julho 29, 2013

Conselhos e reflexões de Anton Tchekhov


 
Não se faz literatura com sociologia

Tudo aquilo que possui um caráter temporário, todas essas alfinetadas dirigidas aos críticos e aos liberais da época, todas as observações críticas que se pretendem certeiras e atuais, e todos os assim chamados pensamentos profundos, plantados aqui e ali – como tudo isso é insignificante e ingênuo hoje em dia! Pois aí é que está o busílis: o bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório.

E muito menos com política

[...] Os grandes escritores e os grandes artistas devem se ocupar da política apenas na medida em que é preciso defender-se dela. [...]

Busca contínua da verdade

Nunca se deve mentir. A grandeza da arte reside no fato de que ela não admite a mentira. É possível mentir no amor, na política, na medicina; é possível enganar as pessoas e até mesmo Deus, mas na arte é impossível mentir.

Reler, reler...

Acordo toda noite e leio Guerra e Paz. A gente o relê com tanta curiosidade e ingênua admiração, como se fosse a primeira vez.

Não engrandecer o que é pequeno; não falsear a realidade

Sou repreendido por escrever apenas sobre acontecimentos medíocres, por não ter heróis positivos. [...]
Levamos uma vida provinciana, as ruas de nossas cidades nem sequer são pavimentadas, nossas aldeias são pobres, nosso povo vive num péssimo estado. Na juventude, chilreamos feito pássaros em cima de um monte de esterco; aos quarenta já somos velhos e começamos a pensar na morte. Que espécie de heróis somos nós? [...]
Gostaria apenas de dizer com toda a honestidade às pessoas: reparem, reparem como vivem mal, e que vida enfadonha estão levando. O importante é que as pessoas compreendam isso; se compreenderem, inventarão uma vida diferente e melhor. O homem torna-se melhor quando lhe mostramos como ele é.

Abandonar a retórica

[...] Ao fazer a revisão, corte, onde possível, os atributos dos substantivos e dos verbos. Você coloca tantos atributos que fica difícil para a atenção do leitor não se perder, e ele se cansa. É compreensível quando escrevo: “o homem sentou-se na grama”; é compreensível por ser claro e não reter a atenção. Ao contrário, é pouco inteligível e pesado para o cérebro, se escrevo: “um homem alto, de peito cavado, porte discreto e barbicha ruiva sentou-se na grama verde, já pisoteada pelo transeuntes; sentou-se sem fazer ruído, olhando tímida e temerosamente à sua volta”. Isso demora um pouco a entrar no cérebro, e a literatura deve entrar imediatamente, num átimo.

Repugnantes panelinhas

[...] Não é o escrever em si que me causa repugnância, mas esse entourage literário do qual não se pode escapar e do qual se é portador em todo lugar, assim como a terra é portadora da atmosfera.

[Do livro Sem trama e sem final – 99 conselhos de escrita.]

julho 27, 2013

O que salvou Edmund Wilson da falácia milenarista

Acabo de ler o ensaio de Paul Johnson – em Os intelectuais – sobre Edmund Wilson. Texto lúcido, apresenta o homem escondido sob o intelectual e as contradições típicas do esquerdista que defende o Estado absoluto mas não aceita quando o mesmo Estado decide sugar seus lucros com direitos autorais. Mas Johnson percebe a sinceridade que impulsionava Wilson, virtude que acabou por libertá-lo do comunismo. Aliás, uma boa dose de realidade pode ser, em alguns casos, um antídoto poderoso: o período que passou internado num hospital soviético, pobre e decadente, ajudou-o a acordar para a verdade escondida sob o brilho sedutor da ideologia. A seguir, coloco o belo trecho final do ensaio:

“Wilson, na melhor das hipóteses, teve como diretriz de seu pensamento a compreensão de que os livros não são entidades desencarnadas mas nascem dos corações e cérebros de homens e mulheres vivos e que o segredo para compreendê-los está na interação entre o tema e o autor. A crueldade das idéias está na suposição de que os seres humanos podem ser modificados para se adequar a elas. O benefício da grande arte consiste na maneira como ela surge a partir da iluminação individual para a generalidade. Comentando a respeito de Edna St. Vincent Millay, sobre quem ele escreveu com um brilhantismo renovado, Wilson deu a definição perfeita de como um poeta deve atuar:

Ao dar expressão suprema a uma experiência pessoal sentida em profundidade, ela foi capaz de se identificar com a experiência humana mais geral e se mostrar como um porta-voz para o espírito humano, anunciando seus impasses, suas vicissitudes, porém, como um mestre da expressão humana, pelo esplendor da própria expressão, colocando-se mais além dos embaraços comuns, das opressões e dos pânicos comuns.

Foi esse humanismo de Wilson que, permitindo-lhe compreender tais processos, o salvou da falácia milenarista.”

julho 26, 2013

Um diálogo sobre liberdade, esquerdismo e universo cultural brasileiro

Estive com Bruno Garschagen recentemente, no encontro de intelectuais organizado por Olavo de Carvalho em Richmond (Virgínia). Após uma semana de amplas discussões sobre a vida cultural brasileira, voltei para São Paulo, mas Garschagen permanece nos EUA, agora pesquisando, no Russell Kirk Center, em Mecosta, para sua tese de doutorado. Lá, participou da Acton University e, no próprio Russell Kirk Center, do seminário Russell Kirk and the Six Canons of Conservatism, onde proferiu a palestra “The Freedom and the Property: The Kirk’s Fourth Canon of Conservative Thought”.
 
Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford (visiting student), Garschagen é autor do texto de apresentação de Os Caminhos para a Modernidade: os Iluminismos Britânico, Francês e Americano, da historiadora Gertrude Himmelfarb, e escreveu o prefácio de O que é o Conservadorismo, do filósofo político inglês Roger Scruton (no prelo).
 
É com esse intelectual de grande talento – cujo livro sobre utopia política será publicado ainda este ano pela É Realizações – que converso no programa semanal que ele mantém no site do Instituto Ludwig von Mises – Brasil, o Podcast Mises Brasil. O resultado, vocês podem acompanhar na gravação abaixo:
 

julho 22, 2013

“Surda ao implacável relógio da atualidade” – a crítica literária segundo Milan Kundera

“Nunca falarei mal da crítica literária. Pois nada é pior para um escritor do que se defrontar com sua ausência. Refiro-me à crítica literária em seu aspecto de meditação, de análise; da crítica literária que sabe ler várias vezes o livro do qual quer falar (como uma grande música que podemos reescutar infinitamente, também os grandes romances são feitos para leituras repetidas); da crítica literária que, surda ao implacável relógio da atualidade, está pronta a discutir as obras nascidas há um ano, trinta anos, trezentos anos; da crítica literária que tenta captar a novidade de uma obra para deste modo inscrevê-la na memória histórica. Se uma tal meditação não acompanhasse a história do romance, hoje nada saberíamos sobre Dostoiévski, sobre Joyce ou sobre Proust. Sem ela, toda a obra está entregue aos julgamentos arbitrários e ao esquecimento rápido. [...] A crítica literária, imperceptivelmente, inocentemente, pela força das coisas, pela evolução da sociedade, da imprensa, transformou-se em uma simples (muitas vezes inteligente, sempre apressada) informação sobre a literatura da atualidade.” (Milan Kundera, em Os testamentos traídos.)

julho 15, 2013

Grandiosa epopéia – Fernández-Armesto e “Os desbravadores”


“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.” O verso de Fernando Pessoa poderia servir de epígrafe a Os desbravadores – uma história mundial da exploração da Terra, escrito pelo historiador britânico, descendente de espanhóis, Felipe Fernández-Armesto, livro que se propõe a estudar esses filhos da quimera, da ambição, da coragem, do auto-engano – e também da necessidade. Nele, os exploradores surgem envolvidos na emaranhada trama com que a geografia limita ou amplia a saga da nossa espécie. E, algo mais do que elogiável, baseando-se em indícios arqueológicos, suposições ou fatos, Fernández-Armesto jamais submete as respostas que encontra à esfarrapada camisa-de-força do reducionismo econômico.
 
Para leitores acostumados a pensar na conquista dos mares tomando como pontos de partida portugueses e espanhóis, ou para aqueles que se deliciam com narrativas sobre a exploração das fronteiras recônditas da Terra, e concentram seu interesse nos aventureiros modernos, a obra de Fernández-Armesto guarda inúmeras surpresas. Dentre elas, outro mérito: incorporar à história universal, sempre tão centrada na história do ocidente – ou, para ser mais preciso, na história européia –, civilizações esquecidas pelos livros escolares. Também aqui, no entanto, o autor não faz concessões. Chineses, mongóis, lápitas, polinésios, maias, árabes, japoneses, thules, nórdicos, irlandeses e russos são incorporados à aventura da humanidade não para satisfazer à ideologia do multiculturalismo, mas apenas porque, realmente, foram protagonistas da exploração do planeta.

Sem dar espaço a endeusamentos, o ponderado historiador destaca a incrível capacidade de adaptação do homem, mas com uma ressalva: se “hoje consideramos que os pioneiros são revolucionários e inovadores, é provável que subestimemos a força do conservadorismo para induzir algumas comunidades a pôr-se em marcha”. Mantendo seu olhar atento ao pluralismo das experiências humanas – “o único grande valor comum a que não ousamos renunciar” –, Fernández-Armesto analisa desde as primeiras explorações até os dias atuais, quando a superfície do globo encontra-se mapeada.

Assim, viajando das culturas coletoras à globalização, o historiador revisita os primórdios da cartografia – diagramas cósmicos, mapas orais (decorados e repetidos de geração em geração, como nos ritos de iniciação dos lubas, no Congo) e marcadores de rotas dos povos ágrafos – até chegar às observações de Galileu sobre as luas de Júpiter (que se tornaram, “graças à regularidade de seus movimentos, uma referência confiável para medir a passagem do tempo”) e ao trabalho dos renomados cartógrafos Jean Picard, Jean-Dominique Cassini, Guillaume de L’Isle, Jean-Baptiste Bourguignon d’Anville e Nicolas Sanson. Nenhuma invenção, nenhum avanço tecnológico passa despercebido. Mas Fernández-Armesto lhes concede seu verdadeiro lugar na aventura comandada, principalmente, pela intuição e pelo arrojo. Os navegantes polinésios, por exemplo, “literalmente achavam o caminho pelo tato – ‘pare de olhar para a vela e pilote pela sensação do vento no rosto’, era um tradicional conselho de navegadores, registrado ainda na década de 1970. Alguns marinheiros costumavam deitar-se no flutuador lateral para ‘sentir’ as vagas”.

Oriente e Ocidente

O autor dá vida aos mais inusitados viajantes: Zhang Qian, emissário chinês que partiu, no ano de 139 a. C., em direção a Báctria, um dos reinos da Ásia Central criados depois das conquistas de Alexandre, o Grande; Kan Ying, outro emissário da China, que visita Roma em 79 d. C.; Faxian, o explorador budista que partiu de Xian em 399 d. C. e, percorrendo a Rota da Seda, alcançou a Índia; e o almirante Zheng He, que, obedecendo ao imperador chinês Yongle, realizou, entre 1405 e 1433, sete grandes expedições através do Oceano Índico.

Segundo Fernández-Armesto, os chineses não só podem ter “dobrado o cabo da Boa Esperança, de leste para oeste, durante a Idade Média” – pois “um mapa chinês do século XIII mostra a África de maneira bastante próxima da realidade” e “um cartógrafo veneziano de meados do século XV relatou ter visto um junco chinês ou, talvez, javanês, na costa sudoeste da África” –, como também influenciaram, “graças ao desenvolvimento das rotas que cruzavam a Eurásia”, a sensibilidade européia: “É difícil imaginar a grande descoberta da beleza do mundo natural que ocorreu [...] no Ocidente – e que associamos principalmente a são Francisco de Assis – sem a fertilização cruzada com a civilização chinesa, que já tinha uma notável tradição de apreço pela paisagem”.

Na verdade, essas influências são mais amplas – e a conclusão do autor é de que, sob “determinado ponto de vista, os ocidentais são o resíduo da história da Eurásia, e a projeção onde vivemos é o sumidouro para onde essa história escoou”. Ou seja, “a propagação da agricultura e da mineração, a chegada das línguas indo-européias, as colonizações de fenícios, judeus e gregos, o advento do cristianismo, as migrações de germânicos, eslavos e dos povos da estepe, a aquisição do conhecimento, o gosto, a tecnologia e a ciência da Ásia: tudo isso representou influências exercidas do Oriente sobre o Ocidente”.

Em busca da verdade

Se Fernández-Armesto relembra, por exemplo, os Irmãos Vivaldi, de Gênova, “que se anteciparam em quase dois séculos ao projeto de Colombo e cujas informações se perderam quase que na totalidade”, também redimensiona outros personagens, nossos velhos conhecidos. Dom Henrique, o Navegador, ganha a figura de “um arrivista – um príncipe real não primogênito com ambições acima de sua condição. [...] Membro de uma dinastia de modestos recursos e recém-chegada ao poder – detinha a coroa portuguesa desde 1385, somente –, ansiava pelo tipo de riqueza que o controle sobre o comércio do ouro prometia. Para compensar a ausência de uma ‘antiga fortuna’, que Aristóteles definia como indicador da verdadeira nobreza, Henrique impregnou-se dos valores aristocráticos dominantes em sua época – o ‘código’ cavalheiresco”. A corroborar essa descrição, lembremos de Charles Ralph Boxer, que, em seu clássico O império marítimo português, já qualificava dom Henrique de “monopolista e açambarcador”.

Quanto a Hernán Cortés, apenas para citar mais um exemplo, Fernández-Armesto considera-o “superestimado como conquistador”. Contrariando as versões que se popularizaram entre nós graças ao panfleto As veias abertas da América Latina, os astecas na verdade foram derrubados por “uma coligação de povos indígenas [...], o mais feroz bolsão de resistência [...] entre o México e a costa”.

É pena que o mundo seja vasto demais para permitir ao historiador uma visão pormenorizada do bandeirismo. Ele cita, claro, esses corajosos aventureiros, detendo-se em Raposo Tavares, que, no ano de 1650, chegou até a “vertente oriental dos Andes, e a seguir desceu pelo rio Amazonas”. Mas um estudo detalhado certamente despojaria os bandeirantes da aura, apenas parcialmente verdadeira, de criminosos, assassinos e escravizadores, versão divulgada por parcela dos estudiosos brasileiros há décadas, num verdadeiro processo de achincalhação desses paulistas que, sofrendo de “paixão ambulatória” – segundo o feliz comentário de Charles Ralph Boxer –, em nada se assemelhavam às outras populações do Brasil litorâneo, as quais, “durante mais de um século, fizeram poucos esforços, relativamente débeis e esporádicos, para a profunda penetração nas terras do interior”. (As citações de Boxer estão em A idade de ouro do Brasil; obra, aliás, que oferece amplo panorama do bandeirismo e da personalidade dos paulistas no capítulo “O ouro das Minas Gerais”).

Coragem intelectual

Voltando à conquista do Atlântico, se é possível sintetizar as causas da vitória ibérica sobre os mares, devemos seguir Fernández-Armesto em duas brilhantes conclusões.

Ele considera “tentador [...] atribuir a penetração do Atlântico, com todas as suas conseqüências, a algo de especial na cultura da região onde ela teve início”. Contudo, sua avaliação é de que “a maioria dos aspectos culturais comumente alegados em nada ajuda, porque não eram exclusivos da costa ocidental da Europa, por serem falsos ou porque não estavam presentes no momento certo”. Investigando todos os ângulos da questão, o historiador consegue, no entanto, discernir um elemento cultural particular e, se não exclusivo do mundo ibérico, extremamente difundido na região: a literatura de cavalaria. Na opinião de Fernández-Armesto, aqueles exploradores estavam “impregnados da idealização da aventura” e “muitos abraçavam ou procuravam personificar o eminente éthos aristocrático da época – o ‘código’ da cavalaria. Os navios eram seus corcéis, e eles singravam as ondas como ginetes”. Só uma “estratégia psicológica de escapismo” poderia “enobrecer atividades que em outras partes do mundo representavam um ônus para a carreira ou um obstáculo para a mobilidade social”. Foi essa “atmosfera romântica” que, segundo o dizer irônico de Fernandez-Armesto, fez o sonho e a ambição triunfarem “em meio aos ratos e às agruras da vida a bordo”.

A segunda conclusão do historiador é também um emblema de sua coragem intelectual. Em uma historiografia dominada por concepções que obedecem cegamente ao materialismo histórico, Fernandez-Armesto recupera a importância das características geográficas: “Durante toda a era da vela – vale dizer, ao longo de quase toda a história – a geografia teve um poder absoluto para limitar o que o homem podia fazer no mar. Em comparação com a geografia, pouco significavam a cultura, as idéias, o talento ou o carisma individual, as forças econômicas e todos os demais motores da história”. E fornece ao leitor uma explicação tão clara quanto elucidativa sobre o comportamento dos ventos que favoreceram os navegantes de Portugal e Espanha, explicando o predomínio dos alísios, “uma configuração regular em que os ventos dominantes sopram na mesma direção, qualquer que seja a estação”. De maneira incessante, “partindo mais ou menos do noroeste da África, os alísios atravessam o oceano, descrevendo uma curva que passa poucos graus acima da linha do Equador e prossegue em direção às terras em torno do Caribe. Graças aos alísios do nordeste, as comunidades marítimas em torno das desembocaduras do Tejo e do Guadalquivir tinham acesso privilegiado a grande parte do resto do mundo. [...] No hemisfério sul, repete-se mais ou menos a mesma configuração, com ventos que sopram do sul da África para o Brasil”.

A Terra inteira

O destemor e a ambição encontraram, assim, dois apoios fundamentais: o sonho alimentado pela literatura e a benevolência dos ventos. Essas condições favoráveis, entretanto, não se repetiram a todos os aventureiros. A história da exploração da Terra é um somatório de erros, desastres, tragédias. Os desbravadores que ousaram enfrentar climas inóspitos e relevos traiçoeiros também são protagonistas da obra de Fernandez-Armesto. Alessandro Malaspina e seu infortúnio, John Cook, Richard Burton, David Livingstone, Henry Morton Stanley, Bering e suas terríveis viagens transiberianas, Ernest-Marc-Louis de Gonzague, Robert Peary, Roald Amundsen, Robert Scott e Ernest Shackleton – todos comprovaram na própria carne os versos de Fernando Pessoa: “Os deuses vendem quando dão. / Compra-se a glória com desgraça”. Eles se reúnem nessa “marcha da insensatez, na qual quase todo passo adiante representou o resultado fracassado de um salto que pretendia ir bem mais longe”. Graças a eles – e a tantos outros, que jamais emergirão do anonimato – podemos ler o poema de Fernando Pessoa não como um vaticínio, mas como o relato de um prodígio que se concretizou:

Deus quis que a terra fosse toda uma,
[...]
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo. 
 
Sim, foram “excêntricos, visionários, românticos arrivistas, marginais, fugitivos da limitação e da rotina, com uma visão de mundo suficientemente distorcida a ponto de serem capazes de reinventar a realidade”. Contudo, graças a tais homens, Felipe Fernández-Armesto elaborou não apenas um volume de histórias – que lemos na tranqüilidade e na proteção de nossos lares, talvez invejando a ousadia e o vigor desses heróis –, mas pôde resumir a grandiosa epopéia cujos resultados seguem produzindo frutos – e da qual temos obrigação de nos orgulhar.

julho 11, 2013

Como o rumor


Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto
 
Sophia de Mello Breyner Andresen (in O Nome das Coisas, 1977)

julho 06, 2013

“A língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois”

Quando a sociedade reencontra sua própria tradição – verdade que pode permanecer esquecida por gerações –, tem início a mudança de rota, longa curva histórica, que a levará rumo à sua própria identidade.

É um processo difícil, mas não impossível. Como afirmou Edmund Burke – faço uma tradução livre –, “uma nação não é só uma ideia de extensão geográfica e de momentânea acumulação de indivíduos, mas uma ideia de continuidade que se prolonga no tempo, em números, no espaço. E não se trata da eleição de um dia ou de um grupo de pessoas, nem de uma eleição tumultuada e inconstante. É uma deliberada seleção de tempos e gerações; uma constituição feita pelo que é dez mil vezes melhor que certa mera eleição; porque está formada por circunstâncias peculiares, por ocasiões, temperamentos e disposições, por costumes morais, civis e sociais das pessoas, que se vão revelando ao longo do tempo. É uma vestimenta que se adapta por si só ao corpo. Não é um preceito de governo fundamentado em prejuízos cegos e sem sentido. Porque o homem é, ao mesmo tempo, o ser mais sábio e mais ignorante. O indivíduo pode ser idiota; a massa é idiota também, quando age sem deliberação. Mas a espécie é sábia; e quando, como espécie, se concede a ela o tempo necessário, quase sempre atua de maneira adequada”.

Refletindo sobre essas questões, sobre como nosso país, engolfado pela demagogia e pelo populismo, agarrou-se à certeza mentirosa de que é possível construir uma verdadeira nação apenas com discursinhos repletos de logorréia e promessas fantasiosas, reencontrei este artigo que Olavo de Carvalho escreveu em 2003 e que coloca a única lei que pode nos arrancar da idiotia, da manipulação demagógica: “A língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois”.

O ORGULHO DO FRACASSO

Olavo de Carvalho

[O Globo, 27 de dezembro de 2003]

“O world, thou choosest not the better part!” – George Santayana

Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.

Mas, se esses elementos podem servir à humanidade, é porque serviram eminentemente ao povo que os criou; e lhe serviram porque não traduziam somente suas preferências e idiossincrasias, e sim uma adaptação feliz à ordem do real. A essa adaptação chamamos “veracidade” – um valor supralocal e transportável por excelência. As criações de um povo podem servir a outros povos porque elas trazem em si uma veracidade, uma compreensão da realidade – sobretudo da realidade humana – que vale para além de toda condição histórica e étnica determinada.

Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.

Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.

A França foi o centro cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderar dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo – com Kant, Hegel e Schelling – antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da prosperidade. Os escandinavos tiveram santos, filósofos e poetas antes do carvão e do aço. O poder islâmico, então, foi de alto a baixo criatura da religião – religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado da tradição poética, a língua poderosa e sutil em que se registraram os versículos do Corão. E não é nada alheio ao destino de espanhóis e portugueses, rapidamente afastados do centro para a periferia da História, o fato de terem alcançado o sucesso e a riqueza da noite para o dia, sem possuir uma força de iniciativa intelectual equiparável ao poder material conquistado.

A experiência dos milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que um povo de mentalidade estreita seja confirmado na sua ilusão materialista por uma filosofia mesquinha que tudo explique pelas causas econômicas. Acreditando que precisa resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito, esse povo permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas.

O pragmatismo grosso, a superficialidade da experiência religiosa, o desprezo pelo conhecimento, a redução das atividades do espírito ao mínimo necessário para a conquista do emprego (inclusive universitário), a subordinação da inteligência aos interesses partidários, tais são as causas estruturais e constantes do fracasso desse povo. Todas as demais explicações alegadas – a exploração estrangeira, a composição racial da população, o latifúndio, a índole autoritária ou rebelde dos brasileiros, os impostos ou a sonegação deles, a corrupção e mil e um erros que as oposições imputam aos governos presentes e estes aos governos passados – são apenas subterfúgios com que uma intelectualidade provinciana e acanalhada foge a um confronto com a sua própria parcela de culpa no estado de coisas e evita dizer a um povo pueril a verdade que o tornaria adulto: que a língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois.

As escolhas, dizia L. Szondi, fazem o destino. Escolhendo o imediato e o material acima de tudo, o povo brasileiro embotou sua inteligência, estreitou seu horizonte de consciência e condenou-se à ruína perpétua.

O desespero e a frustração causados pela longa sucessão de derrotas na luta contra males econômicos refratários a todo tratamento chegaram, nos últimos anos, ao ponto de fusão em que a soma de estímulos negativos produz, pavlovianamente, a inversão masoquista dos reflexos: a indolência intelectual de que nos envergonhávamos foi assumida como um mérito excelso, quase religioso, tradução do amor evangélico aos pobres no quadro da luta de classes. Não podendo conquistar o sucesso, instituímos o ufanismo do fracasso. Depois disso, que nos resta, senão abdicarmos de existir como nação e nos conformarmos com a condição de entreposto da ONU?

julho 03, 2013

Ideologia e azedume em Lima Barreto


No Rascunho deste mês, analiso Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto. Leiam um trecho:

O que ressalta é o abismo a separar a vontade da ação, o projeto de “literatura militante” das obras em que amor, compreensão entre os homens e felicidade nunca se concretizam. O que sobressai é o iniludível vitimismo, no qual as personagens às vezes até conseguem captar a medida de responsabilidade que tiveram em seus destinos, mas sem jamais lograr verdadeiras mudanças.
 
Para os que desejarem, a íntegra do texto está aqui. A ilustração é de Carolina Vigna-Marú.

julho 02, 2013

Olavo de Carvalho e a síntese do marxismo enquanto ciência e técnica revolucionária

Quem acredita que, no vídeo abaixo, Olavo de Carvalho faz apenas uma análise da atual conjuntura política brasileira, se surpreenderá agradavelmente. Os 64 minutos da aula conformam uma síntese do que representa o marxismo enquanto ciência e técnica revolucionária, bem como da evolução do pensamento revolucionário marxista até, pelo menos, Ernesto Laclau. Mas não só. Olavo de Carvalho também mostra:

a) por que o marxismo deve ser estudado como uma cultura – e não como simples escola de princípios econômicos;

b) por que o comunismo é o único movimento político mundial que, apesar de diferenças internas, permanece unificado há mais de um século;

c) quais os pontos essenciais para se compreender a ação política da esquerda;

d) quais os objetivos genéricos da esquerda – e por que eles permanecem genéricos;

e) quais as possibilidades de ação revolucionária que estão colocadas pela esquerda hoje no Brasil, das mais simples às mais radicais;

f) como as lideranças esquerdistas se incluem na classificação de patologias psíquicas elaborada por Andrzej M. Lobaczewski em seu livro Political Ponerology (A Science on the Nature of Evil Adjusted for Political Purposes);

g) de que forma os discursos esquerdistas podem ser intelectualmente desprezíveis (a “estupidez astuta”) mas eficazes enquanto estímulo à militância;

h) e, nos dez minutos finais, quais passos devem ser seguidos por quem realmente deseja se contrapor à esquerda.
 
Aprendam:

junho 25, 2013

Novo curso: A Descoberta do Ensaio

Neste novo curso, que começa em agosto, estudaremos o ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho.

Nosso método de estudo consistirá na leitura crítica de 13 ensaístas, com o objetivo de conhecer procedimentos estilísticos diversos e reunir elementos que contribuam à formação do estilo pessoal de cada aluno. Serão, ao todo, 14 aulas.

Ao final do curso, proporei um exercício de redação – e comentarei, por escrito, os trabalhos apresentados. O Cedet fornecerá um certificado de participação para quem cumprir essa atividade.

As inscrições estão abertas – e podem ser feitas por telefone (19-3249-80) ou por e-mail: livros@cedet.com.br.

Vejam a ementa:

1ª aula: O ensaio, forma que se recusa a ser exaustiva.
2ª aula: Nascimento do ensaio moderno – Michel de Montaigne.
3ª aula: A busca da totalidade – Santa Teresa D’Ávila.
4ª aula: Temas ou pretextos para um ensaio – Charles Lamb.
5ª aula: Reflexões sobre a formação do próprio “eu” – Edmund Wilson.
6ª aula: A crítica literária muito além da obra analisada – Erich Auerbach.
7ª aula: Reflexões sobre a própria obra – Henry James.
8ª aula: Quando a oratória não é apenas retórica – Jorge Luis Borges.
9ª aula: Crítica social: desnudando as circunstâncias – Olavo de Carvalho.
10ª aula: O impacto do encontro – Isaiah Berlin.
11ª aula: Ensaio e jornalismo – Joseph Roth.
12ª aula: A prosa poética como locus amoenus – Claudio Magris.
13ª aula: A recusa da irreflexão: desconfiar das ideologias – Russell Kirk.
14ª aula: Reler os clássicos – T. S. Eliot.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet, na qual se encontram também informações sobre preço, formas de pagamento e inscrições.
 
Os cursos anteriores – “Bases da Criação Literária” e “Prática de Leitura e Formação do Estilo” – ainda podem ser feitos por quem se interessar, pois as aulas foram gravadas.

junho 22, 2013

Reflexões sobre a sinceridade (fragmentos de um diário)

Neste final de sábado, depois de muito trabalho, leio Roberto Alvim Corrêa. Editor – na França, publicou Mauriac, Maritain e muitos outros; no Brasil, atuou como um dos coordenadores, na Editora Agir, da famosa Coleção Nossos Clássicos –, além de ensaísta e crítico literário (vale a pena conhecer Anteu e a crítica, de 1948, e O mito de Prometeu, lançado em 1951), foi homenageado na Revista Tempo Brasileiro, nº 55, de 1978, da qual retirei estes excertos do seu Diário, comoventes exercícios de sinceridade:

Já me aconteceu acreditar ser sincero, e, mais tarde verificar o ter sido muito menos do que pensava.

“Procuro agir de acordo com meus pensamentos”. Ótimo. Mas se meus pensamentos não empenham aquele que sou? Além do mais carrego em mim tendências contrárias. Quando, portanto, sou sincero? Nas horas de orgulho ou de humildade, de covardia ou de intrepidez, de desespero ou euforia, de dúvida ou fé, de conformismo ou revolta, de fraqueza ou força? Pode-se falar em sinceridades sucessivas?

A sinceridade, essa desconhecida.

Apesar do seu nome incomparável, Lúcifer perdeu o desejo da luz. E sem esse desejo, como ser sincero?

Essa frase de Mauriac, segundo os dias me abala ou me conforta: “Na origem de um santo há, não raro, um vício jugulado”.

Em paz comigo mesmo, eu me incomodaria menos com sinceridade. No Paraíso, a gente deve ser sincera como se respira.

Sinceros só os santos, que vivem para amar integralmente.

Desde que me conheço, para ser aquele que precisava ser, eu te procurei, ó sinceridade, minha frágil mas indispensável companheira, embora em teu nome eu tenha (involuntariamente, claro) praticados muitos erros e injustiças, enunciado coisas inverídicas. Tantas sinceridades demasiadamente relativas, duvidosas, inglórias nos prejudicaram, a ti e a mim, fizeram com que te escondesses, e eu não conseguisse mais te identificar.
 
Nem sempre me reconheço nestas páginas, mas erradamente. É com aquilo que escrevemos sem o saber que nos parecemos.

junho 20, 2013

A descoberta da literatura

Ainda tenho viva na lembrança a primeira vez que li Tchekhov. Não recordo para onde eu viajava, mas comprei o livrinho na velha rodoviária de São Paulo, com seu teto de acrílico multicolorido, ao lado da Estação Júlio Prestes. “Treze estórias maravilhosas criadas por um dos maiores gênios da literatura”, prometia a capa. Sentado no ônibus, minutos depois, saquei do bolso a brochura de papel miserável – e teve início a alegria, o contentamento que jamais experimentara com nenhum autor brasileiro. Como era possível ser simples e, ao mesmo tempo, grandioso? Como era possível escrever sem artificialidade e, principalmente, sem o cinismo machadiano? Havia tristeza, sim, mas não o amargor do ceticismo. Havia lirismo, sim, mas não a pieguice dos nossos românticos. Tive certeza – não racional, mas violenta intuição – de que estava diante da literatura.

Para comemorar esse dia tão distante, coloco a seguir o conto que abre o volume. Espero que vocês gostem.




junho 18, 2013

No mercado editorial, os medíocres financiam os bons

Michael Krüger, editor da Carl Hanser Verlag, mostra-se mal informado nesta entrevista a Publishing Perspectives. Rápida pesquisa pela Web apresenta edições norte-americanas de Robert Walser da década de 1980, por exemplo... Seria estranho que o maior mercado editorial do mundo, que só perde para o de língua hispânica, ainda não tivesse traduzido Walser.

Os comentários de Krüger também chovem no molhado. Dizer que “a vida é muito curta para se perder tempo com livros ruins” é um lugar-comum – se não para todos, ao menos para a minoria que preza a própria inteligência.

Qual a novidade em afirmar que as pessoas leem livros de segunda categoria, os críticos elogiam obras de terceira e as livrarias estão abarrotadas de subliteratura? Sempre foi assim – e continuará sendo, cada vez mais, principalmente agora, com os sistemas de autopublicação digital.

Sim, “os livros horríveis são mais estimados que os bons” e os editores realmente não gostam de ler a maior parte das obras que publicam. É a lei do mercado. Os medíocres financiam os bons – e garantem a permanência e o desenvolvimento do sistema literário.
 
Um editor experiente não pode se surpreender com o fato de as pessoas amarem os livros ruins. Na verdade, graças a eles, aquele mínimo de boa literatura, no qual encontram-se os clássicos, continua sendo publicado. Nosso agradecimento pela nova tradução de Cervantes ou Platão vai, portanto, para centenas de títulos médios. Aliás, se as editoras publicassem apenas o que é ótimo, ainda estaríamos imprimindo livros com os tipos móveis de Gutenberg.

junho 17, 2013

Olavo de Carvalho: quando a verdade substitui a opinião

Na edição de hoje do Jornal de Londrina e da Gazeta do Povo, o cronista Paulo Briguet escreve sobre o filósofo Olavo de Carvalho e relata um pouco do que foi o nosso encontro em Richmond (EUA), entre  3 e 7 de junho deste ano (logo, logo as gravações das quatro tertúlias estarão disponíveis na Web). O depoimento de Briguet resgata muito do que todos nós experimentamos – nós, que tivemos a lucidez de, na década de 1990, depois de ler O imbecil coletivo, começar o longo processo de amadurecimento e de libertação da mentira esquerdista; ou, como bem sintetiza Briguet, citando Gustavo Corção, substituir a atividade pela contemplação, o apetite pelo juízo, a opinião pela verdade. Bravo, meu caro Briguet!

junho 15, 2013

Técnica de escrever, experimentos e vaidade

O romancista Evelyn Waugh fala, na entrevista a Paris Review, o que muitos pensam em relação a James Joyce, mas poucos têm coragem de verbalizar:

junho 14, 2013

Cultura pretensiosa e inútil

“A vida inculta é barbárie, mas a cultura desvitalizada, isto é, desligada da vida, é bizantinismo.” – Ernst Robert Curtius, no ensaio dedicado a Ortega y Gasset

junho 11, 2013

Injustamente esquecido

Este mês, na edição do Rascunho, escrevo sobre Os caboclos, primeiro livro do paulista Valdomiro Silveira. O volume reúne vinte narrativas — produção inicial de um contista que se aperfeiçoaria nas décadas seguintes, com Nas serras e nas furnas (1931), Mixuangos (1937) e Leréias (1945, póstumo). Como afirmo em meu ensaio, Valdomiro Silveira foi abandonado por parte da crítica literária num limbo nada honroso, mas merece leitura atenta — inclusive para lembrarmos que a literatura não deve espelhar apenas derrotismo, misantropia e tédio.

maio 31, 2013

Antonio Di Benedetto e o silêncio impossível

O processo impregnado de complexidade, ao qual se sobrepõem idéias de avanço ou expansão intensamente ideologizadas, e que convencionamos chamar pelo nome de progresso, tem, dentre outros, um atributo característico: tornar a organização da vida cada vez mais tortuosa, ao invés de simplificá-la. Progredir é, em certos casos, um sinônimo adequado de complicar. Os aparelhos, os sinais, as linguagens e os sons gradativamente incorporados à vida consomem nossa atenção, nossos gestos, nossa capacidade de entender. Além disso, do manual de instruções de um aparelho eletrônico à numeração das linhas de ônibus, passando pelo desenho das vias urbanas, pelos impostos que escorcham e pelas regras que somos obrigados a obedecer – inclusive nos atos mais simples, como o de andarmos, a pé ou de carro –, há uma evidente arbitrariedade que se insinua no cotidiano, às vezes melíflua, às vezes violenta.

Não há espaço melhor para averiguarmos as afirmações acima do que os principais centros urbanos. Na opinião do falecido Milton Santos, um marxista romântico,

a cidade é o lugar em que o Mundo se move mais; e os homens também. A co-presença ensina aos homens a diferença. Por isso, a cidade é o lugar da educação e da reeducação. Quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado. (1) 

Essa linha de pensamento, contudo, não é seguida por nós, os realistas, entre os quais se inclui o narrador de O silencieiro, (2) escrito pelo argentino Antonio Di Benedetto. Para nós, o progresso transformou as cidades em confusas aglomerações, nas quais a opressão e o abuso vicejam.  

Revolta e impotência

Mais do que os comportamentos expressos pelo sufixo eiro, o narrador-personagem do romance de Di Benedetto anseia desesperadamente pelo silêncio. E não se trata de uma aspiração, mas, sim, de uma febre cuja intensidade aumenta na exata medida em que o nível dos ruídos cresce.

Os barulhos, elementos inextricáveis da cidade, intrometem-se no cotidiano desse homem, ganhando, pouco a pouco, existência própria. Deixam de ser meras conseqüências do aprimoramento tecnológico e se transformam em entidades possuidoras de uma teimosia que não só perturba a vida, mas a altera profundamente. Recolhido ao quarto, o narrador ouve, por exemplo, os sons aflitivos da oficina mecânica instalada no imóvel vizinho. Eles invadem o aposento; e a percepção do ruído é tão intensa, que não se trata de apenas ouvi-lo, mas de vivenciá-lo tal qual uma pena, um sofrimento: “Não o vejo, simplesmente o padeço”. Em outro trecho, ele dirá que o ruído chega ao “dorso” do dormitório, criando uma metáfora – repetida no transcorrer da obra – que não deixa dúvidas sobre a força do barulho, capaz de atingir o quarto como se este fosse parte do corpo do protagonista.  

Os ruídos indesejados arrombam a privacidade, obrigando os personagens a participarem do que não lhes interessa: um churrasco para comemorar a inauguração da oficina; os bailes no salão aberto do outro lado da rua; o programa de rádio que o proprietário da venda próxima escuta no último volume.

Página a página, os rumores circundam e acossam o narrador, obrigando-o a ser o que não deseja, a agir em desacordo com sua índole. Violentado, ele busca refúgio na lei, mas o estudo do Código Civil mostra-lhe as dubiedades do texto: uma defesa do cidadão, mas também uma perigosa teia, na qual o reclamante pode se tornar réu.   

Não há segurança, portanto. E a própria espera do barulho, sua antevisão, a certeza de que ele se repetirá, despedaça o narrador. O barulho, então, migra da oficina para o âmago do personagem, transformando-o num hospedeiro revoltado, mas impotente:

Volto ao lar. No caminho, a cidade que desce pela minha rua apaga suas vitrines, baixa persianas: desmantela seus andaimes de trabalho. Até amanhã.

Mas resta um lugar onde a atividade prossegue: no dorso da minha casa.

A luz cinge-se ao canto onde está o torno, esse torno que pulsa conseqüente, como descubro que começa a pulsar, na minha cabeça, uma veia que bombeia algo mais sacrificada que as outras, e dói um pouco.

Lentamente, os ruídos – cuja “sina é avançar” – o levam a pequenas distrações, pequenos erros, falhas sem importância. E à medida que o barulho deixa de ser exceção para se tornar a norma irrevogável, todas as soluções possíveis fracassam e as polaridades do real se alternam. A partir desse ponto, o drama envereda rumo à loucura, cumprindo as etapas do estresse, da doença e, finalmente, do delírio. Mas seria ingênuo tratar esse narrador-personagem sem nome como um caso patológico. Na verdade, são os ruídos que lhe subtraem essência e existência, até levá-lo à despersonalização extrema, ao desejo da morte como promessa de um silêncio absoluto: “Penso no Além e imagino um silêncio incorruptível”.

Gênese e estilo

Enquanto o personagem esquadrinha a cidade em sua busca por silêncio, também sonha escrever um livro, cujo tema central seria o desamparo. Mas é exatamente essa a obra que se faz enquanto ele investiga a origem dos barulhos, livro no qual ele se encontra, cada vez mais privado do que lhe é indispensável, escrito, contudo, por outra pessoa, alguém chamado Antonio Di Benedetto. O autor, inclusive, revela – em entrevista concedida a Günter W. Lorenz (3) – a gênese do romance, num relato que, guardadas as devidas proporções, assemelha-se à trajetória de seu personagem:

[...] Digo que em El silenciero discuto o ruído físico e metafísico. Os dois me perturbam, como pessoa comum e como romancista, desde certa época penosa de minha vida. Tinha o tema, mas não conseguia nem tramar a narração nem ver e definir os personagens. Ainda que o protagonista fosse eu mesmo! Quando tive acesso à Europa, convenci-me de que em Paris – cidade que supunha mais ruidosa e atormentadora –, com mais seres atormentados pelas duas classes de ruídos, me envolveriam os elementos necessários para os argumentos. Puro engano. Não vi nem soube observar, ou melhor, não ouvi nem soube escutar, nem em Paris, nem em Bordéus, nem em Amsterdã, nem em Londres. Regressei à Argentina. Fiz-me todo ouvidos. Bem, é um exagero, pois na verdade não precisava me empenhar, os ruídos bloqueavam-me novamente, mortificantes e destruidores. Observei, estudei, o problema se encarnou em personagens que começaram a dar forma ao romance. Nasceu El silenciero: psicologias, comportamentos, neuroses, metafísica de homens de cidade, talvez de qualquer cidade moderna, industrial ou pré-industrial; todavia, captadas, aprendidas, aprofundadas em meu milieu.

Di Benedetto constrói sua história por meio de um estilo tenso, de frases enxutas, objetivas: uma prosa antibarroca, que dá vida à voz cortante do narrador desconfiado, prestes a explodir, andando pelas ruas como se os barulhos o tocaiassem a cada esquina. Narrada em primeira pessoa, a saga desesperante apresenta um homem indefeso, ciente de seus direitos, mas constatando a cada passo que o Estado, as pessoas e a tecnologia trabalham contra ele. Os verbos ressaltam dos períodos, formando um cortejo de sons ruidosos – bater, pregar, rebitar, fender, limar, acelerar, acionar, acometer, esfregar, morder, triturar – que acabam por engolfar o leitor.

De fato, a precisão das palavras torna flagrante a materialidade dos ruídos e os diferentes estados de ânimo que o narrador observa ou experimenta. Por exemplo, ao se referir à mãe, com quem vive, ele afirma: “Andava crivada a buzinaços”. E quando o delírio sobrevém, a confusão mental é evidente: “Na esquina bebe – ou esteve bebendo – uma grossa serpente que se arrasta pela rua. O bombeiro que cuida dela nesta ponta me tira a apreensão: não se trata do meu lar”.

A vida imposta

No período de tempo em que finalizo esta análise, o fragor das ruas invade mais uma vez o apartamento. Uma serra circular guincha com estridência em algum ponto; da quadra da escola, situada no quarteirão em frente, sobe insistente microfonia e a voz melancólica do funcionário que testa o amplificador dezenas de vezes; ônibus e carros aceleram, freiam, buzinam; um operário arranca a marteladas a estrutura de ferro que, presa à marquise do prédio, sustentava um letreiro. É sábado, início da manhã, o inferno da cidade apenas começa – e não sou o protagonista de O silencieiro. Ou talvez seja, talvez tenha sido sempre, sem saber.  

A cidade realmente conspira contra o homem. As derivações da tecnologia fugiram, há muito tempo, do nosso controle. Entre a elaboração da ciência e os resultados que ela provoca – em termos de técnicas, instrumentos, modos de vida e variações de comportamento –, existe um abismo de irracionalidade, diante do qual o narrador de O silencieiro se diz um mártir, “mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”. Como resposta, ouve de um político, ex-jornalista, a acusação de ser “inimigo do progresso”, ou seja, nada mais que o velho recurso dos cínicos, o lugar-comum que serve para manter as coisas exatamente onde estão.

Assim, vivendo sob a arbitrariedade, o narrador-personagem descobre, com amargura, que a lógica e a ética não servem à vida real. Os fatos se colocam apenas; são o que são. Os ruídos produzem loucos que, por sua vez, buscam novos ruídos – ou uma solução excêntrica, semelhante à experimentada pelo silencieiro, mas de conseqüências injustas e implacáveis.




(1) Em “Metrópole: a força dos fracos é seu tempo lento” (Técnica – Espaço – Tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, Editora Hucitec, 2ª edição, SP, 1996).
(2) Editora Globo, SP, 2006.
(3) Lorenz, Günter W. Diálogo com a América Latina – panorama de uma literatura do futuro, E.P.U. – Editora Pedagógica e Universitária Ltda., SP, 1973.

maio 29, 2013

Malditos bons livros

Na primavera de 1934, em plena Grande Depressão, Arnold Samuelson, um jovem que sonhava se tornar escritor, viajou mais de três mil quilômetros para pedir conselhos a Ernest Hemingway. Depois dos primeiros minutos de conversa, Hemingway lhe perguntou de que autores gostava. Samuelson citou Robert Louis Stevenson e Henry David Thoreau. Ao que o escritor respondeu: “Você nunca leu Guerra e Paz?”. Diante da negativa do jovem, Hemingway completou: “É um maldito bom livro. Você deveria ler. Vamos até o meu escritório e vou fazer uma lista do que você deve ler”. O gesto de generosidade de Hemingway foi preservado: