São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos (org. de Eduardo Cesar Maia), que analiso em minha resenha na Folha de S. Paulo do último sábado.
fevereiro 05, 2013
Ler sempre, mas com método
“Exercício de
vontade. – Ler com método, tomando notas e pondo em ordem, por escrito, as
impressões. Escrever, escrever sempre, todos os dias, escrever mesmo
banalidades, não para publicar, mas como quem pratica um ofício, com a
finalidade de pesquisar os processos da forma. Muitos dos nossos estudos e
leituras são mal aproveitados por falta de método. Voltar a ler certos autores
fundamentais como Bergson e Proust, com o lápis na mão e o caderno nas pernas.
Dominar a preguiça, sufocar o gosto das evasões para livros mais agradáveis
porque mais fáceis; não deixar-se vencer pelo simples prazer da leitura como um
diletante.”
São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos (org. de Eduardo Cesar Maia), que analiso em minha resenha na Folha de S. Paulo do último sábado.
São os sábios conselhos de Álvaro Lins, em Álvaro Lins – sobre crítica e críticos (org. de Eduardo Cesar Maia), que analiso em minha resenha na Folha de S. Paulo do último sábado.
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janeiro 25, 2013
Literatura e realidade: uma página dos diários de Edmund Wilson
[...]
(Em Os anos 20)
Toda literatura
fornece uma visão falsa da vida, porque é o anverso da realidade – o artista
preenche as lacunas de seu caráter ou de sua experiência forjando material
espiritual imaginário.
Em primeiro
lugar, o artista, em suas produções, distorce a vida numa certa direção,
fabrica para ela um rosto falso – e então o leitor, que tende a ser convencido
a acreditar, erroneamente, que a vida é realmente assim para o escritor e
portanto pode vir a ser assim para outrem, tenta na vida real concretizar a
imagem que o artista inventou justamente com o fim de preencher a lacuna de
algo que ele não conseguiu encontrar. No final, as incongruências do sistema tornam-se
claramente visíveis, e o modelo é jogado fora; como resultado, o leitor
recrimina o escritor por ter distorcido a realidade.
A questão é que
os leitores apoiam-se, como quem se apoia
em algo inquestionavelmente real e forte, numa coisa que, para o escritor, era
apenas falseamento confortante e perfeitamente consciente da vida, tal como sua
própria experiência a revelou para ele, de forma desconcertante, uma espécie de
eufemismo feito na esperança – infundada, como ele próprio sabe melhor do que
ninguém – de que, dando tal aparência às coisas, ela possa realmente lhes
atribuir esse caráter – ao sujeitar a totalidade de sua experiência às nuanças
e padrões de seu próprio temperamento, ele se esquece por um momento do mundo
real e incognoscível nesta extensão de sua própria consciência imediata para
preencher – o que, ilusoriamente, parece ocorrer – toda a paisagem da
experiência. Para o leitor, é como se este mundo invertido fosse talvez o mundo
real que ele vem procurando, e, temporariamente, ele pode vir a aceitá-lo.
(Em Os anos 20)
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janeiro 23, 2013
Eric Voegelin e o resgate da linguagem
“Resgatar a
linguagem significava recuperar o objeto a ser por ela expresso, o que, por sua
vez, significava sair do que hoje se chamaria a falsa consciência da burguesia
ordinária (aí incluindo positivistas e marxistas), cujos representantes
literários eram as vozes dominantes do meio cultural. Daí que essa preocupação
com a linguagem fizesse parte da resistência contra as ideologias. As
ideologias destroem a linguagem, uma vez que, tendo perdido o contato com a
realidade, o pensador ideológico passa a construir símbolos não mais para
expressá-la, mas para expressar sua alienação em relação a ela.” (in Reflexões autobiográficas)
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janeiro 19, 2013
Frei Vicente do Salvador, a “caravelinha que lá vai, e vem” e o liberalismo que ainda aguardamos
O clássico
Capítulo Segundo da História do Brasil,
de 1627. Aula de ironia, história e política escrita por Frei Vicente do Salvador:
Estas são as razões porque alguns, como muitos dizem, que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado, e ter estabilidade e firmeza.”
“O dia em que o
capitão-mor Pedro Álvares Cabral levantou a cruz, que no capítulo atrás dissemos,
era 3 de maio, quando se celebra a invenção da Santa Cruz, em que Cristo Nosso Redentor
morreu por nós, e por esta causa pôs nome à terra, que havia descoberta, de
Santa Cruz, e por este nome foi conhecida muitos anos: porém como o demônio com
o sinal da cruz perdeu todo o domínio, que tinha sobre os homens, receando
perder também o muito que tinha nos desta terra, trabalhou que se esquecesse o
primeiro nome, e lhe ficasse o de Brasil, por causa de um pau assim chamado, de
cor abrasada e vermelha, com que tingem panos, que o daquele divino pau que deu
tinta e virtude a todos os sacramentos da igreja, e sobre que ela foi
edificada, e ficou tão firme e bem fundada, como sabemos, e porventura por isto
ainda que ao nome de Brasil ajuntaram o de estado, e lhe chamaram estado do
Brasil, ficou ele tão pouco estável, que com não haver hoje 100 anos, quando
isto escrevo, que se começou a povoar, já se hão despovoados alguns lugares, e
sendo a terra tão grande, e fértil, como adiante veremos, nem por isso vai em
aumento, antes em diminuição.
Disto dão alguns
a culpa aos reis de Portugal, outros aos povoadores; aos reis pelo pouco caso
que haviam feito deste tão grande estado, que nem o título quiseram dele, pois
intitulando-se senhores de Guiné, por uma caravelinha que lá vai, e vem, como
disse o Rei do Congo, do Brasil não se quiseram intitular, nem depois da morte
de el-rei d. João Terceiro, que o mandou povoar e soube estimá-lo, houve outro
que dele curasse, senão para colher suas rendas e direitos; e deste mesmo modo
se haviam os povoadores, os quais por mais arraigados, que na terra estivessem,
e mais ricos que fossem, tudo pretendiam levar a Portugal, e se as fazendas e
bens que possuíam soubessem falar também lhes haveriam de ensinar a dizer como
os papagaios, aos quais a primeira coisa que ensinam é papagaio real para
Portugal; porque tudo querem para lá, e isto não tem só os que de lá vieram,
mas ainda os que cá nasceram, que uns e outros usam da terra, não como senhores,
mas como usufrutuários, só para a desfrutarem, e a deixarem destruída.
Donde nasce
também, que nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem
comum, senão cada um do bem particular. Não notei eu isto tanto quanto o vi
notar um bispo de Tucuman da Ordem de S. Domingos, que por algumas destas
terras passou para a Corte, era grande canonista, homem de bom entendimento e
prudência, e assim ia muito rico; notava as coisas, e via que mandava comprar
um frangão, quatro ovos, e um peixe, para comer, e nada lhe traziam: porque não
se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas coisas, e outras
muitas a casas particulares lhas mandavam, então disse o bispo verdadeiramente
que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república,
sendo-o cada casa; e assim é, que estando as casas dos ricos / ainda que seja a
custa alheia, pois muitos devem quanto têm / providas de todo o necessário,
porque tem escravos, pescadores, caçadores, que lhes trazem a carne e o peixe,
pipas de vinho e de azeite, que compram por junto: nas vilas muitas vezes se
não acha isto a venda. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas
públicas é uma piedade, porque atendo-se uns aos outros nenhum as faz, ainda
que bebam água suja, e se molhem ao passar dos rios, ou se orvalhem pelos
caminhos, e tudo isto vem de não tratarem do que há cá de ficar, senão do que
hão de levar para o reino.
Estas são as razões porque alguns, como muitos dizem, que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado, e ter estabilidade e firmeza.”
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Frei Vicente do Salvador
janeiro 17, 2013
Bruno Tolentino e a “esterilidade palavrosa”
A tese de que a
Semana de 22, quando analisada no contexto da literatura brasileira, foi um
evento não só desnecessário, mas completamente dispensável, ganha força a cada
parágrafo do ensaio Banquete de ossos,
publicado em 1998. “[...] Tragicamente nos apalhaçamos em 22 no vão intuito de
dar o salto que afinal nem demos nem precisávamos dar: o salto mortal (ou
letal?) no trapézio dos andradóides não nos levou mais alto do que andáramos
até então”, denuncia Tolentino, mostrando, logo a seguir, como tudo que houve
de melhor após 1922 nasceu dos autores geniais que existiam muito antes da
Semana de Arte Moderna.
Ensaio para ser lido e estudado. Ensaio que devemos guardar dentro da carteira, numa folha dobradinha, para reler nos momentos de desespero, quando, depois de olhar a estante de literatura brasileira nas livrarias ou ler a opinião de certos críticos nos cadernos culturais, quase massacrados pelo amontoado de estultices, devemos, precisamos lembrar que “não somos uma variante afro-cafuza da lusofonia, nosso dilema não é ‘tupi or not tupi’, é, ainda e sempre, ser ou não ser o que de fato somos: uma grande e sempre por si mesma renovada civilização lusófona”.
O que Tolentino
chama de “ruidoso abalo símio de 1922” na verdade não teria passado – e
realmente não passou – de “um frisson nosso todo particular, de natureza,
fôlego e alcance decididamente paroquiais. Nada nos deu de verdadeiramente
universal que enriquecesse a língua que se queria subitamente ‘autofágica’ já
que o banquete devorou sobretudo nossa gramática. Pouco se acrescentou à ‘realidade’
além de uma amputação gradual das regências verbais, entre outros gracejos;
fenômenos que constituiriam um escândalo em qualquer língua [...]. Presentinho
de grego dos desossados balbucios populistas dos rapazes de 22…”
Ensaio para ser lido e estudado. Ensaio que devemos guardar dentro da carteira, numa folha dobradinha, para reler nos momentos de desespero, quando, depois de olhar a estante de literatura brasileira nas livrarias ou ler a opinião de certos críticos nos cadernos culturais, quase massacrados pelo amontoado de estultices, devemos, precisamos lembrar que “não somos uma variante afro-cafuza da lusofonia, nosso dilema não é ‘tupi or not tupi’, é, ainda e sempre, ser ou não ser o que de fato somos: uma grande e sempre por si mesma renovada civilização lusófona”.
janeiro 14, 2013
Vanguardeiros autistas
O ensaio de Luis Dolhnikoff na Revista Sibila, sobre o
estado atual da literatura brasileira, nasce das matérias publicadas na Folha de S. Paulo há alguns dias, ambas
escritas por Marco Rodrigo Almeida: “Eles não chegam lá” e “Ficção perdeu os leitores, diz autor de 'O Filho Eterno'”.
O raciocínio proposto pelo ensaísta toca no centro de uma importante questão da
nossa literatura, sobre a qual, aliás, venho falando há tempo: “Os romancistas
brasileiros escrevem, de fato, ‘para os amigos’, mas não como motivo primário.
Na verdade, eles não escrevem para o público, que desprezam”.
As consequências dessa atitude subdesenvolvida – mas que é tratada como supostamente vanguardista – não se esgotam, repito, “na leitura obscura, forçosamente aflitiva. Nossos poucos leitores, ávidos por uma literatura que os conduza para longe da mesmice e da banalidade, encontram, nas livrarias, as seções de literatura brasileira abarrotadas de textos herméticos. É fatal, portanto, que sejam raptados para o mundo da subliteratura, tornando-se reféns dos romancinhos kardecistas e de outras tantas panaceias na forma de brochura”.
O texto de Dolhnikoff,
que merece leitura atenta, pode ser sintetizado neste parágrafo acertadíssimo: “A
incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros ao mesmo tempo bons e
prazerosos é apenas a incapacidade dos escritores brasileiros de criarem livros
ao mesmo tempo prazerosos e bons. Eles são, como regra, chatos, porque, como
regra, são pretensiosos. E são pretensiosos por ignorarem o público leitor. Se
não o ignorassem, não poderiam ser chatos, sob o risco do fracasso. Cria-se assim
uma literatura satisfeita para ninguém, ou quase ninguém. Satisfeita talvez,
mas não satisfatória. A menos que se considere a criação literária um hobby, que, de fato, só interessa para
quem o pratica. Mas se se pretende algo além de um hobby, a literatura não pode satisfazer somente quem se dedica a
ela. O público tem de ser posto na equação. Ou nas equações. Pois há uma
simples e uma complexa”.
Denunciando uma
literatura que se pretende de vanguarda, mas que na verdade não passa de
literatura “autista”, o texto retoma, parcialmente, o que apontei há alguns
anos, no jornal Rascunho, no ensaio “Mazelas da narratofobia”: “Parcela dos escritores brasileiros contemporâneos sofre de
uma estranha patologia: escrevem não para satisfazer seus impulsos criativos,
mas, principalmente, para cumprir determinados preceitos. Dito de outra forma,
alguns escritores submetem a criatividade às regras difundidas por supostos
expertos, ou, pior, ao gosto das panelinhas. A escrita se afasta, assim, do seu
verdadeiro caráter — o de exercício de comunicação —, transformando-se num
fetiche. A literatura produzida segundo tais critérios não é só exclusivista,
mas pedante e artificial, além de subserviente: nasce para agradar a uns
poucos, para corresponder àquelas teorias que certos literatos diluíram e
transformaram em receitas aparentemente infalíveis”.
As consequências dessa atitude subdesenvolvida – mas que é tratada como supostamente vanguardista – não se esgotam, repito, “na leitura obscura, forçosamente aflitiva. Nossos poucos leitores, ávidos por uma literatura que os conduza para longe da mesmice e da banalidade, encontram, nas livrarias, as seções de literatura brasileira abarrotadas de textos herméticos. É fatal, portanto, que sejam raptados para o mundo da subliteratura, tornando-se reféns dos romancinhos kardecistas e de outras tantas panaceias na forma de brochura”.
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janeiro 10, 2013
Açoites de Karl Kraus
A verdade que se repete
O que foi impresso num único dia dos últimos
cinquenta anos fez mais contra a cultura do que a obra completa de Goethe fez a
seu favor.
Os medíocres
No caminho pelo qual chegamos a nós
mesmos também encontramos uma inoportuna fileira de curiosos que gostariam de
saber como são as coisas por lá.
Amor à norma
culta
Minha língua é a puta de todo mundo que
transformo em virgem.
Definição de
coragem
O fraco duvida antes da decisão. O forte,
depois.
Isso é tão comum
atualmente...
Uma aparência de profundidade surge com frequência
pelo fato de uma cabeça rasa ser ao mesmo tempo uma cabeça confusa.
Otimismo incansável
O Diabo é um otimista se acredita que
pode tornar os seres humanos piores.
O que os
ideólogos não entendem
A língua é a mãe, e não a criada do pensamento.
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Karl Kraus
janeiro 09, 2013
Salvo da banalidade
Escrevo, no Rascunho deste mês, sobre o goiano Hugo de Carvalho Ramos, cujas narrativas (em Tropas e boiadas) estão acima do que se
costumou chamar, entre nós, de regionalismo, termo dúbio e sempre aberto a
revisões. Impregnados de tom épico, alguns contos parecem nascer de episódios
da Chanson de Roland e outras canções
de gesta, com seus personagens heroicos, reticentes no que se refere a
introspecções, mas sempre prontos à presteza e à coragem, aceitando com
naturalidade a vida sob permanente tensão.
dezembro 31, 2012
O lugar seguro
A meus amigos, colegas,
alunos e leitores, este belo poema de Czeslaw Milosz – para fechar 2012 e abrir
2013 com as mesmas chaves: a da humildade do escritor diante da vida e a do carinho
pelas coisas aparentemente triviais:
nada perde a clareza, fica mais denso.
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.
podia querer dominá-lo.
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?
Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.
(Tradução de Ana Cristina César e Grazyna Drabik)
A condição poética
Como se tivesse
em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e
pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,nada perde a clareza, fica mais denso.
Já tive antes
momentos assim, escrevendo poemas; conheço então
a distância, a
contemplação desinteressada, sei assumirum eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.
As coisas difíceis
antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de
transmiti-las por escrito.
Só agora estou
sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e
afligia-me o medo do que viria.
A cada momento o
espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e
tão cômico que não entendo como a literaturapodia querer dominá-lo.
Sentindo
fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e
não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?
Sonhei que me
encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam
nadando enormes peixes marítimos.Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.
Eu era
impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre
elas a faxina e a preparação da comida. Agoracorto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.
(Tradução de Ana Cristina César e Grazyna Drabik)
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dezembro 29, 2012
“Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”
A síntese da
ética jacobina – e, portanto, da ética esquerdista – foi elaborada por Sébastien-Roch-Nicolas
de Chamfort e permanece insuperável até hoje: “Seja meu amigo – ou eu te
matarei”. Pude experimentar o acerto dessas palavras nos últimos três meses, período
em que lutei, apesar da má vontade de uma minoria, pela prevalência do
verdadeiro.
O melhor fecho à polêmica foi publicado em 23 de dezembro, na Folha de S. Paulo: “A luta de James Joyce para reter o presente”, ensaio no qual pude não apenas colocar em prática minha hermenêutica – como faço desde 2006 no Rascunho e, em algumas oportunidades, na Revista Sibila –, mas defender, novamente e de maneira incansável, o que Georg Christoph Lichtenberg afirma: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.
Graças à lucidez
da Folha de S. Paulo, os fatos
começaram a ser esclarecidos antes mesmo que eu pudesse me manifestar, em dois
textos: “Crítico tido como severo é jurado ‘C’ do Jabuti” e “Rodrigo Gurgel, o jurado ‘C’, pagou o pato das gambiarras do regulamento”.
Quando,
finalmente, encontrei-me livre para falar, expus meus critérios,
também na Folha de S. Paulo, no texto
“Depoimento: Jurado ‘C’ explica nota zero dada no Jabuti”.
Logo depois, numa
breve entrevista – “Jurado C do Jabuti: ‘Não tentei manipular o resultado’” –,
detalhei algumas questões.
Mas nas duas
entrevistas seguintes – “‘Meu voto não foi maquiavélico nem quixotesco’, diz Rodrigo Gurgel” e, principalmente, “‘O sistema literário brasileiro está doente’, afirma jurado ‘C’ do Jabuti”, diálogo mantido com o editor do Caderno
Ilustríssima da Folha de S. Paulo,
jornalista Paulo Werneck – é que pude ir além da questão das notas, à qual se
apegaram alguns, para falar dos problemas e deficiências subjacentes em nosso
sistema literário, parcialmente revelados pela polêmica.
Essas questões foram
aprofundadas em quatro outras entrevistas: “É fato: os escritores mortos escrevem junto aos vivos”, “Ad Hominem Entrevista: Rodrigo Gurgel”, “A necessidade de um posicionamento crítico” e “‘Estamos muito longe de ter um público leitor’, diz crítico literário Rodrigo Gurgel, o Jurado C”.
O melhor fecho à polêmica foi publicado em 23 de dezembro, na Folha de S. Paulo: “A luta de James Joyce para reter o presente”, ensaio no qual pude não apenas colocar em prática minha hermenêutica – como faço desde 2006 no Rascunho e, em algumas oportunidades, na Revista Sibila –, mas defender, novamente e de maneira incansável, o que Georg Christoph Lichtenberg afirma: “Onde a moderação é um erro, a indiferença é um crime”.
dezembro 07, 2012
Através da densa névoa...
“Assim, através da densa névoa das dúvidas obscuras do
meu espírito, vez ou outra surgem intuições divinas, iluminando-me a neblina
com um raio celestial. Agradeço a Deus por isso; pois todos têm dúvidas; muitos
negam; mas entre dúvidas e negações, poucos têm ainda intuições. Dúvidas sobre
todas as coisas terrenas e intuições de algumas coisas celestiais; essa
combinação não faz de ninguém nem crente nem infiel, mas um homem que a ambas
estima com os mesmos olhos.” – Moby Dick,
Herman Melville
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Moby Dick
dezembro 06, 2012
Para os meus verdadeiros amigos
“É difícil
contentar aqueles que desconhecem o que exigem ou aqueles que exigem
propositalmente o que julgam impossível obter.” – Doutor Samuel Johnson
novembro 28, 2012
A ilha no Lago de Innisfree
Sim, partirei
já, partirei para Innisfree,
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.
Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.
Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Ouço esse murmúrio no mais fundo do coração.
E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas:
Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia,
E solitário entre o rumor das abelhas viverei.
E alguma paz
desfrutarei, porque como lenta gota é a paz,
Desprendendo-se
dos véus da manhã até ao lugar onde o grilo canta;Eis aí a meia-noite de esplendor, o meio-dia de fulgurante púrpura,
E uma plenitude de asas cantantes o entardecer.
Ergo-me e vou,
parto com a noite, parto com o dia,
Ouço as águas do
lago, o seu murmúrio junto à costa;Seja pelos caminhos, seja pelas sombrias ruas,
Ouço esse murmúrio no mais fundo do coração.
W. B. Yeats
(tradução
de José Agostinho Baptista)
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W. B. Yeats
novembro 25, 2012
O “Cogito” Agostiniano
Pois nós somos e
sabemos o que somos, e amamos o nosso ser e o nosso conhecimento. E estamos
seguros da verdade destas três coisas. Pois não é como os objetos de nossos
sentidos que podem nos enganar por uma noção falsa. Estou absolutamente certo
por mim mesmo que eu sou, que eu conheço e que eu amo meu ser. Não temo
tampouco aqui os argumentos dos Acadêmicos, mesmo que me digam: Mas vós vos
enganais! Pois se me engano é porque existo, pois ninguém pode se enganar se
não existe. E uma vez que eu exista, eu que me engano, de que maneira eu posso
me enganar crendo que eu existo, visto que é certo que eu existo se me engano?
Assim dado que seria sempre eu que estaria enganado, quando fosse verdade que
eu me enganasse, é indubitável que eu não posso me enganar quando creio que
existo.
A Cidade de Deus XI, 26
A Cidade de Deus XI, 26
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novembro 19, 2012
“O ensaísta que queria ser mágico”
Há alguns dias, fui entrevistado, para o portal de
notícias Oa Jundiaí, por Ricardo Nassif, amigo do meu tempo de ginásio no Colégio José Romeiro Pereira
(carinhosamente chamado de Geva por todos que ali estudaram e pelos moradores
de minha cidade natal, Jundiaí). Ricardo hoje é gerente de projetos em instrumentação
astronômica no Laboratório Nacional de Astrofísica, mas, graças à Internet,
seguimos conversando, exatamente como nos tempos de colégio. A entrevista – em que falamos sobre meu livro, Muita
retórica – Pouca literatura – saiu
hoje, com edição de outro grande amigo, Flavio Gut, que também estudou conosco
no Geva e, anos mais tarde, foi meu diretor de Redação durante o período em que
o Jornal de Jundiaí (JJ) fazia, com inusitada coragem,
jornalismo independente. O resultado pode ser lido aqui: “Rodrigo Gurgel, o ensaísta que queria ser mágico”.
novembro 18, 2012
O que importa é ser “cool”
Pessoas
que chegam à maturidade e lutam para não ter certezas destilam melancolia. Encontro-as
sempre – e quanto mais intelectualizado o grupinho, mais estão presentes, sorrisos
largos, abertos em exagero, semelhantes a um decalque pronto a descolar, incapaz
de suster os olhinhos reluzentes que imploram um tiquinho de atenção. São
quarentonas, as rugas em volta dos olhos não enganam, mas vestem-se como crianças,
eternas escolares. Há o tipo básico feminino: cabelo mal penteado, sapatinho
boneca, saia acima do joelho – e o discurso relativista, a cansativa repetição
das fórmulas que todos encontram, com uma passada de olhos, em Sartre, Foucault
e Deleuze. Mas sob as palavras, só angústia. A cada noite, o vazio que defendem
em seu blá-blá-blá decorado esmaga-as sem dó nem piedade. No dia seguinte estão
lá, um pouco trêmulas, sempre incapazes de pensar contra a corrente. A verdade
pode fazê-las tropeçar na próxima esquina, mas não importa. O que importa é ser
cool.
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novembro 08, 2012
Jacques Barzun e as convenções do Intelecto
Graças ao meu
caro amigo Bruno Garschagen, que disponibilizou hoje em seu blog a resenha de João Pereira Coutinho sobre Jacques Barzun, falecido no último 25 de outubro, fui rever
os livros que tenho desse grande ensaísta, magnífico historiador das ideias e
da cultura. Lá está, sublinhado em minha edição de A Casa do Intelecto:
Verdades para as quais parcela da nova geração de escritores e intelectuais – principalmente aqueles que, sabiamente, se distanciam do marxismo e do niilismo – começa, ainda bem, a acordar.
O Intelecto é o
grande unificador da mente consigo mesma e com a mente dos demais. Na arte, é o
Intelecto que, implícita ou explicitamente, alça a obra da delicadeza ou do virtuosismo
para o que os pósteros chamam de profundidade ou grandeza. Na sociedade, são as
convenções do Intelecto que permitem a discussão – e não a luta; a
reciprocidade – e não o capricho infantil; a tradição – e não o perpétuo
começar de novo.
Verdades para as quais parcela da nova geração de escritores e intelectuais – principalmente aqueles que, sabiamente, se distanciam do marxismo e do niilismo – começa, ainda bem, a acordar.
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novembro 07, 2012
Simões Lopes Neto: o narrador ideal de Walter Benjamin
A “Mboitatá” é a narrativa mais
admirável. Simões Lopes Neto conseguiu criar um exemplo perfeito de sintetismo,
construindo-o por meio de elementos que, de forma reiterada, transportam-nos ao
universo mítico. Numa cosmologia primitiva, a longa noite está instaurada — e o
que veio antes dela permanecerá incógnito. O homem, anulado diante do cosmo que
se desorganizou, encontra-se no anti-gênesis. Estamos in illo tempore: um passado indefinido, em meio ao caos. A desordem absoluta, que
enche de pavor homens e animais, favorece o surgimento do prodígio maléfico: a
serpente que devora olhos.
novembro 03, 2012
À disposição do fogo
“Sei o quanto é
árduo. Para alcançar um estado de ânimo profundo e sincero há necessidade de
algo. São tantas as pequenas cruzes que nos impedem de alcançar a nudez e
a verdadeira essência da nossa visão. Parece bobagem, não? Penso com frequência que
se deveria poder rezar antes de trabalhar, e depois confiar tudo à graça de
Deus. Que coisa árdua, realmente, que difícil trabalho conseguir chegar ao
corpo a corpo com a própria imaginação, lançar tudo ao mar! Sinto-me sempre
como se estivesse nu e à disposição do fogo que o Onipotente fará fluir através
de mim: sensação um pouco assustadora. Deve-se possuir tal religiosidade para
ser artista! Penso muitas vezes no meu caro São Lourenço, preso à sua grelha,
quando disse: ‘Virem-me para o outro lado, pois este já está cozido’.”
– De uma carta de D. H. Lawrence a Ernest
Collings
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novembro 02, 2012
Poema para Finados
Era un niño que
soñaba
un caballo de cartón.
Abrió lós ojos el niño
y el caballito no vio.
Con un caballito blanco
el niño volvió a soñar;
y por la crin lo cogía...
Ahora no te escaparás!
Apenas lo hubo cogido,
el niño se despertó.
Tenía el puño cerrado.
El caballito voló!
Quedóse el niño muy serio
pensando que nos es verdad
un caballito soñado.
Y ya no volvió a soñar.
Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor,
y a su amada le decía:
Tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad.
Y cuando vino la muerte,
el viejo a su corazón
preguntaba: Tú eres sueño?
Quién sabe si despertó!
un caballo de cartón.
Abrió lós ojos el niño
y el caballito no vio.
Con un caballito blanco
el niño volvió a soñar;
y por la crin lo cogía...
Ahora no te escaparás!
Apenas lo hubo cogido,
el niño se despertó.
Tenía el puño cerrado.
El caballito voló!
Quedóse el niño muy serio
pensando que nos es verdad
un caballito soñado.
Y ya no volvió a soñar.
Pero el niño se hizo mozo
y el mozo tuvo un amor,
y a su amada le decía:
Tú eres de verdad o no?
Cuando el mozo se hizo viejo
pensaba: todo es soñar,
el caballito soñado
y el caballo de verdad.
Y cuando vino la muerte,
el viejo a su corazón
preguntaba: Tú eres sueño?
Quién sabe si despertó!
Antonio Machado (Campos
de Castilla, CXXXVII, Parábolas, I)
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Antonio Machado,
Poetas
outubro 30, 2012
A Internet e o “mundo da veracidade”
A longa carta
aberta (publicada na The New Yorker e
traduzida no Caderno Link, de O Estado de
S. Paulo) que o escritor Philip Roth escreveu à Wikipédia é, sem dúvida, notável
mergulho no processo de criação do romance A
marca humana. Contudo, quanto mais avançamos no texto, mais lateja em nossa
mente o absurdo que provocou a carta: a proibição de que o próprio Roth corrigisse
– nessa famosa, errônea e imprecisa enciclopédia virtual – o verbete que fala
do seu romance.
Quando todos, graças à Internet, podem escrever e publicar suas supostas verdades, os “balbucios das tagarelices literárias”, para usar a expressão de Roth, podem ser mais verdadeiros que o depoimento do próprio escritor? Não se trata, é claro, de sermos ingênuos e simplesmente acreditarmos em Roth. Trata-se de perceber o traço kafkiano desse novo tempo, em que qualquer um pode ser a “secondary source” exigida pela Wikipédia.
Quando todos, graças à Internet, podem escrever e publicar suas supostas verdades, os “balbucios das tagarelices literárias”, para usar a expressão de Roth, podem ser mais verdadeiros que o depoimento do próprio escritor? Não se trata, é claro, de sermos ingênuos e simplesmente acreditarmos em Roth. Trata-se de perceber o traço kafkiano desse novo tempo, em que qualquer um pode ser a “secondary source” exigida pela Wikipédia.
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Philip Roth
outubro 26, 2012
outubro 25, 2012
Vamos ao que importa!
No tempo de
minha bisavó, até receitas de bolo eram escritas com perfeição. Vovó Nenê, como
a chamávamos carinhosamente, nossa primeira professora de inglês e francês, línguas
nas quais era fluente, diria, ao terminar a leitura: “– Que português
escorreito, meu filho!”.
Amasse com água que baste 75 gramas de farinha de trigo (obra de uma xícara de chá rasa) e um tablete de fermento, deixando levedar. Ponha numa vasilha grande 250 gramas de farinha de trigo em forma de círculo, no centro do qual coloque 100 gramas de açúcar (obra de uma xícara de chá rasa) e incorpore a este 25 gramas de manteiga (obra de uma colher de sopa), um ovo inteiro, uma gema, uma pitada de sal, raspa de noz-moscada e a massa do fermento. Vá amassando tudo com as pontas dos dedos, incorporando, por fim, a farinha que ficou ao redor. Amasse bem. Tome um copo, encha-o pela quarta parte com cerveja branca e complete, até atingir a metade do copo, com uma mistura em partes iguais de rum, vinho do Porto ou quinado e conhaque. Adicione à massa esse meio copo de líquido, aos poucos. Sove durante quinze minutos e junte 250 gramas de frutas cristalizadas, cortadinhas. Amasse um pouco mais e deixe levedar, cobrindo com um pano, por três ou quatro horas. Unte uma forma de pizza com 35 centímetros de diâmetro e no seu centro coloque uma tigela pirex com 12 centímetros, virada de boca para baixo. Polvilhe bem a mesa com farinha e aí disponha a massa, dando-lhe o formato de uma tira cujas pontas serão unidas formando o anel que você deverá colocar na forma, contornando o pirex. Enfeite esse anel com algumas tiras de laranja e cidra cristalizadas, como se fossem os raios de uma roda. Enfeite também com dois figos partidos ao meio. Cubra com um pano e deixe crescer bem. Pinte com um ovo inteiro batido com uma colher (de chá) de açúcar e, nos intervalos, disponha uns traços de um centímetro de largura com açúcar, acompanhando o desenho das tiras de laranja. Asse em forno brando e, quando espetar e o palito sair seco, estará pronto.
Bolo Rei
Amasse com água que baste 75 gramas de farinha de trigo (obra de uma xícara de chá rasa) e um tablete de fermento, deixando levedar. Ponha numa vasilha grande 250 gramas de farinha de trigo em forma de círculo, no centro do qual coloque 100 gramas de açúcar (obra de uma xícara de chá rasa) e incorpore a este 25 gramas de manteiga (obra de uma colher de sopa), um ovo inteiro, uma gema, uma pitada de sal, raspa de noz-moscada e a massa do fermento. Vá amassando tudo com as pontas dos dedos, incorporando, por fim, a farinha que ficou ao redor. Amasse bem. Tome um copo, encha-o pela quarta parte com cerveja branca e complete, até atingir a metade do copo, com uma mistura em partes iguais de rum, vinho do Porto ou quinado e conhaque. Adicione à massa esse meio copo de líquido, aos poucos. Sove durante quinze minutos e junte 250 gramas de frutas cristalizadas, cortadinhas. Amasse um pouco mais e deixe levedar, cobrindo com um pano, por três ou quatro horas. Unte uma forma de pizza com 35 centímetros de diâmetro e no seu centro coloque uma tigela pirex com 12 centímetros, virada de boca para baixo. Polvilhe bem a mesa com farinha e aí disponha a massa, dando-lhe o formato de uma tira cujas pontas serão unidas formando o anel que você deverá colocar na forma, contornando o pirex. Enfeite esse anel com algumas tiras de laranja e cidra cristalizadas, como se fossem os raios de uma roda. Enfeite também com dois figos partidos ao meio. Cubra com um pano e deixe crescer bem. Pinte com um ovo inteiro batido com uma colher (de chá) de açúcar e, nos intervalos, disponha uns traços de um centímetro de largura com açúcar, acompanhando o desenho das tiras de laranja. Asse em forno brando e, quando espetar e o palito sair seco, estará pronto.
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memórias
outubro 18, 2012
Marisa Lajolo resenha meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura”
Marisa Lajolo
faz, neste texto publicado inicialmente no Facebook, um interessante diálogo
com meu livro. Uma leitura que aponta discordâncias, mas de maneira ética,
equilibrada, sábia. Leitura lobatiana, com aquela argúcia que Monteiro Lobato
nunca deixou de lado – e que Marisa Lajolo, decana dos estudos lobatianos, não
poderia deixar de ter.
Vamos a ele!
BOA RETÓRICA E BOA LITERATURA
Marisa Lajolo
Nas cores sóbrias da capa de Muita retórica – Pouca literatura (Campinas, SP: Vide Editorial)
uma figura de rosto borrado parece escrever em folhas que levantam voo e
transformam-se em pássaros. A capa é sedutora. O título intrigante provoca o
leitor. Mas o suspense se desfaz no subtítulo: De Alencar a Graça Aranha.
E é efetivamente pela prosa brasileira que Rodrigo Gurgel –
o autor do livro – passeia, compartilhando com seus leitores juízos sobre
escritores e obras do século XIX e comecinho do XX. Leitor rigoroso, de dedo em
riste e olhar severo, o crítico aponta e discute cochilos e acertos – de
diferentes ordens de grandeza – de nossos escribas.
É claro que o leitor não precisa concordar com Gurgel. Eu,
por exemplo, acho que Lucíola e O cortiço são grandes obras. Gurgel não
acha, mas ele expõe seus argumentos com tanto talento (a boa retórica!) que
fico obrigada a ir buscar os meus para discordar dele. O que é uma bela forma
de a crítica cumprir sua função de aprimorar a leitura.
Aprimorar a leitura literária não é concordar com nosso
interlocutor. Seja ele quem for. É respeitar leituras alheias, pois literatura
é um entrelaçamento de obras e de leituras que as obras receberam. O leitor que
decida em qual malha desta rede quer meter sua colher torta.
Este livro tem bastidores muito interessantes: ele nasce de
ensaios que seu autor publicou inicialmente no excelente jornal Rascunho, de Curitiba. E tem suas
primeiras discussões em formato bastante original. Gurgel lança o livro fazendo
uma palestra no YouTube e disponibilizando em seu blog longa entrevista que deu ao jornal santista A Tribuna.
Claro que nas respostas à entrevista e no calor da hora da
gravação vêm à tona detalhes do livro, outras opiniões de seu autor, enfim,
aquele making off que tanto delicia
fãs (como eu) de filmes em DVD. É aí, nestes bastidores e no day after, que Gurgel aponta, de forma
explícita e direta, um tópico que, no seu livro, é reafirmado ao longo dos
vinte ensaios que o compõem: a pluralidade dos domínios do conhecimento
necessários ao discurso que fala de literatura.
Filosofia, História, Sociologia, Retórica... muitos são os
sotaques que podem entrecruzar-se na fala do crítico e vários deles,
efetivamente, comparecem à fundamentação da crítica de Gurgel. E alguns outros
ele expulsa definitivamente, como os pobres linguistas estruturalistas, por si
mesmos afastados do palco (!) mas imediatamente substituídos por outros
fundamentalismos.
Vem da filosofia – do espanhol Ortega y Gasset – um dos
pressupostos do pensamento de Gurgel. A ideia de que eu sou eu + minha
circunstância inspira a amplificação que o crítico faz de uma obra para além
das palavras que seu autor escreve, e permite a ele (crítico) discutir a obra
entendendo-a como amplificadora da experiência humana.
Foi aí que Gurgel me pegou.
E a circunstância do leitor? E a circunstância do momento de
cada uma de suas leituras? Não seriam determinantes de sua compreensão da obra
e de sua valorização?
Eu, por exemplo, gosto de Inocência, livro que Gurgel considera um romancinho sentimental, onde o diminutivo desqualifica. Lembro
de ter lido o livro com onze para doze anos. Lição de escola, de Dona Maria
Luíza. Mas... havia uma menina na minha classe chamada Inocência, chata como a
peste. Petulante e convencida. Fui ler o
livro com a maior má vontade inspirada na homônima da heroína. Mas o livro me
emocionou: me comoveu a subalternidade da menina ao pai autoritário, a
confiança dela no padrinho, a delicadeza da homenagem representada por dar o
nome dela a uma borboleta...
Vinguei-me de minha colega apelidando-a de papilosa e acho que foi aí que me tornei
leitora de romances e aprendi a lidar com leituras alheias, matéria-prima de
professores de literatura.
Ou seja: como lidar com as infinitas circunstâncias em que
leitores leem o que leem? Este livro de Gurgel sugere várias destas maneiras.
Ele nunca se esquece, por exemplo, de que está falando em público de suas
leituras privadas. Franqueia, pois ao leitor sua circunstância de leitura,
atribuindo a seus leitores reações que bem podem ter sido as suas: se você, leitor, teve vontade de rir, não se
sinta constrangido (115). Ou justificando suas decisões discursivas: ideia sobre a qual nem me darei ao trabalho
de comentar, tamanho o seu despropósito (143).
Ou ainda, mencionando outros críticos e pensadores com os
quais concorda ou dos quais diverge. Ou transcrevendo os textos dos romances
nos quais se apoiam suas observações, ou tirando da estante prosadores que têm
passado em branco na história canônica da literatura brasileira. Desta lista de
prosadores brasileiros do B que Muita retórica – Pouca literatura
apresenta, destaco a agradável surpresa que representa a leitura que Gurgel faz
de João Francisco Lisboa e de Joaquim Felício dos Santos.
Ou seja: todas aquelas folhas em revoada na primeira capa do
livro voltam obedientes à escrivaninha do crítico e compõem um livro
extremamente corajoso e provocador.
Vamos a ele!
outubro 10, 2012
Texto integral da entrevista que concedi ao “A Tribuna”, de Santos
A entrevista que concedi ao jornal A Tribuna, de Santos, publicada no último sábado (imagem acima) saiu, por problemas de espaço, com alguns cortes. A seguir, publico a íntegra do bate-papo que tive, por e-mail, com o jornalista César Miranda:
A Tribuna: Entre
os autores analisados em seu livro encontram-se nomes clássicos (José de
Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Raul Pompeia, Machado de Assis, Graça
Aranha etc.). Além destes ficcionistas, há também prosadores como João
Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Eduardo Prado, Nabuco e Taunay.
Por que a escolha dos escritores acima? Qual foi o critério? Tem alguma
admiração por eles?
Rodrigo Gurgel: O livro é uma compilação da série de
ensaios que iniciei, em 2010, no jornal Rascunho,
de Curitiba. Sou crítico literário do jornal desde 2006, mas em 2010 iniciei
essa série, cujo objetivo é reler os principais prosadores da literatura
brasileira, sejam ficcionistas ou não. A escolha desses autores nasce,
portanto, não de uma admiração pessoal, mas da necessidade de empreender esse
trabalho de releitura da prosa nacional. Trabalho, aliás, que continua e
chegará aos prosadores contemporâneos. Nesse primeiro volume, agora publicado,
tratamos dos prosadores do século XIX.
A Tribuna: Por
que considera Canaã, de Graça Aranha,
“o mais pedante romance brasileiro”?
Rodrigo Gurgel: Canaã
é um romance artificial, construído com o objetivo de defender algumas teses
caras ao seu autor. É apenas um mosaico de estilos diferentes, montado sobre um
plano esquemático, carregado de psicologismo hiperbólico e rasteiro. Vejam-se
os diálogos do romance: os personagens não conversam realmente, com
naturalidade, mas as falas são apenas justapostas, de maneira que cada
personagem represente um sistema filosófico ou determinados valores. É uma
sucessão monótona de discursos, na qual, aliás, o povo brasileiro é
ridicularizado do começo ao fim. Há algumas cenas famosas, que se tornaram
antológicas, como a do parto de Maria, quando o recém-nascido é devorado pelos
porcos, mas elas somente reforçam o esquematismo do romance. Como disse Otto
Maria Carpeaux, “Canaã só convence leitores inexperientes”. Por todos esses
motivos, o romance é de um pedantismo ímpar.
A Tribuna: Qual
sua opinião sobre a crítica literária atual?
Rodrigo Gurgel: A crítica literária atual, no Brasil,
pode ser dividida em dois grandes grupos. De um lado, temos críticos que seguem
as escolas estruturalistas e pós-estruturalistas. Eles pretendem submeter a
literatura a certas análises predominantemente lingüísticas, como se apenas a
lingüística pudesse dar conta das inúmeras características que compõem uma obra
literária. Esses críticos usam, quase sempre, um jargão cansativo, hermético,
que afasta o leitor e, na verdade, acaba não explicando nada. Thomas Pavel, um
dos críticos dessas escolas, diz, com acerto, que elas apenas criaram um “verniz
onírico”, mais nada. De outro lado, temos críticos que, seguindo ou não o
estruturalismo e o pós-estruturalismo, negam-se a realmente criticar. Eles
sofrem do que eu chamo de síndrome do crítico envergonhado. É uma espécie de
bom-mocismo, um tipo de hipocrisia. Esses críticos dizem que é impossível
julgar, que ninguém pode dizer se uma obra literária é boa ou não, se uma obra
literária deve ser lida ou não. Na verdade, o que eles querem é ser amigos de
todo mundo, passar a mão na cabeça dos escritores e tratar todos da mesma
forma, inclusive os que são medíocres. É claro que há críticos que fogem a
esses dois grupos, mas formam a minoria das minorias.
A Tribuna: Quais
críticos literários o senhor admira?
Rodrigo Gurgel: Otto Maria Carpeaux, um austríaco que
se naturalizou brasileiro e nos deixou muito mais que uma obra voltada à
crítica literária, mas o trabalho de um verdadeiro humanista, é, sem exageros,
genial. Outros críticos que sempre releio, pelos quais tenho grande admiração,
são Samuel Johnson, Charles Moeller, Northrop Frye, Edmund Wilson, Lionel
Trilling, Joseph Pearce e Marcel Reich-Ranicki. Entre os brasileiros, gosto de
Álvaro Lins, Augusto Meyer, Lúcia Miguel-Pereira, Temístocles Linhares, Wilson
Martins e, mais recentes, Alexandre Eulalio, João Alexandre Barbosa, Marisa
Lajolo, Alcir Pécora e Moacir Amâncio. No que se refere aos brasileiros,
citá-los não significa que concorde sempre com eles, mas são grandes inteligências,
que vêem a literatura não apenas sob o aspecto formalista, mas como um diálogo
com a experiência humana.
A Tribuna: No
bate-papo com leitores, o senhor vai falar também sobre a obra do escritor
Olavo de Carvalho. Inclusive, o senhor fez o texto da orelha do livro A filosofia
e seu inverso. Qual importância desse
livro do Olavo de Carvalho?
Rodrigo Gurgel: Olavo de Carvalho tem importância
fundamental na cultura brasileira. Seu livro O imbecil coletivo é um marco dos estudos culturais no Brasil e
será relido por todas as gerações futuras. Sem ele, será impossível ao
estudioso entender como a hegemonia marxista transformou o Brasil no paraíso da
mediocridade. Olavo também elaborou um original, seriíssimo trabalho de análise
do pensamento de Aristóteles, no seu Introdução
à Teoria dos Quatro Discursos. Além disso, ele é um polemista magistral,
uma das raríssimas vozes que tiveram a coragem de, nas últimas décadas, se
antepor à nefasta hegemonia cultural da esquerda. Neste seu último livro, A filosofia e seu inverso, que reúne alguns
de seus artigos e ensaios produzidos nos últimos anos, ele recusa, mais uma
vez, o doutrinamento pós-moderno, ou seja, recusa-se a aceitar o tripé
corruptor dos tempos atuais, um tripé formado por relativismo, hedonismo e
ateísmo.
A Tribuna: Quando
nasceu sua paixão pelas letras? Existe algum fato marcante?
Rodrigo Gurgel: Creio que nasceu do amor pelos livros,
algo que, na minha família, sempre foi natural. Nós convivíamos com os livros
como se fizessem parte da família. Lembro-me que meu pai me colocava sentado
sobre o tampo da sua escrivaninha, abria no meu colo um dos volumes do Tesouro da Juventude e lia histórias
para mim. É minha primeira lembrança em relação aos livros. Meu pai tinha uma
vasta biblioteca, formada principalmente de livros jurídicos, e meus irmãos, minha
mãe e eu tínhamos de, uma vez por ano, limpar todos os volumes, tarefa que
demorava vários dias... Era uma festa, um trabalho feito com união, amor,
alegria. Portanto, ler, para mim, sempre foi algo tão natural quanto respirar.
Lembro-me, por exemplo, de minha avó paterna, que me deu para ler As mil e uma noites. E também da
discussão que meu pai provocou, quando descobriu que ela me dera Madame Bovary para ler. Eu só tinha doze
anos. Depois da discussão, que presenciei, minha reação foi a mais esperada:
ler Flaubert com atenção ainda maior.
A Tribuna: Quais
são os livros que o acompanham em suas viagens? Que tipos de enredos prefere?
Rodrigo Gurgel: Ler apenas por prazer tornou-se algo
muito raro na minha vida, infelizmente. Estou sempre lendo por motivos profissionais.
Mas se tivesse de escolher alguns livros para ler despreocupadamente, apenas
por prazer, eu ficaria com os escritores que mais amo: Flannery O’Connor,
George Bernanos, Henry James, Joseph Conrad, Tolstói e Dostoyevski.
A Tribuna: O
que o senhor leu recentemente que acha que vale a pena ler?
Rodrigo Gurgel: O ensaio de Ricardo Souza de Carvalho, A Espanha de João Cabral e Murilo Mendes;
e Rumor dos cortejos, uma coletânea
de poesia cristã francesa do século XX, organizada e traduzida por Pablo
Simpson.
A Tribuna: Gostaria
de acrescentar algo mais?
Rodrigo Gurgel: Olavo
de Carvalho diz, com acerto, que “a crítica literária é a primeira disciplina
filosófica, porque a crítica é a expressão intelectual mais imediata da própria
experiência literária”. E a experiência literária, por sua vez, nada mais é que
uma abertura à variedade da experiência humana. Ler literatura, portanto, é
alargar a imaginação, ampliar nossa visão sobre as possibilidades da
existência, inclusive sobre as possibilidades éticas ou morais da existência.
Se entendemos a literatura assim, então a função do crítico é mostrar essas
possibilidades, tomar o leitor pela mão e mostrar a ele um dos inúmeros
caminhos possíveis. Para fazer isso, ele precisa recusar a arrogância
epistêmica e o monismo de julgamento que imperam hoje. Ele deve ler a obra
literária perguntando também até que ponto ela realmente responde ao que
pretendeu ser, se ela realmente consegue ser uma estrutura coerente. É o que
busco fazer no meu trabalho e neste livro, Muita retórica – Pouca literatura.
outubro 09, 2012
Bilhete aos críticos envergonhados
“Um público que tenta dispensar a crítica e, afirma,
sabe o que quer ou de que gosta, brutaliza as artes e perde a memória cultural.”
– Northrop Frye
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Crítica literária,
Northrop Frye
outubro 06, 2012
Hoje, lançamento de “Muita retórica – Pouca literatura” em Santos
Às 16h, estarei na Livraria Realejo, no Gonzaga, para
autografar meu livro e bater um bom papo sobre literatura, crítica literária e os novos lançamentos do filósofo Olavo de Carvalho. Até lá, amigos!
outubro 05, 2012
“A obra literária se completa quando nós completamos a sua leitura”, diz Ortega y Gasset
Acima, o vídeo de minha palestra sobre o livro que acabo de lançar: Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Olavo de Carvalho diz, com acerto, que “a crítica literária é a primeira disciplina filosófica, porque a crítica é a expressão intelectual mais imediata da própria experiência literária”. E a experiência literária, por sua vez, nada mais é que uma abertura à variedade da experiência humana. Ler literatura, portanto, é alargar a imaginação, ampliar nossa visão sobre as possibilidades da existência, inclusive sobre as possibilidades éticas ou morais da existência. Se entendemos a literatura assim, então a função do crítico é mostrar essas possibilidades, tomar o leitor pela mão e mostrar a ele um dos inúmeros caminhos possíveis. Para fazer isso, ele precisa recusar a arrogância epistêmica e o monismo de julgamento que imperam hoje. Ele deve ler a obra literária perguntando também até que ponto ela realmente responde ao que pretendeu ser, se ela realmente consegue ser uma estrutura coerente.
outubro 04, 2012
A salvação pelo duplo – “Maria Dusá”, de Lindolfo Rocha
Ao ler o romance Maria Dusá, de Lindolfo Rocha, é
preciso separar o joio do trigo. É o que faço em meu ensaio deste mês, no
jornal Rascunho.
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Crítica literária,
Lindolfo Rocha,
literatura brasileira,
Maria Dusá
outubro 01, 2012
Palestra virtual sobre meu livro, “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)”
Hoje, às 20 h, minha palestra on-line sobre o livro que acabo de
lançar: Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha). Para
assistir basta seguir este link.
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