Quando somos iguais?
O sofrimento está próximo como este copo de água que posso alcançar ao erguer minha mão. Ele é tão visível quanto a água, mas detém a mesma impenetrável transparência, que nos limita.
Estendemos nossas mãos para ele, em uma tentativa de apaziguar a dor, mas é inútil. Tudo se revela inútil diante da dor imensurável, manifestada em um gemido, em um tremor, no olhar opaco da criança que me fita, ansiosa, aguardando o remédio para o seu mal.
A luz que entra pela janela da sala amplia a limpidez da água, presa na armadilha de vidro barato. E imagino que, transpassando o copo imperfeito, cristaliza a água, congela-a numa ilusão de eternidade. A mesma luz se reflete sobre o rosto contorcido deste menino, mas desta vez ela é incapaz de criar quaisquer ilusões.
A respiração entrecortada deixa-o ainda mais pálido e, a cada gemido, ele parece piorar. "Papai", é só o que me diz, esgarçando o rosto em um espasmo de dor. "Onde dói?", pergunto, e vejo sua mãozinha, carregada da súbita maturidade que o sofrimento concede às crianças, indicar um ponto por demais preciso, onde a agudeza de viver ataca, às vezes de maneira inevitável.
Horas depois ele está melhor e, enquanto caminhamos para a saída do hospital, percorrendo os corredores muito iluminados, paramos à porta de um consultório, presos pela visão de uma menina magra e triste, cujo rosto guarda os sinais inequívocos de uma surra. "Quando o pai bebe, faz dessas coisas", diz aquela que talvez seja a mãe.
Derrotados pela cena, guardando um silêncio solidário, sentamos um pouco ali, no mesmo banco. Mudos, ouvindo os murmúrios abafados que vinham do pronto-socorro, vi, em certo momento, meu filho, sentado no meu colo, estender sua mão e tocar levemente a da pequena desconhecida, assinalando, em segredo, no vazio do amplo corredor, o primeiro momento em que ele percebia o quanto a vida nos faz iguais na humilhação do sofrimento e da dor.
(Escrito em 4 de junho de 1995.)
