluindo minha visita, nada mais fosse que uma gralha insignificante, incapaz de perturbá-las na lenta e silenciosa obra de composição que retomavam a cada dia, muito antes do amanhecer, obedecendo às leis de um tipógrafo invisível e onisciente. De onde vinha aquela energia, aquela radiância, aquela fé despojada de angústia? G. K. Chesterton diz, em seu breve ensaio sobre Francisco de Assis, que “houve monges que foram perdulários de felicidade, enquanto nós somos dela avarentos”. Pois devo dizer que conheci alguns desses privilegiados. Havia naquelas carmelitas descalças a “secreta nobreza” de que Chesterton nos fala – e elas eram movidas pela “simples afirmativa de que esse furioso e desconcertante universo é governado pela justiça e pela misericórdia”. Fé que invejo, e que se aproxima ou se afasta do meu coração, sem nunca preencher-me completamente.

5 comentários:

Gusta disse...

Perfeito!

Pedrita disse...

nossa, há algo q nunca me instigou. beijos, pedrita

Anônimo disse...

Uma faísca do amor de Deus é suficiente para abrasar para sempre nosso coração. Uma faísca do amor a Deus marca nossa memória por longos anos.

Cilas Medi disse...

Não existe "excesso" na oração. Basta fechar para outros pensamentos e se integrar. Não existe religião, somente a comunhão. E, se não existe Deus para alguns, ele é representado nesse ato, simplesmente. Comunicar com o infinito. Ele (o infinito) compreende e retribui nessa felicidade, da qual queremos a maior parcela possível.
Abraços. Parabéns pela reflexão.

sonia disse...

o problema não é duvidar desse estado de felicidade intensa e sincera em certas pessoas, mas qual o segredo da manutenção desse estado!