Abaixo, coloco os trechos finais de “Um crítico contra a corrente”, brilhante prefácio de José Carlos Zamboni:
setembro 20, 2012
Machado de Assis e a Gnose
No prefácio que escreveu para meu livro, Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha), o
professor e romancista José Carlos Zamboni mostra-se leitor perspicaz, que não
apenas detecta minha linha de estudo, as preocupações que tenho em relação à
análise da prosa brasileira, mas vai além, interpretando algumas de minhas
conclusões à luz de um achado particular: o da Gnose como “uma das fontes
remotas do pessimismo” de Machado de Assis. Tema que, com certeza, pede
aprofundados estudos.
Abaixo, coloco os trechos finais de “Um crítico contra a corrente”, brilhante prefácio de José Carlos Zamboni:
Abaixo, coloco os trechos finais de “Um crítico contra a corrente”, brilhante prefácio de José Carlos Zamboni:
setembro 12, 2012
Um livro contra a corrente
Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha) reúne
vinte ensaios publicados, entre 2010 e 2012, no jornal Rascunho, numa série, ainda não terminada, em que me proponho a
reler os prosadores da literatura brasileira.
Minha leitura segue, de maneira proposital, parâmetros em grande parte desprezados na atualidade, quando a crítica literária não só difunde, mas também sofre dos três males apontados por Tzvetan Todorov: formalismo, niilismo e solipsismo. Trata-se, portanto, de uma leitura à contracorrente.
A partir de hoje, Muita retórica – Pouca literatura pode ser adquirido no site da Vide Editorial (que publicou o livro) ou na Livraria Cultura.
Minha leitura segue, de maneira proposital, parâmetros em grande parte desprezados na atualidade, quando a crítica literária não só difunde, mas também sofre dos três males apontados por Tzvetan Todorov: formalismo, niilismo e solipsismo. Trata-se, portanto, de uma leitura à contracorrente.
Dispus
os ensaios cronologicamente, como convém a um trabalho que, embora crítico e
analítico, também se apresenta sob a perspectiva da história. E cada autor
eleito comparece com uma obra, escolhida por seu caráter paradigmático, sua
capacidade de representar o conjunto da produção do escritor.
Entre os
autores analisados encontram-se os nomes clássicos de José de Alencar, Manuel
Antônio de Almeida, Raul Pompeia, Machado de Assis, Graça Aranha etc. Mas não
me ative, apenas, aos ficcionistas; e também reli grandes prosadores esquecidos
– como João Francisco Lisboa, Joaquim Felício dos Santos, Eduardo Prado – ou
ainda hoje lembrados (por exemplo, Nabuco e Taunay).
Como
afirma José Carlos Zamboni no prefácio Um
crítico contra a corrente, “Rodrigo Gurgel não teme o julgamento, que deve
completar obrigatoriamente a análise. Não salva nem condena em bloco,
preferindo exercitar a difícil arte de fazer justiça; e, por isso, todos esses
autores [...], mesmo os que mais sofrem com suas bordoadas, acabam resguardados
num aspecto ou noutro”.
A partir de hoje, Muita retórica – Pouca literatura pode ser adquirido no site da Vide Editorial (que publicou o livro) ou na Livraria Cultura.
setembro 11, 2012
Em breve, nas livrarias, “Muita retórica – Pouca literatura (de Alencar a Graça Aranha)”
Quando um livro nasce e olhamos para o primeiro
exemplar retirado da caixa, um desfile de pessoas queridas passa diante de
nossos olhos. Podemos ser o autor, nossas ideias estão presas entre as duas
capas, mas por trás de nós pulsam aqueles sem os quais a obra não existiria:
minha mãe, Carmen, que sempre quis ter um filho médico, mas aceitou com um
sorriso minha opção pela literatura; meu pai, infelizmente falecido, que nas
manhãs de domingo me fazia ler o editorial do Estadão e, debatendo comigo, exercitava meu raciocínio; inesquecíveis
professores, principalmente Ivanira Dadalt, que no primeiro ano de colégio não
discordou de mim quando lhe disse que O
Guarani era intragável; Bia Kotek (sem seu carinho e sua amizade, eu
simplesmente não estaria vivo hoje); Mimi, minha esposa, que ouviu, com
abnegada paciência, muitos dos ensaios – e sempre me entusiasmou quando pensei
em desistir; Rogério Pereira, editor do jornal Rascunho, que encampou o projeto, ainda em curso, de releitura da
prosa brasileira e sempre, sempre respeita minhas ideias; Cesar Kyn d’Ávila,
Adelice Godoy, Silvio Grimaldo e Lucas Silveira Santos, que, num gesto de rara
amizade, convidaram-me para publicar a obra pela Vide Editorial (Silvio
Grimaldo, aliás, foi o longânime editor); Diogo Chiuso, responsável pelo
projeto editorial sóbrio, que teve abnegação monacal com meu detalhismo; Robson Vilalba, que captou perfeitamente minha ideia para a ilustração da capa; José Carlos Zamboni, autor de um prefácio magnífico, cuja inteligência me fez
perceber novas questões a serem abordadas; e Ronald Robson, que estraçalhou os
inevitáveis erros e escreveu uma orelha generosa, fraternal. A todos vocês,
muito, muito obrigado.
setembro 04, 2012
Coelho Neto: perseguido, mas brilhante
Em meu ensaio deste mês no jornal Rascunho,
analiso o romance Turbilhão, de
Coelho Neto, obra-prima desse autor injustamente perseguido e massacrado por
grande parte da crítica literária nacional. A respeito do estilo de Coelho Neto,
podemos, sem exagero, lembrar o que Milan Kundera fala, no ensaio “Improviso em
homenagem a Stravinski” (em Os
testamentos traídos), referindo-se à escolha de Johann Sebastian Bach pela
polifonia pura, o que Kundera chama de “recusa tácita do futuro”:
a História não é necessariamente um
caminho ascendente (em direção ao mais rico, ao mais culto), [...] as
exigências da arte podem estar em contradição com as exigências do dia (dessa
ou daquela modernidade) e [...] o novo (o único, o inimitável, o que nunca foi
dito) pode ser encontrado numa direção diferente daquela traçada por aquilo que
todo mundo sente como progresso. Com efeito, Bach pôde ler na arte dos seus
contemporâneos e dos mais jovens do que ele um futuro que deveria parecer, a
seus olhos, uma queda.
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agosto 11, 2012
A única paixão sem grandeza
“Nada mais
cretino e mais cretinizante do que a paixão política. É a única paixão sem
grandeza, a única que é capaz de imbecilizar o homem.” – Nelson Rodrigues
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agosto 08, 2012
David Stove, consciência moral e honestidade
É incrível como gerações de intelectuais – ou
semi-intelectuais – podem repetir, de maneira incansável, um sofisma que apenas
prejudica a humanidade. E é ainda mais incrível como essa ilusão de verdade pode
ser desmontada por meio de um raciocínio aparentemente simples. Digo
aparentemente, pois a lógica de David Stove esconde duas questões fundamentais,
esquecidas pela intelligentsia nacional
– e sem elas seria impossível construir tal reflexão: consciência moral e
honestidade. O artigo fala por si. E não citarei nem mesmo uma linha, pois ele precisa ser lido na íntegra. [Atenção: ainda que alguns navegadores digam o contrário, o Mídia Sem Máscara não apresenta perigo de malware.] Apenas complemento com uma dica: ler, depois, a
introdução de Isaiah Berlin à obra A liberdade, de John Stuart Mill (presente na edição publicada pela Editora Martins Fontes). Berlin apresenta a contrapartida ideal às
ideias de Stove, ao asseverar, apesar de alguns elogios, que “a defesa que faz
Mill de sua posição no tratado sobre a Liberdade não tem, como frequentemente se
diz, uma qualidade intelectual superior. Muitos de seus argumentos podem ser
dirigidos contra ele; certamente nenhum é conclusivo, ou poderia convencer um
oponente determinado ou impassível”.
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julho 30, 2012
Números ruins numa pesquisa do faz de conta
O lead da matéria sobre a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil chama para o que é menos importante. Trata-se
de curiosa aula de antijornalismo. A questão dramática, o fato realmente
central, começa a aparecer só no quarto parágrafo, quando ficamos sabendo que “apenas
50% dos brasileiros podem ser considerados leitores”.
Quando li o
trecho, pensei: “Melhoramos muito!”. De fato, 50% até poderia ser um número
alvissareiro... Mas logo me deparei com a triste verdade: a metodologia
escolhida pelos pesquisadores é uma ferramenta de criar ficção, pois define
como “leitor” pessoas que “leram pelo menos um livro nos três meses
precedentes ao questionário da pesquisa”.
Ora, quem leu “pelo
menos um livro” três meses antes de responder ao tal questionário não é e nunca
foi leitor. Esse pobre infeliz pode receber qualquer outro nome, mas o fato de
ter aberto um livro – à força ou por acaso – não passa de um acidente.
Contudo, estamos
no Brasil – e aqui, mesmo partindo de critérios duvidosos, uma pesquisa sobre
leitura revela números desalentadores. Saliento dois:
1) No último
quatriênio, o número de livros lidos por ano (por pessoa) caiu de 4,7 para 4;
2) 75% da
população não frequenta bibliotecas.
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julho 28, 2012
Rémi Brague e os “rasgos monstruosos do laicismo”
O filósofo Rémi Brague, um dos ganhadores do Prêmio Ratzinger deste ano, fala, na entrevista abaixo, em espanhol, sobre a “tentação
permanente que há no laicismo, a de se transformar numa religião secular e
reivindicar uma outra forma de sagrado – sagrado que terá, então, rasgos
monstruosos”. E completa: “Pensemos, por exemplo, nas religiões seculares do
século XX; o nazismo, por exemplo, para o qual o sagrado não era Deus, mas a
raça”. Brague também coloca os pingos nos is no que se refere à herança
muçulmana para o Ocidente, citando, com ironia, o “mítico Al-Andalus” e a falsa
tolerância religiosa ali existente. Além de criticar o “suicídio cultural da
Europa” nos dias de hoje, Brague responde a Edward W. Said, refutando sua tese
sobre a questão do chamado “orientalismo”. No fecho da entrevista, magnífico, o
filósofo mostra como as raízes da democracia ocidental podem ser encontradas
não na Grécia, mas, sim, na Idade Média.
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julho 25, 2012
Infinito
Desta
janela, emoldurada por lombadas coloridas, meu olhar não alcança a nitidez do
horizonte, linha líquida onde as cores se assemelham e sublima-se o relevo.
Não
sei se amanhece. Mas pouco importa. Volto-me para o salão imenso – e a luz
revela, além de fios brancos, migalhas de caspa sobre meus ombros.
Meus
passos ecoam sobre o piso de mosaico e reverberam lá no alto, contra abóbadas e
arcos paralelos. Só há livros. Livros e escadas de ferro que conduzem de um
mezanino a outro. Livros. E mesas. E cadeiras onde se empilham livros –
in-fólios, miniaturas, encadernações de mestres esquecidos.
Não
sinto calor ou frio. De um salão a outro, em linha reta, a arquitetura se
repete, janelas altas, luz refletindo sobre as lombadas, escadas ligando um
patamar a outro, uma sequência de estantes a outra.
Janela
após janela, brilham as lombadas desiguais. Salão após salão, as abóbadas aprisionam
o olhar.
Um
mordomo sonâmbulo introduziu-me aqui e pediu que eu aguardasse. Agora, até
mesmo a direção da entrada é uma dúvida. Olho para trás e vejo o corredor que
se afunila, cortado por centenas de fachos de luz. Viro-me, e a mesma imagem se
desenha, transformando a arquitetura na dimensão da impossibilidade.
Onde
estão meus anfitriões? Por que o mordomo não traz um chá, uma palavra? Aguardo
o toque de uma sineta, de uma campainha – ou da porta que, ao abrir-se, fará ranger
as dobradiças.
Retiro
os livros de uma poltrona e sento-me. Abro ao acaso o volume que mais se
encontra à mão. A luz imutável acorda as páginas amarelecidas, cujo folhear desprende
perfume e som apaziguador.
Página
após página, cresce a certeza de que o mordomo não voltará. Ninguém poderá
encerrar esta visita. Nenhum som, nenhuma brisa.
Flocos de caspa caem,
lentamente, enquanto o olhar percorre as linhas. Minhas costas arqueiam. A biblioteca
espera.
julho 20, 2012
Nunca vi nada mais profundo
“Fui encerrar, na Escola de Comunicações e Artes da
USP, um curso de pós-graduação sobre o meu teatro e depois li os trabalhos dos
alunos. Fiquei besta. Nunca vi nada mais profundo, de não se entender uma
frase.”
– Nelson Rodrigues
– Nelson Rodrigues
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Nelson Rodrigues
julho 11, 2012
Olavo de Carvalho e a busca da sabedoria

Por
motivos de espaço, o texto que escrevi para a orelha do mais recente livro de
Olavo de Carvalho – A filosofia e seu inverso – teve de ser cortado. A seguir, publico a apresentação
original, não só maior, mas, do ponto de vista estilístico e de
exposição do pensamento do meu caro professor, mais completa:
Contra a Weltanschauung pós-moderna
O
que é pensar? Há diferença entre
adquirir cultura filosófica e filosofar? O que separa a filosofia do ato, às
vezes necessário, de discutir com o antifilósofo? O que une Kant às decisões da
ONU em favor de um governo global? Por que o culto da ciência “começa na
ignorância do que seja a razão e culmina no apelo explícito à autoridade do
irracional”?
Essas
e outras questões são respondidas por Olavo de Carvalho em A filosofia e seu inverso, que reúne alguns de seus artigos e
ensaios produzidos nos últimos anos.
Mas
devemos ler Olavo de Carvalho? Há duas respostas possíveis: a dos seus
detratores, melíflua ou estrondosa, mas sempre negativa. E a dos que se recusam
a aceitar o doutrinamento da Weltanschauung
pós-moderna, que, amealhando adeptos entre liberais e esquerdistas, baseia-se
num tripé corruptor: relativismo, hedonismo e ateísmo.
Quem
responde de maneira afirmativa à última pergunta sabe que Olavo de Carvalho não
usa meias palavras. E o faz não apenas pelo deleite de tratar o idioma com
rigor, mas principalmente por saber que, para uma efetiva resistência cultural,
quem deseja se manter lúcido deve possuir um corpo teórico consistente, capaz
de apresentar respostas persuasivas ao mundo de falso desvanecimento do homem
contemporâneo e de advogar em defesa da verdade, o valor mais vilipendiado nos
dias que correm.
Frente
aos ideólogos de plantão, cujo objetivo é nos convencer de que princípios,
crenças, convicções e valores são obstáculos à liberdade, Olavo de Carvalho
denuncia a ditadura do relativismo – a arma que restou aos marxistas-leninistas
diante do fracasso de seu projeto original: a ditadura do proletariado. E o faz
com seu estilo tão característico, que lhe permite, como ele mesmo diz, “transitar
livremente entre o discurso acadêmico e a voz do coração, sem desprezar o
primeiro mas submetendo-o às exigências da segunda”, movido por seu “objetivo
constante, único, quase obsessivo: a busca do Supremo Bem”.
Nada
é pequeno neste livro. A resposta a certos polemistas transforma-se nos degraus
que Olavo de Carvalho transpõe para ensinar arquitetura gótica ou recolocar a
lógica como elemento acessório da produção filosófica. Desmonta o método de
Martial Guéroult, presta tributo à inesquecível figura do jesuíta Stanislavs
Ladusãns – de quem tive a honra de ser aluno na década de 1980 –, rebate Alan
Badiou, Peter Singer, Richard Dawkins e outros pseudoluminares. E o faz seguindo
o método que propõe a seus alunos: espantar-se frente à realidade da
experiência.
Mas não só. Olavo de Carvalho leva-nos mais longe na busca pela sabedoria, salientando que não esquecer nossa condição mortal é o ponto de partida da investigação metafísica. Aqui, ele ultrapassa a filosofia – e assemelha-se aos mestres da espiritualidade monástica, que recomendam a reflexão sobre a própria morte para curar uma das mais nocivas doenças da alma: a acídia.
Mas não só. Olavo de Carvalho leva-nos mais longe na busca pela sabedoria, salientando que não esquecer nossa condição mortal é o ponto de partida da investigação metafísica. Aqui, ele ultrapassa a filosofia – e assemelha-se aos mestres da espiritualidade monástica, que recomendam a reflexão sobre a própria morte para curar uma das mais nocivas doenças da alma: a acídia.
julho 09, 2012
“O problema é que não se faz nada em relação à educação no Brasil”
Ótima, lúcida
entrevista – hoje, no Estadão – com a
editora e agente literária Luciana Villas-Boas. Com ampla experiência no
mercado brasileiro, responsável pelo lançamento de alguns dos melhores nomes da
nossa literatura contemporânea, Luciana enfrenta bem todas as perguntas.
Coloco abaixo um
dos trechos de que mais gostei, no qual ela aponta o servilismo de parcela do
mercado editorial à visão errônea, realmente distorcida dos departamentos de
Letras e da crítica literária:
Livro é mesmo caro aqui?
Não acho que preço seja fundamental, é
uma outra problemática. O profissional liberal que tem dinheiro para comprar um
best-seller internacional não compra de um autor
brasileiro. É um preconceito que talvez até se justifique.
Por quê?
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julho 06, 2012
Quando paramos de sonhar com a eternidade
Do legendário sir Francis Drake, herói para os
ingleses e carrasco para os espanhóis, este belo poema, pujante, revelador da
alma desse incrível corsário, figura central do Período Elisabetano:
Disturb us,
Lord, when
We are too well
pleased with ourselves,
When our dreams
have come true
Because we have
dreamed too little,
When we arrived
safely
Because we
sailed too close to the shore.
Disturb us,
Lord, when
With the
abundance of things we possess
We have lost our
thirst
For the waters
of life;
Having fallen in
love with life,
We have ceased
to dream of eternity
And in our
efforts to build a new earth,
We have allowed
our vision
Of the new
Heaven to dim.
Disturb us,
Lord, to dare more boldly,
To venture on wilder
seas
Where storms
will show your mastery;
Where losing
sight of land,
We shall find
the stars.
We ask You to
push back
The horizons of
our hopes;
And to push into
the future
In strength,
courage, hope, and love.
This we ask in
the name of our Captain,
Who is Jesus
Christ.
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Sir Frances Drake
julho 05, 2012
“A todo transe!...”, de Emanuel Guimarães – esquecido e desprezado
Este mês, no
jornal Rascunho, analiso o romance A todo transe!..., de Emanuel Guimarães. A seguir, coloco os três primeiros
parágrafos do meu ensaio:
A todo transe!…
é um tipo peculiar de roman à clef: à
parte o fato de pertencer a certo elogiável grupo — no qual encontramos, por
exemplo, Os Buddenbrooks ou O sol também se levanta —, a obra de
Emanuel Guimarães, publicada em 1902, permanece atual não apenas graças às qualidades
literárias, mas porque sua “chave”, passados mais de cem anos, pode ser
encontrada em Brasília ou nas assembleias estaduais, como se os políticos
encobertos pelas personagens ainda estivessem vivos, cadáveres embalsamados por
meio de alguma técnica miraculosa, capaz de mantê-los respirando e,
principalmente, cometendo os mesmos delitos.
De fato, a
semelhança entre o romance e as piores páginas do noticiário político chega a
ser assustadora, mas não devemos nos prender a tal característica, pois ela
apequena as virtudes desse livro injustamente esquecido, que nos ensina como a
ficção pode descrever não só uma época, mas, partindo de fatos mesquinhos,
retratar a índole duradoura da classe dirigente e a feliz alienação do povo.
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julho 03, 2012
Machado de Assis – a pior das respostas
Machado
de Assis é o continuador da tradição iniciada, na literatura brasileira, por
Manuel Antônio de Almeida. Os dois escritores tornaram-se amigos depois que o
autor de Memórias de um sargento de
milícias passou a proteger Machado na Imprensa Nacional, onde este, aprendiz
de tipógrafo, subalterno de Almeida, era considerado um preguiçoso. Trata-se de
um dos inúmeros casos em que o aluno se mostra maior que o mestre, é verdade.
Contudo, o influenciado permanece devedor de quem lhe indicou o caminho a
seguir, ainda que, no caso do autor de Dom
Casmurro, este tenha preferido, por austeridade ou imodéstia, não comentar
sobre a dívida – que, portanto, continua ativa, ou melhor, ativíssima, como
diria o agregado José Dias, um dos melhores personagens de Dom Casmurro.
A
geração espontânea, teoria desprezada em ciência, merece igual tratamento na
literatura. Gênios não nascem do nada. No caso de Machado de Assis, a leitura
meticulosa de Memórias de um sargento de
milícias, quando ele revisa o livro para a edição definitiva de 1862/1863,
representou a culminância dos ensinamentos que Manuel Antônio de Almeida lhe
transmitira desde os dezessete anos. Aquele que se tornaria o Bruxo do Cosme
Velho teve, sem dúvida, várias outras influências, mas seu salto sobre o abismo
da retórica nacional recebeu impulso significativo desse amigo e protetor. Dele,
Machado aprendeu que a grandiloquência e o sentimentalismo exacerbado dos
românticos eram superfluidades – e dele herdou, como já afirmei neste Rascunho (em agosto de 2010), a sutileza
da frase, a habilidade para construir narradores irônicos e o hábito – transformado
em verdadeira mania – de se dirigir ao leitor como se este fosse seu cúmplice.
Há
quem não goste de Machado – e eu próprio sou um admirador comedido dos seus
romances –, mas é inegável que, a partir de Memórias
póstumas de Brás Cubas (1881), sua obra enfrentou com bravura a recepção
tortuosa e arrevesada – leiam-se, por exemplo, as análises de Sílvio Romero –, pisoteou
a maioria dos ficcionistas, compreendendo seus antecedentes, contemporâneos e
pósteros, e conseguiu reafirmar a lição de Manuel Antônio de Almeida, agora de
maneira irretorquível: literatura e eloquência são forças antagônicas.
Miragens
Dom Casmurro, publicado em 1899, representa a síntese
das qualidades – e também dos defeitos – machadianos. Narrada pelo protagonista,
Bento Santiago, cuja alcunha dá nome ao romance, a história é um curioso flashback, que rememora certo possível
adultério. Na verdade, “casmurro” é um eufemismo no que se refere a Bento –
seus detratores foram magnânimos ou polidos. Já no primeiro capítulo temos uma
amostra da sua arrogância, sempre mascarada pela ironia: oferece a um jovem
poetastro – que, por não receber a atenção do narrador, dera-lhe o apelido de
“casmurro” – o livro iniciado, sugerindo-lhe considerar a obra como sua, pois o
título lhe pertencia, e concluindo: “Há livros que apenas terão isso dos seus
autores; alguns nem tanto” – uma ampliação da ironia, agora dirigida a todos os
escritores medíocres, e por meio da qual o narrador afirma, de maneira oblíqua,
a superioridade da sua própria escrita.
Bento
é um narrador peculiar, consciente de que “a verossimilhança [...] é muita vez
toda a verdade”, mas nebuloso a ponto de concluir que sua vida “se casa bem à
definição”. Esta poderia ser a tão ansiada chave para Dom Casmurro, solução, no entanto, somente cabível se Bento não se
desdissesse o tempo todo ou se descrevesse os demais personagens de maneira
plana, o que, no caso de Machado, bem sabemos, é impossível.
O
leitor maduro tem consciência de que a vida é uma luta entre a aparência de
verdade e o realmente verdadeiro, luta surda, em que o real é vítima de
constantes refrações – maneira sutil de dizer que o homem se acostumou a
defraudar a verdade. Assim, o romance, sob o comando de Bento, espelha parcialmente
a vida: seu tema central não é o adultério, mas o uso obstinado de subterfúgios,
de instrumentos que, a cada capítulo, enganem o leitor, levando-o por um
labirinto cujo final é a decepção, pois todas as possíveis certezas foram
corrompidas.
Não
há inocência em Bento. E quanto mais o romance avança, mais temos certeza – a
única – de que ele é sardônico. Jamais saberemos se Capitu, sua mulher,
realmente o traiu, mas ele é claro ao afirmar suas intenções: “Capitu era
Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem.
Se ainda o não disse, fica. Se disse, fica também. Há conceitos que se devem
incutir na alma do leitor, à força de repetição”. A primeira parte da citação é
discurso vazio, rodeio, no qual, aliás, Bento é especialista; mas a última
frase não deixa dúvidas: ele tem um plano, quer levar seus leitores ingênuos à
confusão, a conclusões erradas, ou seja, a simplesmente acreditar no que diz.
Mas
não mereceria nosso crédito o narrador que revela o desejo de, num arroubo, ver
a própria mãe morta ou assassinar o filho inocente? Ou que afirma: “Eu
confessarei tudo o que importar à minha história”? Esse é o problema de Bento:
ele confessará apenas o que importar não à verdade, mas à sua história. E no
mesmo capítulo, ironicamente denominado “Adiemos a virtude”, dá um exemplo
esclarecedor: “[...] Agora que contei um pecado, diria com muito gosto alguma
bela ação contemporânea, se me lembrasse, mas não me lembra; fica transferida a
melhor oportunidade”. Que tipo de homem é esse, que não tem uma só “bela ação” para
relatar? Linhas abaixo, ele nos esclarece, destrinçando sua obscura moral: na
opinião de Bento, virtudes e pecados estão “aliados por matrimônio para se
compensarem na vida”, e “a regra é dar-se a prática simultânea dos dois, com
vantagem do portador de ambos”. Ora, se bem e mal são equivalentes, e se tal equilíbrio
é um benefício, então só nos resta perguntar, do começo ao fim do romance: onde
está o bem? E o mal? E que suposta igualdade de forças é essa, construída por
um discurso aliciador, bem arquitetado, mas permissivo? Que ele seja um homem
dividido entre o bem e o mal, até aí não há novidade – o problema é não nos
oferecer nenhuma prova fidedigna de bondade ou de maldade, sua ou de outrem,
mas apenas o discurso repleto de ironia.
O
riso à socapa de Bento não perdoa nem mesmo o ato de escrever, de narrar. No
longo capítulo “Um soneto” – longo para os padrões machadianos –, mostra-se digressivo,
mas termina com uma receita, em sua opinião infalível, para compor o poema: “Tudo
é dar-lhe uma ideia e encher o centro que falta”. Ou seja, escrever não
passaria de mera banalização.
Mas
Bento não recheia sua almofada de qualquer modo. Se ele fosse coerente, não
leríamos sua história, nem se o livro trouxesse, na capa, o nome de Machado de
Assis... São exatamente suas incongruências que nos atraem, principalmente
quando descobrimos com que disposição devaneia. Ele próprio, depois de recordar
o dia, na adolescência, em que imaginou receber a visita de Pedro II, conclui: “[...]
A imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados,
nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus”.
Nosso
narrador está sempre a um passo de fantasiar. Minutos depois de beijar Capitu a
primeira vez, volta a procurá-la, ainda excitado: “Fui ter com ela, e perguntei
se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não. A boca com que
respondeu era tal que cuida haver-me provocado um gesto de aproximação”. E
conclui, recordando melhor: “Certo é que Capitu recuou um pouco”. Assim, há
delírios de todos os tipos: breves e longos, detalhados ou sintéticos. Certa
mulher leva um tombo na rua e Bento entrevê as meias “muito lavadas” e as ligas
de seda azul: é o que basta. Da manhã daquela segunda-feira até o dia seguinte
só pensará nisso, seus pensamentos e sonhos confluirão para as meias, que
imagina esticadas, e para as ligas, certamente justas. Ao final, sua
sofreguidão é tamanha, que já não saberá ao certo o que viu, e se viu, mas a miragem
se prolonga por dias.
Tal
é o narrador que jura ser afligido por um “escrúpulo de exatidão”... E poucas páginas
depois, ao fim do trecho no qual confessa os poderosos dotes de sua imaginação,
com que preenche as lacunas deixadas pelos “livros omissos”, convida o leitor a
agir da mesma forma – confissão indireta das reticências propositais de sua
obra.
Naufrágio
No
entanto, se Dom Casmurro fosse apenas
o vaivém de um narrador que aparenta viver entre a melancolia, a alucinação e a
desonestidade, não conseguiria prender nossa atenção. É preciso mais para
compor um grande livro. E Machado domina os instrumentos necessários. Vejam, na
descrição desta cena algo cômica, o uso perfeito da pontuação, o vocabulário
preciso, o período composto de maneira a, num crescendo, não só reconstruir os
gestos do Tio Cosme, mas, no fim, dar-nos a viva imagem da massa descomunal que
derreia a montaria:
Era gordo e pesado, tinha a
respiração curta e os olhos dorminhocos. Uma das minhas recordações mais
antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o
levava ao escritório. O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o
freio, enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo – a isto seguia-se um
minuto de descanso ou reflexão. Depois, dava um impulso, o primeiro, o corpo
ameaçava subir, mas não subia; segundo impulso, igual efeito. Enfim, após
alguns instantes largos, tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais,
dava o último surto da terra, e desta vez caía em cima do selim. Raramente a
besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. Tio Cosme
acomodava as carnes, e a besta partia a trote.
Ele
também exibe perícia ao criar descrições cuja economia de recursos nos
transmite a impressão palpável do personagem. Não está todo nesta frase, diante
dos nossos olhos, o tenor amigo de Bento que, “quando andava, apesar de velho,
parecia cortejar uma princesa de Babilônia”?
Para
revelar a pobreza da família de Capitu, ele dissemina breves informações entre
os capítulos, de maneira que só o leitor atento formará um quadro completo. O
relato da penúria receberá ares sarcásticos quando se trata de Pádua, pai de
Capitu, mas sempre que a jovem for o eixo da narrativa, os elementos que
denunciam a miséria material surgirão camuflados pelo lirismo:
Não podia tirar os olhos
daquela criatura de quatorze anos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido
de chita, meio desbotado. Os cabelos grossos, feitos em duas tranças, com as
pontas atadas uma à outra, à moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena,
olhos claros e grandes, nariz reto e comprido, tinha a boca fina e o queixo
largo. As mãos, a despeito de alguns ofícios rudes, eram curadas com amor, não
cheiravam a sabões finos nem águas de toucador, mas com água do poço e sabão
comum trazia-as sem mácula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que
ela mesma dera alguns pontos.
Pouco
antes do primeiro beijo, depois que Bento penteia os cabelos de Capitu –
“desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que
pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes” –, ele procura com
que prender as pontas das tranças; e rapidamente encontra, “em cima da mesa, um
triste pedaço de fita enxovalhada”, elemento que não sombreia a cena, mas a sublima
como um gesto de piedade onde, se não fosse Machado de Assis, só existiria
arrebatamento, paixão.
E
o que dizer das “curiosidades de Capitu”, tema ao qual ele dedica o Capítulo
XXXI? Tudo a interessa, principalmente aquelas informações que possam
distanciá-la de sua realidade. A “pérola de César”, no “valor de seis milhões
de sestércios”, sobre a qual José Dias fala, e que o imperador teria dado a
certa mulher, “acende” os olhos da jovem. No capítulo seguinte, de maneira a
reforçar, delicadamente, a ambição antes descrita, quando Bento entra na casa
de sua amada, encontra-a penteando-se num “espelhinho de pataca (perdoai a
barateza), comprado a um mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão
[...]”.
Entre
os raros trechos de nossa literatura que merecem ser chamados de antológicos está
o Capítulo CXXIII. É o momento de fechar o caixão em que se encontra o corpo de
Escobar, melhor amigo do narrador, suposto amante de Capitu e pai de Ezequiel,
a criança que Bento acredita, de início, ser seu filho:
Enfim, chegou a hora da
encomendação e da partida. Sancha quis despedir-se do marido, e o desespero
daquele lance consternou a todos. Muitos homens choravam também, as mulheres
todas. Só Capitu, amparando a viúva, parecia vencer-se a si mesma. Consolava a
outra, queria arrancá-la dali. A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou
alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não
admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas...
As minhas cessaram logo.
Fiquei a ver as dela; Capitu enxugou-as depressa, olhando a furto para a gente
que estava na sala. Redobrou de carícias para a amiga, e quis levá-la; mas o
cadáver parece que a retinha também. Momento houve em que os olhos de Capitu
fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem palavras desta, mas
grandes e abertos, como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o
nadador da manhã.
Para
o leitor compreender os vetores que se entrelaçam nas últimas linhas é preciso
ler o livro, no qual as figuras marítimas estão presentes formando um sedimento
metafórico furtivo e aliciante, a começar pelos olhos de Capitu, “olhos de
ressaca”, pois “traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que
arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de
ressaca”. O “nadador da manhã” é o próprio Escobar, que, não por acaso, morrera
afogado. E lembrando-se de tudo com amargura – do amigo que ele supõe comborço
e da esposa que acredita adúltera –, o próprio Bento se refere a si mesmo “como
um marujo” a narrar “o seu naufrágio”.
Se
Capitu foi, de fato, essa Eva capaz de engolfar todos na sua volubilidade
ardilosa... Bem, há os que se dispõem a perder tempo com tal discussão. Mas diante
da estrutura subjacente à trama, aos liames que, a cada leitura, vamos
descobrindo, o enredo perde importância.
Machadismos
Mas
Machado às vezes cansa – e por esse motivo prefiro seus contos, nos quais,
graças à necessidade de síntese, está impedido de fazer tantos gracejos, tantas
paródias ao estilo de Laurence Sterne, outra de suas influências. Ele também
abusa da ironia, dos capitulozinhos explicativos, de certo eruditismo repleto
de amor pelas citações – um vezo de odor quiçá brasileiro, subdesenvolvido – e
das digressões, algumas bobas, como a que abre o Capítulo CXVIII:
Tudo acaba, leitor; é um
velho truísmo, a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito
tempo. Esta segunda parte não acha crentes fáceis, ao contrário, a ideia de que
um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito, dificilmente se
despegará da cabeça, e é bom que seja assim, para que se não perca o costume
daquelas construções quase eternas.
Esses
machadismos – presentes não só em Dom
Casmurro –, incluindo a falsa naturalidade com que se refere ao leitor, dão
à obra, por vezes, um tom pernóstico. E é decepcionante que, no caso de Dom Casmurro, ele não tenha resistido à
tentação de fazer seu protagonista assistir a Otelo, de Shakespeare, criando um paralelismo extremamente
batido.
Mas
esqueçamos o Machado de Assis que aprecia perguntas de algibeira, cujo texto
pode desprender, aqui e ali, um odor de naftalina e nos concentremos naquilo
que ele tem de excepcional.
A interrogação
A
síntese do narrador de Dom Casmurro é
oferecida no Capítulo II. Bento, já idoso, relata a construção da casa onde
mora, réplica minuciosa da que habitou quando jovem: “O meu fim evidente era
atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”. Mas confessa
sua derrota: “[...] Não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se
o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um
homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e
essa lacuna é tudo”.
Nascida
de fatos reais ou de sua imaginação, a amargura de Bento se espraia pelo
romance. Ela está por trás de suas gozações, do ciúme incontrolável – que o
obriga a abafar “os soluços com a ponta do lençol” –, da sua persistente,
doentia relação monetária com Deus, dos seus acessos de ódio, nos quais se
rebaixa a uma frieza demoníaca – ao saber da morte do filho, não se emociona,
mas consulta a Bíblia para ver, semelhante a um burocrata, se a citação
colocada na tumba está correta; e depois de jantar parte para o teatro –, e no
egoísmo que chega a ser atroz.
Mas,
não nos enganemos: Bento nos escapa. Quando diz a verdade? Ao afirmar que as
mulheres o achavam lindo e não o deixavam em paz, no Capítulo XCVII, ou quando
confessa, no Capítulo CXLVI, como todas se enfadavam rapidamente dele? O certo
é que Bento conta sempre a sua
verdade; e ela pode variar ao sabor dos seus humores, das suas quimeras. Um
homem assim está fadado à desilusão, pois condena os que o circundam a estarem
aquém dos seus sonhos.
Não
é possível termos sentimentos imutáveis em relação a ele ou a qualquer uma das
outras personagens. Ou melhor, há uma que merece nosso carinho da primeira à
última página: Dona Glória, a mãe do protagonista. E gostamos dela graças à
condescendência de seu filho, o narrador, que não nos contou seus defeitos –
mas a presenteou, ao enterrá-la, com uma lápide sem nome, na qual escreveu
somente “Uma santa”, expressão tão elogiosa quanto vaga.
Bento,
o homem que diz bastar-lhe “um sono quieto e apagado”, é o mesmo que remói suas
decepções com mórbido prazer – e ri do começo ao fim do livro. Seu riso,
entretanto, é o que Machado nega ao protagonista do conto “A causa secreta”:
não o riso “jovial e franco” de Fortunato, mas o “riso da dobrez”. Evasivo e
oblíquo, seu sarcasmo é, no fundo, triste. Sua exclamação final assemelha-se a
uma interjeição de agonia, o grito de desespero do solitário que não suporta a
si mesmo.
Depois
da morte da mãe, ao visitar a casa em que morara na juventude, Bento vai ao
quintal; observa cada pormenor, cada árvore – e tudo parece desconhecê-lo. O
tronco da casuarina, antes reto, agora sugere um ponto de interrogação. O
narrador vasculha o ar, busca uma resposta, “um pensamento que ali deixasse”,
mas nada encontra. Então a ramagem sussurra algo, ele imagina que seja “a
cantiga das manhãs novas”, mas “ao pé dessa música sonora e jovial”, escuta “o
grunhir dos porcos, espécie de troça concentrada e filosófica”. Esse é o
autêntico desenlace de Dom Casmurro,
escondido no Capítulo CXLIV: talvez não nos agrade – como o próprio livro
desagrada a tantos –, mas o romance que recusa a solução óbvia das tragédias, ressuma
fel e despreza a verdade só poderia terminar assim, com seu mofino narrador acorrentado
à natureza: ele a interroga – e ela, por ser finita, limitada, oferece-lhe a pior
das respostas.
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Resenhas
junho 28, 2012
Pobre Machado... Pobres de nós!
O
que seria uma “linguagem plenamente identificada, até hoje, com a melhor expressão brasileira”? E qual seria a “verdadeira identidade brasileira”? Seríamos
todos mulatos, epilépticos e sarcásticos?
Como
afirmei há alguns dias, este é realmente um tempo de simplismos, de raciocínios
esquemáticos e tristes generalizações. E há quem aplauda tudo isso!
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