outubro 09, 2009

Simenon

Fui resgatado das brumas por um romance de Georges Simenon: Sangue na neve. A dura objetividade da narrativa – Simenon não admite volteios de espécie alguma – sequestrou-me ao mundo nevoso, quase espectral, em que a maldade surge sem qualquer objetivo claro. Graham Greene trata melhor do tema, em seu romance de estreia, O condenado, cujo fim, triste e impactante, concentra profunda reflexão não apenas sobre a relação entre Bem e Mal, mas principalmente sobre como o Mal pode nascer movido pela gratuidade insana. Mas Simenon, ainda que fique um pouquinho atrás, nos oferece seus parágrafos curtos, certeiros; Frank, o protagonista taciturno e infantil, para quem o mundo e as pessoas são personagens de um teatro de sombras; e trechos antológicos, como este, em que se revela o cinismo da caftina Lotte, mãe de Frank, que aluga meninas em seu apartamento, ao comentar sobre os fregueses:

[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.

– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.

É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.

– Como as filhas deles, entende?

O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.

É Lotte ainda que afirma:

– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!

2 comentários:

Pedrita disse...

nossa, q loucura, eu acabei de falar de o enforcado do simenon no meu blog. tímida, fiquei com vergonha de te avisar e vejo agora um post sobre, nossa, vou ler. esse não li. gosto demais desse autor. o enforcado tb é triste demais. beijos, pedrita

Diogo Henrique Duarte de Parra disse...

rodrigo, eu penso diferente: não acho que os homens desejem bordéis que se assemelhem às suas casas! Pelo contrário, os puteiros são cheios de luzes vermelhas, formas exagerados e caricatas! Não querem sentar em uma cadeira que veriam em suas casas...enfim,enfim...estou com saudades de conversar com você, é isso!