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novembro 17, 2014

Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras

Georges Simenon, criador do famoso Comissário Maigret: exemplo de disciplina
Cada autor descobre, com a experiência, a forma de escrever mais adequada à sua personalidade. É preciso, antes de tudo, não lutar contra as próprias idiossincrasias. E encontrar, sem desprezá-las, a disciplina que resultará numa produção constante, diária.

Poucos escritores, entretanto, alcançam um comportamento metódico semelhante ao de Georges Simenon, o famoso criador do Comissário Maigret. Primeiro, ele escolhia, em sua imaginação, uma atmosfera: uma paisagem, um bairro da infância, certa estação do ano em determinada cidade… Ali, inseria um tema, uma das preocupações que trazia consigo — nada específico, mas que se apresentasse como um problema. Tendo acrescentado o tema à paisagem, vinham os personagens, imaginados ou baseados em pessoas reais. Esses três elementos se unem, então, e começam a se transformar no romance. Dois dias depois, sem escrever uma nota, Simenon tem o esboço pronto em sua mente — precisou recorrer apenas a algumas listas telefônicas (para encontrar o nome dos personagens) e a um mapa da cidade escolhida.

O mais impressionante, contudo, ainda está por ocorrer. Ele diz: “Na véspera do primeiro dia, sei o que vai acontecer no primeiro capítulo. Daí, dia após dia, capítulo após capítulo, descubro o que vem em seguida. Depois de iniciado um romance, escrevo um capítulo por dia, sem nunca perder um dia. Como é um esforço violento, tenho de seguir o ritmo do romance”.

Parece fácil, não é mesmo? Mas, acreditem, não há milagres. Se ele, por algum motivo, fosse obrigado a interromper o processo; se ficasse, por exemplo, doente por 48 horas, tudo se perderia. Seria obrigado a jogar fora os capítulos produzidos — e jamais retornaria ao romance.

O que um método oferece como solução, também cobra na forma de uma fraqueza. Nenhum escritor é, apenas, uma máquina de produzir palavras e sentenças.

outubro 09, 2009

Simenon

Fui resgatado das brumas por um romance de Georges Simenon: Sangue na neve. A dura objetividade da narrativa – Simenon não admite volteios de espécie alguma – sequestrou-me ao mundo nevoso, quase espectral, em que a maldade surge sem qualquer objetivo claro. Graham Greene trata melhor do tema, em seu romance de estreia, O condenado, cujo fim, triste e impactante, concentra profunda reflexão não apenas sobre a relação entre Bem e Mal, mas principalmente sobre como o Mal pode nascer movido pela gratuidade insana. Mas Simenon, ainda que fique um pouquinho atrás, nos oferece seus parágrafos curtos, certeiros; Frank, o protagonista taciturno e infantil, para quem o mundo e as pessoas são personagens de um teatro de sombras; e trechos antológicos, como este, em que se revela o cinismo da caftina Lotte, mãe de Frank, que aluga meninas em seu apartamento, ao comentar sobre os fregueses:

[...] Cada aquecedor, cada fogo, tem seu odor particular, sua vida própria, seu modo de respirar, seus ruídos mais ou menos incongruentes. O do salão cheira a linóleo, evoca o próprio cômodo, com seus móveis encerados, seu piano de armário, seus bordados e paninhos de crochê em cima das mesas de pé de galo e nos braços das poltronas.

– Os mais viciosos – diz Lotte – são os burgueses. E os burgueses gostam de fazer as suas patifarias numa atmosfera que lembre a eles a de suas casas.

É por isso que as duas mesinhas de manicure são minúsculas, por assim dizer invisíveis. Por outro lado, Lotte ensina as meninas a batucar o piano com um dedo só.

– Como as filhas deles, entende?

O quarto – o quarto grande, como é chamado, no qual Lotte dorme nesse momento – é todo revestido de tapetes, de cortinas, e atochado de pequenos trabalhos de agulha.

É Lotte ainda que afirma:

– Ah, se eu pudesse ter o retrato do pai deles, da mulher, das crianças! Ficaria rica, milionária!