Na próxima
segunda-feira, dia 4 de agosto, a partir das 18h, vocês estão convidados para o lançamento do meu novo livro na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2073). Será um
prazer reencontrar os amigos e abraçar meus leitores. Até lá!
julho 28, 2014
julho 26, 2014
Olavo de Carvalho contra o “beija-mão esquerdista”
“O ritual
obrigatório do beija-mão esquerdista já aviltou grandes inteligências entre
nós. Nem o Otto Maria Carpeaux escapou.” Hoje, entre nós, brasileiros, só há um
intelectual capaz de afirmar isso com desassombro: ele se chama Olavo de Carvalho.
Só Olavo, de
maneira franca e clara, diz aos jovens: “Se você não tem força para ser ao
mesmo tempo um gênio e um joão-ninguém, jamais chegará a ser um gênio. Será
sempre um talento estragado”.
Ninguém, hoje, neste
país, do alto de qualquer cátedra, tem desassombro para dizer, como Olavo: “Prezo todos os homens inteligentes, mas prezo muito mais aqueles que,
além de ser inteligentes, têm a coragem de prescindir do apoio de grupos e
capelas, como fizeram o Mário Ferreira dos Santos e o Vilém Flusser, ainda que
pagando por isso o preço do ostracismo”.
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julho 22, 2014
julho 15, 2014
“Em cada trecho seu que releio, creio descobrir o mais perfeito”
A literatura não
é apenas o que está nos livros, o que foi publicado, mas também toda a coleção
de incertezas do autor, as correções sem fim, os prazos jamais cumpridos, a
revisão nem sempre minuciosa e, no caso de Marcel Proust, sua eterna angústia,
o avanço da doença, a monumentalidade da obra — e a paciência do editor, Gaston
Gallimard.
O processo
industrial de edição encontra-se hoje num estágio diferente: os revisores
enlouquecem por outros motivos, ninguém precisa decifrar marcações e
hieróglifos como os de Proust. Mas a inquietude do autor, suas decepções e,
muitas vezes, o descuido dos revisores — tudo permanece igual.
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Marcel Proust
julho 10, 2014
“O que amas de verdade não te será arrancado”
A literatura
pode, muitas vezes, ser o único elo com nossa consciência. Um poema esconde a
força capaz de nos manter ligados a valores que desmoronam ao nosso redor — e
aos quais também somos convidados a renunciar. Quando vemos a virtude se
desintegrar e quando nos expomos, por nossas próprias opções, ao risco da
fragmentação moral, algumas poucas estrofes podem servir como uma âncora que
nos aferra à verdade.
Só muitos anos
depois daquele inverno em que mudei para a casa de minha bisavó pude compreender
a decisão de copiar, em letras de fôrma, na parede ao lado da escrivaninha, o
trecho do Canto 81 de Ezra Pound. Não posso precisar meus sentimentos, mas a
figura de um cínico é a que mais se aproxima das minhas lembranças. Eu me
sentia um misantropo sem filosofia, a não ser algumas páginas de Nietzsche; um
hedonista e seu inseparável aguilhão, o desespero.
Mas o poema
estava lá, na parede entre os dicionários e o telefone, letras imperfeitas e
grandes, linhas tortas, escritas sem grande cuidado. O poema estava ali todos
os dias. Era uma promessa — “O que amas de verdade não te será arrancado” —,
mas também uma advertência: “Abaixo tua vaidade / Tu és um cão surrado e largado
ao granizo”. Não era uma condenação, longe disso, mas um alerta: “o erro todo
consiste em não ter feito”. O que fazer, eu me perguntava — eu, “ávido em
destruir, avaro em caridade”. E a visita de Pound a Wilfrid Scawen Blunt era a
resposta: colher “no ar a tradição mais viva / ou num belo olho antigo a flama
inconquistada”.
O fragmento do Canto 81 substituiu a prece que
eu me recusava a fazer. A literatura foi minha âncora enquanto não redescobri
onde havia guardado meu coração.
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julho 07, 2014
A celebração do telegrama — Plínio Salgado e “O Estrangeiro”
No Rascunho deste mês, escrevo sobre o primeiro romance de Plínio Salgado, O Estrangeiro, resposta
direta à Semana de Arte Moderna, livro repleto de lugares-comuns, escrita
telegráfica, bobagens linguísticas, filosofia confusa, nacionalismo exacerbado
e horrores retóricos. Verdadeira tralha linguística.
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julho 04, 2014
Reflexões para os momentos de desânimo
Às vezes,
encontramos entre velhos papéis o pensamento adequado, a anotação feita há
muito tempo, mas que hoje ressurge para oferecer, novamente, seu pleno sentido:
“O verdadeiro
destino de um grande artista é um destino de trabalho. Em sua vida
chega a hora em que o trabalho domina e conduz sua destinação. As infelicidades
e as dúvidas podem atormentá-lo por muito tempo. O artista pode vergar sob os
golpes da sorte. Pode perder anos numa preparação obscura. Mas a vontade de
obra não se extingue desde que ela encontrou uma vez seu verdadeiro foco.
Começa então o destino de trabalho. O trabalho ardente e criador atravessa a
vida do artista e confere a essa vida virtudes de linha reta. Tudo vai em
direção à meta numa obra que cresce. Cada dia, esse estranho tecido de
paciência e entusiasmo torna-se mais ajustado na vida de trabalho que faz de um
artista um mestre.” — Gaston Bachelard
junho 27, 2014
Raskólnikov e eu
Quando li Crime e castigo a primeira vez, estava absorvido
por múltiplas e desordenadas leituras, tinha uma compreensão maniqueísta da
existência, Vladimir Ilitch Lenin acabara de surgir no meu horizonte como a
figura perfeita do herói, a desagregação existencial que Antonio Callado mostra
em Quarup parecia-me inata à condição
humana e, meses mais tarde, eu me aventuraria numa viagem confusa e
decepcionante à Bahia, disposto a recomeçar minha vida em alguma comunidade paupérrima
que, acreditava, me apresentaria o verdadeiro
Brasil.
Como descobri
muito tempo depois, todos nós temos o pleno direito de sermos idiotas aos dezessete,
vinte anos. E exerci esse direito plenamente, inclusive no que se refere às
minhas leituras.
É uma pena que
eu não tenha mais aquela edição de Crime
e castigo, na qual anotei com sofreguidão, nas últimas páginas, elaboradas ofensas
a Dostoiévski, criticando-o por permitir que seu personagem alcançasse a
redenção. E como detestei Raskólnikov quando ele se lançou aos pés de Sônia,
derrotado pelo amor. “Não, não, não!” – meu cérebro gritava, apegando-se a um niilismo
infantil.
Duas décadas se passaram
até que eu relesse o romance, agora de maneira quase febril, exaltado pela
narrativa, negando-me, desde a primeira página, a qualquer tipo de
distanciamento crítico. Eu desejava ler pelo prazer de ler.
Se havia algum resquício do
jovem da primeira leitura, ele morreu ali, página a página, até chegar ao
Epílogo, quando foi definitivamente sepultado. Nunca agradeci tanto a um
escritor. A redenção de Raskólnikov era a minha redenção. Se aquele assassino
podia zerar o passado e reiniciar a vida, então também para mim – e para todos
– o recomeço seria possível. E a pena de sete anos, diante da paz interior
finalmente encontrada, era uma insignificância.
Em abril de 2013 – ou seja, quase duas décadas
depois dessa última leitura –, uma amiga, Lorena Miranda Cutlak, analisou com agudeza
o Epílogo do romance. Ali está tudo o que eu gostaria de escrever. Ali está, esmiuçada,
a dívida que temos com Raskólnikov.
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junho 24, 2014
Karl Kraus, grande ironista
Leiam as duas
cartas a seguir. Do lado esquerdo, o semanário moscovita Krassnaia Niva pergunta a Kraus quais os efeitos e conseqüências da
Revolução Russa para a cultura mundial. Mas a resposta não pode ultrapassar vinte
linhas. O tom burocrático e repetitivo da carta – que sugere, claro, um teor
encomiástico para a resposta – recebe o merecido sarcasmo de Kraus (à direita):
de fato, o que a revolução fez pela literatura cabe em dez ou vinte
linhas.
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junho 10, 2014
Camões e Flaubert: amor mais longo que a vida
O tempo que o
amor exige não conhece medida. O soneto de Camões evoca a inesgotabilidade do
amor verdadeiro – e a consequente resignação ao objeto desejado, a paciência
que supera limites. Não importa que Raquel almejamos. Muito menos, que forma
assume Labão em nossa história.
Relemos a
correspondência de Flaubert e lá está Jacó, debatendo-se por Raquel, servindo
Labão como infatigável operário. “É preciso uma vontade sobre-humana para
escrever e eu sou apenas um homem”, ele diz, trabalhando sete horas por dia; e,
ao fim de um mês, enganado, produz apenas vinte páginas.
Não é o amor de
Jacó, disposto a servir mais sete anos, que Flaubert carrega? “Eu gosto do meu
trabalho com um amor frenético e pervertido, como um asceta do cilício que lhe
arranha o ventre.” E não se sujeitou a sacrifícios, não se humilharia ainda
mais, “ se não fora para tão longo amor tão curta a vida”?
Tal amor, sempre
a um passo da obsessão, mostra-se, o soneto não conta, às vezes infértil. Em
maio de 1852, Flaubert diz sentir-se “estéril como uma pedra”. Na história de
Raquel e Jacó, o filho nasce depois de longa insistência. Será o favorito,
José, mas a fala de Raquel não esconde o alívio: “Deus tirou o meu opróbrio”.
Flaubert, contudo, não se permitiu o contentamento – sabia que “a palavra
humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para
fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas”.
No fim, diante da obra terminada ou do filho, o
que resta, senão amor? Amor que Camões adivinhou sob a plenitude, a totalidade
do número 7. Amor mais longo que a vida.
junho 07, 2014
Hoje, lançamento de “Esquecidos & Superestimados” em Santos
Espero os amigos santistas
hoje, às 17h, na Livraria Realejo, para o lançamento do meu novo livro, Esquecidos & Superestimados. A Realejo
fica no Gonzaga, na Rua Marechal Deodoro, nº 2. Também participarei, com a mediação
do jornalista e editor Rodrigo Simonsen, de um bate-papo sobre literatura e
crítica literária. Até lá!
junho 04, 2014
Mediocridade e valor — o caso “A marquesa de Santos”, de Paulo Setúbal
Otto Maria Carpeaux estava
certo: “Não existe relação entre os valores literários e os efeitos sociais: o
sucesso não é prova de valor; a mediocridade não exclui consequências
benéficas”. É o que mostro no ensaio que escrevi para a edição deste mês do
jornal Rascunho, em que analiso o romance A marquesa de Santos, de Paulo Setúbal, um best-seller da literatura brasileira.
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maio 31, 2014
Reações ao Decreto 8.243 — a sociedade ainda respira. Até quando?
A principal
característica de um governo esquerdista é que ele jamais se contenta em
governar de acordo com a ordem legal, instituída. Ele sempre acredita que detém
a chave, a poção, a receita miraculosa para transformar o país no que, ele
imagina, será o melhor dos mundos. O problema é que o melhor dos mundos, quando
se trata da esquerda, está sempre próximo do que imaginamos ser o Inferno,
quando não é o próprio Inferno.
A prova do que
afirmo encontra-se não apenas na história das revoluções — vejam o Purgatório
congelado no tempo em que Cuba se transformou, sobrevivendo graças à submissão
de um povo sem esperança e sem armas e à propaganda esquerdista mundial, ou os
milhões de crimes perpetrados pelo comunismo soviético —, mas também no
presente, no cotidiano da sociedade brasileira, sequestrada, em grande parte,
pelo pior tipo de populismo que já conhecemos, superior, em método e recursos,
aos refinamentos do getulismo.
Esta semana,
mais uma vez, o governo ensaiou uma tentativa de golpe. O alarme foi dado pelo editorial
do Estadão, “Mudança de regime por decreto”, e rapidamente se espalhou pelas redes sociais e blogs,
transformando-se em um fenômeno viral.
De fato,
enquanto os políticos de oposição dormem, refestelados em seus altos salários e
mordomias, parcela da sociedade vigia, atenta, os ensaios para se criar uma
ditadura. As reações foram múltiplas: Reinaldo Azevedo pontificou: “A ‘democracia direta’ de Dilma é ditadura indireta do PT”. Alexandre Borges deu uma breve mas incisiva aula de
história em “Todo poder aos sovietes petistas”. Felipe Moura Brasil denunciou a lentidão dos tucanos, sempre
envergonhados ou sempre pactuando silenciosamente com o governo, no post “Ronaldo Caiado sai na frente de Aécio: ‘É golpe do PT!’”. No artigo “Um tumor inserido por decreto”, Fábio Blanco sangrou ainda mais a manobra
traiçoeira. E Milton Simon Pires não deixou por menos: mostrou, em “Brasil 8243”, como o PT pretende
destruir as instituições do país.
O mais didático
e irônico, contudo, foi Erick Vizolli, no sempre ótimo Liberzone. No artigo “Afinal, o que é esse tal Decreto 8.243?”, Vizolli mostra que o sistema
representativo, apesar de todos os seus defeitos, ainda é a única forma de nos
protegermos de um Estado controlado por grupos que não têm compromisso com a
democracia ou a liberdade, mas apenas com suas próprias ideologias.
Todos esses
articulistas me recordaram as reflexões de Roger Scruton em The
Uses of Pessimism and the Danger of False Hope (As vantagens do pessimismo,
Editora Quetzal, Lisboa). No Capítulo 6, “A Falácia do Planeamento”, Scruton
faz uma brilhante analogia entre a estrutura da União Europeia e a forma como
Lenin aboliu, na Revolução Russa, “todas as instituições através das quais o
partido e seus membros pudessem ser responsabilizados pelo que fizeram”,
permitindo que um erro se sucedesse a outro, sempre maior, sempre mais
criminoso.
Scruton reflete
como se tivesse acabado de ler o decreto de Dilma Roussef: “Quando os poderes de Governo estiverem adequadamente repartidos e
quando os que detêm a soberania puderem ser expulsos por uma votação, os erros
podem encontrar o seu remédio. Porém suponhamos que as instituições de Governo
estão montadas de tal maneira que toda a concentração de poder é irreversível,
de modo que os poderes adquiridos pelo centro nunca podem ser recuperados. E
suponhamos que aqueles que mandam no centro são nomeados, não podem ser
afastados a pedido do povo, encontram-se em segredo e guardam poucas ou
nenhumas atas das suas decisões. Acha que, nessas circunstâncias, existem
condições em que possam ser retificados erros ou mesmo convincentemente
confessados?”.
Todos os infinitos
casos de corrupção; todas as manifestações de ódio coletivo que têm tomado as
ruas; o longo e incansável trabalho de controle ideológico feito pelo
Ministério da Educação, censurando, de forma velada, o conteúdo de milhões de
livros didáticos distribuídos país afora; todas as tentativas de manter sob
vigilância a mídia e a Internet; o evidente controle do Executivo sobre parcela
do Congresso e do Supremo Tribunal Federal — tudo contribui para transformar o
Decreto 8.243 na cereja do bolo.
Se ainda podemos
ter alguma esperança, ela reside no fato de que eles sempre acabam destruindo uns
aos outros. “Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia
dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de
fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco
para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era
homem, quem era porco” — conta George Orwell no final de A Revolução dos Bichos.
maio 27, 2014
Dolly Freed, uma chestertoniana inconsciente
Graças à
indicação de meu amigo Sílvio Grimaldo, tenho lido, antes de dormir, o
divertidíssimo Possum Living: How To Live
Well Without A Job And With (Almost) No Money, escrito por Dolly Freed no
final da década de 1970.
Não, não se
trata de algo semelhante a Walden, de
Henry David Thoreau, ainda que o despretensioso livrinho de Dolly tenha sido
sequestrado pelos seguidores do movimento Simple
living.
Dolly Freed não
está interessada em atacar uma suposta “sociedade de consumo”. Ao contrário da
tediosa linguagem de cunho ideológico, ela nos oferece humor, ironia. Numa das partes
dedicadas à alimentação, recomenda, por exemplo, que os humanos só devem ser
comidos em casos de emergência, pois sua carne é fibrosa e carente de vitamina
B.
Ela escreve com franqueza contagiante — e ainda
que eu não esteja disposto a viver totalmente como Dolly propõe, um estilo de
vida que ela própria se viu forçada a abandonar, o livro é um delicado convite à
simplicidade, a buscar o que é realmente essencial, como a bondade e a alegria.
Possum Living é a obra de uma chestertoniana
inconsciente.
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maio 22, 2014
Hoje, lançamento de “Esquecidos & Superestimados” em Curitiba
Espero os amigos
curitibanos hoje, às 18h30, na Livraria Danúbio, para o lançamento do meu novo
livro, Esquecidos & Superestimados.
A Danúbio fica no Batel Soho, na Alameda Prudente de Moraes, 1239. Até lá!
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Esquecidos & Superestimados
maio 19, 2014
Só um alienista pode salvar o país
Quando o
populismo e a demagogia imperam — exatamente como acontece nos últimos anos no
Brasil —, a cultura pequena predomina, ganha altos postos e financiamentos
soberbos.
É curioso o
discurso dos que justificam o rebaixamento de Machado de Assis a uma linguagem
popular, supostamente acessível ao povo: enquanto lança perdigotos, o magnânimo evangelizador literário das massas, com a serenidade típica
de um cônego que recolhe esmolas apenas para garantir o próprio consumo de
presunto e vinho, desfia seu amor desabrido, realmente perdulário, não ao
dinheiro captado graças à esdrúxula Lei Rouanet, mas à “copeira do escritório”,
ao “balconista da farmácia”, ao “motorista de táxi”.
Chegam a ser comoventes
esses padrinhos e madrinhas dos pobres iletrados brasileiros. Quanto amor! Quanta
prodigalidade! Se pudessem, levariam a cada lar um volume de Machado de Assis.
E de quebra, quem sabe, uma terrina de caldo de galinha! Ah, se pudessem!, esses
médicos de almas sentariam à cabeceira de cada brasileiro, cobrindo as
cabecinhas pouco iluminadas do povo com suas infalíveis compressas de cultura.
Quanto
paternalismo! Quanta simulação de virtude! Quanta receita infalível e pretensiosa,
enquanto o país rasteja para se agarrar às últimas posições de todas as
estatísticas, de todos os índices, de todas as pesquisas que avaliam níveis de
educação.
É fácil
construir um túnel de livros, criar impacto numa mídia sedenta de impacto e se
dizer benfeitor da cultura. O difícil é, com giz e lousa, sob o sol e a chuva,
no verão e no inverno, na caatinga, na Amazônia ou sob uma árvore raquítica no
quintal de casa, ser professor, formar uma nova geração, preparar bons leitores
de Machado. Isso ninguém quer fazer – e os que fazem, os que realmente se
dedicam a educar, para esses não há Lei Rouanet, mas só o minguado contracheque.
É realmente irônico,
machadiano demais, que a salvação literária nacional seja oferecida ao povo por meio de um alienista. Alienista de roupinha puída, doutorzinho medíocre, de poucas
luzes, perfeito para os burros doidos deste país.
Mas não deixemos que a ironia nos engane. No
substrato dessa proposta, na base de um Estado que acolhe e ajuda a financiar
tal projeto, só há vulgaridade. Ortega y Gasset estava, desgraçadamente, certo:
a vulgaridade tornou-se um direito – e domina toda a vida pública.
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Machado de Assis,
O Alienista
maio 15, 2014
Flávio Morgenstern contra o falso iludido contente
“Estou chocado!”,
repete o opositor de Flávio Morgenstern no debate. É a reação do típico
intelectual esquerdista: finge indignação; conhece a verdade, mas prefere escondê-la
sob o discurso faccioso, sempre pronto à exaltação do regime e da ideologia a
que serve.
Poderia ser
apenas a reencarnação do Dr. Pangloss, mas não: mentir tantas vezes, distorcer
os fatos repetidamente, torna-se uma segunda pele. No fim, ele já não sabe a
diferença entre mentira e verdade – e se transforma no que chamo de falso
iludido contente.
Vejam o debate.
E constatem: nem mesmo altas doses de realismo conseguem arrancar desses
fantasistas profissionais um renovador minuto de honestidade.
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Flávio Morgenstern
maio 10, 2014
Hugo von Hofmannsthal no Estábulo de Áugias
A obra de arte
Cada verdadeira obra de arte é a planta
do único templo que existe na Terra.
Qual voz o escritor seguirá?
Para aquele que produz não há nenhuma
prova mais séria do que procurar reconhecer se o que, de um passo para outro, o
coage e previne é o seu verdadeiro gênio ou a voz pusilânime das suas
influências: se, ao adquirir a forma, obedece ao que nele há de mais elevado ou
de mais baixo.
O absurdo inominável
A função da obra poética é proceder à
depuração, estruturação, articulação do material da vida. Na vida reina o
absurdo abominável, um furor horrível da matéria – por hereditariedade, coação
interior, estupidez, maldade, vileza que no íntimo se radica –, no domínio
espiritual uma desordem e inconsistência até ao inacreditável – este é o
estábulo de Áugias que tem de ser limpo continuamente e quer ser transformado
num templo.
Ir além de si próprio
As pessoas exigem que uma obra poética
fale com elas, lhes diga qualquer coisa, com elas se familiarize. Porém, as
obras de arte superiores não fazem isso, assim como a Natureza também não se
familiariza com as pessoas; a obra está aí e leva o homem para além de si
próprio – se ele estiver concentrado e pronto para isso.
Obedecer a que público?
O
paradoxo da existência literária é que o público da época deseja uma
alimentação diferente da que reclama o público sobreepocal.
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Hugo von Hofmannsthal
maio 09, 2014
O pão de cada dia
Em março de 2009, neste blog, falei sobre o texto de dois críticos que atuavam em campos
diferentes do meu: Luiz Américo Camargo, na gastronomia, e Lauro Machado Coelho, na música erudita.
O que afirmei na
época continua valendo: ambos recusam o discurso dúbio – a crítica ambígua sempre
esconde covardia intelectual – e seus textos são destituídos da empáfia, cada
vez mais comum, de quem pretender criar um novo gênero literário, quase sempre
carregado de linguagem hermética.
Lauro,
infelizmente, não escreve há bom tempo. Mas Luiz Américo continua a presentear os leitores com seu texto leve, sem metáforas excêntricas e, o principal, sem
medo de avaliar, de forma clara e isenta, os restaurantes que visita.
Críticos assim
não devem permanecer confinados à página do jornal; seus trabalhos merecem um
número crescente de leitores. Foi, portanto, uma agradável surpresa descobrir
que Luiz Américo lançou o primeiro livro. Agradável por dois motivos: primeiro,
porque minha mulher e eu gostamos de cozinhar; fomos criados por mães, avós e
bisavós que cultuavam os bons pratos e as receitas familiares, de geração a
geração. Nossas cozinhas sempre foram um espaço de convivência fraternal e
descobrimos nelas, todos os dias, alguma forma de alegria. E o segundo motivo: o
livro de Luiz trata do alimento que é a síntese da nossa cultura: o pão.
Não me
aprofundarei aqui em simbolismos – e não listarei as dezenas de lembranças que
explodem na minha memória quando sinto o perfume dos pães que acabam de sair do
forno. Seria repisar sensações comuns, conhecidas por todos. Mas é exatamente
aí que nasce a importância do livro de Luiz Américo: falar de algo que, sob uma
aparência trivial, esconde a base da civilização.
Acrescente-se a esses fatores o saboroso texto
do autor – vejam, por exemplo, a crônica “As mãos sujas”, em que ele mescla
existencialismo à arte de fazer os próprios fermentos – e teremos um livro que,
além de todos esses prazeres, tem a delicadeza de nos ensinar a fazer o pão de
cada dia.
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Lauro Machado Coelho,
Luiz Américo Camargo
maio 07, 2014
Tediosa floresta — Gastão Cruls e “A Amazônia misteriosa”
Analiso, no Rascunho deste mês, o romance que Gastão
Cruls escreveu inspirado em A ilha do Dr.
Moreau, de H. G. Wells. Este é um trecho do meu texto:
O que não seria problema nas mãos de um
bom escritor transforma-se, na pena de Gastão Cruls, em obstáculo
intransponível: o livro foi escrito sem que ele conhecesse o Norte do país, a
não ser “através de numerosa e selecionada bibliografia”, diz a nota da Editora
José Olympio; seu primeiro contato com a Amazônia só ocorre em 1928, quando
acompanha a expedição do Marechal Rondon à fronteira do Brasil com a Guiana Holandesa,
atual Suriname.
Seu apego à bibliografia — e não à sua
capacidade de fantasiar; o desejo de escrever uma obra que fosse réplica da
floresta — e não exercício de verossimilhança; a aflição evidente de transpor
para o livro cada mínimo elemento amazônico, atribuindo-lhe seu nome
específico; tudo contribui para a criação de uma narrativa artificial, que
obriga o leitor ao exercício de consultar, página a página, o “Elucidário”,
formado por cerca de 250 palavras. Usar a expressão “o lago estava saru”, por
exemplo, é condenar a um vazio mental o leitor que não domina os regionalismos.
— A íntegra do ensaio está disponível no website
do Rascunho.
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Gastão Cruls
maio 06, 2014
Reminiscências do mundo dos sonhos
Para onde nos levam os sonhos? Ao caminharmos, indefesos, nessas trilhas
de símbolos, seguimos para que estranho, desconhecido país?
O
mundo onírico é mais do que a tela na qual se projetam desejos que anseiam por
se realizar. Cada sonho guarda um convite ao autoconhecimento; cada viagem
empreendida ao subterrâneo da mente esconde um sinal que, às vezes repetitivo,
insiste no sentido de desvendarmos nosso eu.
Assim,
quando acordo e percebo que a memória preserva o itinerário da viagem noturna,
acalento essas lembranças – talvez fragmentadas – como se formassem o mapa de
uma aventura que clama por ser reconstituída; tarefa que, realizada pela mente
em vigília, pode oferecer o tesouro – quem sabe inominável segredo – escondido
em algum ponto de chegada. Procuro, então, revisitar, durante o dia – e, muitas
vezes, esforçando-me por continuar a fazê-lo nos dias seguintes, quando
pressinto que a lembrança do sonho já se esvai –, as mesmas etapas noturnas,
como o menino que, encontrando no caminho à sua frente as pegadas de um adulto,
tentasse colocar seus pés, passo a passo, nas marcas deixadas na terra, que ele
só consegue alcançar com grande esforço.
Há
algumas noites, depois de longa conversa com minha mulher sobre o processo de
criação de alguns textos, enveredei mais uma vez, durante o sono, para o meu
labirinto pessoal. Deparei-me comigo, ainda criança: um menino de nove ou dez
anos. Freqüentava uma escola dirigida por religiosas e, naquela manhã, chegando
com outras crianças para a aula, percebi que o centro da escada de metal, por
onde subíamos para entrar nas classes, fora retirado. Alcançando determinado
degrau, eu tentava pular o vão que me levaria à parte superior da escada, mas
meus esforços eram inúteis. Desci, então, resolvido a buscar um atalho, pois a
aula começaria em poucos minutos. Nesse momento, uma freira se aproximou de mim
e, demonstrando conhecer minha dificuldade, instruiu-me sobre o caminho
alternativo. Mais trabalhoso, disse-me ela, com o sorriso que revelava a
promessa de uma opção agradável, prazerosa. Eu deveria sair do prédio,
orientou-me a irmã, circundá-lo, encontrar a fonte existente em algum ponto do
terreno, mergulhar nela, atravessar a nado um trecho submerso e voltar à tona
mais à frente, quando encontraria a entrada para a classe. Aceitei as
orientações e, mesmo notando a existência de outra escada, esta semelhante à do
sobrado em que passei minha infância, decidi seguir em frente. Cruzo o longo
gramado que ladeia o prédio e encontro-me diante de uma fonte circular, na qual
mergulho sem hesitação. Lá, sob a água cristalina e iluminada, em um espaço
surpreendentemente amplo, deparei-me com o cenário deslumbrante: no centro havia
uma coluna formada por outra qualidade de água, ainda mais transparente e mais
luminosa do que aquela onde me encontrava; e por essa coluna subiam, rumo à
superfície, exemplares – animados e inanimados – de tudo o que compõe a
realidade. Esse conjunto imensurável vinha de uma região subterrânea, e cada
exemplar demorava-se alguns segundos à minha frente, para depois continuar em
sua rota ascendente. Alegremente atônito, deixei-me ficar ali, esquecido das
aulas, maravilhado com o espetáculo. E foi com inigualável sentimento de
completude que acordei.
Ainda
sentado na cama, meus pensamentos dividiam-se entre buscar uma explicação para
o sonho e, ao mesmo tempo, rememorá-lo sem perder os detalhes. Finalmente,
poucos minutos depois, antes de iniciar os afazeres do dia, enquanto ainda
concatenava minhas idéias, não sei quais associações fizeram-me lembrar do
poema de Eugenio Montale:
Talvez uma manhã andando num ar de vidro,
voltando-me, verei cumprir-se o milagre:o nada às minhas costas, detrás de mim
o vazio, como um terror de bêbedo.
Depois como numa tela, acamparão de um jato
árvores casas colinas para a ilusão costumeira.
Mas será tarde já; e eu partirei calado
entre os homens que não se voltam, com o meu segredo.
Com o livro de Montale aberto, meu primeiro pensamento dava-me a certeza de que a verdade não estava nas aulas que assistiria, se tivesse conseguido saltar de um trecho a outro da escada. A verdade jamais esteve no ambiente repressivo da classe de aula, com suas filas de carteiras paralelas e professores, a maioria deles, incapazes de me mostrar o que subsistia para além da lição diária. A quase alegria com que percebi a ausência dos degraus e o sentimento de inevitável necessidade de buscar outro caminho deflagraram a certeza de que eu não voltaria ali, de que uma experiência singular me aguardava. É certo: a verdade, sempre encontrei-a em outro lugar, oposto àquele apontado pela escola.
Foi fácil, portanto, recusar inclusive a segunda escada. Sua semelhança com a que existira na casa onde passei minha infância deixou-me desconfiado. E a repentina solução para um problema que, há poucos segundos, apresentava-se insuperável, contribuiu para que eu me afastasse dali, desprezando o atalho, movido pelo desejo de conhecer o ignorado.
Certamente não era à toa que as vestes da religiosa – notei bem enquanto ela me falava – refulgiam em um branco tão ofuscante quanto o que encontrei difuso na atmosfera do pátio gramado; e que, depois, se repetiria sob a água. Como se eu vivesse a manhã envolta no “ar de vidro” de Montale, empenhei-me naquela jornada, sob uma luz insólita e, em breve, com um novo olhar.
A intensa claridade abarca, de fato, esse sonho, tornando-o um rito de passagem no qual o cenário se impregna do branco como nos rituais de batismo. Todas as cores estão reunidas sob a alvura, a tonalidade que marca o amanhecer, quando a aurora reveste os seres, a vida, dessa coloração que nos prepara a um novo começo, desperta-nos da letargia noturna e nos estimula ao enfrentamento da existência. O branco está associado ao reinício, ao recomeço, ao renascimento que se segue à noite, à morte. Eu abandonava a penumbra fria do prédio escolar para ser impregnado pela luz, envolvido por uma claridade que chegava a ofuscar minha vista; mergulhava na fonte, onde a luz fundia-se à água, esta também um símbolo de regeneração. E o fazia não em qualquer lugar, não em um lago estagnado ou num mar tormentoso, mas sob as águas de uma imponente fonte circular; ela também, recordo-me, toda branca, agitando a água de forma inesgotável.
Ali, de volta ao começo, de volta ao elemento no qual tudo teve origem, vislumbrei o centro por onde passam as coisas e de onde elas convergem à vida. No centro do líquido translúcido conheci os elementos da realidade em sua forma original, primeva, quando ainda não estão nomeados, quando ainda não foram classificados e diminuídos pelo homem.
Mas, imerso na transparência, equilibrando-me sob a pressão da água, não apenas os elementos da vida mostravam-se novos. Eu também havia retornado à infância, quando tudo está por ser descoberto. E sentia-me – espectador e personagem do meu sonho – como se pudesse, a partir daquele momento, reiniciar minha trajetória e buscar o que, por acaso, houvesse perdido.
Meu sonho foi, logo, diferente do vivenciado por Montale, pois se o poeta vislumbrou o terror que se esconderia sob o que parece ser o real – para ele, o vazio, o nada –, eu me aproximei do reinício de tudo e percebi o oposto: a urgência de captar a verdadeira face da realidade.
Terminado o sonho, pressenti também ser tarde para retornar à mesmice da carteira escolar e das receitas oferecidas pelos homens que jamais “se voltam”. Talvez exatamente por essa razão tenha relembrado, ao acordar, o poema de Montale: porque, assim como ele, a partir daquele sonho – e em todas as manhãs, esforçando-me para repetir o ritual onírico de maneira consciente – eu devesse calar-me “entre os homens que não se voltam”, entre os homens que não sabem olhar, e carregar comigo “o meu segredo”...
A mensagem, certamente há muito dentro de mim, mas galvanizada pelo sonho, repete-me a necessidade de transpassar o real banalizado, esforçando-me por redescobrir a verdade das coisas. O sonho me diz que meu olhar deve despir a realidade da camada de fantasia que lhe pespegamos diariamente; que devo reiniciar meu exercício de observação a cada momento, a fim de redescobrir, sob a mesmice do cotidiano, o caráter inusitado do real.
Esta é a revelação do mundo onírico: devo obrigar-me a enxergar a realidade a partir do seu centro, de onde ela desborda para o que é habitual – resgatar a verdade preservada em cada elemento, seja ela trágica ou pueril, inocente ou terrível.
De todos os enigmas que a noite e o sono semeiam, de todos os sonhos que carrego comigo – um patrimônio que cabe à lucidez decifrar –, dessas imagens noturnas que sobrevivem durante a vigília, esta que acabo de descrever insufla em minha consciência também uma pergunta: o que será daquela criança, embevecida frente à coluna de luz e água por onde passa o universo? Ela não deveria retornar ao pátio gramado, ao convívio dos homens, e ali, dona agora dessa nova forma de olhar, dessa visão que lhe parece inaudita, transmitir os frutos da sua descoberta? Ou, como Montale, resta-lhe apenas viver solitária entre os homens, carregando o seu segredo?
Tal possibilidade, contudo, assemelha-se à segunda escada que surge em meu sonho, pois oferece uma facilidade ilusória. Se a conclusão de Montale à sua angústia é o poema – e não o silêncio –, então ele desejou oferecer aos homens uma tocha capaz de iluminar o desconhecido e diminuir a incerteza que, a cada esquina, nos aguarda.
Da mesma forma, estas linhas são uma pergunta e, também, sua própria resposta. Por meio delas retorno ao pátio ensolarado e busco meus semelhantes, disposto não a lhes denunciar, com pessimismo, a “ilusão costumeira” de Montale, mas pronto a redescobrir o real. E, principalmente, esforçar-me por revelá-lo com o vigor esquecido pela maioria.
abril 23, 2014
García Márquez menos o mito
Poucas vezes
encontrei, principalmente nos últimos dias, um julgamento tão equilibrado sobre
o autor de Cem anos de solidão. Refiro-me ao ótimo artigo de Rafael Gómez Pérez, do qual coloco um trecho a seguir — texto que vai na contramão do
endeusamento patrocinado pela esquerda e coloca Gabriel García Márquez no seu
devido lugar:
García Márquez foi um excelente contador de histórias, oferecidas numa linguagem quase sempre muito inventiva. Mas nós não gostamos apenas de ouvir histórias; também apreciamos encontrar um pensamento de fundo, uma concepção de homem, um tema denso. Por isso Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare e Goethe são imortais... Ou, em tempos mais modernos, Tolstói e “Guerra e Paz”, ou Dostoiévski em quase toda a sua obra, principalmente em “Irmãos Karamazov”; ou a longa evocação de Proust, ou Thomas Mann em “A montanha mágica”... García Márquez não está nesse grupo, no qual poucos entraram até hoje. Ele está no grupo dos que entretêm contando algumas histórias assombrosas, que seduzem enquanto duram, ainda que, ao final, deixem um não sei quê de inconsistência. É o que se verá quando o mito perder a força e García Márquez estiver no lugar que lhe corresponde.
Recomendo que leiam a íntegra desse artigo justo e lúcido, “García Márquez menos el mito”.
García Márquez foi um excelente contador de histórias, oferecidas numa linguagem quase sempre muito inventiva. Mas nós não gostamos apenas de ouvir histórias; também apreciamos encontrar um pensamento de fundo, uma concepção de homem, um tema denso. Por isso Homero, Dante, Cervantes, Shakespeare e Goethe são imortais... Ou, em tempos mais modernos, Tolstói e “Guerra e Paz”, ou Dostoiévski em quase toda a sua obra, principalmente em “Irmãos Karamazov”; ou a longa evocação de Proust, ou Thomas Mann em “A montanha mágica”... García Márquez não está nesse grupo, no qual poucos entraram até hoje. Ele está no grupo dos que entretêm contando algumas histórias assombrosas, que seduzem enquanto duram, ainda que, ao final, deixem um não sei quê de inconsistência. É o que se verá quando o mito perder a força e García Márquez estiver no lugar que lhe corresponde.
Recomendo que leiam a íntegra desse artigo justo e lúcido, “García Márquez menos el mito”.
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Rafael Gómez Pérez
abril 04, 2014
Ódio ao português – Antônio Torres e “As razões da Inconfidência”
No jornal Rascunho deste mês, escrevo sobre
Antônio Torres, esquecido autor mineiro, cronista ferino e ácido que fez enorme
sucesso entre as décadas de 1910 a 1930.
Na contramão da
eloquência nacional, Torres repete nos textos o rigor que pautava sua conduta,
sempre ética. Em Da correspondência de
João Epíscopo (1917), não basta mostrar a teimosia com que Antônio
Austregésilo Rodrigues de Lima, neurologista escolhido para a Academia Brasileira
de Letras em 1914, abusa do chavão “de oradores de comícios, chapa retórica
inteiramente gasta”, mas é preciso tripudiar, de forma didática, sobre o
“venturoso clínico”:
[...] A sua frase vai, volta, sobe,
desce, anda, desanda, empaca, corre um centímetro, enguiça logo depois, resvala
para a direita, escorrega para a esquerda, range nas engrenagens, emperra,
torna a mover-se, embaraça-se imediatamente, faz novo e último esforço para
voar e vai engastalhar-se definitivamente no beco sem saída de um ponto final.
Aí o motor de V. Exa. dá uma descarga; o aparelho começa então a funcionar,
trepidando; a frase volta ao ponto de partida; tenta tomar nova direção; anda
um instante, vibra e paf! novo empacamento! V. Exa. força a manícula; abre a
caixa de gases; a frase sai zimbrando (como diria o Sr. Coelho Neto), às
curvetas e ziguezagues, em linhas quebradas e sinuosas, e, cansada, arquejante,
impotente, despedaça-se no ímpeto de uma derrapagem. Trilam apitos; corre
gente, acode a polícia, grita a multidão: Não pode! Não pode! Prende! Lincha! Nisto se ouve tilintar aflitamente a campainha e é a Assistência que
chega para socorrer o leitor desfalecido!
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Antônio Torres,
As razões da Inconfidência
março 30, 2014
Ernst Robert Curtius e o bizantinismo da vida contemporânea
Trechos do
ensaio “Ortega y Gasset”, de 1924 (in Ensaios
críticos sobre a literatura européia):
— O relativismo
é, em última análise, ceticismo, e o ceticismo como atitude definitiva é um
suicídio do espírito.
— O pensamento e
a vida não toleram que se contraponha um ao outro; ao contrário, um implica o
outro, condicionando-se mutuamente.
— A vida do
homem tem uma dimensão transcendente, em que sai de si mesma e participa de
algo que não é ela. A vida, dizia Simmel, consiste precisamente em ser mais que
vida.
— O fenômeno da vida
humana tem duas faces: a biológica e a espiritual. Disso resulta um duplo
imperativo: a vida deve ser cultura, mas a cultura tem de ser vital. A vida
inculta é barbárie; a cultura desvitalizada é bizantinismo. A cultura do nosso
tempo perdeu vigência vital. Nosso racionalismo não confia mais na razão. O
mesmo acontece com nossa moral. Uma moral geometricamente perfeita, mas que nos
deixa frios, que não nos incita à ação, é subjetivamente imoral. Dispomos de
uma sistemática da cultura, mas nos faltam os impulsos vitais a ela
correspondentes.
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Ernst Robert Curtius
março 29, 2014
Lições de Chesterton para quem deseja ser escritor
Chesterton é grande
e grandioso. Seu texto empolga, contagia. Sua argumentação irônica faz explodir
diante de nós os paradoxos do mundo que construímos — quanta loucura somos
capazes de aceitar!
Ele pode também
ser um bom professor, daqueles raros, cujas lições extrapolam o medíocre livro
didático. Conselhos só aproveitáveis, entretanto, aos dispostos a ler e reler.
Acompanhem esta aula
para quem deseja ser escritor. Os conselhos servem a todos, ainda que o tema se
restrinja a histórias de detetives. Uma das melhores lições, por exemplo, é
endereçada aos que “têm a estranha noção de que é tarefa deles confundir o
leitor; e de que, contanto que o confundam, não importa se o desapontam” —
prática que se tornou um vício na literatura contemporânea brasileira.
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G. K. Chesterton
março 24, 2014
Um nada em grande azáfama
“Dai testemunho:
estive presente; embora ninguém me reconhecesse” — assim termina a tragédia Der Trun (A Torre), de 1925, um dos últimos trabalhos de Hugo von
Hofmannsthal, importante escritor do final do século XIX e princípio do XX,
evidentemente desconhecido no Brasil. Para Otto Maria Carpeaux, um “intérprete
poético” dos séculos XVII e XVIII, a chamada “civilização austríaco-barroca”,
cujos valores ele recuperou para “opor ao caos de uma época demoníaca, depois
da derrota e desmembramento da Áustria em 1918, um cosmos poético e
hierarquicamente organizado conforme os valores do espírito”.
Os trechos a seguir pertencem a Buch der Freunde (Livro dos Amigos), publicado em 1922, em que Hofmannsthal reúne pensamentos e aforismos escritos ou copiados desde sua adolescência:
– Os modernos escritores psicológicos aprofundam o que não devia ser considerado e tratam superficialmente o que precisava ser tratado em profundidade.
– O narrador comum narra como algo poderia acontecer acidentalmente. O bom narrador faz acontecer algo no momento atual diante dos nossos olhos. O mestre narra como se acontecesse de novo algo há muito acontecido.
– No nível mais elevado da arte reina nudez, autodesnudação, o seu contrapeso é a maior seriedade, plena capacidade de realização. Onde este estado é intermitente e se pisca o olho para fora, o que existe é impudência.
– Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da ação do escritor.
– A maior parte das pessoas, ao entregarem-se às chamadas ocupações intelectuais, considerando como tais o ler e o escrever (não o escrever cartas, mas o escrever como autor), não fazem de modo algum o que julgam fazer: porque nem embelezam a sua cultura – “ampliar” a sua cultura, como se costuma dizer, é um disparate horroroso – nem aguçam o seu entendimento, nem enriquecem a sua experiência, e não produzem mais nem nada mais importante que aqueles que remexem a terra à beira de um charco, deitam pedras para a água turva, etc., em suma, um nada em grande azáfama.
Os trechos a seguir pertencem a Buch der Freunde (Livro dos Amigos), publicado em 1922, em que Hofmannsthal reúne pensamentos e aforismos escritos ou copiados desde sua adolescência:
– Os modernos escritores psicológicos aprofundam o que não devia ser considerado e tratam superficialmente o que precisava ser tratado em profundidade.
– O narrador comum narra como algo poderia acontecer acidentalmente. O bom narrador faz acontecer algo no momento atual diante dos nossos olhos. O mestre narra como se acontecesse de novo algo há muito acontecido.
– No nível mais elevado da arte reina nudez, autodesnudação, o seu contrapeso é a maior seriedade, plena capacidade de realização. Onde este estado é intermitente e se pisca o olho para fora, o que existe é impudência.
– Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da ação do escritor.
– A maior parte das pessoas, ao entregarem-se às chamadas ocupações intelectuais, considerando como tais o ler e o escrever (não o escrever cartas, mas o escrever como autor), não fazem de modo algum o que julgam fazer: porque nem embelezam a sua cultura – “ampliar” a sua cultura, como se costuma dizer, é um disparate horroroso – nem aguçam o seu entendimento, nem enriquecem a sua experiência, e não produzem mais nem nada mais importante que aqueles que remexem a terra à beira de um charco, deitam pedras para a água turva, etc., em suma, um nada em grande azáfama.
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março 20, 2014
março 14, 2014
Antônio Torres: estilo enxuto e ironia
Entre os nossos grandes
prosadores esquecidos — como João Francisco Lisboa e Joaquim Felício dos
Santos, sobre os quais escrevo em Muita retórica – Pouca literatura — está o mineiro Antônio Torres, autor de Verdades indiscretas (1920), Pasquinadas cariocas (1921) e várias
outras coletâneas do que ele publicava na imprensa do Rio de Janeiro, mesmo
depois de entrar para a carreira diplomática.
O texto abaixo,
de Prós e contras (1921), é modelar.
Torres tinha uma pena afiadíssima para a ironia, o sarcasmo e, muitas vezes, a
ofensa — esta, principalmente quando se referia aos portugueses, povo que era um
de seus inimigos prediletos.
Mas longe de ser
reles xingador, seu estilo é claro, enxuto, sem as gorduras da repugnante eloqüência
que emporcalha muitos dos escritores brasileiros; alguns deles, curiosamente chamados
de “clássicos”.
Vejam a
descrição do lombo assado, de fazer salivar até o mais empedernido faquir; a comparação
que abre a crônica, entre a sala acanhada e a capacidade mental do senador; e a
naturalidade para conduzir o texto até o último
parágrafo, quando encerra com humor sua lição de política. Guimarães Rosa
estava certo: Torres tem “pena e estilo sem ferrugem”.
Para aqueles que
desejarem conhecer o autor, recomendo a excelente antologia preparada pelo
diplomata Raul de Sá Barbosa, com prefácio e notas extremamente elucidativos (o
livro foi publicado pela Topbooks).
Divirtam-se com
Antônio Torres:
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