janeiro 09, 2015

Não acredite que a inspiração fará o trabalho pesado

Nenhum escritor se submete ao que desconhece
Certos escritores insistem na idéia de que o ato de narrar tem algo de místico.

Já falei aqui sobre autores que se dizem dominados por suas personagens. Mas há também aqueles que afirmam não escolher suas próprias histórias: “Elas se impõem”, falam alguns, como se narrativas surgissem do nada ou fossem desfiadas por um gênio semelhante à criança que, sem saber o que faz, puxa o fio de um novelo.

É evidente que há uma base de intuição no processo criativo — mas é também evidente que, dentre as várias histórias possíveis, a escolha de uma em especial obedece a determinado conjunto de auto-imposições: ninguém, em sã consciência, decide escrever sobre o que desconhece ou não pesquisou.

Um autor não precisa ter a experiência de Joseph Conrad para escrever aventuras marítimas, mas será obrigado, como Patrick O’Brian, por exemplo, a fazer minuciosas pesquisas, consultar especialistas, viajar. (Leiam a entrevista de O’Brian na Paris Review.)

E não bastam apenas pesquisas. Devemos pensar no planejamento que uma obra requer — para evitar incongruências, absurdos.

Hoje, quando qualquer conto ampliado recebe o nome de “romance”, o planejamento tem merecido o menosprezo de alguns supostos experts e de muitos escritores.

Mas quem se dispuser a ir além de um conto estendido deve se preparar para escolher um tema que lhe seja de alguma forma próximo — ou se dispor a planejamento e pesquisa exaustivos. Sua história não descerá rutilante e pronta dos céus.

E se uma história, como alguns escritores místicos gostam de dizer, se impõe, ela certamente o faz porque foi alimentada no imaginário. Estava ali, nas sombras da mente do autor, tomando forma, aguardando para escapar. E ele não pode dizer que a desconhecia.

Nenhum escritor se submete ao que desconhece. Só os navegantes de primeira viagem cometem o erro de abraçar um tema que não dominam ou que sequer imaginam como poderão dominar.

Quando um principiante percebe o erro que cometeu, sua primeira reação é tentar resumir, em 50 páginas, o que precisaria de 400 para ser narrado. Um autor experiente abandonaria o projeto ou faria um conto. Ou enfrentaria as dificuldades — e teríamos 400 páginas empolgantes.

Além disso, dizer que a história se impõe é autodepreciar-se. E toda a habilidade técnica, todo o domínio do idioma, da capacidade de imaginar e narrar?

Tudo nasce da inspiração? E as anotações feitas? E o número de horas debruçado sobre o papel, além dos longos dias em que, fazendo outras coisas, o escritor, na verdade, só pensa na sua história?

Os novatos, portanto, devem acreditar menos nas afirmações quase sobrenaturais de certos autores — e confiar mais na certeza de que escrever exige dedicação, reflexões, esforço, aperfeiçoamento constante, domínio do idioma. Além de um mergulho sem volta na psicologia humana.

Portanto, se, no início, sentindo-se inseguro, você não consegue ir além de um ou dois personagens, de um ou dois cenários, de uma trama simples, não se angustie: escreva sua história como for possível, dentro dos seus limites. Mas não acredite que a inspiração fará o trabalho pesado.

Certa imagem, um gesto, a leitura de uma notícia, o fragmento de conversa no ônibus podem desencadear, sem dúvida, a imaginação. Mas esse é apenas o início, o primeiro passo de um longo trabalho.

janeiro 07, 2015

A disciplina é a liberdade do escritor

Sem constância, não há escritor
Qual o lugar perfeito para escrever?

É o local que conseguimos criar dentro das nossas possibilidades, nas circunstâncias em que vivemos.

Se escrever é realmente essencial, as dificuldades não importam: você conseguirá criar seu espaço.

Nos últimos 12 anos, mudei três vezes de residência. Na primeira, a janela do quarto dava para duas paisagens paulistanas: a rua movimentada, que os ônibus subiam forçando os motores, e a quadra de uma escola. Eu escrevia obedecendo aos horários de entrada, recreio e saída das crianças. Quando chegava o final de semana, pronto a comemorar o relativo silêncio, descobria que a escola cedera a quadra para um show de rock.

Mas há situações diferentes: conheço escritores que lêem e escrevem num apartamento minúsculo, com 3 filhos brincando à sua volta.

Você pode e deve buscar o lugar ideal — mas a necessidade de escrever, tão premente em certos casos, sempre se adapta à realidade.

Além disso, se ficamos esperando pelo espaço ideal, jamais escreveremos.

A urgência de escrever cria os locais — a urgência de escrever força situações. Um banco de jardim, um café no qual possamos ficar esquecidos em alguma mesinha, o balcão da padaria, uma biblioteca pública — qualquer lugar serve, desde que você possa se concentrar.

Meu sonho é escrever diante de uma janela aberta sobre o horizonte amplo, montanhoso, e ouvir, ao fundo, o murmurar de um riacho. Mas passei dois anos escrevendo no quarto de um apartamento em que, ao abrir a janela, se estendesse o braço, tocaria o prédio vizinho.

Na verdade, abstrair-se, concentrar-se, requer expediente. Isto é, decisões rápidas (e muitas vezes simples) para se livrar das dificuldades. E persistência.

Quando a empregada do apartamento grudado ao meu ligava o rádio no último volume, eu colocava fones de ouvido e escutava Brahms. Depois de alguns minutos, não ouvia nada: nem as musiquinhas suburbanas nem o meu clássico. Escutava apenas minhas próprias idéias, ouvia as frases que se formavam e a voz que dialogava comigo sobre qual verbo, qual substantivo expressaria melhor o que eu tinha a dizer.

Todos os escritores repetem essa experiência: há minutos de aquecimento, em que as idéias parecem emperradas, em que tudo incomoda — depois, mergulha-se numa espécie de alheamento. Não é um transe, não perdemos contato com a realidade, mas nosso mundo interior nos domina, ganha força, se sobrepõe às coisas que nos limitam.

Escrevemos, então, numa espécie de umbral localizado entre nossas construções mentais, o espaço em que estamos e a consciência de nosso corpo.

Reviver essa experiência dia após dia exige disciplina — um ritual que precisa ser construído, descoberto.

Em que horário sua produção flui com facilidade? Tenho amigos notívagos, outros preferem o amanhecer, alguns precisam de solidão, outros gostam da presença quieta de alguém, dos movimentos cotidianos e simples de uma casa.

Alguns necessitam que a mesa esteja limpa — ou que os objetos a seu redor fiquem perfeitamente organizados. Um amigo só escreve depois de repetir determinados gestos.

É preciso descobrir esse sistema pessoal de trabalho — e repeti-lo. Mas a descoberta só ocorre se o escritor estiver atento a si mesmo.

A palavra disciplina pode parecer pesada, mas uso-a no sentido de comportamento metódico. Sem constância, não há escritor.

A disciplina liberta a mente para o que mais importa: escrever. O escritor se prepara, repete seu ritual, sente-se dono do seu minúsculo espaço, comanda aquele período de horas em que dialogará consigo mesmo. E cria.

Depois de algum tempo, conhecemos o caminho da luz solar sobre a escrivaninha — e como ele muda à medida que os meses passam. Esse conhecimento nos conforta, nos liberta para o desgastante e prazeroso exercício de escrever.

Quando o dia termina, quando o tempo dedicado ao ritual se encerra, as páginas estão cheias — e não de rabiscos sem sentido.

A disciplina é a liberdade do escritor.

janeiro 05, 2015

Por que alguns autores se esforçam para ser incompreensíveis?

O leitor real grita no ouvido do vanguardeiro tupiniquim: "— Quero apenas uma boa história!"
Muitos escritores — e parcela da crítica — enaltecem, no Brasil, a literatura que se limita a fazer acrobacias ou malabarismos lingüísticos.

Contudo, ao valorizar de forma extrema esses experimentos vanguardistas, quase sempre inócuos, o escritor transforma seu texto numa peça ilegível, que serve apenas para agradar a meia dúzia de supostos iluminados.

Esse esforço para criar um texto incompreensível mostra que o autor se concentrou no seu narratário, no seu leitor imaginário, mas esqueceu o leitor real. Este, o leitor de verdade, está, portanto, condenado ao ato de ler sem entender, à leitura transformada em tortura, mero exercício de decifração.

Parece, inclusive, haver um pacto entre algumas editoras: o de só publicar literatura brasileira que seja hermética, confusa, repleta de jargões.

Os bons escritores deveriam proclamar, sem dissimulação, sem receio do ataque das panelinhas, que o leitor não tem obrigação de ser um paleógrafo. Não quer ser um paleógrafo. Detesta paleografia!

Abandonados diante da página impressa, condenados ao deserto no qual a imaginação, por mais que se esforce, não consegue dar conta de construir o que seria tarefa do escritor, nossos poucos leitores são facilmente raptados para o mundo da subliteratura, tornam-se reféns dos romancinhos de auto-ajuda e de tantas outras panacéias na forma de brochura.

Na verdade, os vanguardeiros tupiniquins, alguns editores e parte da crítica esquecem que a linguagem não lhes pertence exclusivamente, que a linguagem, como ensina Georges Gusdorf, “manifesta o ser relacional do homem”.

O leitor real — não o leitor fictício — é o “outro”, de quem Gusdorf nos fala em La Parole. O outro que é, “para cada um, condição de existência”.

O leitor que deseja apenas uma boa história aprendeu com Gusdorf e grita para o vanguardeiro surdo: — Aprenda: você “fala porque não está só”! “O ser humano não se contém dentro de si próprio: os contornos do seu corpo desenham uma linha de demarcação, mas nunca um limite absoluto”!

dezembro 27, 2014

Os 7 top posts de 2014

2014 foi um ótimo ano. E, graças a meus leitores, 2015 será ainda melhor
Reler cada um desses textos significa, neste final de ano, reavaliar meu trabalho.

Graças a você, que é leitor deste blog, estes são os 7 posts mais acessados em 2014:

— Um texto sucinto e objetivo para ajudar quem deseja escrever.

— Sugestões para mostrar que você pode, sim, se tornar um escritor.

— Análise criteriosa do clássico escrito por meu amigo e professor Olavo de Carvalho.

— Meus comentários sobre o decreto que confirma a lição da história: o melhor dos mundos, quando se trata da esquerda, está sempre próximo do que imaginamos ser o Inferno, quando não é o próprio Inferno.

— O que teria sido da literatura brasileira se o mulato pobre Machado de Assis não tivesse lutado para abandonar o Morro do Livramento?

— Vida intelectual sem exercício da virtude, sem intrepidez, é o mesmo que construir castelos na areia.

— Devemos “perder” tempo com um padre dominicano que viveu no longínquo século XIII?

Como você pode ver, 2014 foi um ótimo ano. E tenho certeza de que, graças a meus leitores, 2015 será ainda melhor!

dezembro 24, 2014

É Natal!

No traço sempre inspirador do meu talentoso amigo Spacca, deixo a todos vocês, caros leitores, os votos de um feliz e santo Natal!


dezembro 23, 2014

A glamourização da barbárie

"Os professores de hoje pressupõem que a criança dos bairros pobres está plena e culturalmente guarnecida do necessário"
Há vários meses assisti, no YouTube, à gravação de um evento numa das favelas pacificadas do Rio de Janeiro. Diante do público formado por jovens, alguns escritores — parte deles desconhecida para mim — falavam sobre suas experiências com a criação literária e davam conselhos.

No local abarrotado de jovens, um dos iluminados palestrantes insistia no fato de que eles não deveriam se preocupar com o que existia fora da favela, que aquele era um mundo que já lhes oferecia inúmeras possibilidades de criação, de desenvolvimento da sua arte.

Todo o discurso estava construído sobre uma retórica exageradamente otimista e falsa: a de que a favela, agora “pacificada”, era o melhor dos mundos.

O palestrante era uma espécie de reencarnação carioca do Dr. Pangloss.

Enquanto assistia ao vídeo, lembrei-me de Machado de Assis — e do que teria sido dele, da sua inteligência, da sua sensibilidade, se não tivesse lutado para abandonar o Morro do Livramento, se não tivesse recebido a ajuda de Francisco de Paula Brito e, trabalhando como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional, as orientações severas e amigas de Manuel Antônio de Almeida.

O palestrante, certamente, não se lembrou de Machado. E também não leu a obra do psiquiatra a escritor Anthony Daniels, que assina seus livros com o pseudônimo de Theodore Dalrymple.

Num dos capítulos de A vida na sarjeta — O Círculo Vicioso da Miséria Moral, publicado no Brasil pela É Realizações, Dalrymple fala sobre a “terrível fatalidade que pode recair sobre um ser humano: nascer inteligente e com sensibilidade em um bairro pobre inglês”.

Segundo Dalrymple, “é como uma tortura requintada, longa e vagarosa, imaginada por uma divindade sádica de cujas maldosas garras é quase impossível fugir”.

Vivendo nessas comunidades e atendendo, como médico, os moradores locais, Dalrymple constatou o que assisti no vídeo do YouTube — e o que estamos cansados de ver nas escolas contemporâneas: “Os professores de hoje, impregnados da idéia de que é errado ordenar hierarquicamente civilizações, culturas ou modos de vida, negam o valor de uma civilização superior e são incapazes de transmiti-lo. Para eles não há altura ou profundeza, superioridade ou inferioridade, profundidade ou superficialidade: há somente diferença. Duvidam até mesmo de que exista um modo correto e um modo errado de grafar uma palavra ou construir uma frase”.

E, acreditem, encontrei no texto de Dalrymple a cópia fidedigna do que me indignou no vídeo: “Os professores de hoje”, diz nosso autor, “pressupõem que a criança dos bairros pobres está plena e culturalmente guarnecida do necessário no ambiente em que vive. Seu discurso é, por definição, adequado às necessidades; seus gostos são, por definição, aceitáveis e não piores ou mais baixos que quaisquer outros. Não há motivos, portanto, para introduzi-las a nada”.

O cinismo desses professores e intelectuais é insuperável. Muitos repetem esse discurso sem se importar com o fato de que estudaram em grandes universidades, ganharam bolsas no exterior e hoje vivem refestelados em bairros de classe média, usufruindo das oportunidades, do acesso à alta cultura, comunicando-se numa linguagem perfeita, culta — mas argumentando, como bons demagogos, como bons populistas, em favor da glamourização da favela.

Esses intelectuais não mostram como “a cultura de periferia é monolítica e profundamente intolerante” — e certamente basta, ao leitor atento, o termo “pacificada”, no qual encontra-se escondida a verdadeira guerra civil que esses bairros enfrentam.

Não entendo como podemos mentir de forma tão descarada para nossos jovens.

Dalrymple narra, em A vida na sarjeta, casos concretos de jovens inteligentes e sensíveis que foram destruídos pela cultura local, destituída de “fé na hierarquia de valores”.

É exatamente o que a reencarnação carioca do Dr. Pangloss defendia no vídeo: uma cultura na qual “o conhecimento não é preferível à ignorância”, uma cultura em que “os inteligentes e os que têm sensibilidade sofrem a perda total do significado das coisas”.

Leiam Dalrymple, assistam a esses programas transmitidos pelo canal GNT ou pela Globo, em que a favela é glamourizada, enaltecida como o melhor dos mundos — e depois me respondam o que teria sido da literatura brasileira se o mulato pobre Machado de Assis não tivesse lutado para abandonar o morro.

dezembro 22, 2014

Literatura não é apenas “colisão com a realidade”

Cada artista segue um percurso único
Os caminhos que a imaginação percorre são irrepetíveis.

A própria maneira como nos aproximamos da arte, para depois reelaborá-la e criar novas formas de beleza, é surpreendente.

Leiam os diários, as cartas, as entrevistas dos escritores: diferentes estados psicológicos, hábitos opostos, sentimentos antagônicos — não importa se na raiz do ato criativo há dor ou alegria —, tudo no artista leva-o a criar.

Numa de suas inúmeras tentativas de compreender como a literatura nasce, o crítico e ensaísta Edmund Wilson afirma nos seus diários: 

“As novas anomalias e acidentes da vida constantemente sendo assimilados pela faculdade artística — imediatamente tomados e incrustados, tornados simétricos e iridescentes, como a pérola da ostra — até que, quando as ostras morrem e só resta sua obra, os anais da espécie humana parecem ser não uma sucessão de mortes, e sim um colar de pérolas”.

Sempre penso a respeito do caminho peculiar de cada artista — e guardo a certeza crescente de que todas as explicações simplificadas são errôneas, pois cada pérola é um exemplar único e inesperado.

Ontem recebi o depoimento de uma aluna, a designer e ilustradora Laura Barreto, que só confirmou minhas certezas sobre a complexidade do processo criativo.

Vejam o que Laura diz:

“Quando eu era pequenininha juntava pilhas de livros no recreio e passava todo tempo lá, rodeada deles, mesmo sem saber ler nenhuma palavra. Quando me perguntavam o que eu estava fazendo respondia que estava lendo imagens. Depois passei a odiar a escola e ler virou uma obrigação chatíssima. Mas eu amava o português! Minha professora era a melhor. Lemos vários clássicos da literatura brasileira. E aprendi muito com ela... Enfim... Estudei Artes Visuais na UFMG, depois Design Gráfico na UEMG... Aos poucos percebi que me tornei uma contadora de histórias. Mas o fato curioso é que eu continuei lendo imagens e falando por imagens. Tinha algo de indecifrável nas palavras e de indizível também. Agora eu estou fazendo uma experiência de leitora!!!! Eu me apaixonei pela literatura da Jane Austen. E eu amo a forma de Deus falar conosco através da Bíblia. Descobri a filosofia tomista e tantas outras coisas incríveis! A experiência de leitora apaixonada tem feito muito bem a mim e ao meu trabalho de designer e ilustradora!”.

Ninguém pode delinear os caminhos que trouxeram Laura até este momento, em que ela redescobre ou reencontra formas diferentes de expor suas idéias, alimentar sua criatividade, dialogar com a beleza.

O Edmund Wilson da década de 1920 dizia que “a literatura é apenas o resultado de nossas brutais colisões com a realidade, cujas repercussões, depois de nos recolhermos ao abrigo de nosso íntimo, tentamos explicar, justificar, harmonizar, colocar numa ordem lógica na corrente uniforme de um pensamento que se reestrutura depois de ser, por um momento, destroçado e dilacerado por elas”.

Já pensei como Wilson. Já admirei a relação entre arte e vida com o mesmo olhar que se supõe realista, mas esconde pessimismo e simplificação exagerada.

Hoje penso de forma diversa. Há mais do que meras “colisões com a realidade” no ato de criar. A menina que, no recreio, juntava pilhas de livros sem ler uma só palavra não estava apenas “colidindo com o real”, mas abria-se, por motivos insondáveis, à busca da beleza.

E você? Como descobriu a literatura? Por que se dedica à escrita ou outras formas de arte?

dezembro 18, 2014

Scrivener: a ferramenta essencial para o escritor

Scrivener é, como dizem seus criadores, a libertação do caos
Se você está acorrentado à lógica do Word, certamente não entenderá os benefícios que Scrivener tem a oferecer.

No começo, eu mesmo não entendi. Mas depois de uma semana lendo artigos na Web e trabalhando com esse incrível processador de textos, acredite, o Word tornou-se uma pintura na Gruta de Lascaux: ainda tem alguma importância, mas muito limitada.

O programa Word nos acostumou a ver nossos textos como produções isoladas — e não como eles realmente são: criações interdependentes.

Imagine que você está escrevendo um livro dividido em vários capítulos. Que opções de organização o Word lhe oferece? Você pode abrir uma pasta com o nome do seu livro — e incluir nela os capítulos numerados. Ou pode abrir um único arquivo: e escrever seu livro numa longa seqüência.

Pense nessas duas opções.

Imagine você trabalhando num livro — ficção ou não ficção — com 20 capítulos, cada capítulo com 15 ou 30 páginas.

Muito bem. Agora responda:

— Onde estão as anotações que você usa para cada capítulo?

— O que você tem de fazer quando está no Capítulo 19, quer comparar um trecho com o Capítulo 3 e também verificar se a mesma informação não foi repetida no Capítulo 8?

— Quantos arquivos do mesmo capítulo você precisa fazer se quiser escrever versões diferentes do seu trabalho e, depois, compará-las?

— Como você consegue ter uma visão completa do conjunto de sua produção, incluindo a seqüência dos capítulos, o tamanho de cada um, os temas enfocados, as diferentes versões de cada capítulo e, principalmente, os metadados?

Sim, os metadados! Ou seja, todos os trechos em que a personagem C aparece; ou todos os trechos em que a personagem D interage com a personagem A. Ou, se você está escrevendo um ensaio, ter à mão a recorrência de certas idéias — e também a relação delas com outras informações.

As perguntas parecem complicadas apenas por um motivo: você está preso à lógica do Word. Uma lógica linear, que só permite que você pense e escreva como se desenrolasse um imenso rolo, no qual as folhas de papiro ou pergaminho estão emendadas.

A lógica de Scrivener não é linear. E por um simples motivo: ele foi pensado para escritores, para profissionais da escrita — e não apenas para quem precisa produzir um ou mais textos.

Para Scrivener, não existem apenas “textos” ou apenas “arquivos” — mas, sim, projetos.

Quando você abre seu projeto em Scrivener encontra três campos: o “Fichário” (à esquerda), o “Editor” (no centro) e o “Inspetor” (à direita):


No fichário você organiza os capítulos ou os diferentes textos do seu projeto, dividindo-os da forma que considerar melhor. Por exemplo: tenho todos os posts do meu blog num único projeto, seguindo uma primeira grande divisão, por anos — e depois subdivisões por meses.

Na parte inferior do Fichário você encontra a pasta “Pesquisa”, que aceita arquivos de imagem, PDFs e outros textos que possam ajudá-lo de alguma maneira.

No Editor, o lugar em que você escreve, Scrivener oferece três formas de visualização do seu trabalho:

— Um único arquivo:


— Um quadro de cortiça:


— Um esboçador em que você visualiza todos os capítulos numa ordem contínua:


No “Inspetor” você tem todas as notas do capítulo (ou, se preferir, as notas mais gerais do projeto), as referências bibliográficas, as palavras-chave, os metadados (que você pode personalizar como quiser), as imagens de todas as versões de um mesmo capítulo (para que você possa compará-las), além das notas de rodapé e dos comentários que você produz por diferentes motivos.

Há muito, muito mais.

Quando você coloca o ponto final no seu livro, pode exportá-lo com todos os capítulos reunidos na ordem que você desejar (incluindo notas, cabeçalhos, folha de rosto, etc.) E pode exportá-lo como Word, PDF ou um e-book pronto para ser publicado no formato Kindle (além de outras opções).

E se você gosta de escrever sem distrações visuais, pode optar pela “tela cheia”:


Você pode baixar uma versão completa de Scrivener e experimentar o programa durante 30 dias (ele vem com dois tutoriais, um deles autoexplicativo — ambos em inglês, mas numa linguagem clara e direta, que, se você precisar, o tradutor do Google não complicará).

Scrivener, como dizem seus criadores, é a libertação do caos.

dezembro 17, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Freedom e Anti-Social


A tecnologia pode ajudar o escritor a ter disciplina
No mundo conectado, em que a Web e as redes sociais consomem nossa atenção, como o escritor pode manter sua disciplina de trabalho, isolar-se e, inclusive, ampliar sua produtividade?

Se, como afirmei ontem, Evernote é essencial para reunir um grande e variado volume de informações, o escritor também precisa de recursos que o ajudem a manter o foco em seu trabalho e nas metas que ele se autoimpõe.

Há dois softwares que uso sempre. Eles fazem com que eu me concentre no que realmente importa: escrever. Contribuem para minha autodisciplina.

O mais radical é Freedom. Trata-se de um software que bloqueia todas as distrações da Internet: você estabelece o tempo que deseja ficar desconectado e ele interrompe de forma drástica a sua conexão — e você só poderá se reconectar caso reinicie o computador.

Vários escritores contemporâneos lutam contra as distrações oferecidas pela Web. A própria romancista Zadie Smith, por exemplo, já se pronunciou publicamente sobre o tema.

Quando sento para produzir minha cota diária de textos, meu primeiro gesto é ligar Freedom — o segundo é desligar o celular. São horas sagradas em que me obrigo, alegremente, a escrever de verdade.

Mas o inventor de Freedom, Fred Stutzman, também criou o programa Anti-Social, uma versão menos radical de Freedom.

Anti-Social mantém sua conexão — para que você possa, por exemplo, pesquisar na Web —, mas o impede de entrar nas redes sociais ou em qualquer site que desvie sua atenção.

Sem autodomínio e disciplina nenhum escritor se torna produtivo.

A tecnologia nos oferece ferramentas que destroem nossas desculpas esfarrapadas — e nos obrigam a escrever com produtividade e concentração crescentes.

Como dizia Hemingway, “disciplina se conquista”.

dezembro 16, 2014

Ferramentas para facilitar a escrita: Evernote

Tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo
Estou cada vez mais distante da caneta, do lápis e do papel, ainda que mantenha um Moleskine sempre à mão.

Não sou saudosista, não me prendo a velhos hábitos — e acho curioso quem critica ou até mesmo recusa os benefícios que a tecnologia pode incorporar à vida do escritor.

Outro dia, sorri ao ler que o uso da caneta e do papel cria “um tipo especial de aproximação com o texto”, pois “desenhar as letras desperta a criatividade do escritor”.

Talvez exista algum fundamento científico em tais teorias, mas minha experiência diz o contrário: tudo o que facilita a vida e permite que nos concentremos no ato de escrever é bem-vindo, aumenta nossa produtividade.

Foi, aliás, o que senti há muitos anos, quando vi o cursor do Word pulsando na tela em branco e descobri que a máquina de escrever, com fitas imundas e corretores ineficazes, estava morta.

Como é possível viver hoje, por exemplo, sem Evernote?

O resultado de minhas pesquisas, idéias gerais, artigos que encontro na Web, insights que ocorrem no meio da rua, fotos curiosas ou inspiradoras, bibliografias às quais não paro de acrescentar novas descobertas, imagens ou textos para compartilhar nas redes sociais, PDFs que não tenho tempo de ler agora ou, com certeza, utilizarei no futuro, comentários escritos em meu Kindle… tudo, tudo está organizado em notas e cadernos no Evernote.

Neste último sábado, recomendei Evernote a meus alunos da Oficina de Escrita Criativa. Recomendo inclusive a escritores peripatéticos: enquanto você caminha de um lado a outro da biblioteca ou do escritório, pode ditar seu livro ou artigo, pois Evernote faz gravações de áudio perfeitas.

Concentrar esse volume de informações num programa auto-explicativo, de interface agradável — para PC e Mac — e que funciona de forma sincrônica no desktop, no browser e no celular é o paraíso de quem trabalha com textos.

O velho bloco de anotações continua sobre a escrivaninha. Mas, acreditem, está meio empoeirado.

dezembro 15, 2014

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida

Cada página escrita é um "não" firme às desculpas que usamos para não escrever
Cada página que você escreve não é apenas mais um capítulo ou mais algumas linhas na direção da obra que você deseja completar.

Não.

Cada linha escrita é uma vitória sobre as características e as limitações da sua personalidade, dos seus hábitos.

Cada nova página produzida é a resposta que você dá às investidas da preguiça.

Cada página escrita é o seu “não” firme a todas as desculpas que inventamos para não escrever, para não sermos o que desejamos ser.

Cada hora debruçado sobre um texto é a sua resposta contra os limites físicos, contra as pressões familiares, os fracassos do passado, o medo do futuro, a falta de recursos, as insuficiências do seu meio, do seu país, da sua cultura.

Não esqueça o que W. H. Auden escreveu: “Aos olhos dos outros, um homem é poeta se tiver escrito um bom poema. Aos próprios olhos, ele é poeta apenas no momento em que faz a última revisão num novo poema. No momento anterior, era apenas um poeta em potencial; no momento seguinte, é um homem que parou de escrever poesia, talvez para sempre”.

Um escritor só é escritor se consegue permanecer vigilante, com sua atenção voltada a tudo que pode ajudá-lo a escrever.

Ser escritor é uma forma de atenção sobre a vida.

dezembro 09, 2014

O bom escritor: mestre dos detalhes

"A literatura nos ensina a observar" — James Wood
Para que servem os detalhes na literatura?

Eles não são apenas o ponto de fuga de um cenário, para onde o olhar do personagem se desvia a fim de descobrir um centro de equilíbrio. Ou o elemento que o escritor utiliza para estabelecer um contraste com o restante do espaço e, assim, dar concretude às proporções.

Estas são funções importantes, sem dúvida, mas refiro-me a outro tipo de detalhe.

Falo daquele detalhe que, segundo James Wood, quando usado na literatura, “faz com que nos fixemos mais na vida”. Vida que, por sua vez, “nos faz melhores leitores dos detalhes na literatura”.

Nessa inter-relação entre vida e literatura, a segunda difere da primeira, pois, segundo a correta observação de Wood, “a vida está repleta de detalhes acumulados e raramente nos leva para eles, enquanto a literatura nos ensina a observar.”

Quem leu Madame Bovary deve lembrar da cena em que, numa das primeiras visitas de Charles à Quinta dos Bertaux, o futuro casal bebe licor. Depois de servir a si mesma uma dose pequena, Emma leva o copinho à boca e Flaubert escreve:

“Como estava quase vazio, ela inclinava-se para trás, para beber; e com a cabeça deitada, avançando os lábios, com o pescoço retesado, ria por nada sentir, enquanto, passando a ponta da língua entre os dentes finos, lambia aos poucos o fundo do copo”.

Prestem atenção ao riso, à língua que brota entre os dentes como se fosse uma delicada serpente: as diversas compulsões de Emma, que se revelarão ao longo do romance, estão todas concentradas nesse divertido, breve gesto de luxúria.

Em “A dama do cachorrinho”, de Anton Tchekhov, depois que Gurov e Ana têm a primeira relação amorosa, enquanto Ana sente-se culpada e sofre por ter traído o esposo, Gurov, então sempre pronto a odiar as mulheres, corta um pedaço de melancia e come “sem se apressar”, diz o narrador, passando meia hora em silêncio.

O ato de comer e o vermelho que brota da fruta intensificam o descaso do amante — e se contrapõem à mulher agora desolada, de traços murchos e “cabelos que pendem tristemente dos lados do rosto”.

Enquanto Gurov se lambuza na polpa da fruta, como se repetisse o que acabara de fazer com Ana, esta, sem qualquer vivacidade, sob a penumbra da vela que mal ilumina seu rosto, exala “a pureza de uma mulher correta, ingênua, que vivera pouco”.

As oposições que percebemos entre o prazer consumado, a indiferença e o sofrimento concentram-se todas no vermelho da melancia.

Esta é a força dos detalhes — eles destroem as generalizações e, como diz Vladimir Nabokov, carregam, nas suas incongruências, o poder de descrever fatos e personagens.

dezembro 08, 2014

Roger Scruton analisa os intelectuais que a esquerda idolatra



Acaba de sair, pela É Realizações, Pensadores da Nova Esquerda, de Roger Scruton. Na Apresentação que escrevi — “Subsídios à desconfiança” , afirmo que este livro pode desempenhar, no Brasil, a função de um manual de primeiros socorros, útil para o jovem cuja desconfiança cresce quanto mais os nomes aqui analisados são repetidos com irrefletida euforia por seus professores.

dezembro 04, 2014

5 soluções para 5 problemas do escritor principiante

Superar a dificuldade de escrever exige soluções graduais
Uma das principais dificuldades do escritor principiante é exatamente escrever.

Não, isto não é uma piada. Eu não estou brincando.

Você quer escrever, mas não consegue. Deseja sinceramente ser escritor, mas encontra barreiras, obstáculos que parecem intransponíveis.

Do que converso com meus alunos e outros escritores, essa dificuldade surge por estes motivos:

a) você não consegue escolher uma das várias histórias que gostaria de contar;

b) quase sempre, você não tem um interlocutor, alguém que possa ler seu trabalho e, de forma livre, dialogar com você sobre diferentes questões;

c) os escritores que você admira dançam na sua mente num festim macabro, tentando se impor como modelos;

d) as dúvidas em relação ao uso correto da língua travam sua espontaneidade;

e) você escreve para ninguém.

Superar esses obstáculos exige soluções graduais, nesta ordem:

1. Antes de tudo, é preciso imaginar um leitor. Depois, com tempo e experiência, você talvez abandone esse recurso — mas, no início, conseguirá maior objetividade se não escrever para todo o mundo.

Você sabe, no fundo, que suas palavras se destinam a uma pessoa, a um grupo específico. E talvez até acredite que sua história, da forma que deseja contá-la, pode ajudar a resolver um problema, pessoal ou não.

Perceba que não se trata de escrever para agradar esse leitor ou esse grupo, mas apenas ter uma referência. À medida que a história surgir, você acabará se divertindo só por contrariar seu leitor imaginário.

2. Escolhido o leitor, o problema da história se resolverá facilmente. Talvez o tema se apresente de imediato. Na verdade, tema e leitor estão intimamente ligados.

Mas se várias histórias surgirem, escolha aquela sobre a qual você tem maior número de informações — e tem certeza que causará impacto no seu leitor.

3. Determine seu período de trabalho — ou o número de palavras que você vai produzir diariamente.

Não estabeleça metas impossíveis. Você pode escrever um conto de 2 mil palavras, por exemplo, em dois dias, mas um romance exigirá dedicação maior.

Estabelecida a produção diária, sente e escreva. Apenas escreva.

Não volte sobre cada frase, corrigindo-a, melhorando-a.

Não se preocupe se o maldito Word vai sublinhando as palavras com azul e vermelho. Se você escreve à mão, não se preocupe se “exceção” e “excessivo” estão escritos da forma correta.

Não se preocupe se as frases estão longas ou curtas, se a paragrafação segue uma lógica perfeita, irretocável.

Apenas escreva. Esta é a primeira etapa do processo. Só a primeira etapa.

4. Não tente se libertar dos seus modelos. Quanto mais você lutar contra eles, mais pularão como loucos na sua mente.

A originalidade, da forma como é pensada hoje, não passa de uma quimera. Camões imitou Virgílio, que imitou Homero, que imitou alguém (ou alguéns). E cada um o fez da sua maneira.

Livre-se do peso da originalidade.

Lembre-se do que André Gide afirmou: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta é preciso dizer de novo”.

Texto a texto, leitura a leitura, você, com certeza, construirá sua forma de “dizer de novo”, seu próprio estilo.

5. Se for possível — mas não é essencial —, peça a um amigo (um verdadeiro amigo) que escute ou leia sua história.

Mas, por favor, que ele não seja também escritor. Um amigo escritor é bom para várias coisas — mas ele terá, com certeza, soluções de estilo diferentes das suas.

Escolha uma pessoa que considere sincera, alguém que tenha interesses diferentes dos seus, mas que mereça sua confiança.

Nesta primeira etapa do trabalho, o que você mais precisa são leitores comuns.

 Quando sua história estiver pronta, prepare-se para outra importante tarefa: reescrever.