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março 29, 2014

Lições de Chesterton para quem deseja ser escritor

Chesterton é grande e grandioso. Seu texto empolga, contagia. Sua argumentação irônica faz explodir diante de nós os paradoxos do mundo que construímos — quanta loucura somos capazes de aceitar!

Ele pode também ser um bom professor, daqueles raros, cujas lições extrapolam o medíocre livro didático. Conselhos só aproveitáveis, entretanto, aos dispostos a ler e reler.

Acompanhem esta aula para quem deseja ser escritor. Os conselhos servem a todos, ainda que o tema se restrinja a histórias de detetives. Uma das melhores lições, por exemplo, é endereçada aos que “têm a estranha noção de que é tarefa deles confundir o leitor; e de que, contanto que o confundam, não importa se o desapontam” — prática que se tornou um vício na literatura contemporânea brasileira.





março 23, 2012

Diálogo com Joseph Pearce

Um dos grandes críticos literários da atualidade, infelizmente desconhecido no Brasil, nesta longa entrevista Joseph Pearce fala sobre Shakespeare, Chesterton, C. S. Lewis, John Henry Cardeal Newman, J. R. R. Tolkien e vários outros assuntos. A entrevista, em espanhol, pode ser lida, na íntegra, aqui. Imperdível.

setembro 01, 2011

O reino dos demagogos

Feliz era G. K. Chesterton, que podia dizer: 

“Já passamos da época do demagogo, do homem que tem pouco a dizer, mas o diz em voz alta”.

Nós, no Brasil, ainda estamos longe dessa alegria.

agosto 22, 2011

Este homem era um profeta


“A sociedade está entulhada, cegada e ensurdecida por uma inundação de exteriorizações vulgares e de mau gosto que paralisa intelectualmente o homem e não lhe deixa tempo livre para o ócio, o pensamento ou a criação a partir do seu próprio interior.”

Gilbert Keith Chesterton, em 1930

junho 09, 2011

Virtudes parciais – vícios completos

Em seu livro A fé dos demônios, não traduzido no Brasil, o filósofo Fabrice Hadjadj analisa um trecho de Ortodoxia, de G. K. Chesterton. Com rara agudeza, Hadjadj complementa Chesterton, formando, com o inglês, o duo indivisível e virtuoso do qual ele próprio fala:

Repete-se dele [de Chesterton] em nosso meio, frequentemente, esta frase: “As ideias modernas são ideias cristãs que enlouqueceram”, frase que, retirada de seu contexto, deformada em seu conteúdo, chega a ser uma ladainha que, ela própria, enlouquece. [...] Esta é a passagem da Ortodoxia de onde a frase foi retirada:  

“O mundo moderno não é mau. Sob alguns aspectos, o mundo moderno é bom demais. Está cheio de virtudes insensatas e desperdiçadas. Quando um sistema religioso é estilhaçado (como foi estilhaçado o cristianismo na Reforma), não são apenas os vícios que são liberados. Os vícios são, de fato, liberados, e eles circulam e causam dano. Mas as virtudes também são liberadas; e as virtudes circulam muito mais loucamente, e elas causam um dano mais terrível. O mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas. As virtudes enlouqueceram porque foram isoladas uma da outra e estão circulando sozinhas.

Assim alguns cientistas se preocupam com a verdade, e a verdade deles é impiedosa. Assim alguns humanitários se preocupam apenas com a piedade, e a piedade deles (lamento dizê-lo) é muitas vezes falsa. [...]”

Essas linhas bebem no profundo dos últimos versículos do Salmo 61:

Deus falou uma vez,
E duas vezes eu ouvi:
Que a Deus pertence a força,
E a ti, Senhor, pertence o amor;
Pois tu devolves a cada um
Conforme as suas obras
 
Sempre ouvimos a única palavra divina [...] através de um par de enunciados que devem se manter unidos. Neste caso, a misericórdia (a ti, Senhor, pertence o amor) unida à justiça (tu devolves a cada um conforme as suas obras). Mas como isso não funciona, o mundo, segundo Chesterton, introduz o divórcio nesse difícil matrimônio e resulta que cada virtude se torna tanto mais segura de si mesma quanto mais adúltera. A dupla se transforma em dualidade. A complementaridade se quebra em contrariedade. [...] O gênio diabólico não consiste tanto em rechaçar o bem, mas em monopolizá-lo para proveito próprio [...]. Dessa forma, extravia inclusive o nosso desejo de fazer o bem, isolando as bondades que a verdade une: a justiça sem misericórdia, que se torna crueldade, frente à misericórdia sem justiça, que se torna laxismo; a humildade sem magnanimidade, que se torna modéstia indolente, frente à magnanimidade sem humildade, que se torna ativismo vaidoso... e, finalmente, a verdade sem amor, que é a fé dos demônios, frente ao amor sem verdade, que é a filantropia do diabo. Corremos atrás dessas virtudes parciais, que são vícios completos, e o mundo pode perecer pela nossa diligência.

maio 11, 2011

“Meu nome é Lázaro”

Ontem, depois de ler um texto de G. K. Chesterton, uma pergunta passou a me importunar: por que, afinal, voltei à Igreja Católica? De seminarista na juventude a agnóstico, depois ateu, niilista convicto, o que me fez, aos 51 anos, mudar? Há tempos sentia-me, como Ezequiel, caminhando por um vale repleto de ossos secos, mas sem que Deus me falasse. Sob a aparência de uma vida normal, a insatisfação se agitava – e havia uma angústia renitente, pronta a despertar comigo todas as manhãs. Talvez tenha sido ela o instrumento que me trouxe, de reflexão em reflexão, até o estranho sonho que, há alguns meses, desencadeou a mudança. Quanto a ele, não o contarei por dois motivos: por discrição e porque, como disse Edith Stein, certamente inspirada num sermão de São Bernardo de Claraval, “secretum meum mihi” – “meu segredo é só meu”. Quem precisa saber os detalhes já os sabe, a começar Dele, que inspirou a viagem onírica e me permitiu, por Sua graça, colocar-me novamente na Sua presença. Foram anos de dúvidas e questionamentos até a metanoia gerada naquela estranha noite e na manhã seguinte, quando, com a ajuda de uma amiga, decifrei o sentido de tudo – do sonho, da minha vida e do vazio que eu alimentara anos seguidos. Mas agora, não. Não mais. Chega de procurar nas pessoas, nos livros, na ciência e no meu infeliz hedonismo o que eles não podem oferecer por um só motivo: não O têm. “Inveni cor meum” – repito, todos os dias, com São Bernardo de Claraval: “Encontrei meu coração”. Ele estava lá, escondido no Amor que, desde sempre, pulsa por mim. Como escreveu Chesterton, aos 48 anos, logo após sua Primeira Comunhão:

The sages have a hundred maps to give
That trace their crawling cosmos like a tree,
They rattle reason out through many a sieve
That stores the sand and lets the gold go free:
And all these things are less than dust to me
Because my name is Lazarus and I live.

dezembro 20, 2010

A gruta de Belém

“O coração de Belém é uma caverna; o santuário recoberto que é o cenário tradicional da Natividade. Nove em dez destas tradições são verdadeiras, e totalmente ratificadas pela verdade sobre o ambiente rural; pois é para estes estábulos subterrâneos que as pessoas têm levado seus rebanhos, e eles são, de longe, os locais de refúgio mais plausíveis para tantos grupos sem lar. É curioso considerar quantas variadas e inumeráveis versões da história de Belém têm sido transformadas em pinturas. Homem algum que compreenda a Cristandade irá se queixar que são todas elas diferentes entre si e todas diferentes da verdade, ou, ainda, dos fatos. O ponto central da história é que se passou em um espaço humano particular; uma ensolarada colunata na Itália ou uma casa de campo coberta de neve em Sussex. É ainda mais curioso que alguns artistas modernos tenham se aproveitado apenas da verdade topográfica; e que todavia não tenham compreendido muito dessa verdade sobre o escuro e sagrado local subterrâneo. Parece estranho que não tenham enfatizado o único caso em que o realismo verdadeiramente se aproxima da realidade. Há alguma coisa que supera as expressões da imaginação na ideia de fugitivos sagrados sendo descidos para baixo do solo; como se a terra os tivesse engolfado; a glória de Deus como ouro enterrado no chão. Talvez a imagem seja profunda demais para a arte, mesmo se ocupando em uma outra dimensão. Pois deve ser difícil para qualquer arte transmitir simultaneamente o segredo divino da caverna e a procissão dos soberanos misteriosos, a pisar a planície rochosa e a abalar o topo das cavernas.”

G. K. Chesterton (“Belém e as grandes cidades”, New Witness, 8 de dezembro de 1922, in O tempero da vida e outros ensaios, Editora Graphia)

julho 04, 2010

“Perdulários de felicidade”

A relação do homem com a divindade, com o sagrado, sempre me fascinou. Mas não me refiro ao fascínio do antropólogo ou de qualquer outro estudioso, necessariamente frio e distante. Refiro-me a um interesse apaixonado que, se bem recordo, ganhou força quando, perto dos quinze anos, aproximei-me da espiritualidade carmelita. Há um pequeno Carmelo em minha cidade natal, onde duas dezenas de irmãs vivem segundo a regra de santa Teresa D’Ávila, e acostumei-me a visitá-lo quase todas as semanas. Até hoje, tendo passado dos cinquenta anos, é impressionante lembrar da alegria daquelas irmãs, do estranho fulgor que a tudo iluminava quando a janela do locutório se abria e as cortinas escuras eram afastadas. Não, não era uma alegria qualquer, mas uma perturbadora autossuficiência, como se elas bastassem a si próprias e todo o resto, incluindo minha visita, nada mais fosse que uma gralha insignificante, incapaz de perturbá-las na lenta e silenciosa obra de composição que retomavam a cada dia, muito antes do amanhecer, obedecendo às leis de um tipógrafo invisível e onisciente. De onde vinha aquela energia, aquela radiância, aquela fé despojada de angústia? G. K. Chesterton diz, em seu breve ensaio sobre Francisco de Assis, que “houve monges que foram perdulários de felicidade, enquanto nós somos dela avarentos”. Pois devo dizer que conheci alguns desses privilegiados. Havia naquelas carmelitas descalças a “secreta nobreza” de que Chesterton nos fala – e elas eram movidas pela “simples afirmativa de que esse furioso e desconcertante universo é governado pela justiça e pela misericórdia”. Fé que invejo, e que se aproxima ou se afasta do meu coração, sem nunca preencher-me completamente.