maio 02, 2012

A crise dos jesuítas na América Latina


Em seu texto de hoje, o vaticanista Andrés Beltramo fala sobre a crise vivida pelos jesuítas latino-americanos. Não, não se trata de uma crise eventual, infelizmente. Trata-se, na verdade, de nítida ruptura, de escancarado desejo de insubordinação, de um patente movimento de secularização e laxismo que congrega parcela significativa da Companhia de Jesus, ordem que já foi conhecida por sua absoluta fidelidade ao Papa.

As denúncias apresentadas por Beltramo, contudo, ainda que gravíssimas, revelam apenas parte do declínio moral, filosófico e teológico vivido pelos jesuítas latino-americanos. Veja-se, por exemplo, no Brasil, o caso do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, cisto de filosofia marxista e projeto revolucionário que defende, abertamente, o que de mais radical há na Teologia da Libertação. Os jesuítas ali reunidos são, inclusive, anacrônicos – comprova-o o slogan de 1968 que serve como epígrafe e eixo estratégico do IHU: “Arrisca teus passos por caminhos pelos quais ninguém passou; arrisca tua cabeça pensando o que ninguém pensou”.

Sob o romantismo passadista dessa frase de efeito, esconde-se o esquerdismo e cultua-se, em nome da liberdade de pensamento, a vocação de afrontar o Magistério da Igreja e a Santa Tradição, tarefa que os jesuítas ali reunidos desempenham incansável e cotidianamente, amparados pelos superiores coniventes e por um episcopado dividido entre a tolerância excessiva – agradavelmente disfarçada de indulgência evangélica – e a timidez.

Agora mesmo prepara-se ali um Congresso Continental de Teologia, a ser realizado em outubro deste ano, cujo nome, no entanto, é deixado propositalmente incompleto, para camuflar o seu real objetivo: cultuar a Teologia da Libertação – é o que qualquer inteligência de média capacidade pode concluir dos textos que apresentam o evento.

Os jesuítas da Unisinos dão, assim, mais um passo no anelado projeto – deles e de parte dos nossos bispos – de desligar a Igreja latino-americana de Roma; de erigir a Teologia da Libertação à condição de pensamento hegemônico; de pensar e agir sem qualquer colegialidade – ou melhor, de construir uma falsa colegialidade, na qual as conferências episcopais passariam a falar ex cathedra e o Papa não seria o sucessor de Pedro, mas apenas um mero adereço.

Parte das consequências desse tipo de comportamento se manifesta na confusão moral, na achincalhação teológica defendida pelo jesuíta chileno Pedro Labrín, analisada com destemor por Andrés Beltramo. Há muito mais, contudo. A teologia defendida pelos jesuítas, incluindo os da Unisinos, é a grande arma de guerra que, nos últimos anos, destruiu a liturgia em centenas de nossas paróquias, transformando a celebração do Sacrifício de Jesus Cristo em festinhas de confraternização, reuniões sindicais ou encontros para se cantar, sapatear e saracotear ao ritmo de hinos protestantes ou canções que se assemelham a marchinhas de Carnaval.

Número significativo de jesuítas latino-americanos especializou-se em cumprir apenas a primeira parte da recomendação, apócrifa, de Inácio de Loyola – “Confia em Deus mas age como se o resultado de teus empreendimentos só dependesse de ti e não de Deus” –, preferindo esquecer o restante: “Entretanto, mesmo dedicando todos os teus cuidados a tais empreendimentos, age como se tua ação devesse ser nula e como se Deus devesse tudo fazer”.    

Sob a inspiração do Instituto Humanitas Unisinos – e de outros centros de teologia secularista –, os “padres de passeata” de Nelson Rodrigues se transformaram em perigosos neopelagianos, padres de chinelo, anelzinho de plástico imitando osso, rotas calças jeans e missas-relâmpago, nas quais a consagração é somente um elemento fortuito, superado pela “alegria de estar entre irmãos”. Eles certamente se acreditam os novos Franciscos de Assis, os novíssimos Inácios de Loyola, mas não passam de corruptelas do que a História da Igreja produziu de mais nobre e mais puro. Sob a bem cuidada imagem de vanguardistas, carregam o estandarte da decadência teológica, de uma teologia que não consegue erguer o olhar acima do próprio umbigo.

maio 01, 2012

O segredo do Papa Ratzinger


“À fé nula ou escassa de tantos homens de hoje, nas missas banalmente reduzidas a abraços da paz e assembleias solidárias, o papa Bento XVI oferece a fé substancial em um Deus que se faz realmente próximo, que se deixa tocar e comer.”

(Para aqueles que desejarem, em espanhol, a íntegra do artigo de Sandro Magister.)

abril 28, 2012

A ditadura do pensamento débil e a Igreja


“Sua mera existência [da Igreja Católica] como ‘metarrelato’, como visão densa do mundo, que utiliza ainda um conceito forte de verdade objetiva, resulta intolerável numa atmosfera intelectual presidida pelo pensamento débil, pela desconstrução pós-moderna, pela ‘ditadura do relativismo’ e pela convicção de que a crença em absolutos é sinônimo de fundamentalismo e intolerância.”

(in Nueva izquierda y Cristianismo, de Francisco José Contreras y Diego Poole)

abril 27, 2012

A dissidência, a fé dos simples e o neoclericalismo

Ótimo artigo do vaticanista Andrea Tornielli, publicado em Vatican Insider. Serve como uma luva a grande parte do mundo eclesiástico brasileiro, incluindo os teólogos esquerdistas.

abril 26, 2012

A importância da coragem literária


[...] A necessidade de cálculos prolongados ou o estabelecimento de esquemas complicados impedem o medroso e o inexperiente de se lançar a um estudo mais complexo; mas se dispomos de suficiente habilidade para analisar esses cálculos e estudar os princípios em que se baseiam, descobriremos que nossos medos careciam de fundamento. Divide e conquistarás é um princípio que se ajusta tanto à ciência como à política. As complicações constituem uma espécie de confederação que, enquanto está unida, desafia de forma ousada o cérebro mais ativo e poderoso; contudo, quando a desagregamos e tomamos suas partes em separado, pode-se submetê-la sem dificuldade e destruí-la sem oposição.

– Samuel Johnson

abril 24, 2012

Só uma coisa é sempre mortal


“Quando, depois de muitas mortes, morremos pela última vez, então nesse ato de vida suprema a existência deixou de morrer. Só uma coisa é sempre mortal: não querer morrer enquanto se vive. Toda morte realizada voluntariamente é origem de vida.”
—        Hans Urs von Balthasar

abril 19, 2012

Quando o sal ganha verdadeiro sabor – 7 anos de pontificado


Para comemorar o 7º ano do pontificado de Bento XVI, publico, a seguir, um trecho de sua homilia na Praça Terreiro do Paço de Lisboa, no dia 11 de maio de 2010:

Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?

Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.

abril 18, 2012

Para esquerdistas, “mensalão é salário justo de operário”


O parnaso-marxismo hegemonizou a estética faz tempo, mas a denúncia irônica de Régis Bonvicino será sempre atual. Abaixo, apenas alguns trechos do seu brilhante libelo “O Parnaso-marxismo”:

O parnaso-marxismo não tem vigor, mas tem rancor. O rancor é o seu verdadeiro “método crítico”.

O parnaso-marxismo fechou – como é habitual – os olhos para o social-liberalismo do PT de Lula. Se não faz crítica (o rancor é seu verdadeiro “método crítico”), em compensação, também não faz autocrítica. Para ele, “mensalão” é salário justo de operário.

O Parnaso-marxismo Inc. tranforma  – atrás de sua tela protetora marxiana – faculdades de Letras públicas em res privata.

abril 16, 2012

A reconquista da alegria


Pensamentos de Bento XVI extraídos do excelente artigo de Andrea Monda, “Un Papa raro: con ‘sentido del humor’”:

“Toda a minha vida está atravessada sempre por um fio condutor que é o seguinte: o cristianismo da alegria alarga os horizontes.”

“Se hoje a humildade foi desacreditada como virtude, não será de todo supérfluo observar que esse descrédito coincide com a grande regressão da alegria na literatura e na filosofia contemporâneas.”

“O elemento constitutivo do cristianismo é a alegria. Alegria não no sentido de uma diversão superficial, cujo fundo pode ser também a desesperação.”

“A alegria é o signo da graça. Quem está profundamente sereno, quem sofreu sem por isso perder a alegria, esse não está longe do Deus do Evangelho, do Espírito de Deus, que é o Espírito da alegria eterna.”

abril 13, 2012

É pouco, CNBB, muito pouco

Não basta uma Nota Oficial – tímida, burocrática e meramente protocolar –, senhores bispos. Não basta uma Nota Oficial que ninguém lê. Queremos ouvi-los clamando nos altares, denunciando em alta e indignada voz nas praças públicas, nos jornais, nas rádios, na Internet. Queremos ver, ouvir e participar da indignação dos senhores e de toda a Igreja. Queremos nos sentir verdadeiramente amparados e defendidos por nossos pastores. Queremos vê-los e ouvi-los agindo, à luz do dia, segundo a exortação de São Paulo: “Não vos conformeis com este mundo” (Rm 12, 2). Façam mais pela verdade, senhores bispos! Façam mais pela vida! 

abril 05, 2012

A homilia que será lembrada para sempre


Na história da Igreja Católica, poucas vezes um papa investiu, em suas homilias, contra um problema específico – e de forma clara, objetiva, sem usar recursos metafóricos. O Beato João Paulo II inaugurou, no século XX, o uso desse discurso direto, chegando a, em algumas oportunidades, admoestar publicamente os que se encontravam no caminho do erro.

Hoje, durante a Santa Missa Crismal, Bento XVI, movido pelo Espírito Santo, pleno de lucidez teológica e amor paternal, respondeu não só ao “Chamado à desobediência” dos padres austríacos, mas também àqueles que, pertencentes à Igreja Universal, semeiam a cizânia, a confusão entre os fieis, difundindo uma teologia “mais voluntariosa que iluminada, inteiramente dedicada à árdua e improvável tarefa de salvar, através de suas próprias categorias, a Jesus Cristo e Sua Palavra”, como bem afirmou, com evidente ironia, Dom Francesco Moraglia, o novo Patriarca de Veneza.

Chamando o clero à obediência, ao abandono do secularismo e do comportamento laxista – aliás, tão comum entre padres e bispos brasileiros –, Bento XVI foi claro: “[...] A configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. [...] Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda”. De fato, como dizia o Beato Cardeal John Henry Newman, “a crítica à Igreja sem disposição de obedecer resulta necessariamente estéril”.

Mais que uma crítica clara aos que desejam revolucionar a Igreja e lutam abertamente contra a Santa Tradição e o Magistério, as palavras de Bento XVI são um apelo a que toda a hierarquia eclesial retome o “zelo das almas”: “Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada”.

Abaixo, segue o texto integral da homilia:

Amados irmãos e irmãs!

Nesta Santa Missa, o nosso pensamento volta àquela hora em que o Bispo, através da imposição das mãos e da oração consacratória, nos integrou no sacerdócio de Jesus Cristo, para sermos «consagrados na verdade» (Jo 17, 19), como Jesus pediu ao Pai na sua Oração Sacerdotal. Ele mesmo é a Verdade. Consagrou-nos, isto é, entregou-nos para sempre a Deus, a fim de que, a partir de Deus e em vista d’Ele, pudéssemos servir os homens. Mas somos também consagrados na realidade da nossa vida? Somos homens que atuam a partir de Deus e em comunhão com Jesus Cristo? Com esta pergunta, o Senhor está diante de nós, e nós diante d’Ele. «Quereis viver mais intimamente unidos a Cristo e configurar-vos com Ele, renunciando a vós mesmos e permanecendo fiéis aos compromissos que, por amor de Cristo e da sua Igreja, aceitastes alegremente no dia da vossa Ordenação Sacerdotal?» Tal é a pergunta que, depois desta homilia, será dirigida singularmente a cada um de vós e a mim mesmo. Nela, são pedidas sobretudo duas coisas: uma união íntima, mais ainda, uma configuração a Cristo e, condição necessária para isso mesmo, uma superação de nós mesmos, uma renúncia àquilo que é exclusivamente nosso, à tão falada autorrealização. É-nos pedido que não reivindique a minha vida para mim mesmo, mas a coloque à disposição de outrem: de Cristo. Que não pergunte: Que ganho eu com isso? Mas sim: Que posso eu doar a Ele e, por Ele, aos outros? Ou mais concretamente ainda: Como se deve realizar esta configuração a Cristo, que não domina mas serve, não toma mas dá. Como se deve realizar na situação tantas vezes dramática da Igreja de hoje? Recentemente, num país europeu, um grupo de sacerdotes publicou um apelo à desobediência, referindo ao mesmo tempo também exemplos concretos de como exprimir esta desobediência, que deveria ignorar até mesmo decisões definitivas do Magistério, como, por exemplo, na questão relativa à Ordenação das mulheres, a propósito da qual o beato Papa João Paulo II declarou de maneira irrevogável que a Igreja não recebeu, da parte do Senhor, qualquer autorização para o fazer. Será a desobediência um caminho para renovar a Igreja? Queremos dar crédito aos autores deste apelo quando dizem que é a solicitude pela Igreja que os move, quando afirmam estar convencidos de que se deve enfrentar a lentidão das Instituições com meios drásticos para abrir novos caminhos, para colocar a Igreja à altura dos tempos de hoje. Mas será verdadeiramente um caminho a desobediência? Nela pode-se intuir algo daquela configuração a Cristo que é o pressuposto para toda a verdadeira renovação, ou, pelo contrário, não é apenas um impulso desesperado de fazer qualquer coisa, de transformar a Igreja segundo os nossos desejos e as nossas ideias?

Mas o problema não é assim tão simples. Porventura Cristo não corrigiu as tradições humanas que ameaçavam sufocar a palavra e a vontade de Deus? É verdade que o fez, mas para despertar novamente a obediência à verdadeira vontade de Deus, à sua palavra sempre válida. O que Ele tinha a peito era precisamente a verdadeira obediência, contra o arbítrio do homem. E não esqueçamos que Ele era o Filho, com a singular autoridade e responsabilidade de desvendar a autêntica vontade de Deus, para deste modo abrir a estrada da palavra de Deus rumo ao mundo dos gentios. E, por fim, Ele concretizou o seu mandato através da sua própria obediência e humildade até à Cruz, tornando assim credível a sua missão. Não se faça a minha vontade, mas a tua: esta é a palavra que revela o Filho, a sua humildade e conjuntamente a sua divindade, e nos indica a estrada.

Deixemo-nos interpelar por mais uma questão: Não será que, com tais considerações, o que na realidade se defende é o imobilismo, a rigidez da tradição? Não! Quem observa a história do período pós-conciliar pode reconhecer a dinâmica da verdadeira renovação, que frequentemente assumiu formas inesperadas em movimentos cheios de vida e que tornam quase palpável a vivacidade inexaurível da santa Igreja, a presença e a ação eficaz do Espírito Santo. E se olharmos para as pessoas de quem dimanaram, e dimanam, estes rios pujantes de vida, vemos também que, para uma nova fecundidade, se requer o transbordar da alegria da fé, a radicalidade da obediência, a dinâmica da esperança e a força do amor.

Queridos amigos, daqui se vê claramente que a configuração a Cristo é o pressuposto e a base de toda a renovação. Mas talvez a figura de Cristo nos apareça por vezes demasiado alta e grande para podermos ousar tomar as suas medidas. O Senhor sabe-o. Por isso providenciou «traduções» em ordens de grandeza mais acessíveis e próximas de nós. Precisamente por este motivo, São Paulo resolutamente diz às suas comunidades: Imitai-me, mas eu pertenço a Cristo. Ele era para os seus fiéis uma «tradução» do estilo de vida de Cristo, que eles podiam ver e à qual podiam aderir. A partir de Paulo e ao longo de toda a história, existiram continuamente tais «traduções» do caminho de Jesus em figuras históricas vivas. Nós, sacerdotes, podemos pensar numa série imensa de sacerdotes santos que vão à nossa frente para nos apontar a estrada, a começar por Policarpo de Esmirna e Inácio de Antioquia, passando por grandes Pastores como Ambrósio, Agostinho e Gregório Magno, depois Inácio de Loiola, Carlos Borromeu, João Maria Vianney, até chegar aos sacerdotes mártires do século XX e, finalmente, ao Papa João Paulo II, que, na acção e no sofrimento, nos serviu de exemplo na configuração a Cristo, como «dom e mistério». Os Santos indicam-nos como funciona a renovação e como podemos servi-la. E fazem-nos compreender também que Deus não olha para os grandes números nem para os êxitos exteriores, mas consegue as suas vitórias sob o sinal humilde do grão de mostarda.

Queridos amigos, queria ainda, brevemente, acenar a duas palavras-chave da renovação das promessas sacerdotais, que deveriam induzir-nos a refletir nesta hora da Igreja e da nossa vida pessoal. Em primeiro lugar, é-nos recordado o facto de sermos – como se exprime Paulo - «dispensadores dos mistérios de Deus» (1 Cor 4, 1) e que nos incumbe o ministério de ensinar, o (munus docendi), que constitui precisamente uma parte desta distribuição dos mistérios de Deus, onde Ele nos mostra o seu rosto e o seu coração, para Se dar a Si mesmo. No encontro dos Cardeais por ocasião do recente Consistório, diversos Pastores, baseando-se na sua experiência, falaram dum analfabetismo religioso que cresce no meio desta nossa sociedade tão inteligente. Os elementos fundamentais da fé, que no passado toda e qualquer criança sabia, são cada vez menos conhecidos. Mas, para se poder viver e amar a nossa fé, para se poder amar a Deus e, consequentemente, tornar-se capaz de O ouvir corretamente, devemos saber aquilo que Deus nos disse; a nossa razão e o nosso coração devem ser tocados pela sua palavra. O Ano da Fé, a comemoração da abertura do Concílio Vaticano II há 50 anos, deve ser uma ocasião para anunciarmos a mensagem da fé com novo zelo e nova alegria. Esta mensagem, na sua forma fundamental e primária, encontramo-la naturalmente na Sagrada Escritura, que não leremos nem meditaremos jamais suficientemente. Nisto, porém, todos sentimos necessidade de um auxílio para a transmitir rectamente no presente, de modo que toque verdadeiramente o nosso coração. Este auxílio encontramo-lo, em primeiro lugar, na palavra da Igreja docente: os textos do Concílio Vaticano II e o Catecismo da Igreja Católica são os instrumentos essenciais que nos indicam, de maneira autêntica, aquilo que a Igreja acredita a partir da Palavra de Deus. E naturalmente faz parte de tal auxílio todo o tesouro dos documentos que o Papa João Paulo II nos deu e que está ainda longe de ser cabalmente explorado.

Todo o nosso anúncio se deve confrontar com esta palavra de Jesus Cristo: «A minha doutrina não é minha» (Jo 7, 16). Não anunciamos teorias nem opiniões privadas, mas a fé da Igreja da qual somos servidores. Isto, porém, não deve naturalmente significar que eu não sustente esta doutrina com todo o meu ser e não esteja firmemente ancorado nela. Neste contexto, sempre me vem à mente o seguinte texto de Santo Agostinho: Que há de mais meu do que eu próprio? E no entanto que há de menos meu do que o sou eu mesmo? Não me pertenço a mim próprio e torno-me eu mesmo precisamente pelo facto de me ultrapassar a mim próprio e é através da superação de mim próprio que consigo inserir-me em Cristo e no seu Corpo que é a Igreja. Se não nos anunciamos a nós mesmos e se, intimamente, nos tornamos um só com Aquele que nos chamou para sermos seus mensageiros de tal modo que sejamos plasmados pela fé e a vivamos, então a nossa pregação será credível. Não faço publicidade de mim mesmo, mas dou-me a mim mesmo. Como sabemos, o Cura d’Ars não era um erudito, um intelectual. Mas, com o seu anúncio, tocou os corações das pessoas, porque ele mesmo fora tocado no coração.

A última palavra-chave, a que ainda queria aludir, designa-se zelo das almas (animarum zelus). É uma expressão fora de moda, que hoje já quase não se usa. Nalguns ambientes, o termo «alma» é até considerado como palavra proibida, porque – diz-se – exprimiria um dualismo entre corpo e alma, cometendo o erro de dividir o homem. Certamente o homem é uma unidade, destinada com corpo e alma à eternidade. Mas isso não pode significar que já não temos uma alma, um princípio constitutivo que garante a unidade do homem durante a sua vida e para além da sua morte terrena. E, enquanto sacerdotes, preocupamo-nos naturalmente com o homem inteiro, incluindo precisamente as suas necessidades físicas: com os famintos, os doentes, os sem-abrigo; contudo, não nos preocupamos apenas com o corpo, mas também com as necessidades da alma do homem: com as pessoas que sofrem devido à violação do direito ou por um amor desfeito; com as pessoas que, relativamente à verdade, se encontram na escuridão; que sofrem por falta de verdade e de amor. Preocupamo-nos com a salvação dos homens em corpo e alma. E, enquanto sacerdotes de Jesus Cristo, fazemo-lo com zelo. As pessoas não devem jamais ter a sensação de que o nosso horário de trabalho cumprimo-lo conscienciosamente, mas antes e depois pertencemo-nos apenas a nós mesmos. Um sacerdote nunca se pertence a si mesmo. As pessoas devem notar o nosso zelo, através do qual testemunhamos de modo credível o Evangelho de Jesus Cristo. Peçamos ao Senhor que nos encha com a alegria da sua mensagem, a fim de podermos servir, com jubiloso zelo, a sua verdade e o seu amor. Amém.

abril 04, 2012

Memória e lágrimas: “Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto”, de Daniel Mendelsohn


No Canto I da Eneida, o protagonista, Eneias, se depara, em certo templo de Cartago, com um mural que retrata a Guerra de Troia, de que fora um dos poucos sobreviventes. E, chorando, lastima: Sunt lacrimae rerum, et mentem mortalia tangunt (“Há lágrimas nas coisas, e os sofrimentos tocam nossa alma”). Para Daniel Mendelsohn, autor de Os desaparecidos – a procura de 6 em 6 milhões de vítimas do Holocausto, a primeira parte desse verso se transforma, à medida que o escritor avança em sua busca, numa “espécie de legenda para distâncias comoventemente insuperáveis criadas pelo tempo”. No caso de Eneias, o adorno do templo cartaginês representou a revivescência de um fato terrível. No que se refere a Mendelsohn, o autor testemunha emoção semelhante à do troiano quando apresenta, a uma de suas entrevistadas, fotografias dos familiares mortos no Holocausto: para ele, imagens de parentes quase desconhecidos, dos quais tentava se aproximar décadas depois de terem sido assassinados; mas à idosa sentada a seu lado, que convivera vários anos com aquelas pessoas e participara dos acontecimentos brutais que as condenaram à morte, as fotos tinham um significado pungente. “Eles estiveram lá e nós, não”, conclui Mendelsohn, e assevera: “Há lágrimas nas coisas; mas todos nós choramos por razões diferentes”.

De fato, a ampla, exaustiva investigação de Os desaparecidos é uma pugna detetivesca, às vezes angustiosa, às vezes consoladora, mas sempre lacunar, marcada pela distância não só temporal, não apenas física, mas também psicológica. Em vão Mendelsohn tentará preencher o vácuo que o separa dos familiares mortos sob o nazismo, pois, apesar de todas as suas inúmeras descobertas, ele guarda uma torturante certeza:

[...] quanto mais eu conversava com as pessoas, mais estava ciente de quanto simplesmente não pode ser conhecido, em parte porque a coisa [...] jamais foi testemunhada e, portanto, é agora incognoscível, e em parte porque a própria memória daquelas coisas que foram testemunhadas pode pregar peças, pode omitir o que é doloroso demais, ou ser enfeitada de modo a se adequar a um padrão do qual gostamos.

Sim, nenhum esforço, nenhum empenho poderá preencher as fissuras que nascem desta certeza: “Eles estiveram lá e nós, não”. Ou, como diz padre António Vieira, “os discursos de quem não viu, são discursos; os discursos de quem viu, são profecias”.

Mas, de que forma nasce Os desaparecidos? O que move seu autor na direção do passado, em busca da vida e da morte de seis parentes – o tio-avô materno, sua esposa e as quatro filhas – perdidos entre seis milhões de vítimas?

Tudo começa por uma leve semelhança e as reações que ela provoca. Quando menino, Mendelsohn tem alguns traços – certo arco desenhado pela sobrancelha e a linha do queixo – de Shmiel Jäger, o tio-avô. E sempre que os parentes veem a criança, a emoção, incontrolável, aflora. Com o tempo, às perguntas sobre o motivo das lágrimas acrescenta-se a personalidade do garoto que criva o avô materno – homem refinado, religioso, que “transpira europeidade” – de perguntas e não se cansa de ouvi-lo contar histórias familiares, dentre as quais, a dos seis mortos é a única que permanece incompleta. Somem-se a tais elementos o adolescente que ama o estudo, a busca da verdade, a incansável classificação de informações, e o adulto apaixonado pela literatura clássica – e teremos o quadro propício à investigação serena, lúcida, que Mendelsohn empreende, emocionando-se diante de cada nova descoberta, sem desistir mesmo quando sofre decepções. Uma pesquisa que procura saber, minuciosamente, não apenas como seis pessoas morreram, mas também como viveram e... como viveram seus últimos momentos.

Daniel Mendelsohn cria, assim, uma impressionante teia de memórias, na qual se entrecruzam o epistolário familiar, genealogias, testemunhos de sobreviventes, viagens transoceânicas, história do antissemitismo, exegese bíblica e poucos mas surpreendentes sincronismos.

Consciência do efêmero

A estrutura do livro obedece a um permanente diálogo entre as descobertas do autor e seus pensamentos sobre duas diferentes interpretações da Torá: a do rabino francês Shlomo ben Itz’hak, mais conhecido como Rashi, nascido em Troyes, em 1040, e a do rabi Richard Elliot Friedman, mais recente, que busca ligar o texto antigo à vida contemporânea. Os comentários desses estudiosos iluminam as idas e vindas de Mendelsohn, que recupera várias das loucuras cometidas em nome do antissemitismo – das vinganças ocasionais aos assassinatos sistemáticos das aktionen nazistas, passando por diferentes perseguições de ordem econômica –, parte da história da Galícia, figuras marcantes do pensamento judaico e o somatório de detalhes que compõem a existência dos heróis anônimos que, vivendo na cidadezinha polonesa onde seu tio-avô residia – Bolechow (hoje Bolekhiv, na Ucrânia) –, conseguiram sobreviver.

Mendelsohn constrói lentamente sua narrativa, apoiando-se nesses fragmentos de memórias sofridas, das quais, muitas vezes, avulta a pior das dores, a psíquica. Enquanto descortina a verdade sobre seus familiares, também acorda para suas lembranças da infância – quando se sentia decepcionado com seu povo, que lhe parecia, ele confessa, “um povo de perdedores” – e da adolescência, quando compreende o que é ser judeu e de como estava ligado a uma intrincada e milenar trama de relações.  

Sessenta anos depois do Holocausto e duas décadas após o suicídio de seu avô, que já não suportava a tortura do câncer, Mendelsohn aprenderá que o trivial pode se transformar, com a passagem do tempo, em algo merecedor de ser preservado. Cada nova revelação ampliará sua angústia, fazendo-o tomar consciência de como “é fácil para alguém se perder, permanecer desconhecido para sempre”. Durante os longos meses em que procura dar vida aos que morreram, experimentará a decepção de não poder modificar o passado – e também, durante raros e gratificantes momentos, a proximidade com os mortos, até acordar para a verdade das palavras do irmão que o acompanha na maioria das viagens: “o Holocausto não foi algo que simplesmente aconteceu, mas é um evento que ainda está acontecendo”.

Duplo investigador

Contudo, se há uma característica central nessa busca que se defronta ora com testemunhos contraditórios, ora com relatos que desmentem, inclusive, parte das histórias que o próprio avô de Mendelsohn contava, ela tem um nome: fragilidade. Mas, terrível ironia, é exatamente essa fragilidade, nascida da distância de que falávamos acima, que permite a existência do narrador, daquele que se propõe contar a história.

Dentre outros méritos, o narrador de Os desaparecidos não hesita em expor até mesmo divisões familiares, velhos ressentimentos. Não o faz para obedecer a alguma doentia compulsão, mas porque – movido, aparentemente, pela sinceridade – estabelece analogias entre o passado de seus ancestrais, próximos e distantes, e as descobertas que realiza no presente, utilizando-as como parte de seu método investigativo. Acompanhamos, assim, um duplo pesquisador: o que interroga suas testemunhas e o que se questiona sobre de que maneira as respostas obtidas não só o aproximam ou afastam da verdade, mas também lhe franqueiam as portas do autoconhecimento e das raízes do judaísmo.

Dotado de bom humor, destituído de qualquer ingenuidade, Mendelsohn está certo de que todo conhecimento traz, em seu bojo, alguma dor – e que se há orgulho na acumulação do saber, há também a possibilidade de conhecer certas coisas tarde demais para que nos façam algum bem. Dessa forma, ele nunca deixa de se perguntar se deve ou não prosseguir.

Inspirando-se na técnica narrativa do avô, plena de digressões, técnica reencontrada, anos mais tarde, em Homero, Heródoto, Proust e Sebald, esse narrador detalhista mostra-se capaz de analisar inclusive sutilezas linguísticas, com o objetivo de esclarecer, por exemplo, o sentido de uma palavra em iídiche – e assim iluminar sua história e a de seu povo.

Mas, insisto, trata-se, acima de tudo, de uma voz consciente de que seu olhar e suas conclusões sobre o testemunho dos que viveram o Holocausto é, somente, uma frágil aproximação da verdade.

O homem que vê e se vê

Homenagem aos que se recusam a esquecer, preito à memória, a cada página de Os desaparecidos ressoa a exclamação: lembrem dos judeus de Bolechow, daqueles milhares que foram humilhados gratuitamente e morreram sob a iniquidade. Ao final, deles restaram apenas 48, dispersos sobre a terra. E lembrem-se também daqueles seis, emudecidos pelo ódio.

Mais de três séculos antes de Os desaparecidos ser publicado, no ano de 1674, em Roma, pronunciando, perante a rainha Cristina da Suécia, o panegírico “Lágrimas de Heráclito”, António Vieira comentava o verso de Virgílio que Mendelsohn escolheu como epígrafe:

Não residem as lágrimas só nos olhos, que veem os objetos, mas nos mesmos objetos, que são vistos; ali está a fonte, aqui está o rio; ali nascem as lágrimas, aqui correm; e se as mesmas coisas que não veem, choram, quanto mais razão tem o homem que vê e se vê?.


Quando chegamos às páginas finais de Os desaparecidos, descobrimos – ou lembramos – quão extensa é a dor que impregna a vida – ainda que tal verdade seja perceptível apenas ao “homem que vê e se vê” –, pois o relato de Daniel Mendelsohn nos fornece inúmeras, desoladoras razões para distinguir as lágrimas das coisas, chorar com elas – e também por nós.

abril 03, 2012

Puro pedantismo

No Rascunho deste mês, minha análise do romance Canaã, de Graça Aranha: “Jamais entendi por qual motivo afirma-se que Canaã é um romance nacionalista — e, consequentemente, teria sido uma das obras que anteciparam as ideias da Semana de 22. A bem da verdade, se há exaltação dos valores nacionais nesse livro, estão descritos às avessas — ou foram encontrados por algum crítico fantasioso. [...] A cada página, reaparece o fel do naturalismo, pretensamente científico, de Aluísio Azevedo. Eco da escola evolucionista e do germanismo de Tobias Barreto, de quem Graça Aranha foi discípulo, Canaã também apresenta respingos da lama frenologista e preconceituosa de Mestiçagem, degenerescência e crime, de Nina Rodrigues”.

abril 02, 2012

Ao ego de Leonardo Boff, sem retoques

Alguém, por favor, avise a Leonardo Boff que ninguém está aguardando por ele na Igreja Católica; que não somos agradecidos a ele – e a outros teólogos da libertação – pela cizânia que semearam entre nós (e continuam tentando semear); que desejamos que ele continue vendendo bem os seus livros de teologia New Age, publicados por uma editora supostamente fransciscana, pois o que seria do mercado editorial se não existisse subliteratura?; e que a Igreja, Bento XVI e nós, católicos fieis a Roma, dormimos todas as noites sem dar a mínima para o que ele pensa, deixou de pensar ou falou aos esquerdistas empregados no Estadão.

abril 01, 2012

Pantomimas no Domingo de Ramos (ou, se preferirem: Para onde vai a Igreja no Brasil?)

Hoje, porta de entrada para a Semana Santa, fui brindado com altas doses de populismo durante a missa. Não, não bastaram os cânticos semelhantes a marchinhas de Carnaval, em alto volume, com os fiéis, empolgados, quase sambando na procissão. O bom padre, aparentemente certo de estar fazendo o melhor, primeiro dispensou-se de pronunciar a homilia, pois, segundo ele, “nada pode substituir o que que cada um sente em seu coração”. Antes do ofertório, contudo, foi enfático ao falar sobre a importância da coleta para a Campanha da Fraternidade – e insistiu que fôssemos “generosos”. No Pai Nosso, inventou um teatrinho alegre, exigindo que todos erguessem a mão direita para o alto – a fim de “segurar na mão de Jesus” – e com a esquerda apertassem com força o ombro do irmão que estivesse ao lado, pois precisamos “demonstrar como somos verdadeiramente unidos” (para minha sorte, a pessoa que estava a meu lado era uma frágil octogenária...). Antes da comunhão, disse que queria ver “todos sorrindo, todos com alegria”, pois ele e os ministros não estavam “dando veneno” às pessoas. E insistiu que devemos sempre recusar a comunhão quando o “padre ou ministro não sorri”. Ainda insatisfeito, recusou-se a dar a bênção final, alegando que, “depois de tantos anos de sacerdócio”, seu “estoque de bênçãos tinha se esgotado” – pelo visto, ele realmente acredita que a bênção é obra pessoal sua, e não fruto da Graça de Deus, da qual ele serve, apenas, como intermediário. E, respondendo ao apelo do padre, a assembleia novamente se transformou num rancho de Carnaval. Parti, então, para casa, em busca do silêncio do meu lar e da homilia de Bento XVI, deixando um padre realizado, certo de ter feito o melhor, não sem antes que ele, sorrindo, feliz, perguntasse a todos, de maneira a finalizar dignamente a celebração: “Até que a missa não demorou muito, né, pessoal?!”. Foram suas últimas e santas palavras.

março 23, 2012

Diálogo com Joseph Pearce

Um dos grandes críticos literários da atualidade, infelizmente desconhecido no Brasil, nesta longa entrevista Joseph Pearce fala sobre Shakespeare, Chesterton, C. S. Lewis, John Henry Cardeal Newman, J. R. R. Tolkien e vários outros assuntos. A entrevista, em espanhol, pode ser lida, na íntegra, aqui. Imperdível.

março 10, 2012

O meu verdadeiro destino


“A Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino.”

Flannery O’Connor

(Agradeço ao amigo Karleno Márcio Bocarro, que publicou a frase da escritora Flannery O’Connor em seu perfil, no Facebook.)

março 07, 2012

“Jana e Joel”, de Xavier Marques

Na edição deste mês do Rascunho, minha análise da novela Jana e Joel, de Xavier Marques: “Longe de ser obra-prima, Jana e Joel revela, em seu perfil agradavelmente anacrônico, um dos caminhos possíveis à nossa literatura, projeto repudiado pelos modernistas mas ainda aberto à inventividade dos que se dispuserem a escrever boas histórias, sem a obrigação de fazer, a cada parágrafo, malabarismos verbais”.

março 01, 2012

Hoje, primeira aula do curso “Bases da criação literária”


1. Introdução:
O que é criação literária. Diferentes processos criativos. A teoria literária: independência e relação com a cultura.

2. O real:
A realidade e a categoria da experiência. A “província da arte”, segundo Henry James. O “eu” e a “circunstância” de Ortega y Gasset.


– Inscrições abertas: Cedet Online.

fevereiro 27, 2012

Curso “Bases da criação literária”

Aula inaugural: dia 1º de março, quinta-feira, às 20h30, via Internet (Cedet.Online). Inscrições abertas.

fevereiro 13, 2012

Romper a escuridão, a dúvida e a loucura

Nos próximos dias 1, 8, 15 e 22 de março (quintas-feiras), das 20h30 às 21h30, ministrarei, on-line, o curso “Bases da criação literária”. Durante quatro aulas, vamos dar os primeiros passos para romper a escuridão, a dúvida e a loucura de que falava Henry James: “Trabalhamos na escuridão – fazemos o que podemos – damos o que temos. Nossa dúvida é nossa paixão, e nossa paixão é nossa tarefa. O resto é a loucura da arte”. A síntese do curso e outras informações podem ser encontradas na página do Cedet Online, que transmitirá as aulas.

fevereiro 11, 2012

O homem medíocre e seus escritores prediletos

“Ao medíocre agradam-lhe os escritores que não dizem nem sim nem não sobre nenhum tema, que nada afirmam e que tratam com respeito todas as opiniões contraditórias. Toda afirmação lhe parece insolente, pois exclui a proposição contrária. Mas se alguém é um pouco amigo e um pouco inimigo de todas as coisas, o medíocre o considerará sábio e reservado, admirará sua delicadeza de pensamento e elogiará o talento das transições e dos matizes.

Para escapar da censura de intolerante, feita pelo medíocre a todos os que pensam solidamente, seria necessário se refugiar na dúvida absoluta; e, ainda nesse caso, seria preciso não chamar a dúvida pelo seu nome. É necessário formulá-la em termos de opinião modesta, que preserva os direitos da opinião oposta, tomar ares de dizer alguma coisa e não dizer nada. É preciso acrescentar a cada frase uma perífrase açucarada: ‘parece que’, ‘ousaria dizer que’, ‘se é permitido expressar-se assim’.” – Ernest Hello

fevereiro 08, 2012

– Professor, o que é subliteratura?


“La sub-literatura es el conjunto de libros estimables que cada nueva generación lee con deleite, pero que nadie puede releer.” – Nicolás Gómez Dávila (Escolios a un texto implícito)

fevereiro 07, 2012

Murilo Rubião e suas respostas à vida agonizante


          A reduzida obra de Murilo Rubião pode ser qualificada como extemporânea, se a analisamos no âmbito estrito da literatura brasileira. Contudo, quando observados sob um ângulo mais abrangente, o da produção literária latino-americana, os contos do escritor mineiro passam a dialogar com o realismo mágico de, por exemplo, Borges e Cortázar.

Alguns preferem utilizar a expressão “realismo fantástico” para designar esse subgênero que foi renovado durante o famoso boom da literatura latino-americana de língua hispânica e alcançou importância medular na literatura mundial, mas o qualificativo “mágico” reflete melhor essa ficção aparentemente realista, na qual fantasia e realidade confundem-se a ponto de ser impossível, algumas vezes, discerni-las com precisão. Os elementos extraordinários ou maravilhosos encontram-se inseridos na normalidade, nunca obscurecidos pelo corriqueiro, mas despontando aqui e ali, de maneira a provocar guinadas no enredo, extasiar ou confundir o leitor, ou simplesmente inocular desconsolo, espanto, estranheza. Trata-se de uma literatura que privilegia o insólito, mas sem ferir a congruência interna das narrativas, criando, sob a aparência de absoluta naturalidade, uma verossimilhança cuja lógica está fundada no irreal, mas não necessariamente no fantasmagórico ou no terror.

Em sua tentativa de rastrear as origens do realismo mágico, o filósofo mexicano Ramón Xirau, no ensaio “Crisis del realismo” (América Latina en su literatura), procura “os diversos sintomas e diversos caminhos de uma busca literária que não se conforma com um realismo relativo aos fatos”, e os encontra nas primeiras narrativas da literatura espanhola, como o Cantar del Mío Cid: “[...] Nesta literatura real e de vulto, às vezes exposta brutalmente, sem paliativos, está muitas vezes presente uma maneira de violentar a realidade e transcendê-la. El Cid é real e concreto; não esqueçamos que ganha sua última batalha, já herói mítico, depois de morto”.

Com certeza, não são essas as raízes do realismo mágico de Rubião, mas talvez remontem àquela primeira narrativa da descoberta, quando, sob o olhar de Pero Vaz de Caminha, os índios tornam-se “tão limpos e tão gordos e tão fremosos que não pode ser mais!”, sem esquecer das descrições sobre o Éden enfim reencontrado, que conformam um relato nitidamente onírico, no qual já se anunciava, segundo a observação de Luciana Stegagno Picchio (História da literatura brasileira), “o mito sempre colimado [...] do eldorado edênico, ‘visão do paraíso’, na feliz expressão de Sérgio Buarque de Holanda [...]”.

Decepções irremediáveis

No entanto, se de fato forem essas as raízes do realismo mágico brasileiro, Murilo Rubião utiliza tal herança de maneira felizmente adversa, destruindo qualquer possibilidade de esperança, subvertendo o ideal do paraíso à crua realidade, na qual o tédio, a amargura, o amor irrealizado, o desespero irremediável e as buscas decepcionantes são intensificados pelo elemento de delírio que, ao invés de oferecer uma possibilidade de escape ou de superação metafísica, massacra ainda mais os personagens aflitos, quase sempre medíocres, escravizados às suas familiazinhas pequeno-burguesas – ou tentando inutilmente fugir delas – e ao cotidiano mesquinho.

         Em “A casa do girassol vermelho”, por exemplo, no livro de mesmo título, a narrativa começa sob um clima de alegria sensual. O êxtase físico marca as páginas iniciais com ânimos inflamados pelo sentimento de libertação. “[...] Naquela manhã quente, queimada por um sol violento, a Casa do Girassol Vermelho, com os seus imensos jardins, longe da cidade e do mundo, respirava uma alegria desvairada”, diz o narrador. Pouco a pouco, a sombra do velho Simeão, “porco imundo” e “puritano hipócrita”, pai adotivo de todos os personagens, falecido subitamente, retorna ao convívio dos filhos, pois suas agressões são inesquecíveis. Então, a atmosfera de entusiasmo se arrefece, não só por causa das lembranças opressivas, mas também pela morte de um dos irmãos, o desbocado Xixiu, que submerge nas águas da represa. A partir desse ponto, é como se o velho Simeão jamais tivesse morrido. “Olhavam-me mudos”, diz o narrador, “os rostos sem esperança. [...] Tudo se quebrara.” Eles viviam “o último dia”, sem nada que pudesse amenizar a existência, contaminados pela morte e pelas dores que toda a euforia inicial não conseguira abrandar. Assim, sem qualquer explicação, os personagens se entregam a um fado de silencioso desespero, enquanto o narrador vê nascer, no ventre de uma das irmãs, “as primeiras pétalas de um minúsculo girassol vermelho”.

A mesma irrecuperabilidade encontra-se em “O lodo” (in O pirotécnico Zacarias). Os desencontros marcam, desde o começo, a relação entre Galateu e o psicanalista Pink da Silva e Glória, a quem o primeiro procura, motivado por “uma depressão ocasional”. O diagnóstico surge antes mesmo do término da primeira consulta: “[...] Repreensivo, assegurou que o paciente carregava dentro de si imenso lodaçal”. Sem nada entender, o paciente se recusa a continuar o tratamento. Perseguido por Pink, que insiste em curá-lo, Galateu se debate em um delírio crescente e angustiante. Depois de ter um pesadelo – “uma faca penetrava-lhe a carne, escarafunchava os tecidos, à procura de um segredo. Sua irmã Epsila e o analista, debruçados sobre seu corpo, acompanhavam atentos os movimentos irregulares da lâmina” –, ele acorda e, ao se olhar no espelho, vê que, no lugar do mamilo esquerdo, “despontara uma ferida sangrenta, aberta em pétalas escarlates”. O pesadelo deixara sua marca. O espanto, contudo, é superado. Passados dois meses de aparente tranqüilidade, a intuição de que voltaria a ser perseguido pelo médico faz a ferida reabrir. E, realmente, tudo recomeça. Sob intensa pressão, Galateu não resiste e adoece. Inesperadamente, a irmã surge para cuidar dele, acompanhada do filho “retardado mental”. A partir desse ponto, tudo se precipita e o horror se instala, até chegarmos ao final, quando a cena do pesadelo se concretiza, com Pink e Epsila debruçando-se “sobre o corpo moribundo”.

Desde os primeiros parágrafos, uma culpa apenas presumível se introduz no relato, como se o animal libertado durante a primeira sessão de análise não pudesse mais ser contido. Finalmente, a culpa explode a carne, mas só depois se revela na confirmação do incesto entre os irmãos, levando a uma sucessão de acontecimentos que acabam por condenar Galateu. Quando não há mais espaço para qualquer atitude lúcida, quando tudo é invadido pela incoerência, resta apenas a ferida aberta ao sadismo dos algozes.

Essa narrativa atroz não pretende, no entanto, comunicar qualquer moral. Não se trata de uma parábola nos moldes bíblicos e tampouco de uma alegoria. Mais do que a pretensão de transmitir valores sob uma forma figurada, o conto objetiva criar um microcosmo terrível, sufocante, no qual o narrador fornece apenas os elementos essenciais para manter a lógica do enredo. A história fecha-se em si mesma de tal maneira, que o desvendamento de alguns supostos símbolos seria um exercício fútil.

Sarcasmo e zombaria

Mas Rubião tem momentos de bom humor. No conto “O ex-mágico da Taberna Minhota” (in O pirotécnico Zacarias), apesar do desconsolo que acompanha toda a narrativa, o mágico – suspenso em uma existência sem passado e desejando um fim impossível, enfastiado de viver – decide tornar-se um burocrata, pois “ouvira de um homem triste que ser funcionário público era suicidar-se aos poucos”. Meses depois, quando volta a precisar de seus dotes de ilusionista, descobre que “a faculdade de fazer mágicas [...] fora anulada pela burocracia”. Uma evidente crítica mordaz, na qual o serviço público aniquila inclusive o que é fabuloso ou incomum.

Em “Ofélia, meu cachimbo e o mar”, presente na mesma coletânea de “O ex-mágico da Taberna Minhota”, a irrisão reaparece. O narrador nos conduz por memórias tortuosas, marcadas de evidente melancolia, nascida, por sua vez, de uma história de insucessos que atestam a inevitável – e insuperável – distância entre os desejos e a realidade. Durante suas recordações, o narrador reserva à memória do pai dois comentários sarcásticos. O primeiro, de que a última viagem paterna por pouco não havia sido marítima, pois ele “morreu engasgado com uma espinha de peixe”. A seguir – dando seqüência ao relato dos eventos marítimos que distinguem a história da família, apesar de ter nascido em “um vilarejo de Minas, agoniado nas fraldas da Mantiqueira” –, surge a segunda revelação, uma importante referência à higiene do genitor: o pai jamais externara “o desejo de ser navegador, nem tampouco abusou dos banhos”. Ao final, vencida uma série de contradições, tudo se revela falso, incluindo a companheira que o escuta, sua adorável Ofélia, e o leitor percebe, penhorado, que caiu em uma esparrela.

O mesmo tipo de escárnio é encontrado em “Memórias do contabilista Pedro Inácio” (in A casa do girassol vermelho), a começar de uma das epígrafes, retirada de Machado de Assis: “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. A um passo do final da narrativa, o contabilista descobre que, além de todas as suas memórias serem infundadas, ele é filho de uma prostituta. O que abala seu ânimo, entretanto, é pensar em todos os gastos que teve nos estudos genealógicos sobre sua falsa família e, igualmente grave, o fato de que jamais saberá a origem de sua calvície. Mais uma vez, o narrador/personagem encontra-se suspenso em uma situação dúbia e inexplicável, da qual ele se salva, neste caso, graças à sua ilimitada e incontrolável fixação nos cálculos das despesas e dos ganhos que se escondem na realidade. O insólito, distante do sobrenatural, transmuta-se em fatos rotineiros, plenos de banalidade.

Narrador onisciente

“O ex-mágico da Taberna Minhota”, “Ofélia, meu cachimbo e o mar” e “Memórias do contabilista Pedro Inácio” fazem parte de um conjunto formado por doze contos narrados em primeira pessoa, dentre os 22 que compõem os dois volumes lançados, até março de 2007, pela Editora Companhia das Letras. É a característica de Rubião que, depois dos temas extraordinários, mais ressalta. Trata-se de um narrador que se dirige aos leitores às vezes com intimidade, oferecendo descrições eivadas de suposta sabedoria, anunciada pelas epígrafes da Bíblia que abrem todos os contos, mas que acaba sempre por se dissipar, substituída pelo desvario ou pelo erro.

A fórmula se repete tanto, que chega a contrariar. Assim, em um primeiro momento, o tom confessional surge como uma desagradável fragilidade, a chamar a atenção do leitor, insistentemente, para o ato de narrar, como se desejasse lembrar-nos que o texto é apenas ficção. Mais tarde, em uma segunda leitura, ao reencontrarmos o narrador que não só testemunha, mas protagoniza vários relatos, percebemos que esse foco narrativo, necessariamente limitado, é a ferramenta justa, em muitos casos, à construção do universo mágico do autor, no qual o realismo comum se desintegra sob a autoridade onisciente da voz que tudo vê e tudo sabe.


        Murilo Rubião nos deixou apenas 33 histórias, reescritas incansavelmente. A figura desse funcionário público, com seu bigode bem aparado e sua calva, limando anos seguidos as frases que dão vida ao seu mundo fantasioso, é também ela uma personagem mágica, pois esconde dentro de si o bufão e o burocrata entediado, o confidente de um coelhinho chamado Teleco e Godofredo, caminhando em círculos, de uma mulher a outra, somente para reencontrar a mesma figura, a mesma insatisfação. Ou um morto-vivo como o pirotécnico Zacarias, a perguntar-se, sem encontrar resposta, “que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante?”.

janeiro 31, 2012

A adúltera e a contradição


Gustave Flaubert escreveu Madame Bovary entre 1851 e 1856. Na verdade, “escrever”, neste caso, é um eufemismo. O verbo não dá conta de todos os estados emocionais experimentados durante a execução do projeto e, muito menos, do confronto ocorrido – não só naqueles anos – entre o escritor e as palavras. Mas podemos acompanhar os altos e baixos da relação autor–obra lendo a correspondência de Flaubert, da qual uma  pequena parte foi traduzida no Brasil.

No início de novembro de 1851, ele escreve à amante, Louise Colet: “[...] Avanço penosamente no meu livro. Eu gasto bastante papel. Quantas rasuras! A frase demora a vir. Que diabo de estilo escolhi! Que desgraça os temas simples!”. E conclui: “Eis-me comprometido por um ano pelo menos”. Poucas semanas mais tarde, em fevereiro de 1852, percebe que previu mal o futuro: “[...] Isso está tomando proporções formidáveis em termos de tempo. Com certeza, eu ainda não terei terminado até o início do próximo inverno”. E as dificuldades persistem: “Não escrevo mais que cinco ou seis páginas por semana”.

Mal abril começou, ele está desesperado:

Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem. [...] Você sabe quantas páginas eu vou completar dentro de oito dias desde que voltei daí? Vinte. Vinte páginas em um mês e trabalhando pelo menos sete horas por dia; e qual o fim de tudo isto? O resultado? Amarguras, humilhações internas, nada em que se amparar a não ser a ferocidade    de uma fantasia indomável.

Ainda escrevendo a Louise, sua privilegiada interlocutora, a 24 de abril ele experimenta sentimentos contraditórios:

Eu completei [...] vinte e cinco páginas (vinte e cinco páginas em seis semanas). Foram duras de conseguir. [...] Eu as trabalhei tanto, recopiei, mudei, remanejei, que no momento não vejo mais nada. [...] Levo uma vida áspera, deserta de qualquer alegria exterior e onde não tenho nada em que me apoiar a não ser uma espécie de raiva permanente, que às vezes chora de impotência, mas que é contínua. Eu gosto do meu trabalho com um amor frenético e pervertido, como um asceta do cilício que lhe arranha o ventre. Às vezes, quando eu me encontro vazio, quando a expressão se furta, quando, depois de ter garatujado longas páginas, descubro que não fiz nem uma frase, caio no meu divã e fico ali paralisado num pântano interior de tédio.

Eu me odeio e me acuso por essa demência de orgulho que me faz arquejar atrás da quimera. Um quarto de hora depois, tudo mudou; meu coração bate de alegria. Na última quarta-feira, eu fui obrigado a me levantar para apanhar meu lenço de bolso; é que as lágrimas corriam sobre o meu rosto. Eu me enterneci escrevendo, eu gozava, deliciosamente, da emoção de minha idéia e da frase que a revelava e da satisfação de tê-la encontrado.

Até o início de junho de 1856, as cartas oscilarão do júbilo ao cansaço, do desespero ao encontro repentino de forças para perseverar, da repugnância ao prazer de conseguir a palavra correta para o que ele deseja dizer.

“Passo várias horas a procurar uma palavra”, afirma em maio de 1852. No dia 23 do mesmo mês, sente-se “estéril como uma pedra”. Mas em 18 de julho, comemora: “Quinta à noite, às duas horas da manhã, eu me deitei tão animado com meu trabalho que às três me levantei e trabalhei até o meio-dia. [...] Eu ainda sinto o gosto dessas trinta e seis horas olímpicas e fiquei contente, como na felicidade”. Entretanto, passados quatro dias, se diz pronto a “recopiar, corrigir e rasurar toda a primeira parte”, concluindo: “Que coisa desgraçada é a prosa! Não termina nunca; tem-se que refazer sempre”. E logo depois, a 27 de julho, a constatação lapidar: “Ao escrever esse livro, eu sou como um homem que tocasse piano com bolas de chumbo sobre cada falange”.

No dia 26 de outubro, afirma ter “vinte e sete páginas (quase prontas) que são o trabalho de dois grandes meses”. Em janeiro de 1853, diz ter conseguido 65 páginas em cinco meses. Em abril, contando a partir de janeiro, alcança a marca de 39 páginas. E em meio à “fadiga” e à “fetidez do tema”, que se alastram por todo o abril, ele lamenta: “Há três semanas que estou a escrever dez páginas! Passo dias inteiros a mudar palavras repetidas, a evitar assonâncias! E quando trabalho bem, estou menos adiantado no fim do dia do que no começo”.

Quando chega outubro, ele detesta o livro e a si mesmo:

Este livro, no ponto em que estou, me tortura de tal modo (e se eu achasse uma palavra mais forte, eu a empregaria) que eu fico às vezes doente fisicamente. Há três semanas que tenho com frequência dores de fazer desmaiar. De outras vezes, são opressões, ou melhor, vontade de vomitar na mesa. Tudo me desgosta. Acho que hoje me teria enforcado com delícia, se o orgulho não me tivesse impedido. É certo que às vezes sou tentado a mandar tudo se foder, e a Bovary em primeiro lugar. Que santa idéia maldita eu tive em apanhar um tema semelhante! Ah! eu bem os conheci, os pavores da Arte!

No entanto, pouco antes do Natal, a 23 de dezembro, às duas da madrugada, Flaubert, apesar de “fatigado com a lentidão” e de temer “o despertar, as desilusões das páginas recopiadas”, é um homem seduzido pela escrita:

[...] Bem ou mal, é uma coisa deliciosa escrever, não ser mais para si mesmo, mas circular em toda a criação de que se fala. Hoje, por exemplo, homem e mulher tudo junto, um e outro amante ao mesmo tempo, eu passeei a cavalo, numa floresta, por uma tarde de outono, sob folhas amarelas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento, as palavras que eles diziam e o sol vermelho que fazia entrecerrar as pálpebras afogadas de amor. É orgulho ou piedade, é o extravasamento néscio de uma auto-satisfação exagerada? ou então um vago e nobre instinto de religião? Mas quando eu rumino, depois de tê-las sentido, estas alegrias, vejo-me tentado a fazer uma oração de agradecimento ao bom Deus, se eu soubesse que ele me ouviria. Que ele seja bendito por não me ter feito nascer negociante de algodão, escritor de vaudeville, homem espirituoso etc!

Mais tarde, em 18 de abril de 1854, ele reclamará novamente: “Quando é que virá o dia bem-aventurado em que escreverei a palavra fim? Em setembro, vão fazer três anos que estou neste livro. É muito, três anos passados sobre a mesma idéia, a escrever com o mesmo estilo [...], a viver sempre com os mesmos personagens, no mesmo meio, com os flancos de encontro à mesma ilusão”.

No ano seguinte, 1855, em maio, escrevendo ao amigo Louis Bouilhet, diz temer que o fim do romance pareça “acanhado, pelo menos como dimensão material”. Quando setembro está prestes a terminar, trabalha “mediocremente e sem gosto ou talvez com desgosto” e se diz “verdadeiramente cansado”. Finalmente, a 1º de junho de 1856, revela a Bouilhet ter enviado o manuscrito ao editor – mas só depois de suprimir “cerca de trinta páginas, sem contar nisso aí muitas linhas subtraídas”, além de detalhar vários outros cortes.

Método e paixão

Se há várias maneiras de narrar uma história, há um número quase infinito de se escrever uma biografia. Esse período de 1851 a 1856 poderia ser visto sob diversos prismas, mas prefiro pensar nesses anos torturados como uma seqüência de meses centrais na carreira do escritor, não apenas por terem resultado em Madame Bovary, mas principalmente pelas centenas de páginas jogadas no lixo, pelo número inexprimível de palavras rasuradas e frases refeitas, pelas horas de angústia e pelo gozo, ainda que efêmero, de chegar a um resultado – uma infatigável luta com as palavras.

Flaubert não estabeleceu apenas um método de trabalho. Sim, ele sabia que “todo talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras. É a precisão que faz a força” – diz a Louise Colet, a 22 de julho de 1852. Mas não se tratou somente de disciplina. Flaubert tinha consciência das correntes que o prendiam, maiores que os seus próprios limites. Sabia que a expressão humana é claudicante, falha, imperfeita; que há um abismo separando a idéia e o discurso, a emoção e a palavra. O narrador de Madame Bovary conclui em certo trecho que “a palavra humana é como um caldeirão rachado, no qual batemos melodias próprias para fazer dançar os ursos, quando desejaríamos enternecer as estrelas”. Ter a clara consciência da imperfeição, da rudeza dos meios humanos, do idioma, e ainda assim persistir, demanda mais que obediência a um método: exige obsessão, exige viver em um mórbido estado de vigilância e pesquisa, cuja primeira conseqüência é a solidão, e, logo a seguir, a visão terrível de seus semelhantes como uma horda de estúpidos e insensíveis. De fato, em 22 de abril de 1853, ele escreve: “O único meio de viver em paz é colocar-se, de um salto, acima da humanidade inteira e não ter nada em comum com ela, a não ser pelo olhar”. Se Flaubert agiu corretamente ao se transformar em um tipo especial de misantropo, isso podemos discutir em outro momento. O que interessa neste texto é que, pensando dessa forma e agindo como agiu, exatamente por esses motivos, deu vida a Emma Bovary.

Em seu ensaio sobre Flaubert, Henry James chama nossa atenção para a personalidade de Emma: “[...] Ela mergulha cada vez mais fundo em duplicidade, dívidas, desespero, e encontra um fim trágico [...]. E faz tudo isso enquanto permanece absorvida pela visão e pela intenção românticas, e permanece absorvida pela visão e pela intenção românticas enquanto rola na lama”. Ora, a febre de Emma reflete a febre de seu criador. Flaubert não escreve apenas, mas se espoja nos rascunhos da obra, cego a tudo que não seja o romance, reclamando do que o obriga a interromper seu trabalho e procrastinando o mais que pode os encontros com Louise Colet, dedicado exclusiva e apaixonadamente à literatura, escrevendo e devorando Rabelais, Cervantes e Montaigne – a vida que ele chamou de uma “orgia perpétua”.

Fetichismo

Mas para se viver em uma “orgia perpétua” faz-se necessário desejar não somente o clímax do prazer – esse gozo que se aproxima do estertor. Alguns amantes imaginam que a volúpia é feita também do amor aos detalhes; às vezes, do apego fetichista a este ou àquele pormenor. E Flaubert demonstra ser esse tipo doentio de amante. Uma cena, para ele, requer a evocação de tantas minúcias, que chegamos a nos perguntar se, de fato, tudo é imprescindível. Mas tudo é imprescindível. Um editor malevolente poderia suprimir algumas frases – e Madame Bovary continuaria genial –; perderíamos, entretanto, uma série de elementos que, combinados, não só forjam verossimilhança, mas seduzem, modelam o mundo do qual nos aproximamos como animais curiosos, sedentos de uma realidade que não seja a nossa.

Quando Charles Bovary visita pela primeira vez a propriedade dos Bertaux, onde Emma vive com o pai, a quinta se revela para o leitor em meio à sonolência do médico. Amanhece, e não bastasse o vapor úmido que se eleva de uma grande estrumeira, “sob o telheiro havia duas grandes carroças e quatro charruas com seus chicotes, seus cabrestos, sua equipagem completa, entre os quais as peles de carneiro pintadas de azul sujavam-se com o pó fino que caía dos celeiros”. Ao penetrar na casa, Bovary vê o almoço dos criados fervendo ao redor do fogo, as roupas úmidas secando na lareira, e “a pá, as pinças e os foles, todos de proporções colossais”, que “brilhavam como aço polido”, e a “abundante bateria de cozinha onde se refletiam de forma desigual a chama clara do fogão juntamente com os primeiros raios de sol que entravam pelas vidraças”. É a exaltação do detalhe. Mas não há um único elemento que, ao ser retirado, dele possamos dizer: – Realmente, era desnecessário.

Nas seguidas visitas que Bovary faz aos Bertaux, Emma, ao se despedir,

sempre o acompanhava até o primeiro degrau da escada externa. Enquanto não traziam seu cavalo, ela permanecia ali. Já se haviam despedido, não se falavam mais; o ar livre a rodeava, levantando em desordem os pequenos e loucos cabelos de sua nuca ou sacudindo em seus quadris os cordões do avental que se enroscavam como bandeirolas. Uma vez, num dia de degelo, a casca das árvores ressumava no pátio, a neve fundia nos telhados das construções. Ela estava na soleira da porta; foi procurar a sombrinha, abriu-a. A sombrinha de seda furta-cor que o sol atravessava iluminava com reflexos móveis a pele branca do seu rosto. Embaixo, ela sorria no calor tépido e ouviam-se as gotas d’água, uma a uma, que caíam sobre o chamalote esticado.

O jogo de luzes, a brisa e a leve tensão da despedida, ampliada pelo silêncio de Emma e Charles. E as gotas d’água a entrecortar o silêncio, propagando ainda mais a tensão – Flaubert interliga os elementos, e semeia no leitor o desejo de estender a mão para conceder à cena o tato, o sentido que falta.

Algum tempo depois do casamento, os Bovary são convidados ao castelo do marquês de Andervilliers. Emma penetra em uma galeria na qual se sucedem, “sobre a madeira escura do lambri”, as pinturas que retratam os antepassados da família. Ela tenta, em vão, captar todas as imagens, sorver cada detalhe, mas é impossível:

Depois, mal se distinguiam os que vinham em seguida, pois a luz das lâmpadas, caindo sobre o tapete verde do bilhar, deixava flutuar uma certa sombra na sala. Escurecendo as telas horizontais, quebrava-se contra elas em finas arestas seguindo as fendas do verniz; e, de todos aqueles quadrados negros debruados de ouro saíam, cá e lá, uma porção mais clara de pintura, uma fronte pálida, dois olhos que fixavam o observador, perucas que caíam sobre os ombros empoeirados dos trajes vermelhos, ou então a fivela de uma jarreteira no alto de uma panturrilha roliça.

A miríade de pormenores, a volúpia por descrever, por chafurdar num oceano de cores, formas e perfumes, se repetirá sempre. Flaubert agoniza para dar conta de toda a realidade, e parece, a cada novo parágrafo, próximo do paroxismo ou do êxtase, o que configura uma sobrecarga emocional permanente. Quando Emma retorna do castelo, sofrendo pelo fato de abandonar aquele mundo ideal, fecha “piedosamente na cômoda seu belo vestido e até seus sapatos de cetim [...]”. Mas não só. Falta algo à frase. E então Flaubert nos oferece o complemento preciso: “[...], cuja sola amarelara-se com a cera deslizante do assoalho”. A busca do pormenor exato faz com que Flaubert escreva a um passo do esgotamento; mas ele se dispõe a pagar o preço, a fim de que nada escape ao leitor.

Amor e ódio

Esse extremo cuidado com os detalhes nos fornece indícios da personalidade de Emma desde as primeiras páginas do romance. Em uma das visitas de Bovary à quinta dos Bertaux, o futuro casal bebe licor. Depois de servir a si mesma uma dose pequena, Emma leva o copinho à boca: “Como estava quase vazio, ela inclinava-se para trás, para beber; e com a cabeça deitada, avançando os lábios, com o pescoço retesado, ria por nada sentir, enquanto, passando a ponta da língua entre os dentes finos, lambia aos poucos o fundo do copo”. A adúltera já não está toda nesses gestos? Sua luxúria não freme na ponta dessa língua serpeante?

Flaubert descreve bem inclusive quando recusa pormenores ao leitor. Depois de reencontrar Léon Dupuis em Rouen, Emma iniciará seu segundo caso de adultério, agora com o jovem escrevente, que conhecera em Yonville. Quando saem da catedral e se fecham na carruagem que passa a trafegar por toda a cidade, nada mais sabemos. O escritor não precisa dizer o que ocorre por trás das cortinas – e também não precisamos ter, sob os olhos, um mapa de Rouen, a fim de acompanhar a sucessão de ruas. O infindável e tortuoso percurso alimenta num crescendo a nossa desconfiança e, ao mesmo tempo, explica tudo. À nossa imaginação bastam a mão nua que passa sob as cortinas e joga fora a carta de despedida que Emma havia escrito a Léon, agora transformada em pedacinhos de papel; e depois de horas fechados ali, a mulher que desce sozinha, “caminhando com o véu abaixado e sem virar a cabeça”. Minutos mais tarde, sabendo que o marido a aguarda em Yonville, o narrador arremata nossa certeza, dizendo que Emma sente “no coração aquela covarde docilidade que é, para muitas mulheres, ao mesmo tempo como o castigo e o preço do adultério”.

O escritor nos faz amar e odiar Emma Bovary. Poucos homens não se encantariam ao ver a clara nudez dessa mulher contrastando com o carmim das cortinas de má qualidade e, a melhor parte, depois que não existem mais segredos, ela, tão experiente em dissimular e trair, agindo como uma menina envergonhada:

A cama era uma cama de casal de acaju em forma de barca. As cortinas de levantina vermelha que desciam do teto fechavam-se baixo demais, perto da cabeceira que se alargava; e nada havia no mundo de mais bonito do que sua cabeça morena e sua pele branca destacando-se sobre aquela cor púrpura quando, com um gesto de pudor, ela fechava os dois braços nus, escondendo o rosto nas mãos.

Nossa imaginação despreza as cenas chulas e o vocabulário mortalmente cru ao nos depararmos com uma descrição que oferece, melhor que as palavras grosseiras, o frenesi da entrega:  

Despia-se brutalmente, arrancando o fino cordão do seu corpete que lhe sibilava ao redor das ancas como o escorregar de uma cobra. Ia na ponta dos pés nus ver ainda uma vez se a porta estava fechada; depois, com um único gesto, deixava cair, juntas, todas as suas roupas; – e, pálida, sem falar, séria, abatia-se contra seu peito, com um longo estremecimento.

Mas ela se entrega apenas quando ama. Chantageada, oprimida pela cobrança das dívidas e das promissórias, pelo processo e pela penhora dos bens, pode insinuar a Léon que ele deveria roubar para ajudá-la, mas não aceita ser seduzida pelo notário de Yonville. Revolta-se, tenta persuadir Rodolphe, o primeiro amante, a lhe dar dinheiro, e quando percebe que está perdida, manipula ainda uma última vez. Demonstrando a argúcia e a agilidade de reflexos que a tornam exuberante, manipula para poder se matar. E a mesma avidez daquela língua que buscava o fundo do copo de licor, reencontramos na mão que, arrancando a rolha do pote de veneno, mergulha para retornar cheia do pó branco que Emma se põe a comer sofregamente.

A dor das mulheres

Numa carta de setembro de 1852, Flaubert escreve a Louise Colet sobre a dor das mulheres, de como se aproximou delas e as observou para escrever seu romance: “Eu conheci suas dores, pobres almas obscuras, úmidas de melancolia guardada, como estes pátios fundos das casas de província, cujos muros estão cheios de musgo”. Pergunto-me o quanto esta afirmativa é sincera. Quem escreve não é o homem que pretendia viver acima da humanidade, sem nada ter em comum com ela, “a não ser pelo olhar”? A contradição do escritor revela mais que a mera simpatia pelo drama alheio. O intenso desejo de perfeição, a busca febril dos detalhes e das palavras precisas – essas forças certamente dominam Flaubert. Mas no íntimo desse homem há lugar para a solidariedade que o aproxima de seus semelhantes. Caso não fosse assim, não teria criado uma personagem tão múltipla, em relação à qual não só ele, mas todos nós, com maior ou menor exatidão, podemos dizer: Madame Bovary c’est moi.