julho 27, 2009

De volta ao final de As Benevolentes

As questões não resolvidas sempre voltam. Por este ou aquele motivo, de vez em quando o cérebro as reapresenta ao nosso espírito. O final farsesco de As Benevolentes, de Jonathan Littell, é uma dessas interrogações para as quais busco resposta há algum tempo. Por que o escritor capaz de fazer uma obra de arte em 882 páginas escolhe destruir seu trabalho nas 14 restantes? Supor mera incompetência é uma solução pueril, fácil demais, e também incongruente. E a falta de coragem? O autor não teria sido capaz de ousar até o final? Mas se faltou ousadia, há uma causa no substrato dessa fraqueza.

Hoje, contudo, encontrei uma resposta que me satisfez. Graças ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de S. Paulo, “Pequena sociologia do fungo”, creio que posso traçar ao menos um projeto de solução para minha dúvida.

Por que Littell destrói a weltanschauung do protagonista de seu romance, o jurista e oficial da SS Maximilian Aube? Por que Littell se recusa a afirmar a humanidade de um criminoso nazista? – Humanidade, saliente-se, construída em detalhes durante a maior parte do livro. O fato de ser judeu o impediria moralmente? Não. O problema é mais grave. No fundo, o final farsesco revela uma farsa moral.

Littell apenas repetiu o que a maioria das pessoas faz, e que Luiz Felipe Pondé analisa com mestria: transformar o livro em uma palhaçada foi a forma que o escritor encontrou de, hipocritamente, defender sua imagem de bom, justo, perfeito, incapaz de cometer qualquer mal. Littel não poderia levar até o fim o seu personagem, pois isso significaria não desculpar ou justificar um nazista, mas, como afirma Pondé, “iluminar seu parentesco com ele”. Escrever um final coerente – e grandioso como a maior parte do livro – representaria afirmar a verdade que todos negam: a de que somos, sim, capazes de fazer o mal.

Em literatura – como em toda forma de arte – não basta ter o domínio da técnica. É preciso coragem para ir além do que o senso comum prega. E Jonathan Littell, infelizmente, mostrou-se fraco e hipócrita.

7 comentários:

Isabel disse...

NÃO LI O LIVRO, MAS APRECIEI O COMENTÁRIO!
ACABEI DE COLOCAR A OBRA NA MINHA LISTA DO ANO.
VALEU!
Isabel G.

Rodrigo Gurgel disse...

É um belíssimo livro, Isabel. Mas só até a página 882. Grande abraço!

Pedrita disse...

não li essa obra. eu falei no meu blog do livro que acabei de ler, uma vida em segredo do autran dourado. beijos, pedrita

Fátima N. disse...

___ verdadeiramente cru.
"somos, sim, capazes de fazer o mal"
foi bom ler você.
.

Rodrigo Gurgel disse...

Obrigado, Fátima!

João Pedro disse...

Ainda não tenho um veredicto final sobre o livro. Mas ele, ao terminar, precisamente para além do que é o senso comum, não foi na realidade forte e provocador. As verdadeiras características dos artistas. Teria sido mais fácil deixar o final em aberto... eu penso que ele ousou, do princípio ao fim.

Rodrigo Gurgel disse...

Sim, ele ousou, João Pedro. Mas ousou mal. Grande abraço.