fevereiro 21, 2008


Ironia e credulidade


Os recentes acontecimentos em Cuba e a solicitação de um amigo, para que eu escrevesse um texto sobre a história da ilha, os antecedentes e as conseqüências da Revolução Cubana, fizeram-me recordar de minha adolescência. Eu costumava ouvir, na casa de minha avó, um grande rádio de ondas curtas. Dentre as várias estações internacionais que escutava, muitas vezes sem nada entender, havia a Rádio Havana. O mote do locutor, pleno de orgulho, era: "Rádio Havana, Cuba, território livre da América!". Depois, seguiam-se as rumbas, e mais rumbas, e novamente o bordão. Ao me lembrar disso, escrevi para meu amigo: "Como as ditaduras podem ser irônicas, não é mesmo?". E ele, com absoluta razão, respondeu: "As ditaduras podem ser cínicas e nós podemos ser crédulos". E eu, inclinando a cabeça num gesto de assentimento, concluí: "Ainda bem que acordamos. A vida é melhor assim, com outros sonhos, nascidos da literatura".

4 comentários:

Djabal disse...

O que você acha de uma estátua em Havana (El Malecón) do Tomasi di Lampedusa ? Como patrono das artes e ciências ?
Abraços.

compulsão diária disse...

pois é, meu querido, tanta luta,tantas palavras. Respeito e alívio.

Rodrigo Gurgel disse...

Djabal: Acho a idéia boa, desde que, nos pés da estátua, esteja a clássica frase: "É preciso que tudo mude etc., etc., etc.". Grande abraço!

Rodrigo Gurgel disse...

Bea querida: respeito, sim, mas pelos crédulos que caíram; pelos que acreditaram e, depois, foram traídos; pelos silenciados; pelos que foram sacrificados em nome de nada. Por esses, sim, respeito, profundo respeito. Alívio, talvez no futuro, quando os cubanos possam dizer, livremente, o que pensam. Um beijo!