julho 02, 2007


Delicada Ivanira


Ela entrou na classe usando roupas sóbrias, quase impessoais, de cores suaves, sondando cada um de nós com seus olhos castanhos, sempre iluminados. Era pequena, frágil, quebradiça, as unhas bem-feitas; e quando se apresentou, ouvimos a voz branda, leve, cuja melodia compôs, somando-se ao sorriso e às outras características, a figura daquela que, com o passar dos meses, tornou-se para mim a personificação da literatura – e com tal exagero, com tal permanência, que até hoje, passados mais de trinta anos, não vivo um único dia sem ler, escrever ou pensar, e ao mesmo tempo recordar-me dela, seqüestrando-a daquela zona cinzenta, reservada pela memória a tudo que merece ser esquecido, ou seja, a maioria dos fatos e das pessoas. Conservo-a ao meu lado, lendo comigo, falando-me sobre os escritores que me ensinou a amar, ou simplesmente acompanhando-me como uma sombra inspiradora, reconfortante.

Em meu caderno de capa verde, uma brochura nova que resistia a ser aberta, anotei a primeira aula, quando ela nos explicou a diferença entre conotação e denotação. E entre esses dois eixos, no espaço de infinitas possibilidades que se abre, cada vez maior, ela fez surgir, afastando de maneira crescente os vetores, a mais amada das ciências, a mais prazerosa das artes, e também a mais aflitiva: a literatura. Aula após aula, sem que suspeitássemos, e apesar do seu jeito terno, ela obrigava Zeus a possuir novamente Mnemósine, mas para gerar apenas Calíope, Euterpe, Melpômene e Tália. E o resultado foi esta intoxicação para a qual recuso todas as possíveis curas, foi esta biblioteca que não pára de crescer, estes livros que se amontoam pelo apartamento, esta pilha que se avoluma, vigiando-me, sobre o criado-mudo, esta compulsão que me faz saltar de um universo a outro, mas sempre em busca de mim mesmo, encontrando-me retalhado pelos mais diferentes livros, perguntando-me, atônito, como uma parte de mim pode estar entre os judeus trágicos de Bernard Malamud, outra no torpor aconchegante que Conceição destila pouco antes da Missa do Galo, outra no soldado morto – um “higrômetro singular” – e mumificado sob uma quixabeira, nas cercanias de Canudos, e também com Diego de Zama, exilado num país latino-americano incerto, com Lorde Jim, lutando silenciosa e desesperadamente para encontrar a coragem, e na fera escondida na selva de Henry James, e na pergunta encravada na imodéstia bestial de Damázio, dos Siqueiras: “fasmisgerado?... faz-me-gerado?... falmisgerado?... familhas-gerado?”.

A cada nova página, descubro-me, graças a ela, para um encontro com parte do meu íntimo: fracionado, decepado, cindido, e ainda assim lúcido, vasculhando os livros infinitos e lembrando-me dessa mulher doce, algo enigmática, caminhando silente e pensativa sob as arcadas do Colégio Romeiro Pereira, exatamente como imagino que Shikibu Murasaki deveria caminhar, envolta nos seus múltiplos quimonos, na corte do Japão do século XI, sobraçando os originais do “Genji Monogatari”.

Como a vida pôde me separar de Ivanira Dadalt? De alguém cuja influência se encontra, sob diferentes aspectos, acima até mesmo do que minha própria família me ensinou? Mas talvez seja exatamente esse o papel dos verdadeiros mestres. Eles inoculam em nós idéias de beleza, de liberdade, de poesia, e depois se afastam, pois sabem que esses princípios vingarão apenas se o terreno for fértil, conscientes de que, em seu limitado poder, fizeram o melhor.

Imagino a delicada Ivanira sentada entre seus livros, talvez folheando um daqueles volumezinhos de capa cinza, da Coleção Nossos Clássicos, que ela algumas vezes me emprestou. Talvez releia um romance de Camilo ou, quem sabe, um poema de Cesário Verde. Ela fecha o livro, ergue os olhos, levanta-se, aproxima-se da janela e conclui, sem tristeza, que nossa existência é semelhante ao soneto de Camões: passamos a vida na esperança de um só dia – servindo Labão anos a fio, desejando ardentemente Raquel, mas recebendo apenas Lia.

2 comentários:

Duto Sperry disse...

Caro Rodrigo

Por um acaso do destino não nos encontramos(se é que não encontramos) em Jundiaí..
Ou talvez pela memória, que só me ajuda quando ela quer.

Eu vi esta mesma Ivanira, esta mesma cena, com esta mesma percepção. GEVA, 1972.
Estava procurando na internet uma maneira de encontrá-la quando achei a referencia a seu texto. Bingo! Alem de saber de D.Ivanira, constatei que o que eu sentia era mais que uma impressão pessoal.

Muitas vezes pensei em como teria sido bom ter D. Ivanira por perto. A facilidade com que ela fazia conviver as contradições mais complexas do universo que nos apresentava, a facilidade com que ela juntava as peças fundamentais para a formação de uma alma mais humana. Na verdade, creio que nunca me afastei dela. É a única explicação que encontro para a serenidade que, quando encontrei, tive a impressão que não me pertencia.
Acho que era dela.

Voltei esta semana da Argentina onde fui apresentar um filme que fiz para o terceiro setor na área de educação infantil. Faço filmes. Fazer este filme foi uma experiência muito enriquecedora, muito emocionante.
Chegando, resolvi fazer uma copia do filme e mandar para D.Ivanira com um bilhete.

Na qualidade de admirador congênere de Ivanira Dadalt, te mando uma cópia do bilhete. Depois me manda seu endereço que te mando uma copia do filme .

Saudações

Duto Sperry
duto.sperry@terra.com.br

O bilhete:
Prezada D. Ivanira

Espero encontrá-la bem.
Sou Carlos Augusto, chamado pelos colegas de Duto, desde a época em que fui seu aluno no GEVA, nos começo dos anos 70, na mesma classe do Eduardo Vilhena (não sei se está lembrada).
Já há muito tempo trabalho com cinema, atuando como diretor e diretor de fotografia.
Embora esteja escrevendo apenas no ano de 2007, gostaria de atestar a frequência com que sua lembrança me visita nos últimos mais de 35 anos. Inúmeras vezes pensei em escrever esta carta que, atropelada pelo cotidiano, acabou ficando para depois. Sempre senti uma necessidade grande de lhe dizer o quanto sou grato por nossa convivência, pelo quanto que a generosidade de sua posição como professora impactou em minha vida. Num momento difícil como a adolescência, onde não sabemos nem “por onde vamos” nem sequer “se vamos”, tive meu interesse despertado pela humanidade através de suas aulas de literatura. Comecei a enxergar o mundo pela perspectiva daquilo que as pessoas têm a dizer. Comecei a ver o encanto de formular idéias e tentar expressá-las corretamente. Graças a suas aulas e sua maneira doce de mostrar como o mundo poderia ser mais interessante. Um mundo melhor.
Esta semana terminei um filme documentário para exibição na Argentina. É um filme encomendado por uma instituição que apóia atividades do terceiro setor ligadas à educação de crianças e adolescentes. Ele fala um pouco sobre o inestimável papel de quem educa, de quem capacita as pessoas para seus destinos. A apresentação foi muito gratificante, e foram muitas as pessoas ligadas a este trabalho na Argentina que se sentiram, da mesma forma que eu, gratificadas pelo resultado final.
Gostaria de dedicar este trabalho a minha professora de literatura.
O texto do filme está em grande parte inspirado no que pude apreender de nossa convivência, e observando seu interesse sincero pelo conhecimento e pela construção do espírito.
Espero que goste.
Com carinho,

Duto

São Paulo, novembro de 2007

Antonio Anielo Scarapicchia disse...

Em 1969, estudando no GEVA, ganhei um livro,Máscara de ferro de D. Ivanira. De vez em quando leio a dedicatória dela e me emociono muito.Era uma Professora nota 10.Sempre me incentivou a melhorar.