junho 06, 2009

No centenário do nascimento de Isaiah Berlin


Michael Ignatieff encerra sua biografia de Isaiah Berlin (6 de junho de 1909 - 5 de novembro de 1997) com uma frase que sintetiza não apenas a vida desse notável filósofo, mas também o que ele representa para toda uma geração de pensadores: “Num século escuro, Berlin mostrou o que deve ser uma vida da mente: cética, irônica, desapaixonada e livre”. Erguer-se acima das mazelas humanas, agitando, a cada pensamento, a cada ensaio, a cada aula, essas quatro bandeiras – e fazê-lo em uma época marcada por duas guerras mundiais e por ditaduras que, em nome de conduzir o mundo ao Paraíso, assassinaram milhões de pessoas – representa uma trabalho invejável.

Não me recordo qual foi o primeiro texto de Berlin que li, mas fui imediatamente fisgado por sua retórica “precipitada”, por seu estilo deliciosamente professoral, com uma lógica que não é fria, mas aberta ao gracejo, à ironia, e acima de tudo incansável na argumentação, com exemplos que vão se interligando em longos e sedutores parágrafos.

Sempre que leio Berlin imagino o que seria ouvi-lo durante uma aula, como seria dialogar com ele, vendo a linha de seu raciocínio nascer em meio aos gestos, ao movimento dos olhos, à agitação do corpo que se empolga – ou seja, viver o que Ignatieff descreve: “ser arrastado ao salão de sua mente”.

De qualquer forma, estou fadado a experimentar apenas parcela dessa sedução, quando leio seus ensaios. É um consolo, sem dúvida.

Sempre que releio “A busca do ideal” (in Estudos sobre a humanidade), por exemplo, deixo, prazerosamente, que ele me conduza de uma primeira visão geral sobre a história humana no século XX para o seu próprio percurso intelectual, convencido, como ele, de que esse é um processo de constante negação da barbárie, pois “somente os bárbaros”, diz Berlin, “não são curiosos sobre o lugar de onde vêm, como chegaram aonde estão, para onde parecem estar indo, se desejam ir para esse lugar, em caso positivo, por quê, em caso negativo, por que não”.

Passo a passo ele revisita todas as ilusões do pensamento, do ideal platônico ao marxismo, todos esses castelos construídos no ar, que insistem em nos dizer que um dia a razão triunfará definitivamente, dando início a uma era de cooperação e harmonia universal, a “história verdadeira”.

Depois, ele nos mostra como acordou – o lento despertar rumo ao “senso de realidade”: Maquiavel, Vico, Herder –, até atingir sua visão pluralista (e jamais relativista; como, aliás, ele insiste em sublinhar). Um pluralismo despojado de qualquer utopia, firmado na realidade, segundo o qual “um mundo sem conflitos de valores incompatíveis é um mundo completamente além de nosso conhecimento”.

Trata-se de uma visão dura, sem dúvida. Mas absolutamente lúcida. Berlin não se permite “descansar na cama confortável dos dogmas” ou ser “vítima de uma miopia auto-induzida”. Não. Jamais haverá uma solução final para o homem, pois uma sociedade sem problemas – ou um planeta sem problemas, sem divisões – é uma sociedade “em que a vida interior do homem, a imaginação moral, espiritual e estética, já não diz nada”.

E antes que nos perguntemos o que o homem pode fazer, então, diante da realidade injusta, insatisfatória, constantemente fendida, ele nos responde: “O melhor que podemos fazer é manter um equilíbrio precário que impeça a ocorrência de situações desesperadas, de escolhas intoleráveis”.

Esse é Berlin: o olhar aberto ao real, sem jamais aceitar qualquer véu que edulcore a nossa fragilidade. Nosso “equilíbrio inquieto” está “sob constante ameaça e em constante necessidade de reparo”, ele afirma. E não há como escapar: “A situação concreta é quase tudo” e “o risco moral às vezes não pode ser evitado”. Só essa verdade nos livra da embriaguez ideológica. E só ela nos move à negociação perene com os outros homens, à urgência de estarmos continuamente reinventando o diálogo, a “intercomunicação entre as culturas”.

Isso não quer dizer, no entanto, que devemos abdicar de certos bens incontestáveis, como a liberdade, a justiça, a procura de felicidade, a probidade, o amor. Berlin é claro: “Devemos buscar esses direitos e proteger as pessoas contra aqueles que os ignoram ou recusam em admiti-los; e quando o diálogo se torna impossível, podemos, então, nos sentir impelidos a guerrear com eles. Mas é necessário sempre tentar convencê-los”.

Àqueles que estão em busca de absolutos, o pensamento de Berlin parecerá decepcionante. Mas aqueles abertos à construção do “equilíbrio difícil”, esses sabem que viver significa nem sempre conseguir evitar escolhas penosas e soluções imperfeitas; que a razão não é um instrumento plenamente eficaz; e que nossas escolhas não são imbatíveis ou incontestáveis. Na verdade, a história já demonstrou que “a busca da perfeição é a receita para o derramamento de sangue”.

O pensamento de Berlin, portanto, não propõe uma receita infalível para se chegar à verdade. Ao contrário, é um incansável convite ao inseguro exercício da liberdade.

4 comentários:

Jonas Lopes disse...

Rodrigo, li Berlin e seu Estudos sobre a humanidade por indicação sua, num comentário aqui no blog. Foi um de meus grandes prazeres recentes.

Abraço!

Rodrigo Gurgel disse...

Berlin é um prazer infindável, Jonas.
Grande abraço, meu caro!

Pedrita disse...

que vergonha, desconheço o biógrafo e o filósofo. beijos, pedrita

Rodrigo Gurgel disse...

Sempre é tempo de conhecer Berlin, Pedrita. Para você, que gosta de literatura, aconselho começar pelo ensaio "O porco-espinho e a raposa" (ou, em outra tradução, "O ouriço e a raposa"). Vc vai gostar, com certeza.