Mostrando postagens com marcador Lauro Machado Coelho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Lauro Machado Coelho. Mostrar todas as postagens

maio 09, 2014

O pão de cada dia

Em março de 2009, neste blog, falei sobre o texto de dois críticos que atuavam em campos diferentes do meu: Luiz Américo Camargo, na gastronomia, e Lauro Machado Coelho, na música erudita.

O que afirmei na época continua valendo: ambos recusam o discurso dúbio – a crítica ambígua sempre esconde covardia intelectual – e seus textos são destituídos da empáfia, cada vez mais comum, de quem pretender criar um novo gênero literário, quase sempre carregado de linguagem hermética.

Lauro, infelizmente, não escreve há bom tempo. Mas Luiz Américo continua a presentear os leitores com seu texto leve, sem metáforas excêntricas e, o principal, sem medo de avaliar, de forma clara e isenta, os restaurantes que visita.

Críticos assim não devem permanecer confinados à página do jornal; seus trabalhos merecem um número crescente de leitores. Foi, portanto, uma agradável surpresa descobrir que Luiz Américo lançou o primeiro livro. Agradável por dois motivos: primeiro, porque minha mulher e eu gostamos de cozinhar; fomos criados por mães, avós e bisavós que cultuavam os bons pratos e as receitas familiares, de geração a geração. Nossas cozinhas sempre foram um espaço de convivência fraternal e descobrimos nelas, todos os dias, alguma forma de alegria. E o segundo motivo: o livro de Luiz trata do alimento que é a síntese da nossa cultura: o pão.

Não me aprofundarei aqui em simbolismos – e não listarei as dezenas de lembranças que explodem na minha memória quando sinto o perfume dos pães que acabam de sair do forno. Seria repisar sensações comuns, conhecidas por todos. Mas é exatamente aí que nasce a importância do livro de Luiz Américo: falar de algo que, sob uma aparência trivial, esconde a base da civilização.

Acrescente-se a esses fatores o saboroso texto do autor – vejam, por exemplo, a crônica “As mãos sujas”, em que ele mescla existencialismo à arte de fazer os próprios fermentos – e teremos um livro que, além de todos esses prazeres, tem a delicadeza de nos ensinar a fazer o pão de cada dia.

junho 26, 2010

Sibelius e Lauro Machado Coelho no Estado de Minas


Na edição de 19 de junho do “Pensar”, suplemento de cultura do Estado de Minas, o editor João Paulo Cunha publicou minha resenha sobre a biografia de Sibelius – O cantor da Finlândia (Editora Algol) – escrita por Lauro Machado Coelho.

dezembro 31, 2009

Tem de haver mais

Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

Nada de mau se perdeu,
Nada de bom foi em vão,
Uma luz clara ilumina tudo,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido,
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

Arseny Alexandrovich Tarkovsky

A todos – amigos, leitores, clientes – um feliz 2010, repleto de boas leituras, tranqüilidade e harmonia.

***

Observação (em 3 de janeiro de 2010):

Lauro Machado Coelho, em seu Poesia soviética (Editora Algol), apresenta outra tradução desse poema:

Agora o verão passou.
Ele podia nunca ter acontecido.
Está quente ao sol,
Mas isso não é bastante.

Tudo isso poderia ter ocorrido
Como um trevo de cinco pontas
Flutuando em minha mão,
Mas isso não é o bastante.

Nem o mal nem o bem
Desvaneceram-se em vão,
Tudo ardeu e houve luz,
Mas isso não é o bastante.

A vida tem sido como um escudo,
E tem oferecido proteção.
Tenho tido bastante sorte,
Mas isso não é o bastante.

As folhas não se queimaram,
Os ramos não se quebraram,
Claro como vidro o dia está,
Mas isso não é o bastante.