julho 06, 2013

“A língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois”

Quando a sociedade reencontra sua própria tradição – verdade que pode permanecer esquecida por gerações –, tem início a mudança de rota, longa curva histórica, que a levará rumo à sua própria identidade.

É um processo difícil, mas não impossível. Como afirmou Edmund Burke – faço uma tradução livre –, “uma nação não é só uma ideia de extensão geográfica e de momentânea acumulação de indivíduos, mas uma ideia de continuidade que se prolonga no tempo, em números, no espaço. E não se trata da eleição de um dia ou de um grupo de pessoas, nem de uma eleição tumultuada e inconstante. É uma deliberada seleção de tempos e gerações; uma constituição feita pelo que é dez mil vezes melhor que certa mera eleição; porque está formada por circunstâncias peculiares, por ocasiões, temperamentos e disposições, por costumes morais, civis e sociais das pessoas, que se vão revelando ao longo do tempo. É uma vestimenta que se adapta por si só ao corpo. Não é um preceito de governo fundamentado em prejuízos cegos e sem sentido. Porque o homem é, ao mesmo tempo, o ser mais sábio e mais ignorante. O indivíduo pode ser idiota; a massa é idiota também, quando age sem deliberação. Mas a espécie é sábia; e quando, como espécie, se concede a ela o tempo necessário, quase sempre atua de maneira adequada”.

Refletindo sobre essas questões, sobre como nosso país, engolfado pela demagogia e pelo populismo, agarrou-se à certeza mentirosa de que é possível construir uma verdadeira nação apenas com discursinhos repletos de logorréia e promessas fantasiosas, reencontrei este artigo que Olavo de Carvalho escreveu em 2003 e que coloca a única lei que pode nos arrancar da idiotia, da manipulação demagógica: “A língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois”.

O ORGULHO DO FRACASSO

Olavo de Carvalho

[O Globo, 27 de dezembro de 2003]

“O world, thou choosest not the better part!” – George Santayana

Língua, religião e alta cultura são os únicos componentes de uma nação que podem sobreviver quando ela chega ao término da sua duração histórica. São os valores universais, que, por servirem a toda a humanidade e não somente ao povo em que se originaram, justificam que ele seja lembrado e admirado por outros povos. A economia e as instituições são apenas o suporte, local e temporário, de que a nação se utiliza para seguir vivendo enquanto gera os símbolos nos quais sua imagem permanecerá quando ela própria já não existir.

Mas, se esses elementos podem servir à humanidade, é porque serviram eminentemente ao povo que os criou; e lhe serviram porque não traduziam somente suas preferências e idiossincrasias, e sim uma adaptação feliz à ordem do real. A essa adaptação chamamos “veracidade” – um valor supralocal e transportável por excelência. As criações de um povo podem servir a outros povos porque elas trazem em si uma veracidade, uma compreensão da realidade – sobretudo da realidade humana – que vale para além de toda condição histórica e étnica determinada.

Por isso esses elementos, os mais distantes de todo interesse econômico, são as únicas garantias do êxito no campo material e prático. Todo povo se esforça para dominar o ambiente material. Se só alguns alcançam o sucesso, a diferença, como demonstrou Thomas Sowell em Conquests and Cultures, reside principalmente no “capital cultural”, na capacidade intelectual acumulada que a mera luta pela vida não dá, que só se desenvolve na prática da língua, da religião e da alta cultura.

Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas.

A França foi o centro cultural da Europa muito antes das pompas de Luís XIV. Os ingleses, antes de se apoderar dos sete mares, foram os supremos fornecedores de santos e eruditos para a Igreja. A Alemanha foi o foco irradiador da Reforma e em seguida o centro intelectual do mundo – com Kant, Hegel e Schelling – antes mesmo de constituir-se como nação. Os EUA tinham três séculos de religião devota e de valiosa cultura literária e filosófica antes de lançar-se à aventura industrial que os elevou ao cume da prosperidade. Os escandinavos tiveram santos, filósofos e poetas antes do carvão e do aço. O poder islâmico, então, foi de alto a baixo criatura da religião – religião que seria inconcebível se não tivesse encontrado, como legado da tradição poética, a língua poderosa e sutil em que se registraram os versículos do Corão. E não é nada alheio ao destino de espanhóis e portugueses, rapidamente afastados do centro para a periferia da História, o fato de terem alcançado o sucesso e a riqueza da noite para o dia, sem possuir uma força de iniciativa intelectual equiparável ao poder material conquistado.

A experiência dos milênios, no entanto, pode ser obscurecida até tornar-se invisível e inconcebível. Basta que um povo de mentalidade estreita seja confirmado na sua ilusão materialista por uma filosofia mesquinha que tudo explique pelas causas econômicas. Acreditando que precisa resolver seus problemas materiais antes de cuidar do espírito, esse povo permanecerá espiritualmente rasteiro e nunca se tornará inteligente o bastante para acumular o capital cultural necessário à solução daqueles problemas.

O pragmatismo grosso, a superficialidade da experiência religiosa, o desprezo pelo conhecimento, a redução das atividades do espírito ao mínimo necessário para a conquista do emprego (inclusive universitário), a subordinação da inteligência aos interesses partidários, tais são as causas estruturais e constantes do fracasso desse povo. Todas as demais explicações alegadas – a exploração estrangeira, a composição racial da população, o latifúndio, a índole autoritária ou rebelde dos brasileiros, os impostos ou a sonegação deles, a corrupção e mil e um erros que as oposições imputam aos governos presentes e estes aos governos passados – são apenas subterfúgios com que uma intelectualidade provinciana e acanalhada foge a um confronto com a sua própria parcela de culpa no estado de coisas e evita dizer a um povo pueril a verdade que o tornaria adulto: que a língua, a religião e a alta cultura vêm primeiro, a prosperidade depois.

As escolhas, dizia L. Szondi, fazem o destino. Escolhendo o imediato e o material acima de tudo, o povo brasileiro embotou sua inteligência, estreitou seu horizonte de consciência e condenou-se à ruína perpétua.

O desespero e a frustração causados pela longa sucessão de derrotas na luta contra males econômicos refratários a todo tratamento chegaram, nos últimos anos, ao ponto de fusão em que a soma de estímulos negativos produz, pavlovianamente, a inversão masoquista dos reflexos: a indolência intelectual de que nos envergonhávamos foi assumida como um mérito excelso, quase religioso, tradução do amor evangélico aos pobres no quadro da luta de classes. Não podendo conquistar o sucesso, instituímos o ufanismo do fracasso. Depois disso, que nos resta, senão abdicarmos de existir como nação e nos conformarmos com a condição de entreposto da ONU?

julho 03, 2013

Ideologia e azedume em Lima Barreto


No Rascunho deste mês, analiso Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto. Leiam um trecho:

O que ressalta é o abismo a separar a vontade da ação, o projeto de “literatura militante” das obras em que amor, compreensão entre os homens e felicidade nunca se concretizam. O que sobressai é o iniludível vitimismo, no qual as personagens às vezes até conseguem captar a medida de responsabilidade que tiveram em seus destinos, mas sem jamais lograr verdadeiras mudanças.
 
Para os que desejarem, a íntegra do texto está aqui. A ilustração é de Carolina Vigna-Marú.

julho 02, 2013

Olavo de Carvalho e a síntese do marxismo enquanto ciência e técnica revolucionária

Quem acredita que, no vídeo abaixo, Olavo de Carvalho faz apenas uma análise da atual conjuntura política brasileira, se surpreenderá agradavelmente. Os 64 minutos da aula conformam uma síntese do que representa o marxismo enquanto ciência e técnica revolucionária, bem como da evolução do pensamento revolucionário marxista até, pelo menos, Ernesto Laclau. Mas não só. Olavo de Carvalho também mostra:

a) por que o marxismo deve ser estudado como uma cultura – e não como simples escola de princípios econômicos;

b) por que o comunismo é o único movimento político mundial que, apesar de diferenças internas, permanece unificado há mais de um século;

c) quais os pontos essenciais para se compreender a ação política da esquerda;

d) quais os objetivos genéricos da esquerda – e por que eles permanecem genéricos;

e) quais as possibilidades de ação revolucionária que estão colocadas pela esquerda hoje no Brasil, das mais simples às mais radicais;

f) como as lideranças esquerdistas se incluem na classificação de patologias psíquicas elaborada por Andrzej M. Lobaczewski em seu livro Political Ponerology (A Science on the Nature of Evil Adjusted for Political Purposes);

g) de que forma os discursos esquerdistas podem ser intelectualmente desprezíveis (a “estupidez astuta”) mas eficazes enquanto estímulo à militância;

h) e, nos dez minutos finais, quais passos devem ser seguidos por quem realmente deseja se contrapor à esquerda.
 
Aprendam:

junho 25, 2013

Novo curso: A Descoberta do Ensaio

Neste novo curso, que começa em agosto, estudaremos o ensaio, gênero literário maleável, que oferece incrível liberdade de trabalho.

Nosso método de estudo consistirá na leitura crítica de 13 ensaístas, com o objetivo de conhecer procedimentos estilísticos diversos e reunir elementos que contribuam à formação do estilo pessoal de cada aluno. Serão, ao todo, 14 aulas.

Ao final do curso, proporei um exercício de redação – e comentarei, por escrito, os trabalhos apresentados. O Cedet fornecerá um certificado de participação para quem cumprir essa atividade.

As inscrições estão abertas – e podem ser feitas por telefone (19-3249-80) ou por e-mail: livros@cedet.com.br.

Vejam a ementa:

1ª aula: O ensaio, forma que se recusa a ser exaustiva.
2ª aula: Nascimento do ensaio moderno – Michel de Montaigne.
3ª aula: A busca da totalidade – Santa Teresa D’Ávila.
4ª aula: Temas ou pretextos para um ensaio – Charles Lamb.
5ª aula: Reflexões sobre a formação do próprio “eu” – Edmund Wilson.
6ª aula: A crítica literária muito além da obra analisada – Erich Auerbach.
7ª aula: Reflexões sobre a própria obra – Henry James.
8ª aula: Quando a oratória não é apenas retórica – Jorge Luis Borges.
9ª aula: Crítica social: desnudando as circunstâncias – Olavo de Carvalho.
10ª aula: O impacto do encontro – Isaiah Berlin.
11ª aula: Ensaio e jornalismo – Joseph Roth.
12ª aula: A prosa poética como locus amoenus – Claudio Magris.
13ª aula: A recusa da irreflexão: desconfiar das ideologias – Russell Kirk.
14ª aula: Reler os clássicos – T. S. Eliot.

Os textos a serem estudados em cada aula permanecerão disponíveis, com antecedência, na página do Cedet, na qual se encontram também informações sobre preço, formas de pagamento e inscrições.
 
Os cursos anteriores – “Bases da Criação Literária” e “Prática de Leitura e Formação do Estilo” – ainda podem ser feitos por quem se interessar, pois as aulas foram gravadas.

junho 22, 2013

Reflexões sobre a sinceridade (fragmentos de um diário)

Neste final de sábado, depois de muito trabalho, leio Roberto Alvim Corrêa. Editor – na França, publicou Mauriac, Maritain e muitos outros; no Brasil, atuou como um dos coordenadores, na Editora Agir, da famosa Coleção Nossos Clássicos –, além de ensaísta e crítico literário (vale a pena conhecer Anteu e a crítica, de 1948, e O mito de Prometeu, lançado em 1951), foi homenageado na Revista Tempo Brasileiro, nº 55, de 1978, da qual retirei estes excertos do seu Diário, comoventes exercícios de sinceridade:

Já me aconteceu acreditar ser sincero, e, mais tarde verificar o ter sido muito menos do que pensava.

“Procuro agir de acordo com meus pensamentos”. Ótimo. Mas se meus pensamentos não empenham aquele que sou? Além do mais carrego em mim tendências contrárias. Quando, portanto, sou sincero? Nas horas de orgulho ou de humildade, de covardia ou de intrepidez, de desespero ou euforia, de dúvida ou fé, de conformismo ou revolta, de fraqueza ou força? Pode-se falar em sinceridades sucessivas?

A sinceridade, essa desconhecida.

Apesar do seu nome incomparável, Lúcifer perdeu o desejo da luz. E sem esse desejo, como ser sincero?

Essa frase de Mauriac, segundo os dias me abala ou me conforta: “Na origem de um santo há, não raro, um vício jugulado”.

Em paz comigo mesmo, eu me incomodaria menos com sinceridade. No Paraíso, a gente deve ser sincera como se respira.

Sinceros só os santos, que vivem para amar integralmente.

Desde que me conheço, para ser aquele que precisava ser, eu te procurei, ó sinceridade, minha frágil mas indispensável companheira, embora em teu nome eu tenha (involuntariamente, claro) praticados muitos erros e injustiças, enunciado coisas inverídicas. Tantas sinceridades demasiadamente relativas, duvidosas, inglórias nos prejudicaram, a ti e a mim, fizeram com que te escondesses, e eu não conseguisse mais te identificar.
 
Nem sempre me reconheço nestas páginas, mas erradamente. É com aquilo que escrevemos sem o saber que nos parecemos.

junho 20, 2013

A descoberta da literatura

Ainda tenho viva na lembrança a primeira vez que li Tchekhov. Não recordo para onde eu viajava, mas comprei o livrinho na velha rodoviária de São Paulo, com seu teto de acrílico multicolorido, ao lado da Estação Júlio Prestes. “Treze estórias maravilhosas criadas por um dos maiores gênios da literatura”, prometia a capa. Sentado no ônibus, minutos depois, saquei do bolso a brochura de papel miserável – e teve início a alegria, o contentamento que jamais experimentara com nenhum autor brasileiro. Como era possível ser simples e, ao mesmo tempo, grandioso? Como era possível escrever sem artificialidade e, principalmente, sem o cinismo machadiano? Havia tristeza, sim, mas não o amargor do ceticismo. Havia lirismo, sim, mas não a pieguice dos nossos românticos. Tive certeza – não racional, mas violenta intuição – de que estava diante da literatura.

Para comemorar esse dia tão distante, coloco a seguir o conto que abre o volume. Espero que vocês gostem.




junho 18, 2013

No mercado editorial, os medíocres financiam os bons

Michael Krüger, editor da Carl Hanser Verlag, mostra-se mal informado nesta entrevista a Publishing Perspectives. Rápida pesquisa pela Web apresenta edições norte-americanas de Robert Walser da década de 1980, por exemplo... Seria estranho que o maior mercado editorial do mundo, que só perde para o de língua hispânica, ainda não tivesse traduzido Walser.

Os comentários de Krüger também chovem no molhado. Dizer que “a vida é muito curta para se perder tempo com livros ruins” é um lugar-comum – se não para todos, ao menos para a minoria que preza a própria inteligência.

Qual a novidade em afirmar que as pessoas leem livros de segunda categoria, os críticos elogiam obras de terceira e as livrarias estão abarrotadas de subliteratura? Sempre foi assim – e continuará sendo, cada vez mais, principalmente agora, com os sistemas de autopublicação digital.

Sim, “os livros horríveis são mais estimados que os bons” e os editores realmente não gostam de ler a maior parte das obras que publicam. É a lei do mercado. Os medíocres financiam os bons – e garantem a permanência e o desenvolvimento do sistema literário.
 
Um editor experiente não pode se surpreender com o fato de as pessoas amarem os livros ruins. Na verdade, graças a eles, aquele mínimo de boa literatura, no qual encontram-se os clássicos, continua sendo publicado. Nosso agradecimento pela nova tradução de Cervantes ou Platão vai, portanto, para centenas de títulos médios. Aliás, se as editoras publicassem apenas o que é ótimo, ainda estaríamos imprimindo livros com os tipos móveis de Gutenberg.

junho 17, 2013

Olavo de Carvalho: quando a verdade substitui a opinião

Na edição de hoje do Jornal de Londrina e da Gazeta do Povo, o cronista Paulo Briguet escreve sobre o filósofo Olavo de Carvalho e relata um pouco do que foi o nosso encontro em Richmond (EUA), entre  3 e 7 de junho deste ano (logo, logo as gravações das quatro tertúlias estarão disponíveis na Web). O depoimento de Briguet resgata muito do que todos nós experimentamos – nós, que tivemos a lucidez de, na década de 1990, depois de ler O imbecil coletivo, começar o longo processo de amadurecimento e de libertação da mentira esquerdista; ou, como bem sintetiza Briguet, citando Gustavo Corção, substituir a atividade pela contemplação, o apetite pelo juízo, a opinião pela verdade. Bravo, meu caro Briguet!

junho 15, 2013

Técnica de escrever, experimentos e vaidade

O romancista Evelyn Waugh fala, na entrevista a Paris Review, o que muitos pensam em relação a James Joyce, mas poucos têm coragem de verbalizar:

junho 14, 2013

Cultura pretensiosa e inútil

“A vida inculta é barbárie, mas a cultura desvitalizada, isto é, desligada da vida, é bizantinismo.” – Ernst Robert Curtius, no ensaio dedicado a Ortega y Gasset

junho 11, 2013

Injustamente esquecido

Este mês, na edição do Rascunho, escrevo sobre Os caboclos, primeiro livro do paulista Valdomiro Silveira. O volume reúne vinte narrativas — produção inicial de um contista que se aperfeiçoaria nas décadas seguintes, com Nas serras e nas furnas (1931), Mixuangos (1937) e Leréias (1945, póstumo). Como afirmo em meu ensaio, Valdomiro Silveira foi abandonado por parte da crítica literária num limbo nada honroso, mas merece leitura atenta — inclusive para lembrarmos que a literatura não deve espelhar apenas derrotismo, misantropia e tédio.

maio 31, 2013

Antonio Di Benedetto e o silêncio impossível

O processo impregnado de complexidade, ao qual se sobrepõem idéias de avanço ou expansão intensamente ideologizadas, e que convencionamos chamar pelo nome de progresso, tem, dentre outros, um atributo característico: tornar a organização da vida cada vez mais tortuosa, ao invés de simplificá-la. Progredir é, em certos casos, um sinônimo adequado de complicar. Os aparelhos, os sinais, as linguagens e os sons gradativamente incorporados à vida consomem nossa atenção, nossos gestos, nossa capacidade de entender. Além disso, do manual de instruções de um aparelho eletrônico à numeração das linhas de ônibus, passando pelo desenho das vias urbanas, pelos impostos que escorcham e pelas regras que somos obrigados a obedecer – inclusive nos atos mais simples, como o de andarmos, a pé ou de carro –, há uma evidente arbitrariedade que se insinua no cotidiano, às vezes melíflua, às vezes violenta.

Não há espaço melhor para averiguarmos as afirmações acima do que os principais centros urbanos. Na opinião do falecido Milton Santos, um marxista romântico,

a cidade é o lugar em que o Mundo se move mais; e os homens também. A co-presença ensina aos homens a diferença. Por isso, a cidade é o lugar da educação e da reeducação. Quanto maior a cidade, mais numeroso e significativo o movimento, mais vasta e densa a co-presença e também maiores as lições e o aprendizado. (1) 

Essa linha de pensamento, contudo, não é seguida por nós, os realistas, entre os quais se inclui o narrador de O silencieiro, (2) escrito pelo argentino Antonio Di Benedetto. Para nós, o progresso transformou as cidades em confusas aglomerações, nas quais a opressão e o abuso vicejam.  

Revolta e impotência

Mais do que os comportamentos expressos pelo sufixo eiro, o narrador-personagem do romance de Di Benedetto anseia desesperadamente pelo silêncio. E não se trata de uma aspiração, mas, sim, de uma febre cuja intensidade aumenta na exata medida em que o nível dos ruídos cresce.

Os barulhos, elementos inextricáveis da cidade, intrometem-se no cotidiano desse homem, ganhando, pouco a pouco, existência própria. Deixam de ser meras conseqüências do aprimoramento tecnológico e se transformam em entidades possuidoras de uma teimosia que não só perturba a vida, mas a altera profundamente. Recolhido ao quarto, o narrador ouve, por exemplo, os sons aflitivos da oficina mecânica instalada no imóvel vizinho. Eles invadem o aposento; e a percepção do ruído é tão intensa, que não se trata de apenas ouvi-lo, mas de vivenciá-lo tal qual uma pena, um sofrimento: “Não o vejo, simplesmente o padeço”. Em outro trecho, ele dirá que o ruído chega ao “dorso” do dormitório, criando uma metáfora – repetida no transcorrer da obra – que não deixa dúvidas sobre a força do barulho, capaz de atingir o quarto como se este fosse parte do corpo do protagonista.  

Os ruídos indesejados arrombam a privacidade, obrigando os personagens a participarem do que não lhes interessa: um churrasco para comemorar a inauguração da oficina; os bailes no salão aberto do outro lado da rua; o programa de rádio que o proprietário da venda próxima escuta no último volume.

Página a página, os rumores circundam e acossam o narrador, obrigando-o a ser o que não deseja, a agir em desacordo com sua índole. Violentado, ele busca refúgio na lei, mas o estudo do Código Civil mostra-lhe as dubiedades do texto: uma defesa do cidadão, mas também uma perigosa teia, na qual o reclamante pode se tornar réu.   

Não há segurança, portanto. E a própria espera do barulho, sua antevisão, a certeza de que ele se repetirá, despedaça o narrador. O barulho, então, migra da oficina para o âmago do personagem, transformando-o num hospedeiro revoltado, mas impotente:

Volto ao lar. No caminho, a cidade que desce pela minha rua apaga suas vitrines, baixa persianas: desmantela seus andaimes de trabalho. Até amanhã.

Mas resta um lugar onde a atividade prossegue: no dorso da minha casa.

A luz cinge-se ao canto onde está o torno, esse torno que pulsa conseqüente, como descubro que começa a pulsar, na minha cabeça, uma veia que bombeia algo mais sacrificada que as outras, e dói um pouco.

Lentamente, os ruídos – cuja “sina é avançar” – o levam a pequenas distrações, pequenos erros, falhas sem importância. E à medida que o barulho deixa de ser exceção para se tornar a norma irrevogável, todas as soluções possíveis fracassam e as polaridades do real se alternam. A partir desse ponto, o drama envereda rumo à loucura, cumprindo as etapas do estresse, da doença e, finalmente, do delírio. Mas seria ingênuo tratar esse narrador-personagem sem nome como um caso patológico. Na verdade, são os ruídos que lhe subtraem essência e existência, até levá-lo à despersonalização extrema, ao desejo da morte como promessa de um silêncio absoluto: “Penso no Além e imagino um silêncio incorruptível”.

Gênese e estilo

Enquanto o personagem esquadrinha a cidade em sua busca por silêncio, também sonha escrever um livro, cujo tema central seria o desamparo. Mas é exatamente essa a obra que se faz enquanto ele investiga a origem dos barulhos, livro no qual ele se encontra, cada vez mais privado do que lhe é indispensável, escrito, contudo, por outra pessoa, alguém chamado Antonio Di Benedetto. O autor, inclusive, revela – em entrevista concedida a Günter W. Lorenz (3) – a gênese do romance, num relato que, guardadas as devidas proporções, assemelha-se à trajetória de seu personagem:

[...] Digo que em El silenciero discuto o ruído físico e metafísico. Os dois me perturbam, como pessoa comum e como romancista, desde certa época penosa de minha vida. Tinha o tema, mas não conseguia nem tramar a narração nem ver e definir os personagens. Ainda que o protagonista fosse eu mesmo! Quando tive acesso à Europa, convenci-me de que em Paris – cidade que supunha mais ruidosa e atormentadora –, com mais seres atormentados pelas duas classes de ruídos, me envolveriam os elementos necessários para os argumentos. Puro engano. Não vi nem soube observar, ou melhor, não ouvi nem soube escutar, nem em Paris, nem em Bordéus, nem em Amsterdã, nem em Londres. Regressei à Argentina. Fiz-me todo ouvidos. Bem, é um exagero, pois na verdade não precisava me empenhar, os ruídos bloqueavam-me novamente, mortificantes e destruidores. Observei, estudei, o problema se encarnou em personagens que começaram a dar forma ao romance. Nasceu El silenciero: psicologias, comportamentos, neuroses, metafísica de homens de cidade, talvez de qualquer cidade moderna, industrial ou pré-industrial; todavia, captadas, aprendidas, aprofundadas em meu milieu.

Di Benedetto constrói sua história por meio de um estilo tenso, de frases enxutas, objetivas: uma prosa antibarroca, que dá vida à voz cortante do narrador desconfiado, prestes a explodir, andando pelas ruas como se os barulhos o tocaiassem a cada esquina. Narrada em primeira pessoa, a saga desesperante apresenta um homem indefeso, ciente de seus direitos, mas constatando a cada passo que o Estado, as pessoas e a tecnologia trabalham contra ele. Os verbos ressaltam dos períodos, formando um cortejo de sons ruidosos – bater, pregar, rebitar, fender, limar, acelerar, acionar, acometer, esfregar, morder, triturar – que acabam por engolfar o leitor.

De fato, a precisão das palavras torna flagrante a materialidade dos ruídos e os diferentes estados de ânimo que o narrador observa ou experimenta. Por exemplo, ao se referir à mãe, com quem vive, ele afirma: “Andava crivada a buzinaços”. E quando o delírio sobrevém, a confusão mental é evidente: “Na esquina bebe – ou esteve bebendo – uma grossa serpente que se arrasta pela rua. O bombeiro que cuida dela nesta ponta me tira a apreensão: não se trata do meu lar”.

A vida imposta

No período de tempo em que finalizo esta análise, o fragor das ruas invade mais uma vez o apartamento. Uma serra circular guincha com estridência em algum ponto; da quadra da escola, situada no quarteirão em frente, sobe insistente microfonia e a voz melancólica do funcionário que testa o amplificador dezenas de vezes; ônibus e carros aceleram, freiam, buzinam; um operário arranca a marteladas a estrutura de ferro que, presa à marquise do prédio, sustentava um letreiro. É sábado, início da manhã, o inferno da cidade apenas começa – e não sou o protagonista de O silencieiro. Ou talvez seja, talvez tenha sido sempre, sem saber.  

A cidade realmente conspira contra o homem. As derivações da tecnologia fugiram, há muito tempo, do nosso controle. Entre a elaboração da ciência e os resultados que ela provoca – em termos de técnicas, instrumentos, modos de vida e variações de comportamento –, existe um abismo de irracionalidade, diante do qual o narrador de O silencieiro se diz um mártir, “mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”. Como resposta, ouve de um político, ex-jornalista, a acusação de ser “inimigo do progresso”, ou seja, nada mais que o velho recurso dos cínicos, o lugar-comum que serve para manter as coisas exatamente onde estão.

Assim, vivendo sob a arbitrariedade, o narrador-personagem descobre, com amargura, que a lógica e a ética não servem à vida real. Os fatos se colocam apenas; são o que são. Os ruídos produzem loucos que, por sua vez, buscam novos ruídos – ou uma solução excêntrica, semelhante à experimentada pelo silencieiro, mas de conseqüências injustas e implacáveis.




(1) Em “Metrópole: a força dos fracos é seu tempo lento” (Técnica – Espaço – Tempo: globalização e meio técnico-científico informacional, Editora Hucitec, 2ª edição, SP, 1996).
(2) Editora Globo, SP, 2006.
(3) Lorenz, Günter W. Diálogo com a América Latina – panorama de uma literatura do futuro, E.P.U. – Editora Pedagógica e Universitária Ltda., SP, 1973.

maio 29, 2013

Malditos bons livros

Na primavera de 1934, em plena Grande Depressão, Arnold Samuelson, um jovem que sonhava se tornar escritor, viajou mais de três mil quilômetros para pedir conselhos a Ernest Hemingway. Depois dos primeiros minutos de conversa, Hemingway lhe perguntou de que autores gostava. Samuelson citou Robert Louis Stevenson e Henry David Thoreau. Ao que o escritor respondeu: “Você nunca leu Guerra e Paz?”. Diante da negativa do jovem, Hemingway completou: “É um maldito bom livro. Você deveria ler. Vamos até o meu escritório e vou fazer uma lista do que você deve ler”. O gesto de generosidade de Hemingway foi preservado:

maio 25, 2013

Alexis de Tocqueville, literatura e democracia

“By and large the literature of a democracy will never exhibit the order, regularity, skill, and art characteristic of aristocratic literature; formal qualities will be neglected or actually despised. The style will often be strange, incorrect, overburdened, and loose, and almost always strong and bold. Writers will be more anxious to work quickly than to perfect details. Short works will be commoner than long books, wit than erudition, imagination than depth. There will be a rude and untutored vigor of thought with great variety and singular fecundity. Authors will strive to astonish more than to please, and to stir passions rather than to charm taste.” (em Democracy in America)

Prefiro não imaginar o que Alexis de Tocqueville diria se conhecesse a atual literatura brasileira.

maio 24, 2013

Graça e natureza

Infelizmente esquecido ou desconhecido no Brasil, Charles Moeller dizia: “Um só homem é todo um mundo: o mundo da graça e da natureza que deseja viver e resplandecer nele”. Na verdade, seu pensamento ecoava as palavras de Santo Tomás de Aquino: “A graça não destrói a natureza, antes a aperfeiçoa”.

maio 21, 2013

Em defesa da urgente “centralização dos biltres”

Camilo Castelo Branco explica, neste trecho de A Queda dum Anjo, como às vezes cabe ao escritor garantir que os políticos corruptos não sejam esquecidos. De fato, muitos não merecem apenas “escorregar” da vida ao inferno; o mais justo e correto seria que, antes, a execração pública os cobrisse de maldições. Mas isso só acontece em países onde cuida-se que haja “a centralização dos biltres”:   
 
Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escrita com um despejo não vulgar em bacharéis d’aqueles sítios. Aquele homem, se tivesse nascido em terras onde há a centralização dos biltres, morria com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n’aquelas serras, onde não apegou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar para a corja dos birbantes das minhas novelas, o homem escorrega lá da serra no inferno, sem que a execração pública o cubra de maldições.

maio 18, 2013

Cem anos de um autêntico reacionário

Hoje comemoramos o centenário do magnífico Nicolás Gómez Dávila. Ele fala por si mesmo, com a força dos seus escólios, aos quais adicionei títulos inocentes:

A alguns funestos críticos literários

– A paixão igualitária é uma perversão do sentido crítico: atrofia a capacidade de distinguir.

Aos pretensos filósofos

– Uma gramática insuficiente prepara para uma filosofia confusa.

À maioria dos escritores

– Para seduzir não é necessário que o escritor tenha algo a dizer, mas que seja alguém.

Aos que desprezam os clássicos

– Toda literatura é contemporânea para o leitor que sabe ler.

Aos que vomitam palavras

– Não devemos escrever como falamos, mas como deveríamos falar.

Aos que acreditam pensar

– Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.

Aos que não gostam de mim
 
– O reacionário escapa da escravidão da história porque persegue na selva humana as pegadas dos passos divinos.

maio 15, 2013

Contradições e a arte de escrever em Theodor Adorno


Em alguns dos fragmentos que compõem Minima Moralia, Theodor Adorno fala sobre a escrita. No seu estilo muitas vezes seco, sempre a um passo de se tornar hermético, ele parece acreditar no que expõe: “Faz parte da técnica de escrever ser capaz de renunciar até mesmo a pensamentos fecundos, se a construção o exigir. Sua plenitude e sua força beneficiam-se precisamente dos pensamentos reprimidos. Como à mesa, não se deve comer até os últimos bocados, nem beber até o fim. Do contrário, nós nos tornamos suspeitos de pobreza”.

É o Adorno burguês quem fala nesse trecho do fragmento 51 – burguês no sentido flaubertiano do termo, aquele que realmente acredita ter abertura de espírito, mas só consegue destilar preconceito. Na verdade, exagera apenas para justificar seu próprio estilo, como, aliás, já fizera pouco antes, quando argumenta que o escritor deve “verificar em cada texto, cada fragmento, cada parágrafo, se o tema central sobressai com nitidez”.

Ora, angústias desse tipo servem à criação de textos fracionários. Há uma divagação – ou, melhor, uma circum-navegação – que não é de todo ruim: recorrer, por exemplo, a outras referências, que aparentemente se distanciam do tema central, apenas para iluminá-lo melhor.

Todo texto exige, em alguma medida, certa retórica. O próprio Adorno não pôde evitá-la. Nesse mesmo fragmento, gasta cinco linhas para compor uma bela metáfora, cuja função é, inclusive, demonstrar que ele sabe escrever direito: “Os textos bem elaborados são como teias de aranha: densos, concêntricos, transparentes, bem estruturados e sólidos. Eles atraem para dentro tudo o que voa e rasteja. As metáforas que os atravessam apressadas e descuidadas, tornam-se para eles presas nutritivas. Os materiais afluem facilmente para eles”.

As duas frases finais não seriam desnecessárias? Elas repetem, com outras palavras, o que está sintetizado nas duas iniciais – mas Adorno não teme usá-las; e, vaidoso, “come até o último bocado, bebe até o fim”. Mas isso é Adorno. Como todo marxista, contraditório.

Na verdade, não se deve “renunciar aos pensamentos fecundos”. Se eles podem, de fato, conectar-se ao tema central, por que não readequar o todo, por que não reescrever e reescrever até atingir o que efetivamente pretendemos?

Mas, sejamos justos, Adorno também acerta. “Nenhuma correção é demasiado pequena ou insignificante para que não se deva realizá-la. Em cem alterações, cada uma pode aparecer isoladamente como tola e pedante; juntas podem constituir um novo nível de texto” – conselho corretíssimo. Da mesma forma que é acertada sua observação sobre os lugares-comuns, muitas vezes “associações de palavras” nas quais “murmura o fluxo indolente de uma linguagem insípida”.

Entretanto, é pena que – ele chega a citar Karl Kraus – sua análise do clichê seja superficial. Mas não poderia ser de outro modo. Adorno não tem como evitar a vagueza, não pode retomar as críticas severas que Kraus fazia à linguagem submetida à ideologia, pois isso significaria ter de atacá-las, a fim de defender o marxismo...

Aliás, é o militante esquerdista quem afirma, no mesmo fragmento: “O sonho de uma existência sem ignomínia, ao qual a paixão pela linguagem se apega quando já não se pode mais representá-lo enquanto conteúdo, deve ser estrangulado com pérfida alegria”. Aí está o pensamento revolucionário, em permanente luta com a realidade, sempre pronto a substituí-la por seus próprios sonhos. O marxista precisa acreditar que a existência só é possível com ignomínia – e deve recusar a linguagem que pretenda reafirmar a dignidade e a glória da vida. Se não o fizer, como justificará a absoluta necessidade da utopia? Se não o fizer, não poderá justificar o que mais defende: que todos os meios são aceitáveis para construir o Paraíso aqui e agora.

Para Adorno, “o escritor não pode aceitar a distinção entre a expressão bela e a expressão adequada ao assunto. [...] Se consegue dizer inteiramente o que pretende dizer, então é belo o que diz”. Mas, logo depois, o militante tenta derrotar o esteticista: “Quem todavia, sob o pretexto de servir com abnegação a uma causa, negligencia a pureza de expressão, está por isso mesmo traindo a própria causa”. O contraditório marxista não sabe o que fazer: primeiro, a beleza é uma categoria que só pode ser medida pela vontade do próprio escritor; depois, há uma “pureza de expressão”, mas que não é definida.

Podemos aproveitar, contudo, os trechos felizes, como este: “O envolvimento afetivo com o texto e a vaidade tendem a diminuir a escrupulosidade. O que se deixa passar apenas como uma dúvida insignificante pode tornar manifesta a falta de valor objetivo do todo”. Quase sempre esquecidas, as duas frases deveriam permanecer à vista de todos os que são ou almejam ser escritores: render-se à vaidade é perder o rigor.

maio 14, 2013

Reflexões de Hermann Broch sobre o sagrado

“Só no centro do nosso ser se encontra o sagrado, o sagrado da nossa vida, desta vida tão breve, que se torna mais curta a cada noite, desta vida que não é êxtase nem máquina, mas um conhecimento que floresce, que se vai abrindo como se abrem as folhas, um processo de crescimento que vai da escuridão à escuridão, do que ainda não nasceu ao que ainda não nasceu, um renascer. No centro do nosso ser as árvores são abraçadas pelo céu e sopra o vento, como um suave mensageiro que se desloca de lá para cá entre as infinitudes, entre aquelas das quais ele vem e aquelas para as quais flui, e que nos leva, num leve impulso, como o vento que arrasta uma folha de outono, para que, transformando-nos em mensageiros de nós mesmos, vislumbremos o lugar de onde viemos, a partir de onde ocorreu o nosso despertar e o lugar ao qual nos dirigimos e onde haveremos de perecer. Só no centro de nós está o saber, o saber sobre o que o homem necessita para ser homem, o saber sobre sua humanidade e sua cultura, o saber piedoso que é o saber da cultura... Ele, que não é nem um saber do sangue nem um saber da técnica, mas um saber do homem sobre si mesmo. No centro do nosso ser, só no centro – nem no escuro êxtase dos seus limites, nem no arrebatamento da nossa primitiva origem, nem no arrebatamento da técnica, mas no nosso próprio ser –, é que o divino habita em nós.”
 
[Trecho do romance inacabado, Die Verzauberung.]

maio 06, 2013

Contra a mornidão de certa crítica literária

Diante dos melindrosos e ressentidos, que só admitem crítica literária sem julgamento – ou seja, que desejam transformar a crítica literária num exercício anódino ou meramente confortador –, devo lembrar um dos bons trechos de Álvaro Lins: “Julgar é um testemunho da dignidade da crítica. Ela não fica bem nas mãos dos conformistas, dos frágeis, dos amáveis, dos indistintos, dos suaves, dos incolores, dos frívolos, dos snobs”. Aos interessados em saber o motivo deste post, vale a pena ler a análise correta e corajosa que Cristiano Ramos faz do livro Tangolomango, de Raimundo Carrero, e que tem provocado a ira dos adeptos da cordialidade brasileira, sempre prontos a distribuir lisonjas, servilismo e outros afagos.

maio 03, 2013

Canalhice e afetação

No Rascunho deste mês, escrevo sobre o péssimo A correspondência de uma estação de cura, de João do Rio. Nessa tentativa de escrever um romance epistolar, o cronista só conseguiu reunir pedantismos, usando persistente tom de zombaria. O que foi grandioso nas mãos de Samuel Richardson (autor de Pamela e Clarissa) — e se aperfeiçoou com Rousseau (Julie ou la nouvelle Héloïse, 1761), Goethe (Os sofrimentos do jovem Werther, 1774), Chordelos de Laclos (As ligações perigosas, 1782) e Ugo Foscolo (Ultime lettere di Jacopo Ortis, 1802) — tornou-se medíocre sob a pena de João do Rio.

abril 30, 2013

O idílio de Antônio Candido e a realidade

As melhores respostas às lucubrações românticas e aos devaneios idealistas de Antônio Candido em relação ao socialismo podem ser encontradas em dois ensaios magistrais: “De Profundis”, de George Steiner, publicado em George Steiner at The New Yorker (no Brasil, Tigres no espelho e outros textos da revista New Yorker, Editora Globo); e “Menos que um”, de Joseph Brodsky (em livro homônimo, publicado pela Cia. das Letras em 1994).

Esses dois ensaios mostram o que Antônio Candido insiste em não recordar, pois certamente não desconhece a verdade: retratam a vida concreta dos que lutaram para sobreviver sob um regime utopista, controlado pelos defensores do que Candido trata como “doutrina triunfante”.

Se há algo que triunfa sob regimes socialistas – sob o socialismo que Candido chama de “grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano” –, esse algo é a corrupção das consciências em nome da igualdade mentirosa, que concede poder, dinheiro, benesses e honrarias apenas aos bajuladores do governo.

O que prevalece sob regimes pretensamente igualitários é a fraude. E também o servilismo. Como disse Brodsky, ao recordar sua juventude na União Soviética, “os quatro anos de Exército (para o qual os homens eram convocados aos dezenove anos) completavam o processo de rendição total ao Estado. A obediência se transformava numa primeira e também numa segunda natureza”.

O que triunfa sob os regimes que Antônio Candido defende confortavelmente, sem ter experimentado um único dia de luta pela sobrevivência nos cárceres cubanos ou poucos minutos de tortura em algum Gulag, é sempre a morte. Moral ou física, mas sempre a morte.
 
Uma aula sobre “paralaxe cognitiva” não faria mal a Antônio Candido.

abril 29, 2013

Breves lições de Fernando Vallejo

“O gênio de Cervantes descobriu que a literatura, mais que na vida, inspira-se na literatura.”

“A eufonia, acima do próprio sentido, é a grande razão da literatura.”

“A má literatura abunda em clichês, mas também a boa.”

“A língua, com sua fugacidade e seus caprichos, escapa das mais engenhosas categorias em que os gramáticos pretendem aprisioná-la.”
 
“Dizia Aristóteles, em sua Retórica (III, II, 2 e 3), que o desvio do ordinário era o que fazia a linguagem da oratória parecer mais nobre. E que, já que o homem ama o insólito, o orador devia dar um ar estranho às suas palavras; algo que assombrasse aos seus ouvintes, fazendo com que se sentissem diante de um estrangeiro e não como se estivessem frente a um concidadão. Hoje, essa constatação de Aristóteles segue sendo uma grande verdade da linguística: a prosa é como uma língua estrangeira oposta à língua cotidiana.”

abril 27, 2013

A luta contra a mesmice

Vozes dissonantes são sempre bem-vindas neste mar de bajulações, hermetismos e lugares-comuns em que se transformou a crítica literária brasileira.

Neste mês de abril, ao ler, no Rascunho, “Sobraram apenas os óculos e o bigode”, ensaio no qual Marcos Pasche desconstrói Paulo Leminski, percebi, com alegria, que as coisas realmente começam a mudar. Sentimento, aliás, que já havia experimentado com Cristiano Ramos, que, no ensaio “O curioso caso de José Lins do Rego” (partes 1 e 2), rebate com vigor a injusta depreciação crítica do romancista paraibano.

Sucede que, em meio a trabalhos e leituras, passei por cima da coletânea de críticas que Marcos Pasche publicou – De pedra e de carne (Editora Confraria do Vento) – e teve a gentileza de me enviar. Só hoje uni o sanguinário autor do ensaio sobre Leminski ao nome que está na capa do livro. E, numa passada de olhos, encontrei no volume, para minha alegria, ao menos dois outros textos que recomendo a leitura: “Na vitrine do shopping” e “Com rigor e com afeto”. O primeiro, publicado no Rascunho sob o título de “Perto do tempo, longe da arte”, demole a poesia de Fabrício Corsaletti – confirmando o que Luis Dolhnikoff (outra boa voz dissonante) já havia percebido e eu próprio afirmara, mas referindo-me à prosa desse que é mais um dos tenros queridinhos da literatura nacional.

Quanto ao segundo ensaio, “Com rigor e com afeto”, trata-se da entusiasmada análise de um livro que deveria ser leitura obrigatória em todas as nossas faculdades de Letras: A literatura em perigo, no qual Tzvetan Todorov faz a síntese do que começou a perceber em Critique de la critique, de 1984, não por acaso nunca traduzido no Brasil, onde os acadêmicos preferem acreditar – comportamento, aliás, bem cômodo, para não dizer desonesto – que Todorov parou de escrever em 1971, ao publicar A poética da prosa, obra ultrapassada e, sob vários aspectos, renegada pelo autor.
 
Este post, contudo, não pretende assumir, nas últimas linhas, um tom pessimista. Não. O objetivo é exatamente o de comemorar as vozes críticas que começam a surgir – aliadas, cada uma a seu modo, na luta contra a mesmice.

abril 23, 2013

Literatura, ideologia e mundo empírico

O que acontece quando certa figura de estilo deixa de ser um recurso para ampliar a capacidade expressiva da linguagem e passa a obscurecer diferentes aspectos da realidade, da experiência humana?

A resposta a esse problema esquecido nos dias de hoje – quando alguns teóricos e escritores pretendem desvincular a literatura da realidade – encontra-se no artigo “Inversão retórica e realidade invertida”, que Olavo de Carvalho publicou em 2009.
 
Partindo de François Villon e Jean-Jacques Rousseau, Olavo analisa os perigos decorrentes da figura de linguagem que, transformada em ideologia, incorpora-se à psique – e, de forma indireta, denuncia a falácia de se acreditar que a literatura é autossuficiente ou está desligada do mundo empírico.

abril 19, 2013

O encadeamento da vida humana

“O que conta em uma vida humana não são os acontecimentos que a dominam através dos anos – ou inclusive dos meses – ou inclusive dos dias. É o modo como cada minuto se encadeia ao seguinte, e o que isso custa a cada um em seu corpo, em seu coração, em sua alma – e, sobretudo, no exercício da sua faculdade de atenção – para efetuar minuto por minuto esse encadeamento.”
 
Simone Weil, La condition ouvrière

abril 16, 2013

Muito mais que linguagem

Um curso sobre prática de leitura e formação do estilo pode ter inúmeras utilidades. É o que experimentamos, meus alunos e eu, nas últimas semanas, dialogando com Homero, W. B. Yeats, Italo Calvino, Paul Valéry e tantos outros autores. Contudo, a lição que mais nos estimula é perceber, a cada aula, como Roland Barthes estava errado: numa narração não há apenas “a aventura da linguagem”, ainda que a retórica barthesiana, sempre pronta a querer nos iludir, insista, subindo o tom: “a incessante celebração do advento da linguagem”. Belas palavras, mas, como em todo exercício de retórica, no fundo não refletem a realidade, são apenas um adereço que busca seduzir, convencer sem provar.
 
Na verdade, a cada aula redescobrimos que a literatura é “o dispositivo mais importante da civilização para aprender o que deve ser afirmado e o que deve ser negado”, como disse John Gardner, pois não há literatura desvinculada do real, apartada do contexto das nossas escolhas pessoais, da nossa vida. Ou, nas claríssimas palavras de Matthew Arnold: “A vida diária de um homem, em sua solidez e valor, depende de se ele lê nesse dia; e ainda muito mais do que ele lê durante esse dia”.

abril 09, 2013

Otimismo insano e desintegração da ideia de autoridade

Trecho de uma carta do historiador Jacob Burckhardt a seu amigo, Friedrich von Preen:

“[...] O grande dano teve início no século passado, principalmente através de Rousseau, com sua doutrina da bondade da natureza humana. Com base nisso, os plebeus e as pessoas educadas destilaram a doutrina da idade do ouro que viria infalivelmente, desde que as pessoas fossem deixadas por sua conta. O resultado, como qualquer criança sabe, foi a completa desintegração da ideia de autoridade da cabeça dos mortais, e é claro que, em consequência, periodicamente somos vítimas do poder absoluto. Enquanto isso, a ideia da bondade natural do homem transformou-se, entre o estrato inteligente da Europa, na ideia de progresso, isto é, fazer dinheiro e desfrutar de confortos modernos sem perturbação, com a filantropia para acalmar a consciência. [...]

A única salvação concebível seria que esse insano otimismo, em menor ou maior grau, desaparecesse do cérebro das pessoas. Mas, então, nosso atual cristianismo não está à altura da incumbência; ele optou por isso e acabou se misturando ao otimismo nos últimos duzentos anos. Uma mudança terá de vir, mas só Deus sabe à custa de que sofrimentos. Nesse meio tempo você está construindo escolas – pelo menos você pode assumir essa responsabilidade perante Deus; enquanto eu instruo meus alunos e meu público. Não faço grande segredo de minha filosofia a meus alunos; os mais inteligentes me entendem, e, ao mesmo tempo que faço tudo o que posso para honrar a verdadeira felicidade que o estudo e o conhecimento oferecem – por menos que possam ser –, sou capaz de dar a cada um algum grau de consolo.”
 
(2 de Julho de 1871)

abril 08, 2013

Ideias que obscurecem o que somos e sentimos

De um ensaio de T. S. Eliot sobre William Blake:

“Os Songs of innocence and of experience, assim como os poemas do manuscrito Rossetti, são poemas que revelam um profundo interesse pelas emoções humanas e um profundo conhecimento destas. As emoções são expostas sob forma extremamente simplificada e abstrata. Essa forma é uma ilustração da eterna luta da arte contra a educação, do artista literário contra a contínua decomposição da língua.

É importante que o artista deva ser altamente educado em sua própria arte; mas sua educação é aquela que atrapalha mais do que ajuda, pois ele a recebe através do processo comum da sociedade em que se resume a educação do homem comum. É que esse processo consiste amplamente na aquisição de ideias impessoais que obscurecem o que de fato somos e sentimos, o que realmente desejamos e o que na verdade instiga nosso interesse. Não se trata, é claro, da efetiva informação adquirida, mas do conformismo que o acúmulo de conhecimentos será capaz de impor, o que é nocivo. Tennyson nos dá o claríssimo exemplo de um poeta já totalmente incrustado na opinião do público, já completamente incorporado ao seu meio. Blake, por outro lado, sabia o que lhe interessava e, por conseguinte, apresenta apenas o essencial, apenas, na verdade, o que pode ser apresentado, e dispensa explicações. E porque não se perturbou, ou não se apavorou, ou não se ocupou de nada que não fossem concisas afirmações, pôde entender. Ele estava nu, e viu o homem nu, do centro do seu próprio cristal. Para ele não havia nenhuma razão pela qual Swedenborg fosse mais absurdo do que Locke. Ele aceitou Swedenborg, como eventualmente o rejeitou, por razões de estrito foro íntimo. Abordou tudo com a mente alheia às opiniões então vigentes. Não havia nele nada que sugerisse a pessoa superior. E isso o tornou aterrorizante.”
 
(Tradução de Ivan Junqueira)