agosto 09, 2013

Editor da revista “dEsEnrEdoS” analisa “Muita retórica – Pouca literatura”

Wanderson Lima, professor da Universidade Estadual do Piauí e um dos editores da dEsEnrEdoS, analisou meu livro no último número dessa revista eletrônica. Wanderson faz leitura independente e criteriosa – mostrando-se, para meu prazer, em desacordo com algumas de minhas avaliações. De qualquer forma, a resenha mostra que, fora do eixo Rio-São Paulo, há intelectuais dispostos a se contrapor ao pensamento hegemônico na área de Letras.

A revista está disponível na Web – e o texto pode ser lido a partir da página 169. À parte qualquer pequena discordância, Wanderson captou o essencial: “O critério valorativo de Gurgel é o estético, mas ele não é esteticista nem formalista: não ergue um patamar supramundano para o discurso literário nem corrobora a máxima derridiana, tão em voga, de que nada há fora do texto. O beletrismo e o experimentalismo, enquanto expressões de um culto esteticista que esvazia a literatura de seu conteúdo humano, lhe causam arrepios”.

agosto 08, 2013

“Só há uma escola: a do talento” – Vladimir Nabokov


Gosto de reler as entrevistas da Paris Review. Algumas delas revelam pormenores que ajudam a compreender o caminho escolhido pelos escritores, sua visão da realidade, do seu tempo – ou, no mínimo, permitem conhecer a personagem na qual o escritor se transforma ao se manifestar publicamente.
 
A entrevista que Vladimir Nabokov concedeu a Herbert Gold, em 1967, é um exemplo de savoir-vivre, sarcasmo e inteligência. As respostas que escolhi para este post contribuem para provar por que Nabokov pertence, sem nenhuma dúvida, à “escola do talento”:
 
Personagens são escravos

Pergunta: E. M. Forster fala que suas personagens principais às vezes ganham vida própria e ditam o curso de seus romances. Isso alguma vez constituiu um problema para o senhor, ou tem pleno domínio sobre as personagens?

Nabokov: O meu conhecimento das obras de E. M. Forster limita-se a um romance, do qual não gosto. De qualquer forma, não foi ele quem deu início a essa fantasia banal a respeito de personagens que fogem ao controle; isso é mais velho do que o mundo. Se bem que, naturalmente, daria para se sentir solidário com as personagens dele, caso tentassem escapar daquela viagem para a Índia, ou onde quer que ele os estivesse levando. Os meus personagens são verdadeiros escravos.

Imitações sem vida

Pergunta: E existe algum [autor] que o senhor acompanhe a duras penas?

Nabokov: Não. Muitos autores reconhecidos simplesmente não existem para mim. São nomes gravados em túmulos vazios, seus livros são imitações sem vida, são perfeitas nulidades no que diz respeito ao meu gosto para leitura. Brecht, Faulkner, Camus e muitos outros não significam absolutamente nada para mim, e tenho que me esforçar muito para não acreditar na existência de uma conspiração contra a minha inteligência quando vejo que são aceitos calmamente como “literatura maior”, seja por críticos como que por companheiros de ofício. As copulações de Lady Chatterley ou as bobagens pretensiosas de Ezra Pound, uma tapeação só. Reparei que, em algumas casas, ele substituiu o Sr. Schweitzer nas estantes.

Fácil, fácil demais

Pergunta: Como admirador de Borges e Joyce, o senhor também parece compartilhar o prazer que eles têm em provocar o leitor com truques, trocadilhos e enigmas. Como acha que deve ser a relação entre leitor e autor?

Nabokov: Não me recordo de nenhum trocadilho em Borges, mas só li traduções de seus livros. De qualquer forma, seus pequenos contos delicados e seus minotauros em miniatura não têm nada em comum com os engenhos enormes de Joyce. Também não encontro muitos enigmas no mais lúcido dos romances, Ulysses. Por outro lado, eu detesto Punnegans wake, [*] onde um tumor maligno formado pelo tecido de palavras fantasiosas mal chega a recuperar a lamentável jovialidade do folclore e a alegoria fácil, fácil até demais.

Pergunta: O que aprendeu com Joyce?

Nabokov: Nada.

Pergunta: Ora, convenhamos...

Nabokov: James Joyce não me influenciou de forma alguma. Meu primeiro e breve contato com Ulysses foi por volta de 1920 na Universidade de Cambridge, quando um amigo, Peter Mrozovski, que trouxera um exemplar de Paris, leu para mim, enquanto caminhava para cima e para baixo em meus aposentos, uma ou duas passagens picantes do monólogo de Molly, que, cá entre nós, é o capítulo mais fraco do livro. Só quinze anos mais tarde, quando já estava bem formado como escritor, e relutava em aprender ou desaprender qualquer coisa, li Ulysses, e gostei imensamente. Já em relação a Finnegans wake, eu sou indiferente, como o sou a toda literatura regional escrita em dialeto — mesmo que seja o dialeto de um gênio.

[*] “Pun”, em inglês, significa trocadilho, jogo lingüístico, recurso extremamente usado em Finnegans wake.

Uma coisa dura, artificial

Pergunta: Como escritor, o senhor sente ter alguma falha secreta ou evidente?

Nabokov: A falta de um vocabulário natural. Uma coisa estranha para se confessar, mas é verdade. Dos dois instrumentos de que disponho, um — minha língua nativa —, eu não posso mais usar, não só por falta de um público russo, mas também porque o entusiasmo pela aventura da palavra em russo foi morrendo pouco a pouco, depois que me voltei para o inglês em 1940. O meu inglês, o segundo instrumento, que sempre tive, é, no entanto, uma coisa dura, artificial, que pode ser boa, talvez, para descrever um pôr-do-sol ou um inseto, mas que não consegue esconder a pobreza da sintaxe e a escassez de um linguajar doméstico quando preciso do atalho entre o armazém e a loja. E nem sempre se prefere um antigo Rolls-Royce a um jipe comum.

Tudo muito divertido

Pergunta: Qual a sua opinião sobre o posicionamento competitivo dos escritores contemporâneos?

Nabokov: É, eu já notei que, com relação a isso, nossos críticos profissionais são verdadeiros bookmakers. Quem está no páreo, quem não está, e para onde foram as neves de antanho? [*] Tudo muito divertido. Fico um pouco sentido por ser deixado de fora. Não conseguem decidir se sou um escritor americano de meia-idade ou um velho escritor russo — ou uma anomalia internacional que não tem idade.

[*] Refere-se a François Villon: “Mais où sont les neiges d’antan?”, refrão de “Ballade (des dames du temps jadis)”.

Só há uma escola

Pergunta: Como o senhor considera hoje em dia poetas como Blok, Mandelshtam e outros que escreviam antes de o senhor deixar a Rússia?

Nabokov: Li esses poetas quando era garoto, há mais de meio século. Desde então me tomei um apreciador incondicional da lírica de Blok. Seus poemas mais longos são fracos, e o famoso “Os doze” é pavoroso, conscientemente concebido em um falso tom “primitivista”, com um Jesus Cristo em cartolina cor-de-rosa colado no final. Quanto a Mandelshtam, também o sabia de cor, mas ele me oferecia um prazer menos apaixonado. Hoje, pela ótica de um destino trágico, sua poesia parece maior do que realmente é. Noto, por sinal, que muitos professores de literatura ainda colocam esses dois poetas em escolas diferentes. Só há uma escola: a do talento.

agosto 07, 2013

Um personagem busca seu escritor

Sempre digo que a conhecida citação de Oscar Wilde – “A vida imita a arte” – é apenas uma frase de efeito, nada mais, tentativa pueril de criar uma teoria anti-aristotélica, de oposição à mimese. Opor-se à natureza e à vida é, aliás, o tema central da obra – The Decay of Lying – em que a citação se encontra.

Mas este breve primeiro parágrafo não tem o objetivo de iniciar um debate filosófico. Serve apenas ao meu principal interesse, a literatura.

Essas idéias ressurgiram ontem à noite, quando minha esposa comentou sobre uma notícia ouvida no rádio. Minha primeira reação foi lembrar de O falecido Mattias Pascal, de Luigi Pirandello; logo a seguir, da frase de Wilde. E depois de ler a história com atenção, percebi que a vida, mais uma vez, oferecia novos caminhos à arte.

A história de Pedrito de Jesus Conceição, portanto, aguarda por um bom escritor. Alguém preparado para captar os meandros da breve existência desse homem tido como morto, depois vivo, mas que finalmente morre; antes, contudo, que o Estado lhe conceda seu “atestado de vida”. Homem que, apesar de trazer o substantivo “conceição” no nome, morreu várias vezes, de diferentes formas. Parafraseando Pirandello, trata-se de um personagem que busca seu escritor, alguém disposto a entender esse drama familiar nada desprezível, no qual a morte se estabelece e se prolonga num misto de confusão, tristeza, humor negro e dependência do Estado.

Ainda existiria esse escritor, humilde o suficiente para entender que só resta à arte imitar a vida? E que tal trabalho, de imitar a vida transformando-a, tem seu mérito indiscutível?

agosto 04, 2013

Tempo, vida, literatura – e “A Descoberta do Ensaio”

Correções de Montaigne em uma página dos "Ensaios"
Somos aqueles que tememos tudo, como se fôssemos mortais, e desejamos tudo, como se fôssemos imortais – são as palavras de Sêneca no ensaio “Sobre a brevidade da vida”. E ele completa dizendo que é exígua a parte da existência que realmente vivemos; e que todo o espaço restante não é vida, mas apenas tempo.

A escrita, a produção literária em seus diferentes gêneros, é uma das respostas que o homem encontrou para não abreviar ainda mais sua vida, para não desperdiçá-la. Se o tempo da vida dos grandes escritores, dos pensadores que deixaram seu legado, continua a render, a proporcionar o melhor dos lucros às gerações que os sucederam, é porque, antes de tudo, eles administraram bem o seu próprio tempo – e o dedicaram ao que é essencial.

Revisitar, reler, estudar esses mestres que souberam “colher o dia” é uma forma de, aprendendo com eles, não só dominar a técnica da escrita, criar um estilo, expressar as próprias idéias, mas também “aproveitar o momento”, usar o tempo para o que é realmente substancial.

Esse é um dos objetivos do curso que vamos começar no próximo dia 14 de agosto: “A Descoberta do Ensaio”. Ao ler grandes mestres da ensaística, estudaremos os procedimentos estilísticos que eles utilizaram para se expressar, aprenderemos como aperfeiçoar nosso estilo de escrever e descobriremos que “perder” tempo com a literatura significa, na verdade, aproveitar a vida, dedicá-la ao que é realmente importante. As inscrições estão abertas.

agosto 02, 2013

A navalha de Somerset Maugham



Se considerarmos “genial” um sinônimo de “vanguardista”, erro comum nos dias de hoje, William Somerset Maugham jamais poderia receber o primeiro qualificativo. Mas se pensarmos que o elogio serve àquelas pessoas notáveis, cuja capacidade intelectual as coloca acima da maioria das pessoas, então esse fecundo escritor inglês de fato produziu alguns livros geniais. 

Edmund Wilson, no entanto, não pensava assim. Para ele, a fama de Maugham nos EUA era um sinal da decadência dos padrões literários. Wilson chamava Maugham de “escritor de segunda linha”, definia sua linguagem como “banal”, afirmava que o escritor sequer possuía um “ritmo interessante” e deixou um julgamento que se pretende definitivo: trata-se de “romancista medíocre, que escreve mal, mas que é lido com regularidade por leitores médios que não se preocupam com a escrita”.

As observações de Wilson certamente causam mal-estar nos leitores que apreciam Maugham mas não se sentem qualificados para se contrapor ao crítico ou deixam-se influenciar pela opinião de um intelectual que, sem dúvida, merece deferência. A verdade é que, depois de lermos Maugham, podemos até chegar a conclusões semelhantes, mas duvido que um leitor consciencioso, que se disponha a passar alguns minutos entretido, por exemplo, com “Chuva”, um dos melhores contos da literatura universal, não julgue haver exagero no veredicto de Wilson.

Erros e acertos

O mesmo elogio não pode ser feito, infelizmente, a O fio da navalha – tradução de 1945 que vem ganhando sucessivas reimpressões ­–, romance menor mas famoso, com duas versões cinematográficas (a de 1946, com Tyrone Power, merece ser vista), que não é o melhor de Maugham, mas, ainda assim, está muito acima de uma literatura, digamos, de entretenimento.

O que me incomoda em O fio da navalha é o fato de Maugham conceder ao personagem Lawrence Darrell uma importância que ele não tem. Maugham tentou construir um romance que falasse das desilusões, dos traumas e do vazio que se abatem sobre as pessoas em tempo de guerra, principalmente sobre os soldados que, de volta a seus lares, não se readaptam à vida em sociedade. Darrell – ou Larry, como ele é chamado ao longo do romance – volta da I Guerra Mundial consternado pela morte do amigo que lhe salvara a vida; e passa, então, a buscar sentido para a existência. Trata-se de homem simples, herdeiro de pequena fortuna, que, movido por inquietações metafísicas, percorre o mundo em busca de respostas. Após experimentar diferentes religiões e empreender inúmeros estudos, torna-se uma espécie de santo leigo, alguém que, como o próprio narrador anuncia, “ao morrer não deixará vestígio de sua passagem pela terra”. Mas Larry – enigmático até mesmo para o narrador, que chega a ser repetitivo nas descrições, como se não conseguisse perscrutar o personagem – acaba se transformando num ser apático, destituído de grandes emoções, místico às vezes irritante. Esse falso protagonista surge de maneira intermitente no romance – e Maugham se esforça para, por meio dele, unir as peças de sua trama.

Traído por seu protagonista, o escritor perdeu a oportunidade de escrever um clássico, o que aconteceria se tivesse centrado sua atenção no esnobe Elliott Templeton, o melhor personagem do romance: norte-americano que vive em Paris, bon vivant, frívolo e pedante, de passado suspeito, que, graças ao comércio de arte, enriqueceu durante a I Guerra. Fofoqueiro, tio solteirão, aparentemente homossexual, com tino para organizar festas ou recepções, ele transita na alta burguesia e na nobreza européias com facilidade. Mas é também homem generoso, que sai inabalado do crash da Bolsa, em 1929, não por ser um escroque, mas apenas pelo fato de possuir as fontes certas. Apegado aos valores de classe social que o acolheu – e como poderia ser diferente? –, Elliott se escandaliza, por exemplo, quando, de volta temporariamente aos EUA, um motorista de táxi o chama de “amigo” e não de “senhor”. Por meio dele, o narrador radiografa a vida e os valores das classes altas, mas, o que é um mérito, sem fazer julgamentos ideológicos, sem descair para o achincalhe ou, pior, para a exaltação dos pobres como bem-aventurados e puros de coração. Esse tipo de demagogia, nunca encontraremos em Maugham. Ao contrário, ele nos seduz com a “requintada ironia” de Elliott – há diálogos repletos de falas ferinas, inteligentes, plenas daquele tipo de esgrima social que presenciamos com facilidade nos grupos que sabem unir elegância, verve e rapidez de pensamento. Esses diálogos permitem que visualizemos até pequenas rugas de humor nas expressões dos personagens; e nosso autor jamais se rende à literatura de tese.

Seguimos parte da vida de Elliott e, depois, sua decadência física, seu crescente medo da solidão; e o vemos se transformar num homem digno de piedade, apegando-se com todas as forças, apesar da doença, ao frenesi de uma vida glamorosa. Um dos mais perfeitos trechos do romance é o que descreve sua agonia e morte, bem como a preparação do cadáver. Cena triste, com uma ponta de humor negro, pois Elliott deixara ordens expressas para ser vestido de uma maneira que, sob o olhar do narrador, transforma o dândi num “corista de uma ópera de Verdi”. Acompanhamos a humilhação que a morte impinge – o quanto ela pode nos tornar ridículos – e, ao mesmo tempo, sofremos, pois nos acostumamos a gostar desse requintado bufão, ironista que ascendeu socialmente, sabe-se lá a que preço.

Larry não tem um terço da complexidade de Elliott ou de Isabel Bradley, de quem se torna noivo por um breve período. Sobrinha de Elliott, Isabel é o exemplo de uma das melhores qualidades de Maugham: retratar personagens femininos. Ela evolui no transcorrer do romance, física e psicologicamente, e seu longo diálogo com Larry, quando rompem o noivado, mostra uma mulher realista, diante de quem Larry se transforma numa insignificante caricatura, sem respostas, que apela à ironia vulgar e covarde quando se sente sob pressão. Frente à lógica de Isabel, ele não passa de um idealista exacerbado – e como todos os sonhadores, um egoísta a quem os próprios ideais bastam. A frieza dessa mulher, contudo, se lhe dá forças para sobreviver quando o marido, Gray Maturin, perde tudo na crise de 29, também a leva a cometer um delito que comprometerá a vida de outra personagem, Sophie MacDonald. De encantadora colegial a rainha perversa, Isabel reúne todos os matizes femininos.

É uma pena que a tradução seja muito antiga e não tenha sido revisada. Isabel, por exemplo, toma refresco usando uma “palhinha” e não um canudo; um personagem “dá uma perobinha” com outro, talvez uma gíria da década de 1940 no Brasil, mas da qual não consegui encontrar o significado; as mulheres têm “pestanas” e não cílios; outro personagem, cheio de vivacidade, é “um azougue”; e, numa festa, todos se divertem “à grande”. Mas isso não estraga a narrativa. Aqui e ali, às vezes encontramos lugares-comuns ou descrições que chegam a ser bobas – e imediatamente lembramos de Edmund Wilson –, mas Maugham também nos oferece, além dos diálogos espirituosos, sólidas descrições dos personagens e trechos que são boas descobertas, como ao dizer que os mortos se assemelham a “fantoches de uma companhia falida” ou, apenas outro exemplo, quando comenta sobre a Avenue de Clichy, ao amanhecer: “Sórdida à noite, tinha agora um ar garboso, lembrando a mulher pintada, abatida, que caminhasse com o passo vivo de uma moça”.

O único homem livre

Em seu romance O destino de um homem, Maugham apresenta longa e precisa definição sobre os escritores, da qual sempre gosto de me lembrar, principalmente por suas últimas linhas:

É uma vida cheia de contratempos. Para começar, ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem sua opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer idéia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.

Não poderia haver melhor definição do próprio William Somerset Maugham. E um autor com tamanha autoconsciência deve ser perdoado por sua obra irregular.

No que concerne a O fio da navalha, o narrador que desmente a si mesmo desde a primeira página e faz exatamente o oposto do que pensávamos ser uma decisão irrevogável; o narrador que escreve com a mesma paixão sobre a natureza, a beleza das mulheres e Racine – chegando à discutível e polêmica idéia de que “a arte triunfa quando consegue servir-se do convencionalismo em benefício próprio”; o narrador que consegue extrair drama da classe social que o senso comum e a esquerda julgam erroneamente viver em meio a futilidades e devaneios; um narrador assim, que conclui, falando sobre seu protagonista, ter faltado a Lawrence Darrell “aquela pequena nota de crueldade que mesmo os santos precisam ter para conseguir sua auréola”, certamente merece não apenas nossa atenção, mas também o nosso respeito.

agosto 01, 2013

Monteiro Lobato: sempre contemporâneo


No Rascunho deste mês, escrevo sobre Negrinha, de Monteiro Lobato, salientando as qualidades dos melhores contos presentes no livro: “Os negros”, “A facada imortal”, “Dona Expedita” e o genial “O colocador de pronomes”. Para ler o ensaio na íntegra, basta clicar aqui. A ilustração é de Ramon Muniz.

julho 31, 2013

“O centro do seu deserto” – Henry James e “A fera na selva”



Uma das principais características de Henry James é revelar o inusitado que se esconde sob o cotidiano. O que pode ser extraordinário em uma vida aparentemente banal? Haveria carga dramática suficiente em uma existência destituída de arroubos e gestos de heroísmo? E como escrever sobre essa vida comum, talvez quase estúpida, sem incorrer no erro fatal de utilizar uma linguagem medíocre ou um narrador que seja apenas o decepcionante espelho dos fatos; um narrador capaz somente de repetir, sem qualquer viço, perspicácia, inteligência ou ironia o cotidiano da personagem? Respostas a todas essas perguntas encontram-se na novela A fera na selva.

Esse delicado – e ao mesmo tempo terrível – estudo sobre a vida do irresoluto John Marcher e sua reticente amizade por May Bartram guarda uma história de silencioso sucesso no Brasil. Não, o livro não se tornou um best-seller, mas é promissor, em meio à barafunda de romancinhos kardecistas, livrecos de auto-ajuda e narrativas que se resumem a conversas de botequim ou do meretrício, que uma novela tão intrigante, plena de sutilezas – cujos temas abarcam expectativas que não se cumprem, a cegueira de um homem em relação ao seu destino e um triste amor –, tenha conseguido a façanha de merecer duas traduções.

A explicação para isso talvez resida no fato de Henry James ter, entre nós, um público fiel, apesar de diminuto, seduzido pela escrita tão cerebral quanto impressionista, capaz de profundas e embriagantes alusões, com alto poder evocativo e dotada de rara capacidade para analisar minuciosamente os processos emocionais que não só caracterizam os diferentes comportamentos humanos, mas direcionam ou intensificam cada uma das nossas atitudes, das nossas decisões. O que, convenhamos, não é pouco. Mesmo o Bruxo do Cosme Velho, Machado de Assis, quem melhor analisa as motivações humanas entre nossos escritores, se comparado a Henry James, transforma-se num amador – com uma boa camada de sarcasmo e ceticismo, é verdade, mas sem o abissal aparato psicológico jamesiano.

Ao escrever sobre as bases necessárias à arte da ficção, Henry James legou às novas gerações a descrição da sua maneira peculiar de ver a realidade. E ela certamente explica, em parte, seu poder de extrair beleza de pormenores quase sempre desprezados pelos escritores. Ele afirma: “A experiência nunca é limitada e nunca é completa; ela é uma imensa sensibilidade, uma espécie de vasta teia de aranha, da mais fina seda, suspensa no quarto de nossa consciência, apanhando qualquer partícula do ar em seu tecido. É a própria atmosfera da mente; e quando a mente é imaginativa – muito mais quando acontece de ela ser a mente de um gênio – ela leva para si mesma os mais tênues vestígios de vida, ela converte as próprias pulsações do ar em revelações”.

Prova de amor

De fato, ler Henry James significa enredar-se na “teia de aranha” da consciência de narradores argutos e, ao acompanhá-los, descobrir “revelações” em “tênues vestígios de vida”. No caso específico de A fera na selva, o narrador nos apresenta John Marcher, homem sensível, apreciador de poesia e história, em seu hesitante percurso, iniciado ao reencontrar, inesperadamente, May Bartram, a quem confidenciara, dez anos antes, seu mais importante segredo. O reencontro tem glamour, mas está impregnado do sentimento de perda, conseqüência daquele dia distante, quando se viram a primeira vez: “Olhavam um para o outro com o sentimento de uma ocasião perdida; a atual poderia ter sido muito melhor se a outra, tão remota no passado, numa terra estrangeira, não tivesse sito tão absurdamente escassa”.

Quando May lembra que ele lhe confiou seu segredo, o interesse de Marcher por sua interlocutora cresce, fornecendo ao leitor o primeiro indício de egoísmo, marcante característica desse homem anódino. Em alguns momentos, Marcher quase se predispõe a, efetivamente, conhecer e compreender May, mas acabará sempre dominado por sua apreensão – o seu segredo –, aguardando “a fera que saltará da selva”. Pouco importa que os encontros tornem-se cada vez mais freqüentes: Marcher jamais deixará de ser o cavalheiro de “descoloridas” boas maneiras, ou de tratar May apenas como leal confidente. Em determinado momento, chega a pensar em matrimônio, mas com o objetivo de ter alguém para partilhar suas preocupações.

Marcher também mostra-se cego em relação aos sentimentos de May, pronto a conceder migalhas de atenção à amiga, frio – acreditando-se, contudo, generoso –, incapaz de qualquer gesto arrebatador, de qualquer mínimo ato de coragem, e aferrado às próprias idéias. Nem mesmo quando ela adoece gravemente Marcher demonstra desvelo, ainda que se angustie, mas por antever a possibilidade de ficar sem a confidente. Próxima do fim, a própria May o adverte, num tom de leve ironia: “Você confia plenamente nas suas ‘sensações’”.

Depois que a amiga morre, ele viverá longo processo de auto-análise, ainda hesitante, preso às conjecturas que controlam sua vida. O homem que não conseguiu amar, a não ser a si mesmo, pagará alto preço: a fera escondida na selva se manifestará com a violência aguardada, mas permitindo-lhe, antes, a visão do que não pôde concretizar, do que perdeu.

Contrapondo-se a este personagem, temos May Bartram, uma das mais instigantes personagens femininas do universo jamesiano. Lúcida, serena, amando John Marcher incondicionalmente, ela manifesta inacreditável respeito pelos limites desse homem infeliz. Em pelo menos três oportunidades, inclusive quando já se encontra devastada pela doença, tomará a iniciativa de se aproximar dele, de tentar acordá-lo para a realidade. Na verdade, May Bartram devotou sua vida a proteger Marcher dele mesmo. Foi sua prova de amor.

Amizade e estilos

Muito já se disse sobre o estilo de Henry James, elíptico e de contrastes às vezes quase imperceptíveis, com longos parágrafos, meticulosamente compostos, nos quais todos os elementos são indispensáveis. Um dos melhores comentários, no entanto, coube a Robert Louis Stevenson, com quem James trocou cartas entre 1884 e 1894. Logo na primeira resposta, a 8 de dezembro de 1884, Stevenson escreve, compondo uma imagem em negativo, de refinado humor: “[...] Não sou tolo a ponto de lhe pedir que abandone seu estilo, mas você não poderia, em um romance, para ganhar o agradecimento de um sincero admirador, não poderia fundir seus personagens em um molde um pouco mais abstrato e acadêmico [...], e afinar os incidentes, não digo em uma tonalidade mais forte, mas ligeiramente mais enérgica, como se fosse um episódio de um dos velhos romances chamados de aventuras? Temo que você não o fará, e suponho que devo admitir, suspirando, que você tem razão”.

As palavras de Stevenson revelam o que muitos sentem diante do estilo de James. No entanto, o texto no qual, para alguns, talvez falte energia, para outros jamais faltará agudeza de espírito. E o próprio Stevenson, na mesma carta, admite: “Cada um de nós prefere seu próprio objetivo, e eu prefiro o meu; mas quando passamos a falar de execução, reconheço que sou, comparado a você, um grosseiro e um descuidado de primeira ordem”.

As cartas de James e Stevenson merecem análise à parte, não só pelas questões literárias de que tratam, mas por representarem magnífico exemplo de civilidade, algo em falta nos dias de hoje. Há sincera relação cordial nessa correspondência. Os dois escritores falam o que sentem, mas não querem provar coisa alguma. Ao contrário, são movidos pelo desejo do diálogo sincero, pelo prazer de se comunicar e de fruir uma relação amigável que independe de se conhecer quem é o melhor ou quem está certo. Estão acima dessas questões fúteis.

Design e desencontro

Voltando ao livro, é uma pena que a edição da Cosac & Naify tenha um projeto gráfico que se sobrepõe ao texto. A idéia, apesar de louvável, comprometeu a legibilidade da obra, conferindo um quê de tortura ao exercício que deveria ser exclusivamente prazeroso. A imaginação da designer deu vida a um livro que não almeja ser lido, mas apenas admirado numa vitrine.

Vale a pena, contudo, esforçar-se para superar tais dificuldades, pois a recompensa brilha a cada página dessa história de amor cujo tema central é o desencontro. John Marcher passou a vida cumprindo o destino da maioria das pessoas – ou seja, sem perceber o mais importante. E quando consegue abandonar o que Henry James chama de “o centro do seu deserto”, acorda a tempo de, tão-somente, descobrir que é tarde demais.

julho 29, 2013

Conselhos e reflexões de Anton Tchekhov


 
Não se faz literatura com sociologia

Tudo aquilo que possui um caráter temporário, todas essas alfinetadas dirigidas aos críticos e aos liberais da época, todas as observações críticas que se pretendem certeiras e atuais, e todos os assim chamados pensamentos profundos, plantados aqui e ali – como tudo isso é insignificante e ingênuo hoje em dia! Pois aí é que está o busílis: o bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório.

E muito menos com política

[...] Os grandes escritores e os grandes artistas devem se ocupar da política apenas na medida em que é preciso defender-se dela. [...]

Busca contínua da verdade

Nunca se deve mentir. A grandeza da arte reside no fato de que ela não admite a mentira. É possível mentir no amor, na política, na medicina; é possível enganar as pessoas e até mesmo Deus, mas na arte é impossível mentir.

Reler, reler...

Acordo toda noite e leio Guerra e Paz. A gente o relê com tanta curiosidade e ingênua admiração, como se fosse a primeira vez.

Não engrandecer o que é pequeno; não falsear a realidade

Sou repreendido por escrever apenas sobre acontecimentos medíocres, por não ter heróis positivos. [...]
Levamos uma vida provinciana, as ruas de nossas cidades nem sequer são pavimentadas, nossas aldeias são pobres, nosso povo vive num péssimo estado. Na juventude, chilreamos feito pássaros em cima de um monte de esterco; aos quarenta já somos velhos e começamos a pensar na morte. Que espécie de heróis somos nós? [...]
Gostaria apenas de dizer com toda a honestidade às pessoas: reparem, reparem como vivem mal, e que vida enfadonha estão levando. O importante é que as pessoas compreendam isso; se compreenderem, inventarão uma vida diferente e melhor. O homem torna-se melhor quando lhe mostramos como ele é.

Abandonar a retórica

[...] Ao fazer a revisão, corte, onde possível, os atributos dos substantivos e dos verbos. Você coloca tantos atributos que fica difícil para a atenção do leitor não se perder, e ele se cansa. É compreensível quando escrevo: “o homem sentou-se na grama”; é compreensível por ser claro e não reter a atenção. Ao contrário, é pouco inteligível e pesado para o cérebro, se escrevo: “um homem alto, de peito cavado, porte discreto e barbicha ruiva sentou-se na grama verde, já pisoteada pelo transeuntes; sentou-se sem fazer ruído, olhando tímida e temerosamente à sua volta”. Isso demora um pouco a entrar no cérebro, e a literatura deve entrar imediatamente, num átimo.

Repugnantes panelinhas

[...] Não é o escrever em si que me causa repugnância, mas esse entourage literário do qual não se pode escapar e do qual se é portador em todo lugar, assim como a terra é portadora da atmosfera.

[Do livro Sem trama e sem final – 99 conselhos de escrita.]

julho 27, 2013

O que salvou Edmund Wilson da falácia milenarista

Acabo de ler o ensaio de Paul Johnson – em Os intelectuais – sobre Edmund Wilson. Texto lúcido, apresenta o homem escondido sob o intelectual e as contradições típicas do esquerdista que defende o Estado absoluto mas não aceita quando o mesmo Estado decide sugar seus lucros com direitos autorais. Mas Johnson percebe a sinceridade que impulsionava Wilson, virtude que acabou por libertá-lo do comunismo. Aliás, uma boa dose de realidade pode ser, em alguns casos, um antídoto poderoso: o período que passou internado num hospital soviético, pobre e decadente, ajudou-o a acordar para a verdade escondida sob o brilho sedutor da ideologia. A seguir, coloco o belo trecho final do ensaio:

“Wilson, na melhor das hipóteses, teve como diretriz de seu pensamento a compreensão de que os livros não são entidades desencarnadas mas nascem dos corações e cérebros de homens e mulheres vivos e que o segredo para compreendê-los está na interação entre o tema e o autor. A crueldade das idéias está na suposição de que os seres humanos podem ser modificados para se adequar a elas. O benefício da grande arte consiste na maneira como ela surge a partir da iluminação individual para a generalidade. Comentando a respeito de Edna St. Vincent Millay, sobre quem ele escreveu com um brilhantismo renovado, Wilson deu a definição perfeita de como um poeta deve atuar:

Ao dar expressão suprema a uma experiência pessoal sentida em profundidade, ela foi capaz de se identificar com a experiência humana mais geral e se mostrar como um porta-voz para o espírito humano, anunciando seus impasses, suas vicissitudes, porém, como um mestre da expressão humana, pelo esplendor da própria expressão, colocando-se mais além dos embaraços comuns, das opressões e dos pânicos comuns.

Foi esse humanismo de Wilson que, permitindo-lhe compreender tais processos, o salvou da falácia milenarista.”

julho 26, 2013

Um diálogo sobre liberdade, esquerdismo e universo cultural brasileiro

Estive com Bruno Garschagen recentemente, no encontro de intelectuais organizado por Olavo de Carvalho em Richmond (Virgínia). Após uma semana de amplas discussões sobre a vida cultural brasileira, voltei para São Paulo, mas Garschagen permanece nos EUA, agora pesquisando, no Russell Kirk Center, em Mecosta, para sua tese de doutorado. Lá, participou da Acton University e, no próprio Russell Kirk Center, do seminário Russell Kirk and the Six Canons of Conservatism, onde proferiu a palestra “The Freedom and the Property: The Kirk’s Fourth Canon of Conservative Thought”.
 
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), Garschagen é autor do texto de apresentação de Os Caminhos para a Modernidade: os Iluminismos Britânico, Francês e Americano, da historiadora Gertrude Himmelfarb, e escreveu o prefácio de O que é o Conservadorismo, do filósofo político inglês Roger Scruton (no prelo).
 
É com esse intelectual de grande talento – cujo livro sobre utopia política será publicado ainda este ano pela É Realizações – que converso no programa semanal que ele mantém no site do Instituto Ludwig von Mises – Brasil, o Podcast Mises Brasil. O resultado, vocês podem acompanhar na gravação abaixo:
 

julho 22, 2013

“Surda ao implacável relógio da atualidade” – a crítica literária segundo Milan Kundera

“Nunca falarei mal da crítica literária. Pois nada é pior para um escritor do que se defrontar com sua ausência. Refiro-me à crítica literária em seu aspecto de meditação, de análise; da crítica literária que sabe ler várias vezes o livro do qual quer falar (como uma grande música que podemos reescutar infinitamente, também os grandes romances são feitos para leituras repetidas); da crítica literária que, surda ao implacável relógio da atualidade, está pronta a discutir as obras nascidas há um ano, trinta anos, trezentos anos; da crítica literária que tenta captar a novidade de uma obra para deste modo inscrevê-la na memória histórica. Se uma tal meditação não acompanhasse a história do romance, hoje nada saberíamos sobre Dostoiévski, sobre Joyce ou sobre Proust. Sem ela, toda a obra está entregue aos julgamentos arbitrários e ao esquecimento rápido. [...] A crítica literária, imperceptivelmente, inocentemente, pela força das coisas, pela evolução da sociedade, da imprensa, transformou-se em uma simples (muitas vezes inteligente, sempre apressada) informação sobre a literatura da atualidade.” (Milan Kundera, em Os testamentos traídos.)

julho 15, 2013

Grandiosa epopéia – Fernández-Armesto e “Os desbravadores”


“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” O verso de Fernando Pessoa poderia servir de epígrafe a Os desbravadores – uma história mundial da exploração da Terra, escrito pelo historiador britânico, descendente de espanhóis, Felipe Fernández-Armesto, livro que se propõe a estudar esses filhos da quimera, da ambição, da coragem, do auto-engano – e também da necessidade. Nele, os exploradores surgem envolvidos na emaranhada trama com que a geografia limita ou amplia a saga da nossa espécie. E, algo mais do que elogiável, baseando-se em indícios arqueológicos, suposições ou fatos, Fernández-Armesto jamais submete as respostas que encontra à esfarrapada camisa-de-força do reducionismo econômico.
 
Para leitores acostumados a pensar na conquista dos mares tomando como pontos de partida portugueses e espanhóis, ou para aqueles que se deliciam com narrativas sobre a exploração das fronteiras recônditas da Terra, e concentram seu interesse nos aventureiros modernos, a obra de Fernández-Armesto guarda inúmeras surpresas. Dentre elas, outro mérito: incorporar à história universal, sempre tão centrada na história do ocidente – ou, para ser mais preciso, na história européia –, civilizações esquecidas pelos livros escolares. Também aqui, no entanto, o autor não faz concessões. Chineses, mongóis, lápitas, polinésios, maias, árabes, japoneses, thules, nórdicos, irlandeses e russos são incorporados à aventura da humanidade não para satisfazer à ideologia do multiculturalismo, mas apenas porque, realmente, foram protagonistas da exploração do planeta.

Sem dar espaço a endeusamentos, o ponderado historiador destaca a incrível capacidade de adaptação do homem, mas com uma ressalva: se “hoje consideramos que os pioneiros são revolucionários e inovadores, é provável que subestimemos a força do conservadorismo para induzir algumas comunidades a pôr-se em marcha”. Mantendo seu olhar atento ao pluralismo das experiências humanas – “o único grande valor comum a que não ousamos renunciar” –, Fernández-Armesto analisa desde as primeiras explorações até os dias atuais, quando a superfície do globo encontra-se mapeada.

Assim, viajando das culturas coletoras à globalização, o historiador revisita os primórdios da cartografia – diagramas cósmicos, mapas orais (decorados e repetidos de geração em geração, como nos ritos de iniciação dos lubas, no Congo) e marcadores de rotas dos povos ágrafos – até chegar às observações de Galileu sobre as luas de Júpiter (que se tornaram, “graças à regularidade de seus movimentos, uma referência confiável para medir a passagem do tempo”) e ao trabalho dos renomados cartógrafos Jean Picard, Jean-Dominique Cassini, Guillaume de L’Isle, Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville e Nicolas Sanson. Nenhuma invenção, nenhum avanço tecnológico passa despercebido. Mas Fernández-Armesto lhes concede seu verdadeiro lugar na aventura comandada, principalmente, pela intuição e pelo arrojo. Os navegantes polinésios, por exemplo, “literalmente achavam o caminho pelo tato – ‘pare de olhar para a vela e pilote pela sensação do vento no rosto’, era um tradicional conselho de navegadores, registrado ainda na década de 1970. Alguns marinheiros costumavam deitar-se no flutuador lateral para ‘sentir’ as vagas”.

Oriente e Ocidente

O autor dá vida aos mais inusitados viajantes: Zhang Qian, emissário chinês que partiu, no ano de 139 a. C., em direção a Báctria, um dos reinos da Ásia Central criados depois das conquistas de Alexandre, o Grande; Kan Ying, outro emissário da China, que visita Roma em 79 d. C.; Faxian, o explorador budista que partiu de Xian em 399 d. C. e, percorrendo a Rota da Seda, alcançou a Índia; e o almirante Zheng He, que, obedecendo ao imperador chinês Yongle, realizou, entre 1405 e 1433, sete grandes expedições através do Oceano Índico.

Segundo Fernández-Armesto, os chineses não só podem ter “dobrado o cabo da Boa Esperança, de leste para oeste, durante a Idade Média” – pois “um mapa chinês do século XIII mostra a África de maneira bastante próxima da realidade” e “um cartógrafo veneziano de meados do século XV relatou ter visto um junco chinês ou, talvez, javanês, na costa sudoeste da África” –, como também influenciaram, “graças ao desenvolvimento das rotas que cruzavam a Eurásia”, a sensibilidade européia: “É difícil imaginar a grande descoberta da beleza do mundo natural que ocorreu [...] no Ocidente – e que associamos principalmente a são Francisco de Assis – sem a fertilização cruzada com a civilização chinesa, que já tinha uma notável tradição de apreço pela paisagem”.

Na verdade, essas influências são mais amplas – e a conclusão do autor é de que, sob “determinado ponto de vista, os ocidentais são o resíduo da história da Eurásia, e a projeção onde vivemos é o sumidouro para onde essa história escoou”. Ou seja, “a propagação da agricultura e da mineração, a chegada das línguas indo-européias, as colonizações de fenícios, judeus e gregos, o advento do cristianismo, as migrações de germânicos, eslavos e dos povos da estepe, a aquisição do conhecimento, o gosto, a tecnologia e a ciência da Ásia: tudo isso representou influências exercidas do Oriente sobre o Ocidente”.

Em busca da verdade

Se Fernández-Armesto relembra, por exemplo, os Irmãos Vivaldi, de Gênova, “que se anteciparam em quase dois séculos ao projeto de Colombo e cujas informações se perderam quase que na totalidade”, também redimensiona outros personagens, nossos velhos conhecidos. Dom Henrique, o Navegador, ganha a figura de “um arrivista – um príncipe real não primogênito com ambições acima de sua condição. [...] Membro de uma dinastia de modestos recursos e recém-chegada ao poder – detinha a coroa portuguesa desde 1385, somente –, ansiava pelo tipo de riqueza que o controle sobre o comércio do ouro prometia. Para compensar a ausência de uma ‘antiga fortuna’, que Aristóteles definia como indicador da verdadeira nobreza, Henrique impregnou-se dos valores aristocráticos dominantes em sua época – o ‘código’ cavalheiresco”. A corroborar essa descrição, lembremos de Charles Ralph Boxer, que, em seu clássico O império marítimo português, já qualificava dom Henrique de “monopolista e açambarcador”.

Quanto a Hernán Cortés, apenas para citar mais um exemplo, Fernández-Armesto considera-o “superestimado como conquistador”. Contrariando as versões que se popularizaram entre nós graças ao panfleto As veias abertas da América Latina, os astecas na verdade foram derrubados por “uma coligação de povos indígenas [...], o mais feroz bolsão de resistência [...] entre o México e a costa”.

É pena que o mundo seja vasto demais para permitir ao historiador uma visão pormenorizada do bandeirismo. Ele cita, claro, esses corajosos aventureiros, detendo-se em Raposo Tavares, que, no ano de 1650, chegou até a “vertente oriental dos Andes, e a seguir desceu pelo rio Amazonas”. Mas um estudo detalhado certamente despojaria os bandeirantes da aura, apenas parcialmente verdadeira, de criminosos, assassinos e escravizadores, versão divulgada por parcela dos estudiosos brasileiros há décadas, num verdadeiro processo de achincalhação desses paulistas que, sofrendo de “paixão ambulatória” – segundo o feliz comentário de Charles Ralph Boxer –, em nada se assemelhavam às outras populações do Brasil litorâneo, as quais, “durante mais de um século, fizeram poucos esforços, relativamente débeis e esporádicos, para a profunda penetração nas terras do interior”. (As citações de Boxer estão em A idade de ouro do Brasil; obra, aliás, que oferece amplo panorama do bandeirismo e da personalidade dos paulistas no capítulo “O ouro das Minas Gerais”).

Coragem intelectual

Voltando à conquista do Atlântico, se é possível sintetizar as causas da vitória ibérica sobre os mares, devemos seguir Fernández-Armesto em duas brilhantes conclusões.

Ele considera “tentador [...] atribuir a penetração do Atlântico, com todas as suas conseqüências, a algo de especial na cultura da região onde ela teve início”. Contudo, sua avaliação é de que “a maioria dos aspectos culturais comumente alegados em nada ajuda, porque não eram exclusivos da costa ocidental da Europa, por serem falsos ou porque não estavam presentes no momento certo”. Investigando todos os ângulos da questão, o historiador consegue, no entanto, discernir um elemento cultural particular e, se não exclusivo do mundo ibérico, extremamente difundido na região: a literatura de cavalaria. Na opinião de Fernández-Armesto, aqueles exploradores estavam “impregnados da idealização da aventura” e “muitos abraçavam ou procuravam personificar o eminente éthos aristocrático da época – o ‘código’ da cavalaria. Os navios eram seus corcéis, e eles singravam as ondas como ginetes”. Só uma “estratégia psicológica de escapismo” poderia “enobrecer atividades que em outras partes do mundo representavam um ônus para a carreira ou um obstáculo para a mobilidade social”. Foi essa “atmosfera romântica” que, segundo o dizer irônico de Fernandez-Armesto, fez o sonho e a ambição triunfarem “em meio aos ratos e às agruras da vida a bordo”.

A segunda conclusão do historiador é também um emblema de sua coragem intelectual. Em uma historiografia dominada por concepções que obedecem cegamente ao materialismo histórico, Fernandez-Armesto recupera a importância das características geográficas: “Durante toda a era da vela – vale dizer, ao longo de quase toda a história – a geografia teve um poder absoluto para limitar o que o homem podia fazer no mar. Em comparação com a geografia, pouco significavam a cultura, as idéias, o talento ou o carisma individual, as forças econômicas e todos os demais motores da história”. E fornece ao leitor uma explicação tão clara quanto elucidativa sobre o comportamento dos ventos que favoreceram os navegantes de Portugal e Espanha, explicando o predomínio dos alísios, “uma configuração regular em que os ventos dominantes sopram na mesma direção, qualquer que seja a estação”. De maneira incessante, “partindo mais ou menos do noroeste da África, os alísios atravessam o oceano, descrevendo uma curva que passa poucos graus acima da linha do Equador e prossegue em direção às terras em torno do Caribe. Graças aos alísios do nordeste, as comunidades marítimas em torno das desembocaduras do Tejo e do Guadalquivir tinham acesso privilegiado a grande parte do resto do mundo. [...] No hemisfério sul, repete-se mais ou menos a mesma configuração, com ventos que sopram do sul da África para o Brasil”.

A Terra inteira

O destemor e a ambição encontraram, assim, dois apoios fundamentais: o sonho alimentado pela literatura e a benevolência dos ventos. Essas condições favoráveis, entretanto, não se repetiram a todos os aventureiros. A história da exploração da Terra é um somatório de erros, desastres, tragédias. Os desbravadores que ousaram enfrentar climas inóspitos e relevos traiçoeiros também são protagonistas da obra de Fernandez-Armesto. Alessandro Malaspina e seu infortúnio, John Cook, Richard Burton, David Livingstone, Henry Morton Stanley, Bering e suas terríveis viagens transiberianas, Ernest-Marc-Louis de Gonzague, Robert Peary, Roald Amundsen, Robert Scott e Ernest Shackleton – todos comprovaram na própria carne os versos de Fernando Pessoa: “Os deuses vendem quando dão. / Compra-se a glória com desgraça”. Eles se reúnem nessa “marcha da insensatez, na qual quase todo passo adiante representou o resultado fracassado de um salto que pretendia ir bem mais longe”. Graças a eles – e a tantos outros, que jamais emergirão do anonimato – podemos ler o poema de Fernando Pessoa não como um vaticínio, mas como o relato de um prodígio que se concretizou:

Deus quis que a terra fosse toda uma,
[...]
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo. 
 
Sim, foram “excêntricos, visionários, românticos arrivistas, marginais, fugitivos da limitação e da rotina, com uma visão de mundo suficientemente distorcida a ponto de serem capazes de reinventar a realidade”. Contudo, graças a tais homens, Felipe Fernández-Armesto elaborou não apenas um volume de histórias – que lemos na tranqüilidade e na proteção de nossos lares, talvez invejando a ousadia e o vigor desses heróis –, mas pôde resumir a grandiosa epopéia cujos resultados seguem produzindo frutos – e da qual temos obrigação de nos orgulhar.

julho 11, 2013

Como o rumor


Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (in O Nome das Coisas, 1977)