Junho 29, 2004

Quando somos iguais?


O sofrimento está próximo como este copo de água que posso alcançar ao erguer minha mão. Ele é tão visível quanto a água, mas detém a mesma impenetrável transparência, que nos limita.

Estendemos nossas mãos para ele, em uma tentativa de apaziguar a dor, mas é inútil. Tudo se revela inútil diante da dor imensurável, manifestada em um gemido, em um tremor, no olhar opaco da criança que me fita, ansiosa, aguardando o remédio para o seu mal.

A luz que entra pela janela da sala amplia a limpidez da água, presa na armadilha de vidro barato. E imagino que, transpassando o copo imperfeito, cristaliza a água, congela-a numa ilusão de eternidade. A mesma luz se reflete sobre o rosto contorcido deste menino, mas desta vez ela é incapaz de criar quaisquer ilusões.

A respiração entrecortada deixa-o ainda mais pálido e, a cada gemido, ele parece piorar. "Papai", é só o que me diz, esgarçando o rosto em um espasmo de dor. "Onde dói?", pergunto, e vejo sua mãozinha, carregada da súbita maturidade que o sofrimento concede às crianças, indicar um ponto por demais preciso, onde a agudeza de viver ataca, às vezes de maneira inevitável.

Horas depois ele está melhor e, enquanto caminhamos para a saída do hospital, percorrendo os corredores muito iluminados, paramos à porta de um consultório, presos pela visão de uma menina magra e triste, cujo rosto guarda os sinais inequívocos de uma surra. "Quando o pai bebe, faz dessas coisas", diz aquela que talvez seja a mãe.

Derrotados pela cena, guardando um silêncio solidário, sentamos um pouco ali, no mesmo banco. Mudos, ouvindo os murmúrios abafados que vinham do pronto-socorro, vi, em certo momento, meu filho, sentado no meu colo, estender sua mão e tocar levemente a da pequena desconhecida, assinalando, em segredo, no vazio do amplo corredor, o primeiro momento em que ele percebia o quanto a vida nos faz iguais na humilhação do sofrimento e da dor.

(Escrito em 4 de junho de 1995.)

Junho 25, 2004

"Eu achava que a sala queria me conter"


Um despretensioso encontro, no interior de Minas Gerais, com três irmãs muito estranhas é, resumidamente, o tema do conto – Azul índigo – de Neuza Paranhos. Mas o que essa menina, adotada desde o ano passado pelos nova-iorquinos, oferece aos seus leitores é muito mais. As descrições de Neuza surgem, em um primeiro momento, com surpreendente leveza, revelando depois certa melancolia, ou aquela irremediável tristeza que nos acomete quando descobrimos o interior do Brasil – sua pobreza, seu abandono – e as criaturas que, fingindo-se humanas, lutam para sobreviver ali. Os detalhes polvilham toda a narrativa, mas não pesam, não emperram a leitura, agindo, ao contrário, como molduras suaves da "casinha de porta e janela" e suas três estranhíssimas ocupantes. Neuza descreve esse universo singular sem distanciar-se de seu objeto, sem acomodar-se na posição de uma narradora onipresente, recusando-se, ao mesmo tempo, a sugerir qualquer tipo de proselitismo. Os dramas e os sonhos de três mulheres, esquecidas no fundão de um Brasil que não queremos ver, são delineados em um texto cuja leveza não encobre a dor que, por um momento, parece desejar nos conter.

Junho 22, 2004

Meus amigos mortos


Duas folhas de caderno rasgadas ao meio. Uma garrafa de brandy pela metade. Os riscos e manchas da mesa velha, marcas imprecisas do que nos acostumamos a chamar com o nome de vida. Um cinzeiro inútil guarda moedas, pequenos pregos, um tubo de pomada e alguns clipes. A foto de meu filho, perguntando-me sobre a utilidade de viver. Uma caneta-tinteiro, que pertenceu a um dos bispos de Jundiaí. A temperatura amena deste final de outono.

Do andar de cima, vêm o choro de uma criança. Se caminhar até a sala, ouvirei o som abafado da televisão do vizinho. Através da janela, meu ouvido persegue um assobio lento, muito próximo, tendo ao fundo, estranhamente, os barulhos que os homens fazem ao anoitecer, ainda que tenha passado, faz pouco, do meio-dia.

A hora lenta e preguiçosa murcha as velas desta embarcação. O corpo jaz à deriva, ao sabor das coisas, acorrentado à calmaria, deixando o cérebro resgatar, deste rio, os velhos amigos. Deste rio largo, tão largo que não vemos as margens. Deste rio cujo nome é memória.

Desço, preso à correnteza, estas águas turvas e lodosas, e o casco envelhecido que me sustenta bate contra as ondas. Um peixe salta, escuro e brilhante contra o céu ensolarado, e escuto a voz de Plínio, sorrindo para mim, de pé à porta da Paulicéa: – A vida é mais fácil assim – ele exclama, quando me percebe chegar com uma namorada. Sua mão, morena e peluda, vem se apoiar no meu ombro. Ele inclina levemente a calva – ele, sempre cheio de mesuras – e comenta dois ou três casos leves, com o descompromisso dos que apenas querem agradar. Plínio que, dizem, lia em voz alta na cama, com a mulher, Romeu e Julieta.

Meus amigos. Meus amigos mortos. Os semblantes salvos pela memória iluminam estas águas escuras. Estão salvos deste marasmo, da surdez que a indiferença alimenta, das pequenas vilanias que nos diminuem uns aos outros. Eles me acariciam com a brisa quieta da eternidade, cujo silêncio enfuna as velas desta pesada embarcação.

Junho 17, 2004

A verdade


"Eu poderia viver preso numa casca de noz e me sentir rei de espaços infinitos, se não fossem os maus sonhos que tenho."

Shakespeare, Hamlet

Junho 15, 2004

Minhas meninas


Por vezes, as palavras perdem o sentido. Vagueiam em minha mente, livres do peso dos seus significados, leves, ariscas, fugindo ao meu afã de retê-las para colocá-las nesta fila, em certos momentos tão sem graça, e que convencionamos chamar de frase.

As palavras sobem, então, como balões que se soltam das mãos de uma criança. Coloridas, partem rumo a um céu desconhecido... E permaneço aqui, deitado na rede, deixando-as escaparem, embevecido pelo espetáculo dessas centenas de balões a enfeitarem, por alguns poucos segundos, o azul que minha imaginação pinta lentamente.

Pobre Saussure! Nunca as imaginou despidas de significados ou significantes, ocas, simples esferas coloridas? Teria perdido a festa destes vôos em direção a um céu vazio de nuvens?

Palavras... Pensei que fossem minhas... Ou melhor, que fossem minhas também, partilhadas entre nós, mortais, que as balbuciamos ou escrevemos para aquecer nossas paixões, acalmar nossas angústias, nomear nossas conquistas e remediar nossos erros. Mas enganei-me. Quando as mãos, prontas sobre o teclado, ensaiam a primeira letra, esse mínimo toque não avança além de um gesto titubeante, os olhos perdem-se na obscura mancha da parede e os ouvidos transformam o estalar da madeira no irromper de uma fanfarra. Então, deito nesta rede, acendo um cubano e deixo que partam de uma vez...

Mas, não as desprezo. E se as deixo partirem assim, é porque sei que voltarão. São como mulheres recém-apaixonadas, divididas entre a dor de amar e a dor da solidão. Elas sempre retornam. Ainda que sofram em minhas mãos, as palavras lembram alguma personagem masoquista, livre para partir, mas acorrentada à luxúria das torturas e das humilhações.

O perfumado ócio deste charuto aumenta o deleite de vê-las, muito pequenininhas, delicados pontos coloridos no céu, enquanto sinto renascer a saudade dessas adoráveis meninas que me concedem tanto prazer...

Junho 09, 2004

Você


Não, não diga nada. Deixe que o silêncio pouse sobre nós com um pássaro sonolento. Não fale as palavras loucas pelas quais sempre espero. Apenas caminhe, descalça, pelo quarto, com os passos que escuto, a cada momento, em minha memória. Ande, e deixe que eu olhe a cadência e o porte que – já se vão alguns anos – admirei em uma celebração noturna.

Caminhe. E venha, agora, devagar, do fundo do quarto, em minha direção. Venha, com o mesmo sorriso, com a boca úmida que sempre me beijou com a mais perfeita intensidade.

Isso... Estenda a mão onde o anel de formatura brilha como o sinal das velhas barreiras que você ultrapassou, e deixe que eu enfie o rosto nos seus seios claros, fingindo que o tempo não passou e que somos os mesmos jovens insatisfeitos e desesperados, para quem até mesmo as loucuras feitas na sala de minha avó não bastavam.

Permita que, assim, quieto, muito quieto, eu vá sorvendo o seu perfume, embriagando-me de você como se cometesse um crime por meses a fio planejado, com a meticulosidade de quem sabe ser essa a sua mais perfeita obra, a sua definitiva vitória.

Agora, repitamos o mais antigo dos rituais. E, deitada, peça que eu beije seu corpo inteiro, até não poder mais...

Veja como o tempo parece não ter passado... Somos os mesmos que se deliciavam com fúria, submergindo em tudo o que os nossos sentidos podiam roubar. Ainda carregamos conosco o sonho de repetir a História de O ou de apenas reler juntos Bataille.

Você traz os mesmos olhos verdes – e eu trago a mesma vontade de permanecer neles. Você traz, sobre a sua verdadeira identidade, essa figura de menina, e eu me enterneço dela como se olhasse para você a primeira vez. Sei que muito mudou, mas sei também que a alegria pode se sobrepor a tudo, repetindo o mesmo que sempre ocorreu quando, em outras vezes, nos reencontramos.

Venha. Há frio lá fora. Fique neste silêncio construído contra todas as possibilidades, neste silêncio que é uma recusa ao vazio, nesta quietude que acelera o nosso peito e nos faz acreditarmos que estamos em paz.

Junho 02, 2004

Mundos dessemelhantes, prazeres iguais


Reconheço que os critérios que minha sensibilidade escolhe para gostar ou não gostar de um texto são essencialmente intuitivos. Não sou um crítico literário e não guardo qualquer pretensão nesse sentido, mas aprecio perceber-me como um leitor exigente, aberto às novas experiências da linguagem, mas também um pouco conservador, pois o que eu admirava aos vinte anos – uma estética capaz de romper com a lógica da linguagem – já não me emociona mais.

Estou, assim, sempre em busca de boas histórias, do passado ou do presente, ainda que, para este leitor compulsivo, tudo seja presente, pois a leitura tem, dentre outras qualidades, essa capacidade de reinaugurar o tempo, reinstalar os acontecimentos, recuperar a ficção esquecida em algumas páginas amareladas e trazê-la para o agora, como nestes dias, quando tenho reencontrado Julien Sorel e, também, admoestado Stendhal por deixar sobre o genuflexório da igreja de Verrières o papel rasgado em que se lê o começo de uma notícia sobre a execução de um certo Louis Jenrel: um chiste desnecessário, um recurso literário menor em uma grande obra... Enfim, uma pequena implicância minha, uma de muitas idiossincrasias.

Mas tenho lido várias coisas, algumas delas decepcionantes, como O livro das ilusões, de Paul Auster, e outras que me agradam muito, como dois autores inéditos – no sentido de não serem publicados em livro –, com estilos completamente diferentes, mas cujos trabalhos são pequenos universos que bastam a si mesmos e que me ofereceram aquela sensação de completude que nasce dos textos que mesclam, na medida certa, literariedade (um conceito realmente intuitivo, concordo), linguagem apurada, concisão e um tema que, mesmo sendo aparentemente superficial, acaba revelando, nas mãos de um bom escritor, possibilidades inusitadas. E talvez essa seja a tarefa do escritor: extrair a loucura dos fatos banais, ou os interstícios que, quase sempre, nos passam desapercebidos.

Beatriz Mecozzi e Saint-Clair Stockler conseguem cumprir essa perigosa e difícil tarefa.

No site de Beatriz, na seção Rêverie, aqueles pequenos poemas em prosa não se resumem a flashes do cotidiano, mas transcendem o dia-a-dia caótico dos grandes centros urbanos, transformando-se em espelhos das relações humanas que continuam a ocorrer sob o nosso olhar entorpecido pelos outdoors. Cada uma daquelas pequenas histórias é o grito de alerta de quem quer salvar o que ainda há de humano na cidade desgovernada. Cada um daqueles pequenos textos é uma tentativa de reconstruir a parcela de humanidade que perdemos a cada investida da cidade. Beatriz pinça um momento, ergue-o diante de nós, despe-o da correria, do barulho, do fedor e da indiferença, e oferece-nos a vida em seu estado mais puro, mais simples, mais essencial.

A escrita de Saint-Clair é diversa. No conto Bicicletas, por exemplo, somos levados para dentro de um intrincado episódio, no qual emergimos do sono não para retornar ao real, mas para naufragarmos no delírio. A trama se oferece de maneira despretensiosa, mas, pouco a pouco, somos envolvidos em um longuíssimo parágrafo, cujo torvelinho de suposições nos remete a um mundo no qual sonho e realidade são indistinguíveis. O texto se desencadeia a partir do simples ato de escutar, aprisionando-nos, finalmente, em um quimérico labirinto, em um pesadelo, em uma barafunda de ruídos que nos enlouquecem.

Ler Beatriz Mecozzi e Saint-Clair Stockler é conhecer mundos díspares, talvez até mesmo opostos – e que nos completam. Eles nos levam para algum ponto além da experiência estética, do qual retornamos melhores do que quando partimos.